quarta-feira, novembro 18, 2009

O nosso lugar

Na televisão, nos documentários, em livros e artigos, nos jornais ou em conferências, uma coisa é comum: nós! Como podemos nós mudar? Como podemos nós fazer? Como podemos nós salvar? Como podemos nós proteger? Temos sempre a necessidade de nos colocar num patamar diferente, de nos distanciarmos, de sermos diferentes. A consciência humana não considera o Homem um ser natural.
O ser humano tem uma categoria diferente. Pertencemos ao mundo artificial. O que construímos é artificial, o que vestimos é artificial e até o que comemos já começa a ser artificial. Até quando falamos nos distinguimos de tudo o que nos envolve. "Este vírus é perigoso para os mamíferos e para o Homem"; "Naquela prisão os presos são tratados como animais"; temos ainda as ligas para a protecção dos animais e outros mais. Mas nós somos animais, nós somos mamíferos. Todas estas frases estão cheias de um sentimento e uma postura antropocêntrica. A necessidade que temos de nos separar do resto é aquilo a que eu chamaria síndrome de inferioridade ecológica.
Os melhores exemplos da nossa complexa ânsia de nos separar-nos da natureza (da qual somos indissociáveis) são as construções. O ninho dos pássaros é uma construção natural, os formigueiros são construções naturais, as barragens dos castores são estruturas naturais também. No entanto um computador, uma cadeira, uma televisão, uma casa, umas calças, tudo isto é artificial. Mas na verdade a única diferença que existe entre estes exemplos é a complexidade. Em todos eles os seres vivos em questão utilizam materiais para construir uma determinada estrutura ou objecto. A diferença está apenas no nível de complexidade do objecto. Sendo nós um ser tão natural como qualquer outro não seria lógico que o computador fosse tão natural como o ninho? Sim, seria. Mas nós sofremos de um complexo de inferioridade natural embrenhado na nossa história e sociedade que não nos permite sentir-nos e colocar-nos no mesmo plano daquilo que nos envolve.
Hoje em dia fala-se muito de impacte ambiental, aquecimento global, impacto do ser humano no meio ambiente, etc. O Homem tem, claramente, um impacto no meio onde se insere. O Homem e todos os outros seres vivos. Nós temos tendência a assumir que o que nos envolve é estático e que atingiu o seu ponto de equilíbrio. Mas a verdade é que tal coisa não existe em termos naturais. O que nos envolve não é estático. A evolução não está "parada". O seres vivos que habitam este planeta (e isto incluí o ser humano) estão em evolução contínua. Os ecossistemas estão em mudanças e adaptações contínuas. O dinamismo natural é perpétuo. Nada atinge o equilíbrio mas apenas um ponto mais ou menos equilibrado. Por esse mesmo motivo é complicado definir estratégias para proteger um dado ecossistema. O ecossistema que queremos proteger não é uma área com estes determinados seres vivos e com este determinado comportamento ecológico. Um ecossistema é dinâmico, oscilante, desequilibrado e por isso mesmo representado hoje em dia como uma onda ou linha irregular (muito semelhante às de um electrocardiograma que represente vários enfartes em intervalos de tempo aleatórios). Todos os seres vivos têm impacto no meio ambiente. Todos criam alterações nos ecossistemas. Todos promovem o desequilíbrio ecológico.
Nós temos tendência para não ver os desequilíbrios e adaptações do meio ambiente mas a verdade é que sempre existiram, existem e sempre existirão. As formigas, quando no seu trajecto evolutivo começaram a fazer os formigueiros tiveram um impacto enorme. Espécies que viviam no sedimento tiveram de adaptar-se a uma nova realidade, raízes de plantas e árvores tiveram de lidar com isto, os próprios processos físicos e químicos do solo foram alterados. Os formigueiros continuam a ter o mesmo impacte no ecossistema, a diferença é que existem adaptações do mesmo para esta estrutura. Mas se este exemplo é talvez mais difícil de conseguir visualizar vejamos o exemplo do castor. Este animal engraçado que inspirou tantos bonecos animados constrói barragens, cria represas, abate árvores, muda o curso do rio e cria pequenos lagos com isto. O efeito que tem no ecossistema é enorme e no início terá sido gigantesco. Tudo tem de se adaptar a este comportamento do castor. Mas imaginemos que no processo de adaptação o ecossistema perdia de uma maneira devastadora a sua biodiversidade e ficava reduzido a meia dúzia de espécies no rio. Acrescentemos agora, hipoteticamente, que o castor dependia de duas espécies do mesmo rio e que as represas eram para as capturar com maior facilidade e para criar reservas de inverno. A este exercício acrescentemos uma nova constante, estas duas espécies desapareceram como resultado do comportamento do castor. O castor está condenado a adaptar-se e evoluir ou extinguir-se. As extinções são, esmagadoramente, causadas pelas próprias espécies. O comportamento de cada espécie gera oportunidades e declínio para outras. Extinções por meteoritos, acidentes geológicos, alterações climáticas bruscas têm tendência para ser grandes extinções em massa mas são ocorrências pontuais.
Tal como todos os outros seres vivos, nós temos um impacto no meio que nos envolve. Mas não somos nenhum alien que veio aqui parar e que destrói tudo porque não é deste mundo. Não, nada disso. O que fazemos é natural, tão natural como o que fazem o castor e a formiga. A diferença entre o impacte ambiental do Homem e o impacte ambiental do restantes seres vivos é a globalidade. Enquanto a formiga e o castor têm acções que influenciam uma determinada zona (é claro que se formos minuciosos, influenciam o mundo inteiro - basta pensarmos no efeito borboleta), as acções do Homem têm eco em todo o planeta. Mas é preciso ter em conta que o aquecimento global por aumento de CO2 é natural porque é promovido por um ser vivo tão natural como os outros. A poluição dos mares, a contaminação dos solos, a redução dos recursos naturais e por aí fora, são tudo questões naturais. Nós não estamos a destruir a natureza. Nós fazemos parte dela e estamos a agir de modo natural. O que ocorre é que tal como milhões de espécies antes de nós e contemporâneas também, nós estamos a gerar alterações no ecossistema que nos podem levar à extinção ou a uma adaptação.
Não existem dúvidas de que o ecossistema Planeta Terra vai tender novamente para o equilíbrio até que outra ocorrência o desequilibre totalmente. Neste momento as acções do Homem têm um efeito desequilibrador de caracter exponencial no planeta e estas acções provocam reacções. O ecossistema reage, altera-se, renova-se. Mas não podemos ser tão arrogantes ao ponto de dizer que o que nós estamos a provocar não tem precedentes. Houve seres vivos com efeitos muito mais catastróficos. Imagem o efeito das cianobactérias quando começaram a produzir oxigénio. Foi uma catástrofe de enormes proporções no ecossistema terrestre naquele momento. Claro que temos tendência a ver isto como algo inevitável e positivo. Mas a realidade é que não existem acções positivas ou negativas neste contexto. Existem apenas acções e reacções. A reacção a esta ocorrência resultou em milhões de processos que permitiram a evolução da vida tal como a conhecemos. O que as nossas acções estão a promover são reacções ecológicas e não importa se alteramos o nosso comportamento ou não porque uma coisa é segura: as reacções ecológicas levarão a uma nova tendência para o equilíbrio. Aquilo sobre o qual devemos realmente reflectir é se devemos alterar o nosso comportamento para nos protegermos e garantirmos a nossa sobrevivência por mais algum tempo. A frase "Salvem o Planeta" é totalmente descabida. O planeta continuará cá, a dar voltas ao Sol por uns biliões de anos mais e a vida adaptar-se-à, evoluirá e continuará a preencher este corpo celeste. O que não sabemos é se a nossa espécie se adaptará às mudanças ou se sucumbirá aos processos de evolução ecológica. Nós temos a capacidade de alterar o nosso comportamento e, pelo menos na nossa capacidade actual, adiar a nossa extinção até um evento pontual como o impacto de um asteróide ou meteorito. Mas o planeta não será salvo por nós. Ele nem está em risco de nada. A Terra só "necessitará de ajuda" dentro de uns biliões de anos quando ocorrer o processo de morte do Sol. Até lá está bem e recomenda-se.
A nossa forma de ver o mundo já evoluíu do geocentrismo para o heliocentrismo e por fim para o pensamento cosmológico. Já não reconhecemos o centro do Universo mas sim a sua infinitude. Terá chegado o momento de evoluirmos do antropocentrismo para o biocentrismo? Talvez. O biocentrismo é a proposta de antónimo ao antropocentrismo e reflecte a ideia de que qualquer ser vivo tem igual importância ecológica. Coloca-nos no mesmo patamar da formiga, do castor e das bactérias. Na realidade a importância das bactérias é talvez superior à de qualquer outro ser vivo mas isso seria assunto para discutir num livro, tantas são as ideias, os factos e as provas a debater. O biocentrismo é o caminho? Eu acredito que sim.

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