sábado, dezembro 13, 2008

E ninguém diz nada!!!

Anda tudo doido! O governo salva o Banco Privado, o Almeida Santos diz que não devia haver votações no parlamento à sexta feira à tarde e os sindicatos são liderados por gente que não conhece a profissão!
O Banco Privado não é uma banco convencional. Não se trata de um banco em que o cidadão comum deposita o seu ordenado, faz as suas contas poupança e contrai os seus empréstimos para a habitação ou para a universidade dos filhos. Não. Nada disso. O Banco Privado é um banco unicamente de investimentos. Sem balcões, sem exposição nas ruas e avenidas, desde que se tenha um mínimo de 100 000€ é possível entregar este dinheiro ao Banco Privado para que este invista o dinheiro. Ou seja, é uma espécie de corrector da bolsa mas com um nome de banco. Por que razão deveremos todos nós salvar este "banco"? Talvez de agora em diante se o Berardo perder uns milhões na bolsa venham buscar ao bolso do contribuínte o necessário para o salvar. Talvez devessemos começar a compensar as quedas do PSI-20 e doar às empresas cotadas na bolsa de Lisboa todo o valor que percam em cada sessão!!!
O sr. Almeida Santos tem alguma desculpa, ao contrário do governo, dada a sua idade e possível estado de senilidade. Ora bem, de acordo com este ex-presidente do Parlamento "não se paga aos deputados o suficiente para eles serem todos apenas deputados", e continua, "um advogado se tem um julgamento não pode estar na assembleia e no julgamento ao mesmo tempo", e se ainda não chegasse, as suas declarações vão mais longe ainda, ora vejamos, "há justificações para as faltas...é verdade que a sexta feira é em si própria uma justificação porque é a véspera do fim de semana, eu compreendo isso", FANTÁSTICO!!! E termina com, "o que talvez seja errado é que as votações sejam à sexta feira." LINDO!!! Afinal ser deputado é um direito e não um dever. Afinal parece que eles são eleitos mas não queriam e por isso queixam-se das condições depluráveis e a cheirar a escravatura que têm. Afinal ser deputado não é um trabalho mas sim um titulo que o povo atribuí a uns pobres coitados que nem queriam estar ali e assim vêem-se forçados a faltar ao trabalho para cumprir o seu outro trabalho que é na verdade o seu ganha pão, porque os deputados ganham mal. Gostaria de saber se um desses advogados que são deputados também usa como justificação para adiar um julgamento o facto deste ter sido marcado para sexta feira à tarde...?!?!?! Pelo amor de Deus...
Por fim não esqueçamos os sindicatos, em especial o dos professores, ou melhor, os dos professores, que tão na ribalta têm andado. Estes sindicatos são presididos e compostos por pessoas que não exercem a actividade de professor, em muitos casos, há mais de 20 anos. Ora se não sabem o que é uma sala de aula como saberão os problemas actuais que nela se vivem? Se não trabalham numa escola há 20 anos como sabem como ela funciona agora? Não sabem. O que eles sabem é que se não existirem lutas sindicais o seu posto de trabalho não tem qualquer função activa e indispensável pelo que se torna imperativo que existam lutas sindicais frequentes. Infelizmente para agravar a situação quem paga este comportamento lascivo e vergonhoso são os alunos e os pais dos alunos. Em última análise somos também todos nós já que como se trata de um sindicato da função pública é o contribuínte que lhes paga o ordenado. Tudo de acordo desde que um sindicato de professores não tenha mais de 2000 parasitas que não fazem rigorasamente nada a não ser garantir o seu posto inútil.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Liberdade de expressão???

Segue-se um texto de Eugénio Queirós (jornalista do Record) publicado no seu blog pessoal. Certamente que todos temos direito às nossas ideias e opiniões. Não somos obrigados a ter todos a mesma visão. Mas as nossas opiniões tal como a nossa liberdade de expressão tem de ter algumas regras e padrões bem definidos. O desrespeito pelo próximo é sem dúvida uma das regras fundamentais a preservar para que a liberdade de expressão possa ter toda a sua potência livre e se possa assim desenvolver e ecoar por todo e qualquer meio de comunicação existente entre todos nós. Tal como não toleramos opiniões racistas ou xenófobas, tal como condenamos os ideais que levaram ao Holocausto, ao genocídio do Ruanda ou à destruição da Amazónia, temos o dever de condenar severa e justamente as ideias expressas por este dito jornalista mas que na realidade não passa de um ser mesquinho, repugnante e seguramente com algum trauma psicológico de extrema gravidade.
"PARA QUÊ?" (por Eugénio Queirós)

"De 4 em 4 anos, a seguir aos Jogos Olímpicos, lá vem a história dos Paralímpicos. O pessoal com "handicap" (físico ou mental) aproveita as instalações desportivas olímpicas e vai também à caça à medalha. O Mundo considera isto um acontecimento! Mas não é. Quando muito é uma boa ideia que sobretudo serve de motivação a quem nasceu e cresceu com problemas. De aí até fazer dos Jogos Paralímpicos um acontecimento, com páginas de jornal, vai uma grande distância. A não ser pelo bizarro da coisa... Só consigo encontrar uma explicação para isto: os "eficientes" justificam a sua geral indiferença pelos "outros" com este tipo de paternalismo. A treta do costume. O desporto de alta competição nada tem a ver com esta espécie de ATL com cães-guias, próteses da Puma e jogos de salão...
PS - Presente em Pequim, Laurentino Dias considerou a conquista de uma medalha de ouro em Boccia (?????????) "o momento mais bonito do meu mandato". Ok, já sabíamos que não está a ser um grande mandato - o que não sabíamos é que ia assim tão mal..."
Penso que após a leitura deste texto tão grandioso para o futuro dos nossos ideais só podemos propor que este senhor deixe de ser jornalista e passe a fazer conferências por todas as escolas primárias, preparatórias e secundárias do país de forma a garantirmos que as nossas crianças cresçam recheadas de valores e princípios que seguramente farão deste país um grande país no futuro!
Honestamente penso que este senhor devia ser proíbido de escrever, falar ou transmitir as suas verdades de qualquer outra forma possível.
Sinto-me triste por saber que ele chegou a jornalista...

E se Obama fosse africano?

"Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia."
MIA COUTO
Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008

sábado, junho 21, 2008

Excertos de um livro:

"A Fórmula de Deus" de José Rodrigues dos Santos

Tomei a liberdade de colocar aqui neste blogue dois excertos deste livro que me surpreendeu bastante. Talvez com estes excertos a questão que coloco no topo do blogue seja melhor compreendida.

1º excerto:

“[...] É verdade que as leis do universo têm os atributos que nós geralmente relacionamos com Deus, mas isso acontece por razões naturais, não por razões sobrenaturais.”
“As leis do universo têm esses atributos porque é essa a sua natureza. Por exemplo, elas são absolutas porque não dependem de nada, afectam os estados físicos mas não são afectadas por eles. São eternas porque não mudam com o tempo, eram as mesmas do passado e continuarão certamente a ser as mesmas no futuro. São omnipotentes porque nada lhes escapa, exercem a sua força em tudo o que existe. São omnipresentes porque se encontram em qualquer parte do universo, não há umas leis que se aplicam aqui e outras diferentes que se aplicam ali. E são omniscientes porque exercem automaticamente a sua força, não precisam que os sistemas as informem da sua existência.”
[...]
“A origem das leis do universo constitui um grande mistério. É verdade que essas leis têm todos os atributos que normalmente nós conferimos a Deus [...] Mas, atenção, o facto de não conhecermos a sua origem não implica necessariamente que elas provenham do sobrenatural. [...] usamos o sobrenatural para explicar o que ainda não sabemos, mas que tem explicação natural. Se usarmos o sobrenatural de cada vez que não sabemos algo, estamos a recorrer ao Deus-das-lacunas. Daqui a algum tempo descobrir-se-á a verdadeira causa e nós fazemos figura de parvos. A Igreja, por exemplo, fartou-se de usar o Deus-das-lacunas para explicar coisas que antigamente não tinham explicação, e depois sofreu o enorme embaraço de ter de se desdizer quando foram feitas descobertas que desmentiam a explicação divina. Copérnico, Galileu, Newton e Darwin são os casos mais conhecidos. [...] existe um determinado número de propriedades do universo que me impedem de afirmar liminarmente que Deus não existe. A questão da origem das leis fundamentais é uma delas. A sua existência serve para nos lembrar que se esconde um grande mistério por detrás do universo.”


2º excerto:

“Mas os gafanhotos são máquinas naturais. Os computadores são máquinas artificiais.” [...]
“Olha ali para as aves. Os ninhos que eles constroem nas árvores são naturais ou artificiais?”
[...]
“São naturais, claro.”
[...]
“Então tudo o que o homem faz também é natural. Nós, que temos um conceito antropocêntrico da natureza, é que dividimos tudo entre coisas naturais e coisas artificiais, sendo que definimos que as artificiais são feitas pelos homens e as naturais feitas pela natureza, pelas plantas e pelos animais. Mas isso é uma convenção humana. A verdade é que, se o homem é um animal, tal como as aves, então é uma criatura natural, certo?”
[...]
“Sendo uma criatura natural, tudo o que ele faz é natural. Logo, as suas criações são naturais, da mesma maneira que o ninho feito pelas aves é uma coisa natural.” [...] “O que eu quero dizer é que tudo na natureza é natural. Se o homem é um produto da natureza, então tudo o que ele faz também é natural. Apenas por uma convenção de linguagem se estabeleceu que os objectos que ele cria são artificiais, quando, na verdade, são tão naturais quanto os objectos que as aves criam. Logo, sendo criações de um animal natural, os computadores, tais como os ninhos, são naturais.”

segunda-feira, maio 19, 2008

A Empresa Humana

Os combustíveis fósseis, o gás natural, o petróleo... As matérias primas, as florestas, a madeira... Em todo o lado parece que as lições nunca se aprendem bem. Ou talvez nunca são bem ensinadas. Talvez fosse mais importante esclarecer esta dúvida antes de mais. Será que somos burros ou temos maus mestres? Seremos todos maus aprendizes? Teremos escolhido como mestres Homens tão incompetentes? Penso que a resposta será ambos. Tanto somos maus aprendizes como somos maus mestres. As gerações passam e o processo não se altera. Os mestres de hoje foram antes os aprendizes e claro...não podem ser bons mestres se antes foram maus aprendizes nas mãos de maus mestres.
O ser humano, este magnífico ser vivo que evoluíu no 4º planeta do sistema solar parece ser bem mais limitado e bem menos evoluído do que se gaba de ser. No seu antropocentrismo secular impôs-se sempre como o ser dominante do nosso mundo. Deu-se mesmo a este luxo! Chamar a esta esfera da Via Láctea - Nosso Mundo. Claramente nesta visão antropocêntrica deixou de parte a autocrítica. É sempre muito mais fácil e bonito inaltecer-nos do que olhar no espelho e ver a verdade. E a verdade é que não somos nem o ser supremo que tanto gostamos de dizer que somos mas também não somos as bestas incapazes que sistematicamente demonstramos ser.
A nossa espécie pode realmente gabar-se de ter um sistema de aprendizagem e transmissão da mesma único. Somos capazes de aprender ao ponto de explicar aquilo que parece ser inexplicável. Somos capazes de modificar o que nos rodeia de modo a adequá-lo às nossas necessidades, somos capazes de desenvolver meios de captura de alimento complexos, podemos criar energia e viver durante a noite apesar de não estarmos naturalmente adaptados a vida nocturna. No entanto distanciamo-nos essencialmente dos restantes seres vivos não por tudo isto mas por uma característica muito peculiar: não temos como objectivo a perpetuação da espécie. Enquanto qualquer ser vivo tem uma missão especial bem definida que passa pela perpetuação dos seus genes, perpetuando a sua espécie e lutando por isso em toda a sua vida, nós, o ser humano, não o faz. E não o faz porque simplesmente foi evoluíndo e transformando a sua sociedade de forma individual. Ou seja, o antropocentrismo deu lugar ao individualismo. Hoje temos quem não queira ter filhos por questões profissionais... algo que é do ponto de vista natural, biológico difícil de esclarecer. Para quem queira questionar isto deixem-me tentar explicar este ponto de vista.
Nós, enquanto espécie e ser social exploramos os recursos que o "nosso" planeta disponibiliza. Exploramos para nosso conforto, bem estar, sobrevivência, lazer, etc. Mas exploramos de forma insustentável. Enquanto qualquer espécie procura alternativas quando um recurso começa a escassear (sejam elas a migração ou a procura de outro recurso) o ser humano parece não compreender o conceito de recurso limitado e insiste em explorá-lo até não ser possível explorar mais. Os exemplos são dos mais variados, desde a utilização de terras na agricultura até à sua total exaustão, caça e pescas excessivas até à extinção ou ruptura dos stocks, exploração de combustíveis fósseis até ao seu limite. A aprendizagem social parece necessitar da ajuda daqueles peritos em educação especial porque por vezes parece que não passamos de um bando de pessoas com graves problemas cognitivos.
As alternativas aos combustíveis fósseis são inúmeras e muitas delas não são recentes. No entanto nós deixamo-las na gaveta como se costuma dizer. Continuamos com o mesmo estilo de vida que sabemos que é insustentável. Desflorestação, contaminação ambiental em níveis astronómicos, exploração das reservas petrolíferas sem limites. Pelo caminho falamos de globalização como se fosse a união dos povos e a unificação do mundo mas na verdade é só o enriquecimento da minoria por meio da exploração da maioria. Falamos na privatização como o caminho do futuro mas socialmente somos tudo menos uma empresa privada gerida de forma sustentável, de forma a poder crescer, expandir e sobreviver.
Qualquer empresa que tenha a sua linha de acção como a da sociedade humana vai à falência nos primeiros tempos. Qual é a empresa que esgota os seus recursos impedindo-a de produzir e levar ao seu público o seu produto? Nenhuma. As que o fazem são chamadas de gestão incompetente ou danosa, podem até incorrer violações da Lei. Mas estes mesmos princípios não se aplicam à sociedade humana. Nós insistimos em esgotar os recursos que nos permitem receber os bens que produzimos. No fundo é como uma pastelaria que esgota toda a farinha do mundo...e depois? Faz bolos com o quê? Depois fecha a porta e declara falência porque não tem como produzir.
A nossa sociedade inventou um recurso novo: o dinheiro! Este recurso permite tudo mas não dá nada. Ninguem come dinheiro. Ninguem respira dinheiro. Ninguem se cura com dinheiro. Lamento mas não serve mesmo para nada disso. No entanto tem um efeito hipnotizador sobre todos e todos o queremos. Vivemos em função dele porque ele permite que façamos muitas das coisas que gostariamos de fazer. O problema ocorre quando vivemos para ele. Na realidade a sociedade humana vive para perpetuar o dinheiro e não a si própria. Se não for este o objectivo como poderemos justificar a contínua utilização de combustíveis fósseis? Ou a contínua sobreexploração das florestas e dos recursos aquáticos? Ou a contínua contaminação dos recursos naturais para reduzir custos de operação? Sinceramente tudo isto me parece lógico se o objectivo for perpetuar o dinheiro. Agora se o objectivo (como seria naturalmente de esperar) for pertuar-nos, a nós enquanto espécie, então estamos claramente no caminho errado.
A revolução industrial ensinou-nos pouco enquanto espécie mas muito enquanto capital. Digo-o porque os erros cometidos então continuam a ocorrer hoje. Fábricas sem controlo de resíduos, indústrias sem cuidados de produção e empresas sem preocupações ambientais é o que mais abunda nesse mundo fora. A revolução química podia ter mostrado que tinhamos aprendido algo mas como já vimos tal não aconteceu. Serviu para decobrir inúmeras coisas que hoje melhoram as nossas condições de vida (ainda que nalgumas essa melhoria das condições seja questionável, tal como os tupperwares...). No entanto foi levada com total leviandade para com o meio ambiente e teve (e continua a ter) consequências graves. Hoje a problemática centra-se nos combustíveis fósseis, energias renováveis, organismos geneticamente modificados (OGM) e produção de proteína animal de baixo custo. As energias renováveis são na realidade uma fachada. Embora sejam diversas as alternativas poucas são as usadas e são-no a curta escala, apesar da publicidade. Os OGMs são mal estudados e pouco se sabe sobre o seu efeito tanto no Homem como no meio ambiente no entanto a sua viabilidade económica é extremamente vantajosa pelo que são cada vez mais produzidos, independentemente do que poderão causar no futuro. A aquacultura é hoje uma indústria em expansão e felizmente neste caso os cuidados ambientais têm sido superiores, não escapando algumas falhas claro. Mas estes cuidados maiores devem-se a factores de ordem política e de ordem científica. Por um lado a aquacultura, em especial na Europa e na América está na mão de técnicos qualificados (biólogos e outros) o que leva, em geral, a maiores cuidados ambientais e de qualidade do produto para o bem estar humano. Por outro lado em termos políticos a aquacultura tem de ser gerida de forma delicada de modo a não inviabilizar milhares de postos de trabalho que estão na realidade já condenados a médio prazo - os pescadores.
Qualquer empresa que fosse gerida deste modo já teria falido!
Mas nós continuamos a actuar assim porque somos aprendizes incapazes de mestres incompetentes. Não mudámos este comportamento ao longo da história ainda que nos últimos anos pareça que alguns aprendizes resolveram ouvir mais o que se vê e ligar menos ao que os nossos mestres tanto pregam. A corrente parece estar a mudar um pouco mas ainda é tudo muito ténue.
De qualquer modo de uma coisa poderemos estar seguros. O nosso modo de vida perpetuará sem qualquer dúvida duas coisas: as nossas bem e mal amadas bactérias (essenciais à vida) e o nosso venerado dinheiro (essencial a...nada)

quarta-feira, abril 30, 2008

A World Wildlife Foundation em Moçambique

Correndo o risco de me repetir em alguns aspectos, coloco este texto que se centra apenas na WWF. O texto sobre Bazaruto aborda algumas questões que aqui também surgem, no entanto aqui estão um pouco mais desenvolvidas.

O exlíbris da WWF em Moçambique, o programa “Dugongos precisam-se vivos”, é apenas mais uma das grandes vergonhas de uma ONG mundial. 20 anos de trabalho, 20 anos de trabalho publicitado. Produção: 2 folhetos e 1 poster!!!
A WWF apresenta-se neste programa para proteger o Dugongo dentro da Reserva do Bazaruto. Para tal, este gigante da protecção ambiental propõe 5 objectivos nos seus folhetos:

· Investigação de algumas áreas de ocorrência, distribuição e abundância;
· Mapeamento do habitat;
· Estudo das suas rotas migratórias e uso dos seus habitats;
· Estabelecer áreas-chave do seu habitat para proteger as ervas marinhas de impactos directos e proibir a pesca de arrasto em habitats críticos do Dugongo;
· Promoção de campanhas de educação e sensibilização às comunidades locais e à sociedade no geral sobre a importância biológica e ecológica e do grande valor desta espécie como uma atracção para o ecoturismo.

Sobre a investigação, mapeamento e estudo de rotas migratórias é notório que não foi feito nada em 20 anos. Não existem artigos, livros ou qualquer outro tipo de publicações até hoje promovidas pela WWF.
Áreas-chave para protecção...bom este caso é bastante mais interessante já que as áreas dizem respeito à zona da reserva que, ao que parece, nem é a zona com maior incidência de Dugongos. Essa zona encontra-se junto ao Cabo São Sebastião que não beneficia de nenhuma protecção activa. Nesta zona os Dugongos são protegidos apenas pela multa prevista na lei (150000 meticais – 4000€). A proibição de pesca do arrasto dá vontade de rir. Não existe pesca de arrasto como aquela que conhecemos na Europa. Aqui a pesca de arrasto existente é feita junto à costa com redes que podem atingir os 3km e que são puxadas desde a areia pelos pescadores. O problema é que esta pesca é considerada artesanal pelo que não pode ser proibida. O resultado é que a vida junto às praias é inexistente. A baía de Vilanculos, em tempos rica em peixes, ervas marinhas, pequenos recifes, crustáceos encontra-se hoje em dia nua, desprovida da abundância de vida de outros tempos devido à pesca artesanal excessiva e não controlada e devido a outro factor, pouco abordado pelas autoridades e organizações locais (provavelmente devido à aposta no turismo), que é a poluição da baía.
Sobre as acções de educação e sensibilização...não poderei falar sobre isso porque não conheço nenhum projecto da WWF aqui em Vilanculos dirigido a este propósito.
A WWF tem a responsabilidade e obrigação, porque a isso se propõe e se oferece e para isso recebe milhões de euros em fundos e financiamentos, de controlar as pescas, verificando as quantidades e identificando as espécies capaturadas, de controlar os efeitos da pesca sobre o ecossistema, de definir regras e propor legislação para protecção desta zona costeira e do arquipélago e de estudar na realidade todos os ecossistemas da reserva e zonas adjacentes.
Infelizmente a WWF não só não faz nenhum destes trabalhos como na realidade não faz qualquer outro. Limita-se a receber fundos para dizer que determinadas zonas são interditas e totalmente protegidas, mas depois não tem qualquer barco para efectuar o controlo das áreas por eles delimitadas. Não tem qualquer pessoa a controlar pescas ou estudar migrações ou catalogar espécies. Tem um escritório com meia dúzia de pessoas contratadas que não fazem qualquer trabalho para além de gerir fundos e desenhar folhetos turísticos que enaltecem o trabalho virtual e fantasma da WWF. Em troca o representante desta fantástica organização vive abastadamente.Mas não pensem as pessoas que isto é porque é África, ou porque é Moçambique. Não. Isto é a WWF em todo o mundo, em especial em qualquer sítio onde lhes dêem liberdade para funcionar assim. Talvez por isso aconteça mais em África, Ásia e América do Sul.

Bazaruto - paraíso em extinção?

Durante a minha estadia em Vilanculos fui observando diariamente as práticas de pesca locais, atendendo não só à técnica utilizada mas também ao comportamento dos pescadores em questão.
Ao caminharmos pela baía de Vilanculos não podemos deixar de reparar nos montes de ervas marinhas na areia. Todos os dias os montes aumentam. Todos os dias a quantidade destas plantas aumenta pela praia. Isto ocorre devido à técnica de pesca aqui utilizada. Os pescadores lançam uma rede (que pode ir até aos 3km) a partir da praia e em seguida puxam tudo para a areia. Quem conhece esta zona sabe bem como as praias são de baixo declive, vendo-se isso de forma extraordinária (e sentindo também quando somos meros banhistas) durante a baixa-mar. No entanto o espectáculo da baixa-mar é devastador, mostrando um cenário de deserto marinho.
Ora o que se verifica é que este estilo de pesca promove a remoção de tudo quanto exista junto ao fundo já que as redes são puxadas da praia, literalmente varrendo todo o substrato por onde passam. Esta acção é a responsável pelos montes de ervas marinhas secas na praia. No entanto, como se não bastasse esta intervenção extremamente negativa para o meio ambiente, o comportamento dos pescadores revela-se ainda mais catastrófico, na medida em que qualquer peixe capturado que não seja de interesse comercial é atirado para a praia e não devolvido ao mar. Este comportamento é deveras lamentável, não só para o ecossistema marinho da zona de Vilanculos e Bazaruto mas também para o próprio futuro dos pescadores, já que a maioria dos peixes deixados na areia são juvenis que não têm interesse comercial apenas devido ao seu tamanho e não à espécie a que pertencem.
Além do comportamento dos pescadores existe ainda a descarga de resíduos na baía de Vilanculos. Esta descarga é efectuada na zona Sul. Ora como a corrente percorre a baía, contornando-a no sentido Sul - Norte, toda a baía recebe este fluxo de poluentes que vai deixando a sua marca. Areias negras com cheiro a decomposição são já frequentes. Os mangais ao longo da baía vão morrendo a uma velocidade vertiginosa.
Este tipo de pesca e de acções continuadas ao longo do tempo levou à destruição do ambiente marinho costeiro da baía de Vilanculos. Os corais, pequenos recifes, mantos de ervas marinhas, tudo isso desapareceu da baía. O impacto no ecossistema marinho local é considerável e é de esperar que o recrutamento seja severamente afectado em diversas espécies. O dugongo é uma das espécies fortemente afectada por estes acontecimentos já que vê o seu alimento ser reduzido drasticamente.
A WWF que tem um escritório em Vilanculos e que recebe os seus fundos para, supostamente, proteger o dugongo nada fez nos quase 20 anos de duração do seu projecto. Infelizmente os únicos dados que a WWF tem para mostrar são 3 ou 4 folhetos e um poster. Ainda que seja do conhecimento geral que o funcionamento de muitas ONGs seja no mínimo duvidoso, não deixa de ser lamentável que tal ocorra e mais ainda, não devemos apenas por ser norma fechar os olhos a tais ocorrências.
Mas parece que esta reflexão se centra apenas na protecção do meio ambiente esquecendo as necessidades da população local e dos interesses económicos locais. Tal não estará mais longe da verdade. Tendo em conta que Vilanculos é uma zona que aposta fortemente no turismo, sendo este turismo direccionado ao ecoturismo marinho, parece-me que será de toda a importância e interesse proteger esse mesmo ambiente. O turismo de Vilanculos e do arquipélago de Bazaruto centra a sua procura nas actividades aquáticas, principalmente no mergulho e na pesca desportiva. Se não existir protecção activa e eficiente é provável que este tipo de turismo se torne impraticável dentro de poucas décadas. Torna-se assim necessário desenvolver um projecto de estudo sério que incida sobre toda a baía e o arquipélago e que abranja desde os efeitos antropológicos ao estudo das comunidades e populações mairnhas. É necessário olhar para este local e conseguir compreender que é uma mais valia para todos a sua conservação. Numa reunião com o Professor Almeida Guissamulo (Faculdade de Biologia e Museu de História Natural de Moçambique) senti algum consolo ao inteirar-me de que também ele se encontra familiarizado com o problema e que também ele tem vontade de agir, procurando corrigir estes erros grosseiros que dia após dia vão extirpando aquela baía paradisíca e aquele Parque Nacional de importância ecológica inclassificável.
Os projectos na área do turismo, como a construção de lodges são muito importantes para o desenvolvimento económico da zona, promovendo novos postos de trabalho e trazendo benefícios à população local. A recuperação do dugongo, a protecção às tratarugas marinhas, a manutenção dos recifes de coral são objectivos que têm de imperar em qualquer projecto de desenvolvimento turístico para Vilanculos e para o arquipélago de Bazaruto. Caso contrário estaremos a falar de investimento para 10, 20 talvez 30 anos porque depois pouco haverá para cortejar os turistas. Enganem-se aqueles que acreditam que alguem virá a Vilanculos apenas pelas praias e pelo clima. O turismo cada vez mais se centra no ecoturismo. Essa é a via do futuro. O turista que procura apenas deitar-se ao sol a beber piñacoladas é já uma visão do passado. Como tudo no nosso mundo e na nossa sociedade, o conceito de turismo e de turista evoluíu também. Hoje em dia, felizmente, após décadas de educação e de transmissão da mensagem da necessidade de protecção do ambiente (mensagem essa que tem sido intensificada neste novo século e milénio) criou-se este novo turista, o eco-turista.