quarta-feira, fevereiro 10, 2010

A pequenez deste país...

Parece impossível libertarmo-nos da pequenez que assola o nosso colectivo social desde os primórdios da nossa nação. Há quem diga que não fomos sempre assim, que temos nos descobrimentos e no nascimento do nosso país independente a prova disso mesmo. Mas eu discordo. Nos descobrimentos eu vejo um povo aventureiro que procurou o lucro fácil, a curto prazo, sem quaisquer perspectivas de futuro ou crescimento. No nascimento do nosso país independente eu encontro uma disputa familiar fomentada por uns estrangeiros interesseiros e alimentada pelo velho orgulho da conquista solitária.

A pequenez que caracteriza tão bem o nosso povo e a nossa conduta colectiva parece-me cada vez mais uma profunda característica da nossa cultura. Parece mentira que algo tão mediocrizante possa ser parte integrante de uma cultura, mas o Homem consegue ter estas pequenas regalias comportamentais sem que isso extinga fisicamente uma população. Qualquer outro ser vivo sucumbiria a tamanho defeito e deixaria rápida e facilmente de ocupar o seu lugar neste mundo.

Mas o facto destas aberrações comportamentais não levarem, no ser humano, à extinção real e finita, não implica a ausência doutros tipos de extinção. A extinção cultural, cognitiva e moral são consequências directas destes aspectos comportamentais quando estes predominam no seio de uma população. Portugal já assistiu à extinção dos valores morais, caminha a passos largos para a total extinção cognitiva e por fim chegará a extinção cultural como consequência inerente das duas anteriores.

A ausência de crítica sustentada, construtiva e inteligente é, hoje em dia, o dia-a-dia do nosso país. Os jornais, os programas de opinião, os debates informativos, etc., mostram a linha de actuação de uns media mesquinhos, manipuladores e muitas vezes incompetentes, juntamente com a opinião “reflectida” de cidadãos de outros grupos profissionais. O jornalismo sensacionalista debate escutas ilegais e conversas de jantar do Primeiro Ministro mas esquece-se de falar do que realmente importa: para onde vai o dinheiro dos impostos? Onde estão os relatórios das contas públicas? Porque fecham as empresas X, Y e Z e as A, B e C continuam a funcionar? Porque é a justiça tão lenta? O que é que aconteceu na Casa Pia? Ou no caso dos sobreiros? Ou no BPN? Ou ainda no BPP?

Os media são coniventes e parte integrante de um sistema de embrutecimento social e cegueira colectiva. Insistimos em discutir o TGV em vez de nos preocuparmos com as questões do serviço nacional de saúde. Enquanto os governos vão privatizando a saúde em Portugal os jornalistas discutem se o governo deve fazer um aeroporto ou não. Enquanto os governos dizem que estamos a melhorar no ensino e apresentam subidas vertiginosas nas notas dos exames nacionais os jornalistas acenam, falam com uns alunos e nem expõem a vergonha de exames que são apresentados aos jovens. Enquanto o governo se gaba de ter apenas 11% de desemprego a classe jornalística limita-se a fazer comparações com Espanha (e, erradamente, transmitir a ideia de que os nossos vizinhos estão piores que nós). Mas ninguém se lembra de perguntar o que significa realmente estes 10%. Na realidade o nosso desemprego estará mais perto dos 15% e, se deixarmos de contar aqueles que fazem trabalhos temporários, andará nos 20%. Mas não interessa a ninguém saber que a construção em Portugal continua a violar normas de protecção ambiental e que dentro de 20 anos a costa portuguesa estará sob constante ataque erosivo devido à construção excessiva e descuidada nas arribas, nas zonas dunares e nos complexos balneares. É sem dúvida mais importante o seleccionador nacional ter dado dois murros num jornalista.

As prioridades existem e os princípios também. Simplesmente não são dignos de uma sociedade colectiva, solidária, cívica e respeitadora. Os princípios da nação portuguesa são os mesmos hoje que há 500 anos atrás. Lucro fácil, conquista imediata, mínimo esforço. Como escrevi numa outra publicação deste blogue, os portugueses amam o passado, não gostam do presente e não estão seguros de que pensar no futuro seja prático.

Não é fácil discutir determinados assuntos num mundo onde a consciência social e individual é desprovida de reflexão e conhecimento. E grande culpa têm os media! A ETA, a Al-Qaeda, o Hamas, etc., não são uns maluquinhos que põem bombas. São financiados e criados por vários governos no mundo para justificar acções governamentais e aumentar a soberania governativa sobre determinadas áreas e regiões. É tempo de falarmos das coisas como elas são. Isto não é conspiração mas sim realidade. Para quando uma reportagem sobre a realidade do Médio Oriente? Para quando outra sobre a verdade do sistema financeiro e bancário mundial? É tempo dos media deixarem de ser mais um instrumento de estupidificação de massas e conivente com este mundo de falsidade e passarem a ser um grupo que se orgulhe de ajudar a mudar o mundo para melhor.

Lembrando o que ocorreu entre o seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz, e o jornalista Jorge Baptista, por mais que a atitude do primeiro seja condenável, ela é também compreensível. Neste país um jornalista escreve o que quer, como quer, quando quer. Nós acreditamos que liberdade de expressão significa poder dizer o que nos passar pela cabeça. Ao final de 30 anos de democracia continuamos sem perceber que a liberdade de expressão se baseia numa coisa que em Portugal já não existe: educação. Eu posso, em conversa com um amigo insultar pessoalmente uma determinada pessoa. Não me fica bem mas posso. Já não o posso fazer se for publicamente. Ninguém tem o direito de insultar ou injuriar outro cidadão. O jornalismo por cá infelizmente é pouco mais que isso na maioria dos casos. E isto ocorre porque a justiça não funciona assim como a entidade reguladora da comunicação social. Quem leia jornais todos os dias percebe rapidamente que grande parte do que é escrito não é uma crítica construtiva mas sim ataques pessoais, sem nível, insultuosos e sem qualquer dignidade. Nos casos em que o visado protesta lá vem a já sagrada fonte anónima. Num estado democrático isto é incompreensível e por isso é de esperar que atitudes como a do Professor Carlos Queiroz sejam cada vez mais frequentes.

Para quem está pouco habituado a ler jornais eu convido a ler esta notícia, se é que se pode chamar tal coisa a isto, publicada no jornal I e escrita por um tal de João Moreira. As conclusões sobre a peça deixo a cada um vós que tirar 3min para ler tamanha falta de formação, jornalística e humana.

http://www.ionline.pt/conteudo/45664-tres-icebergues-na-direccao-do-titanic-queiroz

Este texto dava pano para mangas como se costuma dizer mas isto é um blogue e não um livro…