sexta-feira, julho 10, 2015

O esquema da crise da dívida soberana na Europa e a subjugação dos Estados

O esquema da crise da dívida soberana na Europa
e a subjugação dos Estados
Algum dia acordará o povo?


Gonçalo Abreu Prista
10 de Julho de 2015


A crise do euro e das dívidas de diversos países europeus arrasta-se há já 7 anos. Começou com a bolha imobiliária em 2008 e tem vindo a galopar desde então. Várias medidas de intervenção entraram em vigor provenientes da Comissão Europeia (CE) e do Banco Central Europeu (BCE), tendo envolvido um resgate financeiro nos casos da Irlanda, de Portugal e da Grécia. O resgate, encabeçado pela Troika, não era mais que uma união entre o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI). A bancarrota dos países nunca foi mais do que um crash no sector bancário (ver O Nosso Mundo Europeu). A pouco e pouco alguns indivíduos, não só nos países mais afectados, mas curiosamente na própria Alemanha, foram começando a questionar a crise, a dívida e os resgates. A Grécia, o país mais afectado pela crise da dívida soberana, tendo atingido 175% do PIB apesar dos programas de apoio da Troika, viu o seu povo dizer democraticamente chega! Elegeu um partido desalinhado com o sistema e o Syriza não quis desiludir. Foi dado início ao processo de auditoria à dívida externa e não foi feito para inglês ver! A equipa contratada conta com Maria Lucia Fattorelli e Eric Toussaint, dois monstros da auditoria a dívidas soberanas, com o seu trabalho mais famoso no Equador, que resultou na redução em 70% da dívida daquele país.
A política grega pós-vitória do Syriza tem deixado a Europa com algumas dores de cabeça. No dia 8 de Julho no Parlamento Europeu (PE), Guy Verhofstadt, ex-primeiro ministro da Bélgica, teve uma intervenção que, mesmo depois de tantos anos de programas de assistência ainda há quem aplauda e considere “política séria”. Guy Verhofstadt discursou apaixonada e vigorosamente sobre a situação grega, começando por apontar que “nunca vêem propostas concretas de reformas” por parte do governo grego. De seguida enunciou os 5 pontos que o governo grego tem de apresentar numa proposta de reformas: 1) acabar com a criminalidade política e criar legislação nesta área; 2) reduzir o sector público; 3) transformar os bancos públicos num sector bancário privado; 4) abrir os mercados; 5) acabar com os privilégios dos militares, da igreja ortodoxa e dos partidos políticos. Concluiu mirando o ego de Tsipras, questionando-o se queria ficar na história como um grande líder ou como um acidente eleitoral.
Elogiar o discurso de Guy Verhofstadt é sentir apenas a paixão da sua voz, a determinação dos seus movimentos, o verdadeiro espectáculo no PE. Quem ouvir compreende que tudo é apenas isso, um espectáculo, nada mais. Exige a privatização da banca grega e o fim do pouco controlo público sobre o sector económico. Fala na abertura dos mercados onde está subjacente a libertação das águas para a privatização. Mas o discurso é bem preparado. Começa com a exigência do fim da criminalidade política, algo com que qualquer cidadão concorda, e termina com a demanda sobre o fim dos privilégios de alguns sectores, entre eles a igreja ortodoxa e os partidos políticos, mais uma vez tocando em desejos plebeus. Pelo meio sublinha fervorosamente a necessidade de reduzir o peso do sector público, aquela ideia que hoje está tão enraizada na cabeça dos cidadãos europeus e que não passa de uma demagogia que visa a aceitação das privatizações.
É engraçada a referencia aos privilégios dos partidos políticos. Sendo Guy Verhofstadt um eurodeputado estará seguramente consciente dos privilégios dos eurodeputados (ver reportagem de Tom Staal – link nas referências), algo que roça o criminoso. Mas quero focar-me na exigência de redução do sector público, essa ideia que hoje é quase universal na Europa. Vamos então falar sobre sector público nos países europeus.
Começo por um estudo de 2006, apresentado num encontro de economia pública em Almería (Sánchez e Bermejo, 2006). Se olharem bem para a tabela em baixo (Fig. 1) podemos ver que  Áustria, Dinamarca, Finlândia, França, Suécia e Bélgica, alguns dos países mais ricos da União Europeia, têm uma despesa pública acima da grega.

Figura 1 - Tamanho do sector público na Europa em 2003.

Esta era a realidade em 2003, quando o senhor Guy Verhofstadt era primeiro ministro da Bélgica! Da Bélgica que tinha 51% do PIB em despesa pública.
Se quisermos olhar para o caso português, além dos países acima referidos, juntam-se Alemanha, Itália e Holanda aos que têm uma despesa pública mais alta.
Em Dezembro de 2014, o Institute of Public Admnistration da National University of Ireland publicou um estudo sobre diversas questões financeiras e sociais dos países europeus (Boyle, 2014). Vou colocar os gráficos e escrever menos, pois parece-me que a visualização e leitura dos comentários do próprio trabalho são mais que suficientes para compreender a realidade da Europa. Vou também abordar mais temas que apenas o peso do sector público na economia e no emprego.

Figura 2 - Emprego dependente do governo como percentagem da força laboral (2001 e 2011).

É curioso constatar que é na Grécia que o governo contribui menos para a força laboral e são os países nórdicos, ricos, onde a presença do governo como empregador é mais notada (Fig. 2).
Na justiça (Fig. 3) a Grécia volta a surpreender, ao contrário de Portugal que só é superado pela já esperada Itália. E embora no caso destes dados referentes à justiça a distribuição já tenha um resultado mais de acordo com a percepção pública (excepção da Grécia), nem por isso favorece inteiramente os países que vão ditando a lei pela Europa. A Alemanha surge com uma boa posição mas não se poderá dizer o mesmo de França e especialmente de Inglaterra, que está mesmo mais próxima da realidade portuguesa que das realidades germânicas, escandinavas e...helénica!

Figura 3 - Duração de julgamentos de primeira instância (ano 2012).

A duração dos processos em tribunal acaba por ter uma reflexão na confiança no sistema judicial, embora não seja uma correlação. No entanto é fácil constatar que em Portugal a confiança é muito baixa, mais ainda que em Itália. Mais uma vez é na Escandinávia que o índice de confiança é maior (Fig. 4).

Figura 4 - Índice de confiança no sistema judicial e tribunais.

Se olharmos ainda para o sector da saúde encontraremos mais razões para suspeitar da perseguição à obesidade das contas públicas. Afinal Portugal e Grécia gastam metade do que gastam países como Alemanha, Áustria, Holanda, Dinamarca e Bélgica em saúde por cidadão (Fig. 5).

Figura 5 - Esperança média de vida à nascença e despesa total em saúde por habitante (2012).

Claro que menores gastos também acabam por influenciar a esperança de vida saudável. Será?

Figura 6 - Esperança de vida saudável à nascença (2012).

Existem consideráveis diferenças entre os gastos de Portugal, Grécia, Espanha e Itália e os do lado do espectro dos mais gastadores, Alemanha, Dinamarca, Áustria, Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Mas a verdade é que não existe uma diferença aparentemente significativa entre o que se gasta e o que se perde entre a esperança de via à nascença e a esperança saudável de vida à nascença. No lado “pobre” Espanha perde cerca de 7,5 anos, Grécia aproximadamente 8 e Portugal ganha, com um decréscimo a rondar os 9,5 anos. Mas os que gastam mais não têm uma redução menor. A Alemanha vence, com uma redução de 7 anos. Mas Holanda (8,5 anos), Áustria (8,5 anos), Bélgica (8,5 anos), Luxemburgo (7,5 anos) e Dinamarca (7,5 anos) estão em linha com Espanha e Grécia (Fig. 6). Um excelente exemplo de que saúde é mais que cuidados de saúde e está também ligada aos estilos de vida, alimentação, etc.
Como pudemos ver pelos pequenos dados que aqui coloquei, a despesa pública elevada dos países periféricos não passa de um engodo para promover o apoio dos cidadãos às privatizações. Aliás o peso do sector público na economia em nada prejudica o potencial e a produção económica de um país, como se pode constatar pelo enorme peso do sector público nos países mais ricos da Europa. E sem querer esquecer outro ponto fulcral que vive na mente dos europeus, aquele racismo entre norte e sul, entre os trabalhadores e os preguiçosos, vamos também olhar para os dados recentes da OCDE. Os gregos trabalham mais 671 horas anuais que os alemães, enquanto os portugueses trabalham mais 486. Posso falar também da minha experiência pessoal que envolveu uma passagem pela Suécia. Não só trabalham muito menos horas que nós como também vão às redes sociais no horário de trabalho.
Voltemos então a uma das ideias iniciais, a do processo de auditoria à dívida externa da Grécia. Esta auditoria é fundamental para compreendermos de que maneira todo este processo está interligado, desde a campanha sobre as gorduras públicas, às sucessivas afirmações de que a segurança social não é sustentável (um debate para outro texto), à dívida pública resultante de “termos vivido acima das nossas possibilidades” (outra ideia puramente demagoga que se enraizou na cabeça dos europeus). Os resultados preliminares da auditoria foram já divulgados e Maria Lucia Fattorelli falou no parlamento grego, explicando o mecanismo que está por trás de todo o processo da dívida e da assistência financeira. Começou por agradecer aos seus colaboradores e em seguida passou à explicação. Vou transcrever o que por ela foi dito pois é a melhor forma de todos compreendermos como tem funcionado o resgate grego (e muito provavelmente o português e o irlandês).

“O primeiro passo de uma auditoria à dívida pública é a análise documental. Desde que cheguei à Grécia que me coloquei à inteira disposição da Comissão da Verdade e dediquei o meu tempo para ler todos os acordos que estão a regulamentar a dívida grega desde 2010. Eles são escritos de uma forma muito confusa, com uma sequência ilógica e algumas partes dos textos estão em falta. Quando comecei a sumarizar as ideias principais de cada parágrafo, alguns mecanismos começaram a surgir, como vos vou apresentar. Devo dizer que isto é um trabalho preliminar porque nos estamos  a basear em textos encontrados nas páginas oficiais. Até agora ainda não recebemos cópias dos acordos assinadas. No entanto as cópias disponíveis em páginas oficiais já mostraram os passos principais nestes acordos.
Todos sabem desde 2010 que os bancos foram os que foram socorridos, não a Grécia. A análise desses mecanismos mostra como isto foi feito. A análise desses mecanismos mostra como a maioria, quase todos os fundos emprestados foram directamente para os bancos, transferidos para instituições financeiras, em vez da Grécia. Os mecanismos usam ferramentas em formas complexas para esconder e obscurecer o real funcionamento e o real propósito dos acordos. Nos 15 minutos que tenho vou apenas dar-vos uma ideia dos mecanismos, mas eles serão melhor descritos no nosso relatório. [...] Espero que este trabalho seja útil para este parlamento e para o Governo Grego, especialmente neste tempo, para que enfrentem este sistema ilegal e ilegítimo que está a submeter a Grécia. [...]
O primeiro aspecto que devo salientar é que o conjunto de acordos não foi uma iniciativa do Governo Grego. Esses acordos foram criados, foram organizados pela Troika: a CE, o BCE, e o FMI. Eles não beneficiaram a Grécia, mas providenciaram as ferramentas para a geração de uma enorme dívida em favor de credores bilaterais, do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), além da criação de outros passivos e obrigações e custos abusivos. Todos os custos são transferidos para a Grécia. Aprofundaram a crise da dívida. Ao mesmo tempo, estes acordos, promoveram a aceleração do processo de privatização na Grécia e permitiram a transformação de activos públicos em meios de pagamento da dívida. [...]
O primeiro mecanismo que apresento está dentro do chamado Acordo Bilateral. O mecanismo encontrado no Acordo Bilateral foi escondido num anexo, onde nós encontramos outro acordo [...] Este novo acordo permitiu a transformação de um detentor de títulos numa das partes do acordo. Um detentor de título poderia receber os fundos emprestados pelos credores bilaterais: os 14 países europeus e um banco alemão, o KFW. Devemos salientar que a Alemanha não é parte dos acordos de empréstimos. O banco KFW é uma parte, em nome da Alemanha. Então, aplicando este mecanismo, o dinheiro emprestado pelos credores bilaterais não veio para a Grécia. Como pôde isto acontecer? O mecanismo usou uma conta aberta no BCE para processar os pagamentos relativos ao acordo. A data de recálculo coincidiu com o vencimento dos títulos da dívida pública fornecidos principalmente por bancos privados e o desembolso de um empréstimo pelos países. Antes do que eles chamam de data de balanço, todos os depósitos nesta conta do BCE puderam ir directamente para as novas partes do acordo, os detentores de títulos. Isto está muito escondido na cópia que encontramos deste acordo bilateral. Através deste mecanismo, os acordos de 2010 geraram dívidas bilaterais. Criar este mecanismo permitiu a transformação dos títulos em posse dos bancos em empréstimos bilaterais. A revelação deste mecanismo deita por terra o discurso de que contribuintes dos países europeus estão a financiar a Grécia! Não estão! Na realidade eles financiaram os bancos privados que compraram títulos de dívida existentes a valores bem reduzidos. As estatísticas gregas provam que houve uma completa transformação nos detentores da dívida pública: de cerca de 200 mil milhões de euros em títulos em 2010, para 227 mil milhões de euros em empréstimos em 2014.
Um outro conjunto de acordos chegou à Grécia em 2012, sob o Master Financial Assistance Facility Agreement (MFAFA) que complementa muitos acordos e muitos, muitos mecanismos. O credor destes acordos de 2012 é o FEEF. [O FEEF] É uma empresa privada, uma SA, sediada no Luxemburgo, criada em 2010 para garantir a estabilidade financeira na Europa. Porém, na realidade, o FEEF está a funcionar como um veículo especial que usa instrumentos de financiamento, papéis, garantidos pelos países europeus. Estes papéis com garantia acabam em bancos privados. Ao mesmo tempo os activos tóxicos que os bancos tinham estão a ser direccionados para o sector público. Nós vemos isso no balanço dos itens não classificados do Banco Central da Grécia.
A criação do FEEF foi uma imposição do FMI, que deu para suportar o FEEF um total de 250 mil milhões de euros. Isto seria ilegal mas o FMI alterou o seu próprio estatuto para permitir esta acção. O FEEF pode delegar a gestão de todas as actividades financiadas. O quadro de administração [do FEEF] pode delegar as suas funções. Os Estados Membros podem delegar decisões para os fiadores, para o grupo de trabalho Eurogrupo. Naquela altura este grupo de trabalho nem tinha um presidente a tempo integral. De facto, a Agência Alemã de Administração da Dívida está a dar suporte ao FEEF. Esta informação está na página oficial do FEEF. Apesar de o FEEF ser o maior credor da Grécia, em todos os mecanismo que investigamos, o FEEF não enviou dinheiro para a Grécia, mas sim papéis financeiros.
O primeiro mecanismo que apresento agora foi aplicado no Programa de Recapitalização de Instituições Financeiras. Este mecanismo utiliza o Fundo Helénico de Estabilidade Financeira (FHEF). É um fundo totalmente e puramente privado, criado por imposição do FMI em 2010 e para garantir o suporte a bancos privados na Grécia. [...] O mecanismo mostra como os empréstimos do FEEF beneficiaram os bancos. Começa com o FEEF emitindo instrumentos financeiros, negociados na bolsa do Luxemburgo, por exemplo, como nós podemos provar. O FEEF desembolsa o empréstimo entregando esses instrumentos financeiros ao FHEF através do Banco Central da Grécia. Os bancos privados gregos emitem um papel sem garantia, usando o nome de e o privado FHEF compra estes papéis usando os instrumentos financeiros recebidos do FEEF. A operação beneficia apenas e exclusivamente os bancos privados gregos, enquanto gera uma obrigação à Grécia com um novo empréstimo do FEEF gerado. Além disso, outras obrigações são criadas, porque o FHEF que é privado emite títulos e o Banco Central da Grécia paga os juros, as taxas e todos os custos ao FEEF.
Observe que os instrumentos emitidos pelo FEEF – papéis garantidos pelos países europeus – acabam ficando nos bancos privados quando o FHEF os usa para comprar Instrumentos dos Bancos Gregos. E estes Instrumentos dos Bancos Gregos sem garantia ficam para a Grécia.
A Grécia não obtém nenhum benefício, mas uma enorme perda. Pelo menos 48,2 mil milhões de euros foram recebidos pelo privado FHEF através deste mecanismo para ser aplicado na recapitalização e financiamento de bancos privados. Como pode este tipo de dívida ser sustentável? Uma dívida sem qualquer benefício para o país, que apenas passou pelo Banco Central da Grécia e pelo FHEF e serviu os bancos privados. Como pode a Grécia suportar isto? Como pode algum país suportar isto? Pagando em dinheiro não só o principal mas juros, taxas e outras obrigações que foram geradas.
Outro mecanismo foi aplicado no programa PSI (Programa do Sector Privado). O FEEF emite títulos de dívida do FEEF novamente. A operação é cofinanciada por bancos internacionais instruídos pelo banco Wilmington Trust London Limited. Eles emitem em nome da Grécia títulos internacionais com várias restrições legais, de forma a que estes títulos não possam ser negociados em nenhum mercado de acções legítimo. Estes não obedecem ao SEC [Security and Exchange Comission] e às regras internacionais para a emissão de títulos soberanos. É usado o nome de para estes títulos internacionais restritos que podem ser emitidos até um montante de 70 mil milhões de euros. Estes instrumentos, os instrumentos do FEEF e os títulos internacionais, são usados em conjunto para trocar por títulos da dívida já existentes dentro do programa PSI, gerando não só prejuízo financeiro para a Grécia, mas também uma nova dívida com o FEEF. É importante realçar que ao mesmo tempo que pequenos credores sofreram deságio [...] o PSI representou um enorme lucro para investidores internacionais.
Um outro mecanismo é sobre a recompra desses títulos internacionais com restrições. O Programa de Recompra [Buy-Back] foi sobre estes títulos internacionais com restrições. A Grécia comprou esses títulos de volta gerando mais dívida com o FEEF. E esta operação de recompra tem a participação do BCE. Assim, mais dívida foi gerada com o BCE através deste mecanismo. Através deste mecanismo a dívida também adoptou um curso de expansão automática, porque os acordos preveem a rolagem, o refinanciamento, a renovação e a reciclagem das operações anteriores. A que interesses este mecanismo serve? Novamente, apenas ao sector privado.
Como eu disse, os acordos também aceleram o processo de privatização. Nós sabemos que a aquisição de activos estratégicos e de empresas públicas lucrativas foi sempre o principal objectivo da elite do sector privado. Esse objectivo foi satisfeito pelo sistema de dívida, que funciona não só como a justificação para obrigar à venda de património público para pagar dívida, mas, esse acordo de 2012 autorizou empresas especiais, ou fundos, a emitir títulos de securitização, um papel. E estes papéis, os títulos de securitização, estão a ser usados não só para acelerar o processo de privatização mas também para pagar dívida ao FEEF. Deste modo, a dívida ao FEEF gerada através deste mecanismo ilegítimo, está a ser paga com activos públicos gregos.
[...] uma outra estrutura, criada por determinação do Memorando, o Fundo de Desenvolvimento da República Helénica (FDRH). Este não tem qualquer transparência na sua página. Mas nós conseguimos descobrir que os títulos de securitização são estruturados sobre a participação de empresas, terras e edifícios  públicos, direitos sobre armazenamento de gás natural, direitos económicos, direito ao voto, ou qualquer outro activo que possa ser privatizado. Assim, no final de contas, os títulos de securitização aceleraram o processo de privatização e os activos do Estado Grego foram transformados num método de pagamento ao FEEF.
Depois de analisar os mecanismos inseridos nos acordos o que realmente ganha a Grécia? Esta é a questão: o que realmente ganha a Grécia? A Grécia não beneficiou desses acordos. Eles servem, interessam, o sector privado. Eles geraram uma dívida actual extraordinária de 183 mil milhões de euros com os credores bilaterais e FEEF, além de terem criado outros passivos, outros custos abusivos e acelerar o processo de privatização. Eles submeteram a Grécia a cláusulas abusivas sob legislação inglesa, sob os tribunais ingleses, onde a Constituição Grega não tem valor, não é considerada. Eles representam humilhação e perda de soberania. Um tremendo prejuízo para a Grécia e sua população devido a um custo imensurável, submetendo um país que representa tanto para a Humanidade. A Grécia contou com uma assessoria privada para esta negociação desastrosa. Os acordos obrigavam a que a Grécia contratasse uma assessora jurídica privada, que foi a Clearly, Gottlieb Steen & Hamilton. Esta empresa é muito conhecida na América Latina, pela transformação de dívida externa odiosa e prescrita em novos títulos de dívida sob o Plano Brady. Este Plano Brady representou um desastre para muitos países latinoamericanos, como ficou provado durante a Auditoria Oficial à Dívida Externa no Equador e na Comissão Parlamentar de Inquérito da Dívida no Brasil. Estas descobertas preliminares demonstram a importância de aprofundar estas investigações e os procedimentos de auditoria sobre estes mecanismos. Nós devemos denunciar este sistema de dívida. Já fomos explorados o suficiente pelo sector financeiro nacional e internacional, submetendo os nossos países e os nossos povos. É altura da verdade prevalecer. O tempo de por os direitos humanos, a democracia e os valores éticos à frente de todos os interesses de menor valor. E essa tarefa é uma tarefa Grega. Eu ofereço este trabalho para vocês. Obrigado.”

O discurso de Maria Lucia Fattorelli vem colocar luz no trabalho que sem sido desenvolvido pelo sector financeiro europeu e internacional com o apoio da comunidade política europeia, seja ela a CE, o PE, o Eurogrupo ou os governos dos diversos Estados Membros. E este apoio, esta conivência, é geral. O partido actualmente no poder na Grécia, o Syriza, que não só encomendou esta auditoria como tem um acesso privilegiado à mesma, não parece disposto a denunciar e rasgar os acordos. Parece estar no caminho de cedência às exigências da Troika. Bem sei que assumir o papel do revolucionário que grita basta sozinho é um papel duro e ingrato. Bem sei que significaria um longo período negro para o povo grego. Não que o actual futuro seja risonho, mas talvez o de gritar basta seja um pouco mais duro. Mas só o é porque a Grécia iria sozinha. Infelizmente não se vislumbra nos restantes países, em especial Irlanda, Portugal, Espanha e Itália um movimento cidadão que contamine a política ao ponto de gritarmos todos juntos basta. E só se nos uníssemos seríamos capazes de travar o perigoso caminho que temos percorrido nos últimos anos.


Referências

O Nosso Mundo Europeu, também da minha autoria, janeiro de 2015 (quem quiser peça)

OCDE employment Outlook 2015

Reportagem de Tom Staal sobre Parlamento Europeu

Intervenção no PE de Guy Verhofstadt

Discurso de Maria Lucia Fattorelli

Sánchez, A.M., Bermejo, L.R. 2006. Innovation and R&D in public sector: modernisation and performance. Ecuentro de Economía Pública, Almería, February 2006.


Boyle, R. 2014. Public Sector Trends 2014. State of the Public Service Series. Institute of Public Administration, 15, 5-55