quinta-feira, janeiro 12, 2012

A fé por toda a parte

Uma carta de Adam Smith aos capitalistas (por David Rubenstein):

"Capitalistas de todo o Mundo. O que é feito do meu querido capitalismo? O desemprego cresce, os protestos sobem de tom, os défices agigantam-se e as virtudes do capitalismo são postas em causa.
Gostaria de partilhar convosco ideias frescas, baseadas em mais de um século de observação, sobre como sustentar este sistema por mais cem anos ou, pelo menos, fazer com que 2012 seja um ano melhor do que 2011.
O capitalismo sempre teve dois defeitos. Por um lado, é forçoso que a exuberância em torno da criação de riqueza gere crescimento insustentável e colapsos inevitáveis. Por outro, a desigualdade daí resultante, em virtude dos menos hábeis ficarem para trás (na maior parte dos casos por razões que lhes são alheias), incapazes de se adaptar ou competir com os países dominantes.
Não existe uma cura simples para estes dois defeitos, mas eis o que eu faria em 2012:
1. Salvar o euro e a União Europeia, a maior união económica do mundo, é essencial para a prosperidade global. Os países grandes que usam o euro devem ser generosos para salvar a moeda única. Se não o fizerem, o sofrimento e os custos serão substancialmente maiores no futuro. Os países mais pequenos e modestos são os que mais irão sofrer se o euro acabar.
2. Resolver o problema da dívida e do défice dos EUA. Para meu grande espanto, a ausência de acordo no seio do "super comité" não assustou os mercados, indiferentes a um défice de 1,4 biliões de dólares e a uma dívida acumulada superior a 16 biliões de dólares. Atenção, algures em 2012 os mercados vão despertar e dizer: Não! Não podemos esperar que as presidenciais resolvam o problema". A administração Obama e o Congresso têm de apresentar rapidamente um pacote de redução da dívida para que não aconteça o mesmo que na Europa.
3. Integrar os mercados emergentes. O mundo tem de reconhecer que o centro do capitalismo se deslocou para as economias emergentes, as quais vão gerar a maior parte do crescimento em 2012. É preciso que países como a China, Índia e Brasil, entre outros emergentes, sejam plenamente integrados no processo de decisão económico global. Se assim não for, o capital necessário para resolver muitos dos actuais problemas dos mercados desenvolvidos, especialmente questões residuais da grande recessão, não será disponibilizado em termos aceitáveis. Os mais afectados serão de novo os pobres, e não os ricos.
4. Educar. Educar. Educar. A principal causa da desigualdade de rendimento é, talvez, o estado deplorável em que se encontra o ensino primário e secundário. Para debelar o problema é fundamental implementar reformas, garantir financiamento e afectar recursos de forma mais eficaz e eficiente. É preciso educar as crianças, reduzir a taxa de abandono escolar e proporcionar formação aos adultos para preparar os trabalhadores para as novas realidades tecnológicas.
A minha fé no capitalismo mantém-se inabalável. Os grandes problemas que enfrentam têm de ser resolvidos agora. Só assim as nações e os seus povos poderão prosperar, legitimando o capitalismo para que este também possa crescer."

Fico sempre curioso quando oiço alguém falar em "fé inabalável no capitalismo", mas hoje estas afirmações surpreendem-me mais que nunca. Se na teoria o capitalismo já se expõe perfeitamente à previsão fácil das desigualdades sociais (pois não pode existir de outra forma), o contexto global actual está a mostrar, melhor que nunca, como isso é mais do que simples falhas teóricas, é realidade. E no entanto existem ainda os que falam de fé neste sistema. É sempre engraçado ver que o comunismo (que não apresentava estes problemas na teoria) foi condenado por muito menos do que o capitalismo, que gera desigualdades extremas há mais de 100 anos. Sem desigualdade, sem alimentadores para os grandes consumidores, o capitalismo não funciona. A fé de que fala David Rubenstein em nome de Adam Smith é em tudo idêntica à fé religiosa fundamentalista, tida por aqueles que acreditam na instituição religiosa, negando as acções nefastas que possa ter cometido, negando os seus defeitos, objectivando tudo como prova de deus. Ter fé num sistema que se constrói deste modo a partir da sua génese teórica, parece-me mais do que uma fé semelhante à religiosa, um profundo estado de crença no eu, no individualismo, a rejeição do conceito de vida em comunidade. Mas não é por mero acidente que no capitalismo floresce a caridade e se condena a solidariedade. De outro modo seria impossível implementar um sistema que é acima de tudo injusto. Esta carta não é mais do que um novo testamento, em nada diferente do velho, destinado apenas a tentar manter o que se teme perder.
Não posso esquecer ainda este início da carta: "O que é feito do meu querido capitalismo? O desemprego cresce, os protestos sobem de tom, os défices agigantam-se e as virtudes do capitalismo são postas em causa." Não se vê logo que isto vem de uma pessoa insensível e cega (ou mesmo com total desrespeito pela vida) ao que se passa no mundo? O desemprego cresce...na Europa e nos EUA. Em África e na América Central e do Sul floresceu durante décadas, como forma de sustentar o crescimento capitalista europeu e americano. Os défices agigantam-se...novamente no velho continente e no mundo novo. Mas isso é normal, faz parte do sistema perverso montado, onde pode, imagine-se, produzir dinheiro a partir de dinheiro (nunca em toda a minha vida me deparei com algo tão cretino quanto isto). As virtudes do capitalismo são postas em causa...só para quem andou distraído, ou ausente e desprovido de visão global, histórica e humana, é que apenas e só agora estas "virtudes" são postas em causa. As poucas virtudes que acompanham o sistema do capital estão postas em causa, pelo menos para todos os que têm visão de vida, de justiça e de igualdade, desde o momento em que este sistema começou a proliferar.