quarta-feira, maio 11, 2011

O choro do mendigo

Portugal encontra-se num momento de extrema dificuldade económica e social. A UE mostrou que esta história da união não passa de uma carta de intenções pois num claro ataque ao euro não soube superar-se, proteger-se e garantir a força interna, permitindo e até exigindo a entrada de FMI e amigos no espaço Europeu. A moeda única sofreu. A união dos estados europeus fragilizou-se e o conceito revelou-se ao mundo como nada mais que isso, uma ideia. Grécia, Irlanda, Portugal. Seguir-se-á a Espanha? Talvez. Caso tal aconteça será uma espécie de machada final na ainda jovem moeda europeia.
Mas Portugal não deixa de fazer das suas e surpreender tudo e todos. A mim pessoalmente envergonha-me. A outros enche de orgulho esta alusão ao passado. Hélder Fernandes, jornalista da TSF, escreveu uma carta aos finlandeses a choramingar por ajuda. Invocando a ajuda que Portugal deu no passado àquele país escandinavo, Hélder Fernandes pedincha pela esmola Finlandesa. Mas esquece duas coisas fundamentais: pessoa, povo ou nação que se preze tem dignidade e orgulho para superar as suas adversidades sem virar pedinte; a Finlândia  pediu ajuda quando foi invadida pela União Soviética na que foi chamada Guerra de Inverno. E este ponto é fundamental para compreender o total descabimento e embaraço desta carta aberta ao povo finlandês. Portugal não foi invadido por ninguém. Fomos invadidos por nós próprios, pela nossa inércia, corrupção, ganância, chico-espertice, pequenez. Arruinámos a nossa nação e agora queremos que os outros paguem os negócios obscuros que por cá se vão fazendo. Eu não sei se interpretar esta carta como uma piada ou um insulto aos que por cá ainda têm uma réstia de seriedade dentro de si.
Como se não bastasse a carta do pedinte, que mais parece querer ser uma nova manifestação literária chamada cantigas do pedinte, iniciada pelo pseudo-trovador Hélder Fernandes, temos também um vídeo onde se fala em pasteis de Belém e bacalhau salgado. Mas será que só arranjamos realizadores cegos e escritores chorões? Será que não somos capazes de por um momento parar de chorar e perceber que a solução está aqui? Não podemos produzir como Marrocos e viver como Alemães! Não podemos alimentar os familiares e amigos e pedir ao vizinho que continue o jogo quando o saldo acaba! A acção do povo islandês deveria ser um exemplo para este povinho lusitano. Mas talvez a seriedade e a dignidade sejam princípios já esgotados neste cantinho da Europa. E devem ser, a avaliar pelo último concurso público que me chegou à vista. 1.200.000€, sim UM MILHÃO E DUZENTOS MIL EUROS, para ": Aquisição de Serviços de Elaboração de Propostas de Decisão de Propostas de Contra-Ordenação", Diário da República, 2.ª série - N.º 63 - 30 de Março de 2011  -  Anúncio de procedimento n.º 1462/2011 - Página n.º 2". É para isto que pedimos aos finlandeses o seu dinheiro? Tornámo-nos num país inteiro de mão estendida no semáforo a pedir esmola em todas as janelas dos carrinhos que lá vão parando, mas sem muletas, sem umas Cais na mão, sem pensos e sem vergonha.
Bem sei que o país não desfruta de gente com visão no seu governo. Ou pelo menos de gente com visão séria e de estado. Afinal de contas num país onde o emprego é escasso e as condições salariais são baixas, impedir o trabalho e o empreendorismo  dos chamados trabalhadores independentes é sem dúvida a jogada mais estúpida alguma vez praticada nestas terras. Pior que as portagens nas SCUT ou que a birra do Afonso Henriques, o que novo código contributivo taxa a um trabalhador independente é o mesmo que pedir à maioria destas pessoas para não trabalharem. Mas como diria Bernard Shaw: "A democracia dá-nos a garantia de que não seremos governados melhor do que merecemos".
Uma última reflexão apenas que não está relacionada com o tema do choro, mas que essa sim deveria dar motivos para chorar ou pelo menos ficar muito assustado. As declarações de Luís Amado em Fevereiro relativamente às revoltas no Egipto, Líbia e afins são no mínimo perturbadoras (http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1794141). Quando ele diz, e cito, "seria absolutamente ridículo do meu ponto de vista pretender desenvolver uma relação na base de uma avaliação das condições democráticas de cada país. Se fosse assim nós não tínhamos relações com muitos países com os quais nós temos relações há décadas." ele não está a dizer nada que o mundo não saiba. Todos sabemos que o mundo funciona assim mesmo. Mas no momento em que podemos dizê-lo publicamente sem que tal seja condenado, sem que exista repudia social sobre a afirmação, então é porque atingimos o fundo do poço, a base do abismo moral. Isto sim faz-me temer o dia de amanhã.

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