quarta-feira, julho 28, 2010

A escolha

O que realmente difere o ser humano dos restantes animais? Durante décadas a sociedade respondeu a esta pergunta com uma palavra: inteligência. Mas o século XX, em particular o último quarto do século XX veio deitar por terra esta ideia. Nunca foi a inteligência. Na realidade a inteligência é um fenómeno que se manifesta a todos os níveis da vida, incluindo no plano celular. Uma célula aprende, ajusta mecanismos e evolui. E ainda bem que assim é porque senão nunca se teriam juntado umas quantas células para nos criar, a nós, ao ser humano. Nenhum ser vivo é mais do que um grupo de células com diferentes especializações e em constante evolução. A inteligência está por todo o lado, por toda a vida que conhecemos.
Houve então um grupo, um punhado de pessoas que, agarrado à ideia da inteligência a tentou proteger, defendendo que era a nossa capacidade de inteligência abstracta. Porque nós temos as matemáticas, as físicas e as religiões. Nunca se disse que um rato era igualmente capaz de processar pensamento como o ser humano. Apenas não está no factor inteligência a diferença. Vários animais têm demonstrado, tanto em experiências como em acções no estado selvagem, terem pensamento abstracto. Em particular as aves. Parece que o Fernão não era assim tão desajustado.
No final do século XX veio então a corrente, com muita força, de que a resposta, a chave, era cultura. Os animais não têm cultura. Só que cultura não é mais do que o conjunto de conhecimento de uma população, civilização ou sociedade que é transmitido e acumulado ao longo das gerações. Muito embora os estudiosos do assunto afirmem que só poderemos saber se os animais têm ou não cultura no dia em que pudermos perguntar-lhes e compreender a sua resposta, inúmeras situações mostram a cultura no mundo animal como algo evidente. Não só existe transmissão de conhecimento mas também este conhecimento varia com populações dentro da mesma espécies e mais ainda, existe acumulação de conhecimento e aquisição de novos conceitos. Um dos mais visíveis e que ocorre interespecificamente é o medo e o acto de evitar o ser humano. As espécies caçadas brutalmente pelo Homem adquirem medo ao ser humano e esse comportamento continua a manifestar-se durante gerações mesmo quando a caça deixa de existir. O curioso é verificar que dentro da mesma espécie o medo surge apenas nas populações caçadas, não surge em todas. Existe um conceito adquirido e transmitido de geração em geração. Outros comportamentos mostram a existência de cultura. Técnicas de caça diferentes em populações diferentes da mesma espécie, a lavagem do arroz em água do mar por algumas populações de macacos japoneses ou a estrutura familiar e social dos elefantes, com os seus mapas do terreno e a sua transmissão ao longo das gerações. Os novos conhecimentos são sempre transmitidos. Tudo isto coloca vários entraves à teoria da cultura como diferença entre o ser humano e as restantes espécies.

Mas então o que queria o Fernão contar-nos?

Escolha. A chave encontra-se na escolha. Apenas o ser humano foge à estrutura social. A diferença reside naquilo a que costumamos chamar de livre arbítrio. Todos os restantes animais vivem de acordo com uma estrutura social e nunca saem dela. Podem ser mais impetuosos, podem ser líderes, podem ser eternamente subjugados no seu sistema hierárquico mas nunca saem dele. Um lobo vive numa alcateia e se sair daquela a que pertence irá procurar ser aceite noutra ou criar uma sua com as mesmas regras. Um leopardo é sempre solitário excepto quando a fêmea cria a sua prole ou quando dois jovens machos se juntam na fase inicial da sua vida adulta. Mas termina sempre sendo um animal solitário. A formiga é o que é desde o momento que nasce. O nosso amigo Z é apenas a ficção a falar sobre a liberdade de escolha. E até não foi mal escolhido já que muitas vezes parecemos um bando de formigas que se esqueceram que podem não ser formigas, que podem ser pardais, tigres, minhocas. Podem até ser formigas com outro estilo de vida. Isto é o que nos traz Fernão. Fala-nos da liberdade de escolha, de opções, de vida. O que difere o ser humano dos restantes animais é esta escolha que ele faz. Nós nascemos no seio de uma família e de uma sociedade mas não somos forçados, genética ou socialmente, a manter-nos nela. Por isso existem tantos estilos de vida diferentes. Os estáveis que nunca abandonam o esquema em que nasceram. Os erráticos que deambulam de mochila às costas pelo mundo. Os viajantes que abraçam projectos saltitando pelo globo. Os que querem um carro. Os que querem viver num barco. Os que falam muito e os que são solitários. Nascer de uma mãe médica e um pai economista não pressupõe nenhum desses caminhos para os filhos. Nascer no interior não exige uma vida longe do mar. Ser filho de um pastor não obriga a gostar de gado. Nós escolhemos. A diferença reside aqui.

2 comentários:

Movie Lover disse...

Mais um grande post ... parabéns!

Abraço.

Micas disse...

amei este post,caramelo.