Portugal – a metáfora
Portugal é agora como aquela mesa secretária que está em tamanha confusão que nos resta como solução atirar tudo para fora dela para poder começar a arrumar, peça a peça, com toda calma, nos sítios certos.
Senão vejamos. A estrutura arquitectónica das nossas cidades está de tal modo mal pensada e erroneamente executada que, por exemplo, em Lisboa, nossa capital, pouco mais podemos salvar para além, veja-se o paradoxo quase cómico, da Baixa Pombalina, construída há mais de 2 séculos. O sistema judial está de tal modo atafulhado de remendos e pseudodecretos-lei que visam complementar os seus homónimos já existentes, que se tornaria num trabalho infindável e esgotante tentar pegar no actual Código Penal e transformá-lo em algo mais práctico, mais justo, menos currompível. Tudo isto agravado por um sistema político-jurídico que só seria descritível em longos parágrafos tais são os contracensos e as contradições que nele existem que, embora criados para “resolver e melhorar” a aplicação do sistema teórico na vida real, acabam por degradá-lo até ao ponto da irrecuperação quase total.
Observemos também o sistema nacional de saúde. Encontrou-se por fim a solução! Os hospitais empresa. Todo a sua estrutura administrativa antecipa e prevê o insucesso que temos presenciado. Não podemos imitar, nem que seja parcialmente, o sistema americano neste aspecto. A saúde não é um bem supérfluo, é sim um bem inalienável do indivíduo, do cidadão, de todos nós que estamos vivos, de todos nós que por aqui vamos andando. Se em infrastruturas temos melhorado um pouco nos últimos anos, continuamos a ter os interesses económicos e de mediatismo individual a invalidar a reformalação necessária e urgente dos espaços urbanos hospitalares. Senão tomemos como exemplo a zona do Restelo e Belém em Lisboa para verificarmos a exitência de 3 hospitais num raio de 5km ( Hospital Egas Moniz, Hospital São Francisco Xavier e Hospital de Santa Cruz ). Será mais que tempo de definir nestes hospitais as suas especialidades e mantê-los abertos com esses fins – unificar uma urgência, uma pediatria, uma unidade cardíaca, etc.
A educação é a ovelha negra do estado português. Nela, sucessivamente se inflingem os cortes orçamentais, se negligenciam professores e se hipotéca o futuro do país e dos seus cidadãos. A nossa educação está formulada de forma a manter a apatia e a inércia do nosso povo. Não só forma mal e limitativamente as pessoas como as mantém na ignorância dos processos de afirmação própria, as priva de opinião pública e as confine num espaço psícquico e físico que se delimita apenas pelas paredes e muros da sua instituição escolar, ocultando todo o mundo em volta, todas as áreas de interesse e intervenção possíveis existentes no fora-escola. A persistente mentalidade e acção no sentido de não inscrever toda e qualquer parte do regime salazarista nos programas leccionados ( atenção! Não é nos programas propostos e definidos mas sim no que é realmente leccionado nas escolas ) mantém na sua inconsciente atitude quotidiana do povo português a ideia das grandes mudanças, de que tudo é muito melhor, de que existe espaço público, de que muito embora as coisas fossem más antes do 25 de Abril nunca seriam ao ponto de se terem passado massacres, censuras desmesuradas, fome e privação dos direitos humanos. Isto é perceptível até nas pessoas que viveram de baixo do antigo regime. Esse regime criou crianças grandes, crianças adultas, irresponsbilidade social e política. O pós-regime manteve a irresponsabilidade, manteve a não-inscrição dos acontecimentos sociais e das intervenções do indivíduo na sociedade. A política é um discurso que visa a implementação de novas políticas. A corrupção na política mais facilmente lança o corrupto para uma carreira prodigiosa do que o atira para a vergonha social eterna. A comunicação social inovou o seu papel de espaço público e consciência socio-política e é agora um meio de alienação das massas, de constructor de um mundo irreal, de efeito apatizante de todos, da sociedade, do colectivismo. Colectivismo...eis talvez uma das palavras-chave que desapareceu de Portugal.Assim só nos resta deitar tudo ao chão. Juntar as duas mãos sobre o rio Tejo e varrer, uma para norte e outra para sul, o país inteiro até não sobrar nada em cima dele. Agora então, agora que tudo está limpo e aberto, agora comecemos a por as peças, uma a uma, até que tudo esteja arrumado no sítio certo, até que tudo funcione e se encontre outra vez. Não esquecer claro de deitar para o lixo o que já não interessa, de aproveitar para limpar o pó, as cinzas dos cigarros que inevitavelmente não cairam dentro do cinzeiro, de arranjar uma ou outra caneta nova, um afia e uns lápiz prontos a usar, prontos a escrever uma nova etapa, um novo caminho na História.
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