A nossa história está cheia de caças às
bruxas. É como se a sociedade dependesse deste ritual para se manter, ou
sentir, viva. Da perseguição aos cristãos durante o Império Romano, aos judeus
em diferentes fases da História da Humanidade, ou ainda a caça às bruxas da
Idade Média, as sociedades tendem a criar um alvo de desassossego. Hoje em dia,
não sei se por sermos 7 mil milhões, se por existirem múltiplos interesses e
entreténs no complexo mundo do século XXI, um só alvo não chega. Precisamos de
focar as miras em diferentes direcções.
Em 2001 o mundo ficou a conhecer o nome
Al-Qaeda. E desde então este nome representa o mal árabe. Fosse o que fosse que
acontecesse, um tropeção de um qualquer membro dos governos ocidentais ou uma
bomba no centro de uma cidade nos confins do planeta, Al-Qaeda era sempre
apresentada como a responsável. O mesmo se passa com o carbono. O CO2
é o líder dos maus do ambiente. E vivemos indiferentes aos restantes, tal como
nos conflitos globais, onde o terrorismo é o Diabo e o resto do mundo é Deus e
seus Anjos, no ambiente o CO2 manda e tudo o resto é secundário, ou
insignificante. É a seita do Al-Carbon!
A Terra aquece, os oceanos acidificam, o
nível das águas sobe, as florestas desaparecem, as praias interditas, o cancro
na pele, as chuvas torrenciais, os nevões do inverno, a redução da quantidade
de peixe, o declínio da água potável, os males da agricultura...tudo culpa do
maléfico carbono! Mas será que o carbono é mesmo o senhor do mal no ambiente?
Vejamos alguns casos onde o carbono surge agora como o Abadon, o anjo do
abismo.
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| Al-Carbon |
Outro dia passava na televisão um
documentário/reportagem sobre o futuro da Amazónia. E imagine-se qual era a
mensagem? Pois claro, o carbono está a matar a maior floresta tropical do
planeta actual. Afinal o CO2 está a aquecer muito a superfície do
Atlântico e este está a roubar a humidade à Amazónia. Não consigo deixar de me
lembrar que esta floresta é o único ecossistema conhecido actualmente que se
auto alimenta no que respeita à pluviosidade. Ou seja, a evapotranspiração da
floresta amazónica é tal que leva a que as condições atmosféricas desta região
sejam muito húmidas e promovam um ciclo quase contínuo de chuvas. Até há 10 ou
15 anos atrás todos os cientistas afirmavam que a desflorestação nesta região
levaria a que a floresta perdesse esta característica e com isso começasse a
transitar para um regime sazonal de pluviosidade. Pelo menos 18% da Amazónia já
foi desflorestada, ou seja, praticamente 1/5, e até 30% foi já alterada pela
indústria madeireira, isto é, quase 1/3. Não terá a desflorestação nenhuma
importância no que sucede actualmente naquela região?
A redução drástica da água potável é
outra consequência apontada ao demónio
carbónico. O carbono levará à alteração das correntes marítimas, à mudança
dos padrões de humidade e com isso a regiões de secas severas e outras de
excesso de pluviosidade. Verdade seja dita que nenhum dos cenários é bom para
obter água potável. Mas onde está tido em conta a exploração bárbara dos
aquíferos para a produção de refrigerantes e de águas engarrafadas? A título de
exemplo, no Paquistão, localidade de Bhati Dilwan, a exploração de água para
produzir a água engarrafada Pure Life (Nestlé) provocou a queda do aquífero dos
100 para os 400 pés de profundidade. Já agora, continuando, a indústria usa
milhares de milhões de litros de águas fluviais para os sistemas de
arrefecimento nas fábricas. A agricultura intensiva sobreexplora os lençóis de
água. A impermeabilização dos solos devido à construção reduz a quantidade de
água que chega aos reservatórios subterrâneos. A desflorestação, em particular
a destruição da vegetação ripícola, embora permita que maior quantidade de água
chegue aos rios, faz com que esta tenha muito menor qualidade, chegando a
tornar-se imprópria para consumo.
A agricultura surge também como um dos
sectores que será mais afectado por esta seita do Bin-Carbon. Afinal as
alterações dos regimes de pluviosidade e o aumento das pragas de insectos são
dois problemas que resultam directamente do CO2. Pelo menos dizem os
"peritos". Será que a redução das populações de predadores de
insectos não tem nenhum significado? Por todo o mundo os anfíbios têm vindo a
reduzir muito significativamente as suas populações. Por todos os rios fomos
alterando a fauna piscícola, chegando ao ponto de não existir neste momento
praticamente nenhum rio da Europa e América do Norte sem espécies introduzidas
e com redução das autóctones. A maioria das espécies de répteis sofreram
reduções significativas durante o último século. Tudo devido principalmente à
destruição de habitat. Os morcegos são provavelmente, neste momento, o grande
símbolo da perda de biodiversidade. Ora se os insectívoros são cada vez menos,
não deverão então os insectos ser cada vez mais?
As regiões costeiras são outro dos
pontos chave onde o CO2 é apontado como o culpado dos males que surgem hoje e
ainda estão por vir. Através da subida do nível dos oceanos, devido ao aumento
de temperatura global, as zonas costeiras vão ser submersas, destruídas,
inundadas num cataclismo bíblico. O facto de termos construído barragens sem
ter em conta a redução de sedimento que alimenta a costa, de construirmos
esporões e pontões que aceleram a erosão da costa, de destruirmos sistemas
dunares e construirmos em falésias e arribas é sistematicamente esquecido
quanto se apresenta o tenebroso futuro dos que vivem à beira mar.
Uma das coisas que mais me fascina neste
novo mundo anti-carbono é a forma como a comunidade científica (não toda,
atenção) e a comunicação social conseguiram fazer desaparecer, qual truque de
magia, todas as questões relacionadas com destruição de habitat, abate de
animais (seja por caça, por uso de venenos, etc.) e a poluição. Este último
ponto deixa-me particularmente perplexo. Há quanto tempo não se ouve falar de
poluição sem ser CO2? Aliás hoje em dia já se assume muitas vezes
que quando o tema é poluição então o tema é CO2. Passámos a ignorar
por completo os poluentes orgânicos e os metais pesados. Já ninguém ouve falar
dos problemas com DDT, apesar deste ser utilizado em grande parte do mundo. Já
ninguém liga ou quer saber da quantidade de estuários, rios, lençóis de água
que se encontram ainda contaminados com diversos metais e compostos orgânicos.
Já ninguém liga ao impacto das pecuárias intensivas ou dos esgotos não
tratados. Gerou-se uma ideia global de que já não usamos produtos tóxicos nem
temos esgotos sem tratamento. O mito da tecnologia verde, dos produtos verdes,
do mundo verde! Tal está, infelizmente, muito longe da verdade. Não podendo
tocar em todos os assuntos, aponto apenas um ou outro exemplo. O temível DDT
dos anos 60 e 70, proibido em toda a Europa no final dessa década, é produzido
desde então pela mesma Europa (nomeadamente Dinamarca) e exportado para África,
América do Sul e Ásia. O nosso estuário do Tejo, a nossa Ria de Aveiro, a nossa
Lagoa de Óbidos, sofrem ainda de contaminações diversas por metais pesados (os
dois primeiros) e pecuárias intensivas (no caso do último). Em Portugal estamos
longe de uma rede de tratamento de esgotos nacional. Existem ainda diversas
zonas sem estações de tratamento e, acima de tudo, muitas estações que não têm
condições de funcionamento.
Não querendo chegar ao ponto de dizer
que o carbono está a ser transformado em vilão por ser mal compreendido,
parece-me claro que está muito muito longe de ser o abominável ser apocalíptico
com que o caracterizam. E para desmistificar um pouco este Al-Carbon, e já
agora dar-lhe um ar menos mau, abordarei, novamente de forma superficial (pois
para aprofundar teria de escrever, pelo menos, um mini livro), questões que
parecem estar esquecidas da memória científica, ou quiçá, silenciadas nos
mecanismos de tradução da ciência para a discussão pública. Afinal existem
milhares de explicações além do carbono para muitos dos problemas ambientais,
como já percebemos acima.
Iniciemos então o papel de advogado de
defesa do CO2, que tantos querem ver condenado ao exílio
extraplanetário. E já que começo com uma alusão astronómica, começo também por
enaltecer a importância deste malandro. Sem ele, e sem a água, a Terra seria
muito mais fria. Portanto louvemos o carbono como louvamos a água. Mais ainda,
quando lhe chamamos apenas carbono, lembremos que ele é a base da vida. Toda a
vida na Terra é de base carbono! E sim, falei na água na mesma frase em que
falei de temperatura. É que a molécula de H2O na atmosfera, ou seja,
o vapor de água, tem um efeito de estufa 6 vezes superior ao da molécula de CO2.
Mas vamos deixar estas referências de parte pois facilmente são tidas como uma
defesa fraquinha, podendo sempre alguém argumentar que então todos os que
trabalham num sistema judicial devem agradecer aos criminosos a sua existência.
Passemos a factos concretos sobre a
importância do CO2 nas alterações climáticas. Na Idade Média ocorreu
o Período Quente Medieval, com temperatura média global 1°C acima do actual.
Ora durante este período não se pode falar de aumento do CO2 por
actividade antropogénica. Este aumento está ligado à actividade solar.
Rapidamente, e por um período de cerca de 200 anos, a Terra ficou em média 1°C
mais quente. A Amazónia não desapareceu. As pragas de insectos não tiveram
nenhum pico anormal. As correntes marítimas não mudaram drasticamente. Os polos
não derreteram ao ponto do Ártico ficar livre de gelos. As regiões costeiras
não ficaram submersas, inundando cidades e causando o caos. Qual é a diferença
hoje, então? Na Amazónia a desflorestação é o factor chave. Na região ártica
realmente houve redução de gelos e a Gronelândia (em inglês Greenland) era mais
verde, permitindo aos Vikings colonizá-la, cultivar cereais e manter populações
de gado. As regiões costeiras tinham ainda as barreiras dunares, as suas
falésias e arribas intactas, não existiam esporões e pontões por toda a costa e
as barragens eram uma fantasia.
A este período seguiu-se a chamada
Pequena Idade do Gelo, que durou até princípios/meados do século XIX. Nesta
fase o Tamisa congelava todos os invernos. Os verões foram mais amenos e a
temperatura média global era 1°C abaixo da actual. Este fenómeno climático está
também associado à actividade solar.
Estas variações climáticas fazem parte
da dinâmica do clima da Terra. Ligar o CO2 à temperatura de uma
forma tão directa como está a ser feito hoje em dia é muito perigoso para a
veracidade científica. Por exemplo, durante o Período Quente do Piacenziano
Médio a Terra tinha uma temperatura média global 2-3°C acima do actual, mas a
concentração de CO2 atmosférico era inferior.
Existe ainda a acidificação dos oceanos.
Esta é apresentada como catastrófica. Em particular, os grupos com concha
calcária deveriam ser severamente afectados. Mas a História Natural mostra uma
realidade que não vai de encontro às actuais previsões. Os cocolitóforos,
plâncton calcário de dimensões microscópicas, mostram enorme abundância no
registo fóssil em épocas onde os proxies
climáticos indicam concentrações de CO2 muito acima das de hoje.
Existe ainda um aspecto que fragiliza
muito o habitual discurso de culpabilização do CO2. Diz, quem
defende a teoria de que o CO2 irá provocar a subida da temperatura
média global em 2-6°C, que esta subida leva ao aumento de tufões e tempestades.
Ora isto é acima de tudo contraditório. O aumento da temperatura média do
planeta implica uma redução do gradiente latitudinal de temperatura. Menor
diferença de temperatura entre polos e trópicos promove precisamente a redução
da formação de tempestades, e não o seu aumento. A formação de condições de
alta instabilidade atmosférica é gerada pelo choque de massas de ar frias com
massas de ar quentes. Se ocorre uma redução deste gradiente, ocorre também uma
redução da formação de condições ideais à formação de tempestades.
Acima de tudo, o CO2 está a
ser usado como bode expiatório para a implementação de determinados interesses
económicos, usando para tal uma estrutura política chamada IPCC (das Nações
Unidas) e um financiamento duvidoso em diversos estudos. Infelizmente a ciência
está hoje demasiado refém do financiamento e tal leva, em todas as áreas
científicas, a casos melindrosos. Sobre polémicas com o IPCC não me alargarei,
até porque já escrevi um pouco sobre isso algures pelo blogue. Termino apenas
com uma frase que me parece ser a maior verdade sobre este jogo de adivinhos
climáticos: "estão a dizer-me que vão prever alterações climáticas com
base em 100 anos de dados para uma rocha que tem 6 mil milhões de anos?",
Mark Johnson, meteorologista.