segunda-feira, novembro 16, 2015

Arrepiante, da esquerda à direita!

Pedro Passos Coelho, líder do governo defunto, levantou-se e, em tom de sugestão, pediu uma revisão da constituição! Qual criancinha mimada que perdeu o jogo, fez birra e quis mudar as regras para poder ganhar, Passos voltou a deixar cair a democracia para lutar por um poder mais absoluto para o arco governativo. O que o quase ex-Primeiro Ministro reclamou devia arrepiar até os mais extremistas da direita. Devia arrepiar a direita da mesma forma como arrepiou a esquerda.
Já por várias vezes o senhor que liderou o governo português nos últimos 4 anos havia tido momentos de cegueira democrática. Basta lembrar as vezes que culpou o Tribunal Constitucional pelo sofrimento da classe média portuguesa, tendo encontrado sempre um enorme apoio nos discursos, recheados de autoritarismo, do decano Presidente da República. Faça-se justiça, pois apesar da ideia de que Passos e Cavaco não dão para amigos, fizeram uma dupla bem oleada, diria que quase na perfeição, com a mira sempre nos direitos fundamentais da democracia.
Foram dias de gritos e alertas, chamando golpe de estado à união da esquerda. Avisando, apontando de dedo hirto, que os mercados iriam responder, levando Portugal a mais um resgate caso a esquerda fosse governo (lá lhes caiu a ficha do que hoje é cada vez mais apelidado de ditadura do capital). Disse o PSD e o CDS que a esquerda não tinha direito legítimo de governar, que tudo era apenas e só uma mostra de estarem agarrados ao poder. Mais uma vez Passos Coelho e Cª esqueceram os valores da democracia portuguesa, da República de Portugal, que é uma república parlamentar. Isto significa que um governo terá de ter o apoio da Assembleia da República. Ter a maior percentagem dos votos no sufrágio não chega. A esquerda não fez nenhum golpe de estado. Tal como o PSD e o CDS se uniram, coligaram, para ter uma maioria parlamentar, o PS, BE, PCP e PAN uniram-se com o mesmo fim. E porquê? Porque a coligação Portugal à Frente não obteve maioria parlamentar, nem perto disso.
Numa república parlamentar existem vários cenários possíveis após o sufrágio (onde se lê partido pode ler-se também coligação): 1) um partido vence com maioria absoluta e como tal tem maioria parlamentar, podendo desta forma exercer o seu mandato governativo; 2) ninguém vence com maioria absoluta e então existem dois cenários possíveis: i) o programa de governo apresentado pelo partido com mais votos não é chumbado pela maioria parlamentar e existe espaço para que o partido que tem uma maioria relativa governe (mas sempre sujeito a uma moção de censura); ii) o programa de governo apresentado pelo partido que tem a maioria relativa é chumbado pela maioria parlamentar e como tal este partido não tem condições para governar e, inevitavelmente, terá de sair do governo. Se acontecer este último cenário existem novamente duas possibilidades: uma é a realização de novas eleições, a outra é existir um programa de governo de outro partido que obtém apoio da maioria parlamentar. Isto não é um golpe de estado! Isto não é antidemocrático! Isto não é sinónimo de querer o poder! Isto são as regras de uma democracia parlamentar. E ainda bem que assim são. Permite que na Assembleia da República exista liberdade e exista uma representatividade mais fiel do voto do povo. Há 4 anos venceu a maioria que votou no PSD e no CDS. Agora vence a maioria que votou na esquerda.
Que votou na esquerda... expressão curiosa. Parece que já ninguém sabe o que é esquerda.
O BE e o PCP serem colocados na esquerda política parece-me que ainda corresponde de algum modo à real orientação destes partidos. Mas riu-me sempre que oiço o conceito de esquerda associado ao PS. Muito embora se chame Partido Socialista, o PS só é esquerda para aqueles que sofrem de estrabismo ideológico. O próximo governo de Portugal não será um governo de esquerda. Será um governo daquilo a que se convencionou chamar de centro, apoiado (veremos até onde e quando) pela esquerda.
Em suma. Não está a ocorrer nem um golpe de estado nem uma violação da democracia em Portugal. Em Portugal está a ocorrer um acto normal de uma democracia parlamentar saudável, que deverá deixar os portugueses algo estranhos apenas pela raridade do mesmo. Mas este é um acontecimento que mostra que em Portugal, nalgumas coisinhas, a democracia até está mais saudável. Pena que um momento marcante da democracia portuguesa seja manchado por tentativas repulsivas de ludibriar os portugueses e forçar o desejo de diminuir a democracia em Portugal.

(aos mais patetas, gostaria de dizer que não sou um fã do governo que aí vem. Não votei PS nem acredito que seja a salvação, muito embora tenha esperança que seja melhor que o anterior governo. Mas o facto de não ser fã não pode, de forma alguma, fazer-me esquecer as regras da democracia e de uma república parlamentar. Em momento algum devemos colocar de lado a liberdade ou ignorar a lei, como sugeriu Pedro Passos Coelho por mais que uma vez durante o seu tempo como Primeiro Ministro como solução para o país, nas suas célebres tentativas de fazer esquecer a constituição, mesmo que temporariamente, para poder implementar determinadas medidas. Como se a constituição fosse uma mera carta, uma mera sugestão de princípios.)


Na escrita deste texto surgiu-me uma reflexão, que deixo aqui.


A liberdade é um direito, que todos devemos exercer. Um direito de cada cidadão e que jamais deverá ser posto em causa. Mas quando no exercício da nossa liberdade procuramos um caminho para restringi-la, se na minha liberdade de opinião e acção procurar criar formas de reduzir a liberdade do próximo, será que esta minha liberdade deverá ser preservada? Ou seja, não terá a liberdade de um o seu final no momento em que o seu intuito é limitar a liberdade do outro?