quinta-feira, março 20, 2014

Comentário ao texto de José Gomes Ferreira, "Carta a uma Geração Errada"

Mais uma vez este senhor, que tão bem cotado anda pelas bocas dos portugueses, escreve um chorro de lambidelas superficiais que mais não são do que promover a demagogia que envolve o assunto . Por exemplo, é verdade que as SCUT são ruinosas, mas tal não tem nada que ver com o não pagamento por parte do utilizador (vulgo, portagens!). Tal está sim relacionado com as parcerias publico privadas, famosas PPP, já que as SCUT foram construídas com financiamento europeu e com a condição de não serem taxadas.
A questão de pagar ou não pagar a dívida está intrinsecamente ligada ao direito económico internacional, algo que a classe jornalística de Portugal, tão nobre e solidária com os seus patrões, esquece sistematicamente de abordar. Grande parte da dívida externa portuguesa é, seguramente, ilegal. E digo seguramente pois todos os países que até hoje decidiram realizar uma auditoria à dívida externa (todos com dívida, entre outras instituições, maioritariamente ao FMI), viram uma percentagem elevada desta ser considerada ilegal e imediatamente dissolvida.
É verdade que o manifesto é idiota e, acima de tudo, escrito ou assinado por um sem número de cretinos que nos trouxeram à situação actual. Mas se calhar a agenda é precisamente essa. Talvez o objectivo seja exactamente promover um 2º resgate. As soberanias nacionais deixaram de existir há muito tempo. Vivemos na ditadura do capital. Os interesses pessoais sobrepõem-se aos interesses das nações e seus povos, pois acima de tudo estas resumem-se a linhas fronteiriças e idiomas...pouco mais.
Já o deixarem os mais novos trabalhar, pouco me assusta mais que essa ideia. Os mais novos de que ele fala, os actuais políticos e deputados, são, na sua grande maioria, indivíduos que NUNCA trabalharam, que desconhecem a palavra sacrifício e que têm pouca ou nenhuma ideologia sociopolítica. Deixá-los trabalhar? Claro. O nosso Primeiro Ministro está cansado de trabalhar! Tanto trabalha e se sacrifica que até teve de se mudar do seu impressionante apartamento em Massamá para uma modesta moradia na Linha. Veja-se bem o sacrifício a que tem estado sujeito!!!

É altura de pararmos com demagogias e de atirar areia para os olhos! Acima de tudo é o momento de reconhecermos que a maior responsabilidade sobre tudo o que se passa neste país cabe a todos nós, cidadãos portugueses, que durante anos e anos não quisemos saber, aceitámos de bom grado o tempo das vacas gordas, promovemos e silenciámo-nos perante a ostensiva corrupção e o declínio dos valores éticos e morais. Agora colhemos o fruto da nossa inércia, da nossa negligencia cidadã!

para ler a carta:

http://sicnoticias.sapo.pt/opinionMakers/jose_gomes_ferreira/2014-03-12-carta-a-uma-geracao-errada

segunda-feira, março 17, 2014

Al-Carbon

A nossa história está cheia de caças às bruxas. É como se a sociedade dependesse deste ritual para se manter, ou sentir, viva. Da perseguição aos cristãos durante o Império Romano, aos judeus em diferentes fases da História da Humanidade, ou ainda a caça às bruxas da Idade Média, as sociedades tendem a criar um alvo de desassossego. Hoje em dia, não sei se por sermos 7 mil milhões, se por existirem múltiplos interesses e entreténs no complexo mundo do século XXI, um só alvo não chega. Precisamos de focar as miras em diferentes direcções.
Em 2001 o mundo ficou a conhecer o nome Al-Qaeda. E desde então este nome representa o mal árabe. Fosse o que fosse que acontecesse, um tropeção de um qualquer membro dos governos ocidentais ou uma bomba no centro de uma cidade nos confins do planeta, Al-Qaeda era sempre apresentada como a responsável. O mesmo se passa com o carbono. O CO2 é o líder dos maus do ambiente. E vivemos indiferentes aos restantes, tal como nos conflitos globais, onde o terrorismo é o Diabo e o resto do mundo é Deus e seus Anjos, no ambiente o CO2 manda e tudo o resto é secundário, ou insignificante. É a seita do Al-Carbon!
A Terra aquece, os oceanos acidificam, o nível das águas sobe, as florestas desaparecem, as praias interditas, o cancro na pele, as chuvas torrenciais, os nevões do inverno, a redução da quantidade de peixe, o declínio da água potável, os males da agricultura...tudo culpa do maléfico carbono! Mas será que o carbono é mesmo o senhor do mal no ambiente? Vejamos alguns casos onde o carbono surge agora como o Abadon, o anjo do abismo.
Al-Carbon
Outro dia passava na televisão um documentário/reportagem sobre o futuro da Amazónia. E imagine-se qual era a mensagem? Pois claro, o carbono está a matar a maior floresta tropical do planeta actual. Afinal o CO2 está a aquecer muito a superfície do Atlântico e este está a roubar a humidade à Amazónia. Não consigo deixar de me lembrar que esta floresta é o único ecossistema conhecido actualmente que se auto alimenta no que respeita à pluviosidade. Ou seja, a evapotranspiração da floresta amazónica é tal que leva a que as condições atmosféricas desta região sejam muito húmidas e promovam um ciclo quase contínuo de chuvas. Até há 10 ou 15 anos atrás todos os cientistas afirmavam que a desflorestação nesta região levaria a que a floresta perdesse esta característica e com isso começasse a transitar para um regime sazonal de pluviosidade. Pelo menos 18% da Amazónia já foi desflorestada, ou seja, praticamente 1/5, e até 30% foi já alterada pela indústria madeireira, isto é, quase 1/3. Não terá a desflorestação nenhuma importância no que sucede actualmente naquela região?
A redução drástica da água potável é outra consequência apontada ao demónio carbónico. O carbono levará à alteração das correntes marítimas, à mudança dos padrões de humidade e com isso a regiões de secas severas e outras de excesso de pluviosidade. Verdade seja dita que nenhum dos cenários é bom para obter água potável. Mas onde está tido em conta a exploração bárbara dos aquíferos para a produção de refrigerantes e de águas engarrafadas? A título de exemplo, no Paquistão, localidade de Bhati Dilwan, a exploração de água para produzir a água engarrafada Pure Life (Nestlé) provocou a queda do aquífero dos 100 para os 400 pés de profundidade. Já agora, continuando, a indústria usa milhares de milhões de litros de águas fluviais para os sistemas de arrefecimento nas fábricas. A agricultura intensiva sobreexplora os lençóis de água. A impermeabilização dos solos devido à construção reduz a quantidade de água que chega aos reservatórios subterrâneos. A desflorestação, em particular a destruição da vegetação ripícola, embora permita que maior quantidade de água chegue aos rios, faz com que esta tenha muito menor qualidade, chegando a tornar-se imprópria para consumo.
A agricultura surge também como um dos sectores que será mais afectado por esta seita do Bin-Carbon. Afinal as alterações dos regimes de pluviosidade e o aumento das pragas de insectos são dois problemas que resultam directamente do CO2. Pelo menos dizem os "peritos". Será que a redução das populações de predadores de insectos não tem nenhum significado? Por todo o mundo os anfíbios têm vindo a reduzir muito significativamente as suas populações. Por todos os rios fomos alterando a fauna piscícola, chegando ao ponto de não existir neste momento praticamente nenhum rio da Europa e América do Norte sem espécies introduzidas e com redução das autóctones. A maioria das espécies de répteis sofreram reduções significativas durante o último século. Tudo devido principalmente à destruição de habitat. Os morcegos são provavelmente, neste momento, o grande símbolo da perda de biodiversidade. Ora se os insectívoros são cada vez menos, não deverão então os insectos ser cada vez mais?
As regiões costeiras são outro dos pontos chave onde o CO2 é apontado como o culpado dos males que surgem hoje e ainda estão por vir. Através da subida do nível dos oceanos, devido ao aumento de temperatura global, as zonas costeiras vão ser submersas, destruídas, inundadas num cataclismo bíblico. O facto de termos construído barragens sem ter em conta a redução de sedimento que alimenta a costa, de construirmos esporões e pontões que aceleram a erosão da costa, de destruirmos sistemas dunares e construirmos em falésias e arribas é sistematicamente esquecido quanto se apresenta o tenebroso futuro dos que vivem à beira mar.
Uma das coisas que mais me fascina neste novo mundo anti-carbono é a forma como a comunidade científica (não toda, atenção) e a comunicação social conseguiram fazer desaparecer, qual truque de magia, todas as questões relacionadas com destruição de habitat, abate de animais (seja por caça, por uso de venenos, etc.) e a poluição. Este último ponto deixa-me particularmente perplexo. Há quanto tempo não se ouve falar de poluição sem ser CO2? Aliás hoje em dia já se assume muitas vezes que quando o tema é poluição então o tema é CO2. Passámos a ignorar por completo os poluentes orgânicos e os metais pesados. Já ninguém ouve falar dos problemas com DDT, apesar deste ser utilizado em grande parte do mundo. Já ninguém liga ou quer saber da quantidade de estuários, rios, lençóis de água que se encontram ainda contaminados com diversos metais e compostos orgânicos. Já ninguém liga ao impacto das pecuárias intensivas ou dos esgotos não tratados. Gerou-se uma ideia global de que já não usamos produtos tóxicos nem temos esgotos sem tratamento. O mito da tecnologia verde, dos produtos verdes, do mundo verde! Tal está, infelizmente, muito longe da verdade. Não podendo tocar em todos os assuntos, aponto apenas um ou outro exemplo. O temível DDT dos anos 60 e 70, proibido em toda a Europa no final dessa década, é produzido desde então pela mesma Europa (nomeadamente Dinamarca) e exportado para África, América do Sul e Ásia. O nosso estuário do Tejo, a nossa Ria de Aveiro, a nossa Lagoa de Óbidos, sofrem ainda de contaminações diversas por metais pesados (os dois primeiros) e pecuárias intensivas (no caso do último). Em Portugal estamos longe de uma rede de tratamento de esgotos nacional. Existem ainda diversas zonas sem estações de tratamento e, acima de tudo, muitas estações que não têm condições de funcionamento.
Não querendo chegar ao ponto de dizer que o carbono está a ser transformado em vilão por ser mal compreendido, parece-me claro que está muito muito longe de ser o abominável ser apocalíptico com que o caracterizam. E para desmistificar um pouco este Al-Carbon, e já agora dar-lhe um ar menos mau, abordarei, novamente de forma superficial (pois para aprofundar teria de escrever, pelo menos, um mini livro), questões que parecem estar esquecidas da memória científica, ou quiçá, silenciadas nos mecanismos de tradução da ciência para a discussão pública. Afinal existem milhares de explicações além do carbono para muitos dos problemas ambientais, como já percebemos acima.
Iniciemos então o papel de advogado de defesa do CO2, que tantos querem ver condenado ao exílio extraplanetário. E já que começo com uma alusão astronómica, começo também por enaltecer a importância deste malandro. Sem ele, e sem a água, a Terra seria muito mais fria. Portanto louvemos o carbono como louvamos a água. Mais ainda, quando lhe chamamos apenas carbono, lembremos que ele é a base da vida. Toda a vida na Terra é de base carbono! E sim, falei na água na mesma frase em que falei de temperatura. É que a molécula de H2O na atmosfera, ou seja, o vapor de água, tem um efeito de estufa 6 vezes superior ao da molécula de CO2. Mas vamos deixar estas referências de parte pois facilmente são tidas como uma defesa fraquinha, podendo sempre alguém argumentar que então todos os que trabalham num sistema judicial devem agradecer aos criminosos a sua existência.
Passemos a factos concretos sobre a importância do CO2 nas alterações climáticas. Na Idade Média ocorreu o Período Quente Medieval, com temperatura média global 1°C acima do actual. Ora durante este período não se pode falar de aumento do CO2 por actividade antropogénica. Este aumento está ligado à actividade solar. Rapidamente, e por um período de cerca de 200 anos, a Terra ficou em média 1°C mais quente. A Amazónia não desapareceu. As pragas de insectos não tiveram nenhum pico anormal. As correntes marítimas não mudaram drasticamente. Os polos não derreteram ao ponto do Ártico ficar livre de gelos. As regiões costeiras não ficaram submersas, inundando cidades e causando o caos. Qual é a diferença hoje, então? Na Amazónia a desflorestação é o factor chave. Na região ártica realmente houve redução de gelos e a Gronelândia (em inglês Greenland) era mais verde, permitindo aos Vikings colonizá-la, cultivar cereais e manter populações de gado. As regiões costeiras tinham ainda as barreiras dunares, as suas falésias e arribas intactas, não existiam esporões e pontões por toda a costa e as barragens eram uma fantasia.
A este período seguiu-se a chamada Pequena Idade do Gelo, que durou até princípios/meados do século XIX. Nesta fase o Tamisa congelava todos os invernos. Os verões foram mais amenos e a temperatura média global era 1°C abaixo da actual. Este fenómeno climático está também associado à actividade solar.
Estas variações climáticas fazem parte da dinâmica do clima da Terra. Ligar o CO2 à temperatura de uma forma tão directa como está a ser feito hoje em dia é muito perigoso para a veracidade científica. Por exemplo, durante o Período Quente do Piacenziano Médio a Terra tinha uma temperatura média global 2-3°C acima do actual, mas a concentração de CO2 atmosférico era inferior.
Existe ainda a acidificação dos oceanos. Esta é apresentada como catastrófica. Em particular, os grupos com concha calcária deveriam ser severamente afectados. Mas a História Natural mostra uma realidade que não vai de encontro às actuais previsões. Os cocolitóforos, plâncton calcário de dimensões microscópicas, mostram enorme abundância no registo fóssil em épocas onde os proxies climáticos indicam concentrações de CO2 muito acima das de hoje.
Existe ainda um aspecto que fragiliza muito o habitual discurso de culpabilização do CO2. Diz, quem defende a teoria de que o CO2 irá provocar a subida da temperatura média global em 2-6°C, que esta subida leva ao aumento de tufões e tempestades. Ora isto é acima de tudo contraditório. O aumento da temperatura média do planeta implica uma redução do gradiente latitudinal de temperatura. Menor diferença de temperatura entre polos e trópicos promove precisamente a redução da formação de tempestades, e não o seu aumento. A formação de condições de alta instabilidade atmosférica é gerada pelo choque de massas de ar frias com massas de ar quentes. Se ocorre uma redução deste gradiente, ocorre também uma redução da formação de condições ideais à formação de tempestades.
Acima de tudo, o CO2 está a ser usado como bode expiatório para a implementação de determinados interesses económicos, usando para tal uma estrutura política chamada IPCC (das Nações Unidas) e um financiamento duvidoso em diversos estudos. Infelizmente a ciência está hoje demasiado refém do financiamento e tal leva, em todas as áreas científicas, a casos melindrosos. Sobre polémicas com o IPCC não me alargarei, até porque já escrevi um pouco sobre isso algures pelo blogue. Termino apenas com uma frase que me parece ser a maior verdade sobre este jogo de adivinhos climáticos: "estão a dizer-me que vão prever alterações climáticas com base em 100 anos de dados para uma rocha que tem 6 mil milhões de anos?", Mark Johnson, meteorologista.