sábado, dezembro 13, 2008

E ninguém diz nada!!!

Anda tudo doido! O governo salva o Banco Privado, o Almeida Santos diz que não devia haver votações no parlamento à sexta feira à tarde e os sindicatos são liderados por gente que não conhece a profissão!
O Banco Privado não é uma banco convencional. Não se trata de um banco em que o cidadão comum deposita o seu ordenado, faz as suas contas poupança e contrai os seus empréstimos para a habitação ou para a universidade dos filhos. Não. Nada disso. O Banco Privado é um banco unicamente de investimentos. Sem balcões, sem exposição nas ruas e avenidas, desde que se tenha um mínimo de 100 000€ é possível entregar este dinheiro ao Banco Privado para que este invista o dinheiro. Ou seja, é uma espécie de corrector da bolsa mas com um nome de banco. Por que razão deveremos todos nós salvar este "banco"? Talvez de agora em diante se o Berardo perder uns milhões na bolsa venham buscar ao bolso do contribuínte o necessário para o salvar. Talvez devessemos começar a compensar as quedas do PSI-20 e doar às empresas cotadas na bolsa de Lisboa todo o valor que percam em cada sessão!!!
O sr. Almeida Santos tem alguma desculpa, ao contrário do governo, dada a sua idade e possível estado de senilidade. Ora bem, de acordo com este ex-presidente do Parlamento "não se paga aos deputados o suficiente para eles serem todos apenas deputados", e continua, "um advogado se tem um julgamento não pode estar na assembleia e no julgamento ao mesmo tempo", e se ainda não chegasse, as suas declarações vão mais longe ainda, ora vejamos, "há justificações para as faltas...é verdade que a sexta feira é em si própria uma justificação porque é a véspera do fim de semana, eu compreendo isso", FANTÁSTICO!!! E termina com, "o que talvez seja errado é que as votações sejam à sexta feira." LINDO!!! Afinal ser deputado é um direito e não um dever. Afinal parece que eles são eleitos mas não queriam e por isso queixam-se das condições depluráveis e a cheirar a escravatura que têm. Afinal ser deputado não é um trabalho mas sim um titulo que o povo atribuí a uns pobres coitados que nem queriam estar ali e assim vêem-se forçados a faltar ao trabalho para cumprir o seu outro trabalho que é na verdade o seu ganha pão, porque os deputados ganham mal. Gostaria de saber se um desses advogados que são deputados também usa como justificação para adiar um julgamento o facto deste ter sido marcado para sexta feira à tarde...?!?!?! Pelo amor de Deus...
Por fim não esqueçamos os sindicatos, em especial o dos professores, ou melhor, os dos professores, que tão na ribalta têm andado. Estes sindicatos são presididos e compostos por pessoas que não exercem a actividade de professor, em muitos casos, há mais de 20 anos. Ora se não sabem o que é uma sala de aula como saberão os problemas actuais que nela se vivem? Se não trabalham numa escola há 20 anos como sabem como ela funciona agora? Não sabem. O que eles sabem é que se não existirem lutas sindicais o seu posto de trabalho não tem qualquer função activa e indispensável pelo que se torna imperativo que existam lutas sindicais frequentes. Infelizmente para agravar a situação quem paga este comportamento lascivo e vergonhoso são os alunos e os pais dos alunos. Em última análise somos também todos nós já que como se trata de um sindicato da função pública é o contribuínte que lhes paga o ordenado. Tudo de acordo desde que um sindicato de professores não tenha mais de 2000 parasitas que não fazem rigorasamente nada a não ser garantir o seu posto inútil.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Liberdade de expressão???

Segue-se um texto de Eugénio Queirós (jornalista do Record) publicado no seu blog pessoal. Certamente que todos temos direito às nossas ideias e opiniões. Não somos obrigados a ter todos a mesma visão. Mas as nossas opiniões tal como a nossa liberdade de expressão tem de ter algumas regras e padrões bem definidos. O desrespeito pelo próximo é sem dúvida uma das regras fundamentais a preservar para que a liberdade de expressão possa ter toda a sua potência livre e se possa assim desenvolver e ecoar por todo e qualquer meio de comunicação existente entre todos nós. Tal como não toleramos opiniões racistas ou xenófobas, tal como condenamos os ideais que levaram ao Holocausto, ao genocídio do Ruanda ou à destruição da Amazónia, temos o dever de condenar severa e justamente as ideias expressas por este dito jornalista mas que na realidade não passa de um ser mesquinho, repugnante e seguramente com algum trauma psicológico de extrema gravidade.
"PARA QUÊ?" (por Eugénio Queirós)

"De 4 em 4 anos, a seguir aos Jogos Olímpicos, lá vem a história dos Paralímpicos. O pessoal com "handicap" (físico ou mental) aproveita as instalações desportivas olímpicas e vai também à caça à medalha. O Mundo considera isto um acontecimento! Mas não é. Quando muito é uma boa ideia que sobretudo serve de motivação a quem nasceu e cresceu com problemas. De aí até fazer dos Jogos Paralímpicos um acontecimento, com páginas de jornal, vai uma grande distância. A não ser pelo bizarro da coisa... Só consigo encontrar uma explicação para isto: os "eficientes" justificam a sua geral indiferença pelos "outros" com este tipo de paternalismo. A treta do costume. O desporto de alta competição nada tem a ver com esta espécie de ATL com cães-guias, próteses da Puma e jogos de salão...
PS - Presente em Pequim, Laurentino Dias considerou a conquista de uma medalha de ouro em Boccia (?????????) "o momento mais bonito do meu mandato". Ok, já sabíamos que não está a ser um grande mandato - o que não sabíamos é que ia assim tão mal..."
Penso que após a leitura deste texto tão grandioso para o futuro dos nossos ideais só podemos propor que este senhor deixe de ser jornalista e passe a fazer conferências por todas as escolas primárias, preparatórias e secundárias do país de forma a garantirmos que as nossas crianças cresçam recheadas de valores e princípios que seguramente farão deste país um grande país no futuro!
Honestamente penso que este senhor devia ser proíbido de escrever, falar ou transmitir as suas verdades de qualquer outra forma possível.
Sinto-me triste por saber que ele chegou a jornalista...

E se Obama fosse africano?

"Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.
2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).
5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.
Inconclusivas conclusões
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia."
MIA COUTO
Jornal "SAVANA" – 14 de Novembro de 2008