segunda-feira, maio 19, 2008

A Empresa Humana

Os combustíveis fósseis, o gás natural, o petróleo... As matérias primas, as florestas, a madeira... Em todo o lado parece que as lições nunca se aprendem bem. Ou talvez nunca são bem ensinadas. Talvez fosse mais importante esclarecer esta dúvida antes de mais. Será que somos burros ou temos maus mestres? Seremos todos maus aprendizes? Teremos escolhido como mestres Homens tão incompetentes? Penso que a resposta será ambos. Tanto somos maus aprendizes como somos maus mestres. As gerações passam e o processo não se altera. Os mestres de hoje foram antes os aprendizes e claro...não podem ser bons mestres se antes foram maus aprendizes nas mãos de maus mestres.
O ser humano, este magnífico ser vivo que evoluíu no 4º planeta do sistema solar parece ser bem mais limitado e bem menos evoluído do que se gaba de ser. No seu antropocentrismo secular impôs-se sempre como o ser dominante do nosso mundo. Deu-se mesmo a este luxo! Chamar a esta esfera da Via Láctea - Nosso Mundo. Claramente nesta visão antropocêntrica deixou de parte a autocrítica. É sempre muito mais fácil e bonito inaltecer-nos do que olhar no espelho e ver a verdade. E a verdade é que não somos nem o ser supremo que tanto gostamos de dizer que somos mas também não somos as bestas incapazes que sistematicamente demonstramos ser.
A nossa espécie pode realmente gabar-se de ter um sistema de aprendizagem e transmissão da mesma único. Somos capazes de aprender ao ponto de explicar aquilo que parece ser inexplicável. Somos capazes de modificar o que nos rodeia de modo a adequá-lo às nossas necessidades, somos capazes de desenvolver meios de captura de alimento complexos, podemos criar energia e viver durante a noite apesar de não estarmos naturalmente adaptados a vida nocturna. No entanto distanciamo-nos essencialmente dos restantes seres vivos não por tudo isto mas por uma característica muito peculiar: não temos como objectivo a perpetuação da espécie. Enquanto qualquer ser vivo tem uma missão especial bem definida que passa pela perpetuação dos seus genes, perpetuando a sua espécie e lutando por isso em toda a sua vida, nós, o ser humano, não o faz. E não o faz porque simplesmente foi evoluíndo e transformando a sua sociedade de forma individual. Ou seja, o antropocentrismo deu lugar ao individualismo. Hoje temos quem não queira ter filhos por questões profissionais... algo que é do ponto de vista natural, biológico difícil de esclarecer. Para quem queira questionar isto deixem-me tentar explicar este ponto de vista.
Nós, enquanto espécie e ser social exploramos os recursos que o "nosso" planeta disponibiliza. Exploramos para nosso conforto, bem estar, sobrevivência, lazer, etc. Mas exploramos de forma insustentável. Enquanto qualquer espécie procura alternativas quando um recurso começa a escassear (sejam elas a migração ou a procura de outro recurso) o ser humano parece não compreender o conceito de recurso limitado e insiste em explorá-lo até não ser possível explorar mais. Os exemplos são dos mais variados, desde a utilização de terras na agricultura até à sua total exaustão, caça e pescas excessivas até à extinção ou ruptura dos stocks, exploração de combustíveis fósseis até ao seu limite. A aprendizagem social parece necessitar da ajuda daqueles peritos em educação especial porque por vezes parece que não passamos de um bando de pessoas com graves problemas cognitivos.
As alternativas aos combustíveis fósseis são inúmeras e muitas delas não são recentes. No entanto nós deixamo-las na gaveta como se costuma dizer. Continuamos com o mesmo estilo de vida que sabemos que é insustentável. Desflorestação, contaminação ambiental em níveis astronómicos, exploração das reservas petrolíferas sem limites. Pelo caminho falamos de globalização como se fosse a união dos povos e a unificação do mundo mas na verdade é só o enriquecimento da minoria por meio da exploração da maioria. Falamos na privatização como o caminho do futuro mas socialmente somos tudo menos uma empresa privada gerida de forma sustentável, de forma a poder crescer, expandir e sobreviver.
Qualquer empresa que tenha a sua linha de acção como a da sociedade humana vai à falência nos primeiros tempos. Qual é a empresa que esgota os seus recursos impedindo-a de produzir e levar ao seu público o seu produto? Nenhuma. As que o fazem são chamadas de gestão incompetente ou danosa, podem até incorrer violações da Lei. Mas estes mesmos princípios não se aplicam à sociedade humana. Nós insistimos em esgotar os recursos que nos permitem receber os bens que produzimos. No fundo é como uma pastelaria que esgota toda a farinha do mundo...e depois? Faz bolos com o quê? Depois fecha a porta e declara falência porque não tem como produzir.
A nossa sociedade inventou um recurso novo: o dinheiro! Este recurso permite tudo mas não dá nada. Ninguem come dinheiro. Ninguem respira dinheiro. Ninguem se cura com dinheiro. Lamento mas não serve mesmo para nada disso. No entanto tem um efeito hipnotizador sobre todos e todos o queremos. Vivemos em função dele porque ele permite que façamos muitas das coisas que gostariamos de fazer. O problema ocorre quando vivemos para ele. Na realidade a sociedade humana vive para perpetuar o dinheiro e não a si própria. Se não for este o objectivo como poderemos justificar a contínua utilização de combustíveis fósseis? Ou a contínua sobreexploração das florestas e dos recursos aquáticos? Ou a contínua contaminação dos recursos naturais para reduzir custos de operação? Sinceramente tudo isto me parece lógico se o objectivo for perpetuar o dinheiro. Agora se o objectivo (como seria naturalmente de esperar) for pertuar-nos, a nós enquanto espécie, então estamos claramente no caminho errado.
A revolução industrial ensinou-nos pouco enquanto espécie mas muito enquanto capital. Digo-o porque os erros cometidos então continuam a ocorrer hoje. Fábricas sem controlo de resíduos, indústrias sem cuidados de produção e empresas sem preocupações ambientais é o que mais abunda nesse mundo fora. A revolução química podia ter mostrado que tinhamos aprendido algo mas como já vimos tal não aconteceu. Serviu para decobrir inúmeras coisas que hoje melhoram as nossas condições de vida (ainda que nalgumas essa melhoria das condições seja questionável, tal como os tupperwares...). No entanto foi levada com total leviandade para com o meio ambiente e teve (e continua a ter) consequências graves. Hoje a problemática centra-se nos combustíveis fósseis, energias renováveis, organismos geneticamente modificados (OGM) e produção de proteína animal de baixo custo. As energias renováveis são na realidade uma fachada. Embora sejam diversas as alternativas poucas são as usadas e são-no a curta escala, apesar da publicidade. Os OGMs são mal estudados e pouco se sabe sobre o seu efeito tanto no Homem como no meio ambiente no entanto a sua viabilidade económica é extremamente vantajosa pelo que são cada vez mais produzidos, independentemente do que poderão causar no futuro. A aquacultura é hoje uma indústria em expansão e felizmente neste caso os cuidados ambientais têm sido superiores, não escapando algumas falhas claro. Mas estes cuidados maiores devem-se a factores de ordem política e de ordem científica. Por um lado a aquacultura, em especial na Europa e na América está na mão de técnicos qualificados (biólogos e outros) o que leva, em geral, a maiores cuidados ambientais e de qualidade do produto para o bem estar humano. Por outro lado em termos políticos a aquacultura tem de ser gerida de forma delicada de modo a não inviabilizar milhares de postos de trabalho que estão na realidade já condenados a médio prazo - os pescadores.
Qualquer empresa que fosse gerida deste modo já teria falido!
Mas nós continuamos a actuar assim porque somos aprendizes incapazes de mestres incompetentes. Não mudámos este comportamento ao longo da história ainda que nos últimos anos pareça que alguns aprendizes resolveram ouvir mais o que se vê e ligar menos ao que os nossos mestres tanto pregam. A corrente parece estar a mudar um pouco mas ainda é tudo muito ténue.
De qualquer modo de uma coisa poderemos estar seguros. O nosso modo de vida perpetuará sem qualquer dúvida duas coisas: as nossas bem e mal amadas bactérias (essenciais à vida) e o nosso venerado dinheiro (essencial a...nada)

3 comentários:

middle finger disse...

Boas amigo Gonçalo,
pois é que grande texto. É muito dificil completar um texto bem conseguido como este.
Apenas tenho um reparo a fazer (e atenção que eu concordo perfeitamente com tudo o que foi dito), o dinheiro na realidade dá alimento, proporciona melhores cuidados de saúde, etc, etc. Mas ao utilizarmos esse dinheiro para comprar o alimento estamos sempre a explorar alguém pois para eu ter alimento, alguém teve de andar de cu para o ar ao sol a apanhar legumes. E infelizmente, apesar da injustiça que este sistema monetário traz ao mundo, a maioria das pessoas hoje em dia usa o dinheiro não para comprar bens essenciais, mas sim para ostentar jóias e grandes carros. E é aqui que um gajo se chateia quando o miserável de cu para o ar mal tem dinheiro para comer, enquanto o chulo que tem dinheiro o desperdiça em futilidades e se for preciso ainda encontra o miseravel na rua a pedir e manda a bela da piada "não queres é trabalhar".
O resto do texto está fabuloso, adorei a parte em que o nosso objectivo primordial não é a perpetuação da espécie (a que eu acrescento - ainda bem que isto já está mau o suficiente, quantos mais pior).

Um grande abraço,
Bruno Ribeiro

Anónimo disse...

Gonçalo,

Sim, seguimos pessoas incompetentes na sombra da confiança que elas parecem ter em si próprias.
Refugiamo-nos no apoio às decisões de outros para que no momento inevitável da queda não sejamos responsabilizados.
Não queremos pensar porque a ignorância é mais fácil, bem mais simples...Mas tem também consequências muito mais profundas no mundo em que vivemos e nas pessoas que nos rodeiam.

Mas há esperança.
Recuso-me a desistir.
Há milhares de pessoas espalhadas por todo o mundo a tentar, aos poucos e poucos, alterar consciências e ultrapassar a resistência à mudança.

Em www.ted.com pessoas com ideias (mais complexas, simples, brilhantes ou não, em todas as àreas que consigas imaginar) aproveitam o espaço que lhes é dado para partilhar e dar inicio à tão evitadda reflexão sobre nós próprios.

Espero que gostes.

Nivaldo Ledo Peres disse...

O texto em sim é fantástico,as endagações e forma de reflexão,nós leva ver uma mesma coisa por vários angulos visto antes como é o caso do dinheiro.
Pois sem ele não sobrevivemos,ele nos proporciona luxo, conforto,ect.Mas ao mesmo tempo nos faz escravos do sistema financeiro...
Abraçosss