quinta-feira, maio 07, 2009

A Homossexualidade

A nossa sociedade tem uma história de homofobia longa, remontando pelo menos até aos primórdios do cristianismo. Mas o pavor da homossexualidade não se cinge apenas ao ser humano e ao seu mundo. A nossa fobia (aliás, como todas as fobias) atinge o ridículo. A homofobia ao nível da ciência só agora neste século XXI começa a perder a sua força e a aceitar o seu ridículo, libertando-se um pouco dos seus preconceitos e preparando-se para lutar fortemente contra outro. A ciência começa a revelar a homossexualidade (há muito conhecida mas ignorada, negligenciada e censurada) no mundo animal e começa com isto a preparar a demonstração da influência genética neste comportamento.
A homossexualidade no mundo animal é algo que tem sido negligenciado sistematicamente nos estudos da zoologia, biologia e ecologia. Muitas vezes tem sido mesmo escondido, censurado. Em 1981 o governo dos EUA obrigou à remoção e omissão de todas as observações referentes a comportamento homossexual em Orcas num estudo desenvolvido por biólogos americanos. No entanto a regra geral do trabalho científico fazia com que estas medidas de censura nem chegassem a ser equacionadas, já que este escrutínio era feito in loco pelos próprios investigadores. O comportamento homossexual não era simplesmente tido em conta já que não era tomado como algo de relevante na estrutura social ou biológica de uma determinada espécie. Em última análise podíamos assistir a conclusões embrenhadas em fobias culturais como a atribuída por um grupo de investigadores de elefantes que, no seu acto incomum de revelar as actividades homossexuais entre os indivíduos, declarou que os elefantes praticavam actos que violavam as leis cristãs.
Num dado momento passou a ser aceite que as relações sexuais homossexuais existiam apenas fora da época de procriação e deviam-se a: comportamentos de dominância e subjugação ou falta de fêmeas. Talvez a contribuir para esta pequeníssima abertura do meio científico tenha estado o comportamento dos cães, comportamento este que era difícil (ou mesmo impossível) de “esconder” do público. Todos nós que temos ou já tivemos cães sabemos como comportamentos sexuais entre animais do mesmo sexo é muito frequente. Na verdade este comportamento é muito frequente em todo o reino animal. É não só muito mais frequente do que imaginamos como também muito mais complexo.
Nas aves e nos mamíferos são muito raras as espécies que não evidenciam homossexualidade. Claro que falamos aqui de espécies com vidas em grupo e não de espécies em que os indivíduos vivem de forma solitária. Não se pense porém que as espécies que não apresentam estruturas sociais organizadas, mais ou menos complexas, que não podem praticar homossexualidade. Não só podem como o fazem também. De esclarecer também que a homossexualidade está muito longe de ser algo do sexo masculino. As fêmeas são no mínimo tão homossexuais como os machos. Assim como a homossexualidade também comportamentos de pedofilia são comuns.
Os elefantes marinhos jovens que não conseguem vencer as suas lutas para terem direito ao seu harém terminam literalmente violando as crias quando os machos dominantes se ausentam. Já a foca leopardo apresenta um comportamento muito mais interessante. Dois machos podem passar vários minutos a acariciar-se, terminando frequentemente a sessão de mimo com relações sexuais.
No capítulo da homossexualidade entre fêmeas poucas serão as espécies que surpreendam mais que o antílope. Nesta espécie as fêmeas são claramente homossexuais, preterindo os machos para segundo plano e mantendo relações sexuais com outras fêmeas mesmo durante a época de acasalamento. A estrutura social deste animal está fortemente dependente destes comportamentos. O macaco japonês não ficará muito atrás já que as fêmeas evitam os machos e mantêm relações sexuais entre elas. O carneiro montês do norte da América tem uma sociedade homossexual, tal como declarou um dos maiores entendidos sobre esta espécie. Dizia ele que um dos maiores erros foi ter ignorado este comportamento durante mais de 10 anos em que estudou estes animais. Hoje em dia compreende a importância e a necessidade de avaliar estas actividades comportamentais e sociais de forma a entender a vida deste ser vivo.
Um caso caricato foi o de sete pinguins imperadores que foram colocados num jardim zoológico (algures num país da Escandinávia. Peço desculpa pela falha). Nesta espécie é completamente impossível distinguir machos de fêmeas apenas pela observação dos animais. Assim, os nomes foram atribuídos de acordo com o comportamento deles. Ao final de uns anos algo não andava bem. Afinal de contas sexo e corte não faltavam mas ovos…nada! Foi então que uma análise mais cuidadosa revelou algumas surpresas. Dos sete pinguins, quatro tiveram de mudar de nome. Os casais que se haviam formado eram todos entre indivíduos do mesmo sexo. Ainda assim este caso não vence um outro observado a dois mil metros de profundidade. Enquanto observavam um polvo das profundezas, um grupo de investigação teve o privilégio de assistir ao acto sexual entre dois machos de duas espécies diferentes de polvos. Assim, a primeira observação de acasalamento entre polvos das profundezas revelou-se como sendo um acto homossexual entre duas espécies diferentes!
Ainda no oceano não posso deixar de revelar um pouquinho sobre os nossos bem-amados golfinhos, que quase dá vontade de dizer que são uma cambada de panascas. Por exemplo, os roazes praticam relações homossexuais frequentemente, sendo muito comum dois machos serem companheiros sexuais para toda a vida. Este casal de machos partilha as fêmeas com que acasala, auxiliam-se mutuamente e podem mesmo aceitar um terceiro macho temporariamente, ainda que o casal base nunca se separe durante toda a vida. Nas zonas em que os roazes coabitam com golfinhos malhados, as relações sexuais entre machos das duas espécies são frequentes.
Casais homossexuais são muito comuns em aves, como já tinha dito anteriormente. Nos gansos bravos é frequente a ocorrência de trios na época de nidificação (2 machos e 1 fêmea). Isto ocorre porque na realidade o casal permanente é o casal de machos. Durante a nidificação uma fêmea junta-se para proceder à procriação. Embora tenham dois pais, apenas um é o biológico. No entanto o macho que não transmitiu os seus genes protege as crias da mesma maneira. Neste caso torna-se difícil defender a tese de que os comportamentos são sempre com vista à sobrevivência e transmissão da própria herança genética.
Tudo isto sustenta a ideia de ligação entre os genes e a homossexualidade. Na mosca da fruta, em laboratório, já se conseguiu separar o gene da homossexualidade e gerar comportamentos homossexuais em 90% dos indivíduos, sendo que nesta espécie apresenta nas populações selvagens 8% de indivíduos homossexuais. A complexidade de cada espécie aumenta a dificuldade da determinação genética, sendo esta indissociável da aprendizagem, cultura e sociedade. No entanto a polémica promete vir com força. Neste mundo do 8 ou 80, parece que estamos a passar de uma sociedade totalmente homofóbica para uma em que tudo o que se diga da homossexualidade tem de ser sempre algo de magnífico. Dizer que a homossexualidade poderá estar ligada a factores genéticos é tido como uma afirmação preconceituosa e segregacionista. É pena que assim seja porque não é com esse intuito que se afirma. Não é com o intuito de doença genética. Quando falamos de genes ligados à aptidão para a prática do desporto X ou para uma personalidade mais alegre ninguém toma isso como um acto discriminatório. No caso da homossexualidade também não é. É apenas um pouco mais sobre o ser humano, sobre a natureza, sobre nós e as nossas origens.