quarta-feira, abril 30, 2008

A World Wildlife Foundation em Moçambique

Correndo o risco de me repetir em alguns aspectos, coloco este texto que se centra apenas na WWF. O texto sobre Bazaruto aborda algumas questões que aqui também surgem, no entanto aqui estão um pouco mais desenvolvidas.

O exlíbris da WWF em Moçambique, o programa “Dugongos precisam-se vivos”, é apenas mais uma das grandes vergonhas de uma ONG mundial. 20 anos de trabalho, 20 anos de trabalho publicitado. Produção: 2 folhetos e 1 poster!!!
A WWF apresenta-se neste programa para proteger o Dugongo dentro da Reserva do Bazaruto. Para tal, este gigante da protecção ambiental propõe 5 objectivos nos seus folhetos:

· Investigação de algumas áreas de ocorrência, distribuição e abundância;
· Mapeamento do habitat;
· Estudo das suas rotas migratórias e uso dos seus habitats;
· Estabelecer áreas-chave do seu habitat para proteger as ervas marinhas de impactos directos e proibir a pesca de arrasto em habitats críticos do Dugongo;
· Promoção de campanhas de educação e sensibilização às comunidades locais e à sociedade no geral sobre a importância biológica e ecológica e do grande valor desta espécie como uma atracção para o ecoturismo.

Sobre a investigação, mapeamento e estudo de rotas migratórias é notório que não foi feito nada em 20 anos. Não existem artigos, livros ou qualquer outro tipo de publicações até hoje promovidas pela WWF.
Áreas-chave para protecção...bom este caso é bastante mais interessante já que as áreas dizem respeito à zona da reserva que, ao que parece, nem é a zona com maior incidência de Dugongos. Essa zona encontra-se junto ao Cabo São Sebastião que não beneficia de nenhuma protecção activa. Nesta zona os Dugongos são protegidos apenas pela multa prevista na lei (150000 meticais – 4000€). A proibição de pesca do arrasto dá vontade de rir. Não existe pesca de arrasto como aquela que conhecemos na Europa. Aqui a pesca de arrasto existente é feita junto à costa com redes que podem atingir os 3km e que são puxadas desde a areia pelos pescadores. O problema é que esta pesca é considerada artesanal pelo que não pode ser proibida. O resultado é que a vida junto às praias é inexistente. A baía de Vilanculos, em tempos rica em peixes, ervas marinhas, pequenos recifes, crustáceos encontra-se hoje em dia nua, desprovida da abundância de vida de outros tempos devido à pesca artesanal excessiva e não controlada e devido a outro factor, pouco abordado pelas autoridades e organizações locais (provavelmente devido à aposta no turismo), que é a poluição da baía.
Sobre as acções de educação e sensibilização...não poderei falar sobre isso porque não conheço nenhum projecto da WWF aqui em Vilanculos dirigido a este propósito.
A WWF tem a responsabilidade e obrigação, porque a isso se propõe e se oferece e para isso recebe milhões de euros em fundos e financiamentos, de controlar as pescas, verificando as quantidades e identificando as espécies capaturadas, de controlar os efeitos da pesca sobre o ecossistema, de definir regras e propor legislação para protecção desta zona costeira e do arquipélago e de estudar na realidade todos os ecossistemas da reserva e zonas adjacentes.
Infelizmente a WWF não só não faz nenhum destes trabalhos como na realidade não faz qualquer outro. Limita-se a receber fundos para dizer que determinadas zonas são interditas e totalmente protegidas, mas depois não tem qualquer barco para efectuar o controlo das áreas por eles delimitadas. Não tem qualquer pessoa a controlar pescas ou estudar migrações ou catalogar espécies. Tem um escritório com meia dúzia de pessoas contratadas que não fazem qualquer trabalho para além de gerir fundos e desenhar folhetos turísticos que enaltecem o trabalho virtual e fantasma da WWF. Em troca o representante desta fantástica organização vive abastadamente.Mas não pensem as pessoas que isto é porque é África, ou porque é Moçambique. Não. Isto é a WWF em todo o mundo, em especial em qualquer sítio onde lhes dêem liberdade para funcionar assim. Talvez por isso aconteça mais em África, Ásia e América do Sul.

Bazaruto - paraíso em extinção?

Durante a minha estadia em Vilanculos fui observando diariamente as práticas de pesca locais, atendendo não só à técnica utilizada mas também ao comportamento dos pescadores em questão.
Ao caminharmos pela baía de Vilanculos não podemos deixar de reparar nos montes de ervas marinhas na areia. Todos os dias os montes aumentam. Todos os dias a quantidade destas plantas aumenta pela praia. Isto ocorre devido à técnica de pesca aqui utilizada. Os pescadores lançam uma rede (que pode ir até aos 3km) a partir da praia e em seguida puxam tudo para a areia. Quem conhece esta zona sabe bem como as praias são de baixo declive, vendo-se isso de forma extraordinária (e sentindo também quando somos meros banhistas) durante a baixa-mar. No entanto o espectáculo da baixa-mar é devastador, mostrando um cenário de deserto marinho.
Ora o que se verifica é que este estilo de pesca promove a remoção de tudo quanto exista junto ao fundo já que as redes são puxadas da praia, literalmente varrendo todo o substrato por onde passam. Esta acção é a responsável pelos montes de ervas marinhas secas na praia. No entanto, como se não bastasse esta intervenção extremamente negativa para o meio ambiente, o comportamento dos pescadores revela-se ainda mais catastrófico, na medida em que qualquer peixe capturado que não seja de interesse comercial é atirado para a praia e não devolvido ao mar. Este comportamento é deveras lamentável, não só para o ecossistema marinho da zona de Vilanculos e Bazaruto mas também para o próprio futuro dos pescadores, já que a maioria dos peixes deixados na areia são juvenis que não têm interesse comercial apenas devido ao seu tamanho e não à espécie a que pertencem.
Além do comportamento dos pescadores existe ainda a descarga de resíduos na baía de Vilanculos. Esta descarga é efectuada na zona Sul. Ora como a corrente percorre a baía, contornando-a no sentido Sul - Norte, toda a baía recebe este fluxo de poluentes que vai deixando a sua marca. Areias negras com cheiro a decomposição são já frequentes. Os mangais ao longo da baía vão morrendo a uma velocidade vertiginosa.
Este tipo de pesca e de acções continuadas ao longo do tempo levou à destruição do ambiente marinho costeiro da baía de Vilanculos. Os corais, pequenos recifes, mantos de ervas marinhas, tudo isso desapareceu da baía. O impacto no ecossistema marinho local é considerável e é de esperar que o recrutamento seja severamente afectado em diversas espécies. O dugongo é uma das espécies fortemente afectada por estes acontecimentos já que vê o seu alimento ser reduzido drasticamente.
A WWF que tem um escritório em Vilanculos e que recebe os seus fundos para, supostamente, proteger o dugongo nada fez nos quase 20 anos de duração do seu projecto. Infelizmente os únicos dados que a WWF tem para mostrar são 3 ou 4 folhetos e um poster. Ainda que seja do conhecimento geral que o funcionamento de muitas ONGs seja no mínimo duvidoso, não deixa de ser lamentável que tal ocorra e mais ainda, não devemos apenas por ser norma fechar os olhos a tais ocorrências.
Mas parece que esta reflexão se centra apenas na protecção do meio ambiente esquecendo as necessidades da população local e dos interesses económicos locais. Tal não estará mais longe da verdade. Tendo em conta que Vilanculos é uma zona que aposta fortemente no turismo, sendo este turismo direccionado ao ecoturismo marinho, parece-me que será de toda a importância e interesse proteger esse mesmo ambiente. O turismo de Vilanculos e do arquipélago de Bazaruto centra a sua procura nas actividades aquáticas, principalmente no mergulho e na pesca desportiva. Se não existir protecção activa e eficiente é provável que este tipo de turismo se torne impraticável dentro de poucas décadas. Torna-se assim necessário desenvolver um projecto de estudo sério que incida sobre toda a baía e o arquipélago e que abranja desde os efeitos antropológicos ao estudo das comunidades e populações mairnhas. É necessário olhar para este local e conseguir compreender que é uma mais valia para todos a sua conservação. Numa reunião com o Professor Almeida Guissamulo (Faculdade de Biologia e Museu de História Natural de Moçambique) senti algum consolo ao inteirar-me de que também ele se encontra familiarizado com o problema e que também ele tem vontade de agir, procurando corrigir estes erros grosseiros que dia após dia vão extirpando aquela baía paradisíca e aquele Parque Nacional de importância ecológica inclassificável.
Os projectos na área do turismo, como a construção de lodges são muito importantes para o desenvolvimento económico da zona, promovendo novos postos de trabalho e trazendo benefícios à população local. A recuperação do dugongo, a protecção às tratarugas marinhas, a manutenção dos recifes de coral são objectivos que têm de imperar em qualquer projecto de desenvolvimento turístico para Vilanculos e para o arquipélago de Bazaruto. Caso contrário estaremos a falar de investimento para 10, 20 talvez 30 anos porque depois pouco haverá para cortejar os turistas. Enganem-se aqueles que acreditam que alguem virá a Vilanculos apenas pelas praias e pelo clima. O turismo cada vez mais se centra no ecoturismo. Essa é a via do futuro. O turista que procura apenas deitar-se ao sol a beber piñacoladas é já uma visão do passado. Como tudo no nosso mundo e na nossa sociedade, o conceito de turismo e de turista evoluíu também. Hoje em dia, felizmente, após décadas de educação e de transmissão da mensagem da necessidade de protecção do ambiente (mensagem essa que tem sido intensificada neste novo século e milénio) criou-se este novo turista, o eco-turista.