terça-feira, setembro 29, 2009

Infância

Na infância não há tempo. Somos cão, somos gato, somos bombeiros e polícias. Alpinistas ou futebolistas. Somos as maiores bailarinas, somos feiticeiros e heróis. A mente não conhece limites nem fronteiras. Falamos as mais variadas línguas, todas maternas, todas nossas, todas fantasia. Na infância somos tudo. Sonhamos ser tudo em sonhos que são tão reais quanto a realidade é sonho. Na infância não há medo, não há fronteira, não há barreira que limite o navegar da nossa mente. Na infância somos tudo. Tudo menos humanos. Sonhamos e somos tudo menos aquilo que vamos ser. Só depois nos ensinam a ser homens e mulheres.
"Não é de um tempo que tenho saudade. Saudade tenho é de não haver tempo nenhum".

terça-feira, setembro 22, 2009

Direito por linhas tortas

Para alguns é Deus quem escreve direito por linhas tortas. Para mim é a vida. A minha total ausência de crença numa entidade suprema que nos criou à sua semelhança não me permite aceitar tal dito. A Vida escreve direito por linhas tortas. E esta é sem dúvida uma das maravilhas inexplicáveis da vida. Esta escrita peculiar aplica-se ao todo, não só à nossa vida, não só a cada um de nós. O mundo sofre com esta forma literária também. Por caminhos tortos e muitas vezes confusos e difíceis de descortinar, o mundo tem mudado ao longo dos tempos e penso que é inegável que, na generalidade, a mudança tem sido para melhor.
A fome ainda existe. As guerras também. A injustiça, a carência, a ausência, tudo continua a fazer parte da nossa realidade mas sejamos honestos, e por mais que possa parecer insensível, estamos melhor que há 200 anos atrás. A Vida, devagar e por caminhos embriagados, lá vai dando um jeitinho às coisas. A justiça vai melhorando, a solidariedade vai aumentando dentro de todos nós e os EUA até já são governados por um negro. A emancipação da mulher ocorre a olhos vistos e até já temos movimentos partidários a falar sobre a vergonha e o nojo do controlo monetário estar entregue a uma instituição privada (BCE - Europa; RF - EUA). É verdade. Já existem movimentos partidários a falar ao mundo e ao povo sobre a eterna dívida que todos nós (os Estados também) temos para com o Banco Central Europeu e a Reserva Federal Norte Americana. Por fim a praça pública serve de discussão a este tema universal e assustador. No sistema económico actual somos todos eternos escravos de uma dívida impossível de pagar. Para quem não conhece o processo eu farei uma breve síntese:

- A Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu (cada um no seu respectivo espaço económico) são instituições privadas.
- Estas instituições são responsáveis pela produção do dinheiro que se encontra em circulação. Elas controlam a produção de dinheiro, a inflação, as taxas de juro, etc.
- Cada euro e cada dollar produzido é EMPRESTADO ao Estado com um juro correspondente.
- Quando se torna necessário pagar os juros, o BCE e a RF produzem euros e dollars, respectivamente, para pagar a dívida. Mas este dinheiro produzido para pagar a dívida é emprestado com um juro associado.
- Conclusão: de onde vem o dinheiro para pagar a dívida? De lado nenhum. A dívida é eterna.

É uma história engraçada que começou nos EUA no início do século XX e que a Europa importou (pelos seus bancários super poderosos) quando criou o Euro. O Euro não foi criado para facilitar negócios, a livre circulação ou as férias dos europeus. O Euro foi criado para que um punhado de bancários tivessem o controlo total sobre a Europa e suas políticas.
Mas como a vida lá vai escrevendo direito por linhas tortas, aparecem por fim movimentos partidários a falar disto publicamente. Esperemos que seja um sinal de mudança, um abrir de olhos geral neste mundo tão ceguinho.
Nada melhor para demonstrar a cegueira geral das pessoas como falar da crença em Deus. Não existe criação com mais contradições que Deus. No entanto a grande maioria da população mundial acredita num e a percentagem de crentes no Deus católico é incrivel, tendo em conta que este é talvez aquele que apresenta o maior número de contradições. Desde as mais simples, como por exemplo, no que respeita à morte das pessoas ou ainda à omnipotência, às mais complexas, como a influência politico-económica da Igreja. Ora vejamos, começando pelas simples:

- Quando um ente querido morre o padre sempre diz que Deus sabe porque o chamou. Ele morreu porque Deus o chamou à Sua presença e Deus tem as suas razões. No entanto a Igreja e o Papa fazem discursos sobre a guerra e a morte de inocentes, lamentando estas mortes. Mas não morreram estes porque Deus os chamou? Ele só chama alguns? E os outros que ele não chama? Morrem porquê? Morreram fora do controlo dos chamamentos de Deus? Mas Deus é omnipotente e omnipresente logo ninguem morre sem que ele controle tal morte. Logo não fazem sentido discursos a lamentar estas mortes e a chamá-las de "evitáveis". Algo não bate certo aqui.
- Façamos um pequeno exercício sobre a omnipotência de Deus. Se pedirmos a Deus que construa uma muralha indestrutível ele é certamente capaz. Mas eu pergunto-me: é Deus capaz de destruir essa muralha? Se for, a muralha não é indestrutível e como tal Deus falhou na sua missão de construção de uma muralha indestrutível e sendo assim não pode ser omnipotente. Se Deus não a conseguir destruir então Deus falhou como entidade suprema e omnipotente porque acabou de criar algo que o supera. Uma vez mais está demonstrada a fragilidade dos argumentos da nossa tão presente Igreja milenar.
Passemos agora aos casos mais complexos:
- A Igreja tem como missão a solidariedade, a proximidade, a paz, o respeito, o amor pelo próximo. No entanto enriqueceu à custa dos pobres, liderou guerras e matanças em nome de Deus, está tão longe dos fiéis que nem compreende as necessidades actuais do Homem, tem uma influência económica de tal ordem que a eleição do Papa é tida como um momento decisivo para a políticas dos estados católicos (e não só).
- Reparem noutra coisa. De acordo com a Igreja as dificuldades da nossa vida são-nos colocadas por Deus. Ele coloca-nos obstáculos para que nós sejamos capazes de superá-los e aprendamos a ser melhores pessoas. Ele mata-nos a mãe, viola-nos os filhos, cria fome em toda a nossa família, tira-nos os empregos, atropela-nos enquanto conduz bêbado, elege Bushes e companhia, rebenta-nos com minas arrancando-nos uma perna, mas...Deus ama-nos. Já imaginaram se baseassemos os nossos casamentos e amizades neste tipo de amor? Seria engraçado de se ver.
Deus, no meio da sua eterna graça, e a Igreja, como entidade representante da graça de Deus na Terra, criaram este mundo de guerras, conflitos, fome, corrupção, inveja, destruição. Se esta é a eterna graça de Deus estamos muito bem arranjados...
É curioso como tanta gente tem crescido a acreditar neste discurso e como tão poucos nos temos perguntado sobre a sua lógica. Tal como tudo neste mundo, será escrito pela Vida direitinho e por caminhos bem tortinhos. Só nos resta escrever um ou dois parágrafos no nosso tempo de vida, porque é assim que a Vida escreve, por meio de todos nós. Cada um de nós tem a sua história e é História. A Vida escreve torto porque somos muitos a escrever. Mas escreve direito porque todos aprendemos como o mais importante na vida é sabermos viver em sociedade. No final todos escrevemos um parágrafo muito parecido, aquele em que compreendemos como respeitar o próximo, amar o mundo e sentir a Vida é o mais importante. Uns só escrevem este parágrafo mesmo no final mas felizmente a maioria de nós aprende isto bem mais cedo e é por isso que, embora torto, a História tem um caminho bem direito.