terça-feira, setembro 22, 2009

Direito por linhas tortas

Para alguns é Deus quem escreve direito por linhas tortas. Para mim é a vida. A minha total ausência de crença numa entidade suprema que nos criou à sua semelhança não me permite aceitar tal dito. A Vida escreve direito por linhas tortas. E esta é sem dúvida uma das maravilhas inexplicáveis da vida. Esta escrita peculiar aplica-se ao todo, não só à nossa vida, não só a cada um de nós. O mundo sofre com esta forma literária também. Por caminhos tortos e muitas vezes confusos e difíceis de descortinar, o mundo tem mudado ao longo dos tempos e penso que é inegável que, na generalidade, a mudança tem sido para melhor.
A fome ainda existe. As guerras também. A injustiça, a carência, a ausência, tudo continua a fazer parte da nossa realidade mas sejamos honestos, e por mais que possa parecer insensível, estamos melhor que há 200 anos atrás. A Vida, devagar e por caminhos embriagados, lá vai dando um jeitinho às coisas. A justiça vai melhorando, a solidariedade vai aumentando dentro de todos nós e os EUA até já são governados por um negro. A emancipação da mulher ocorre a olhos vistos e até já temos movimentos partidários a falar sobre a vergonha e o nojo do controlo monetário estar entregue a uma instituição privada (BCE - Europa; RF - EUA). É verdade. Já existem movimentos partidários a falar ao mundo e ao povo sobre a eterna dívida que todos nós (os Estados também) temos para com o Banco Central Europeu e a Reserva Federal Norte Americana. Por fim a praça pública serve de discussão a este tema universal e assustador. No sistema económico actual somos todos eternos escravos de uma dívida impossível de pagar. Para quem não conhece o processo eu farei uma breve síntese:

- A Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu (cada um no seu respectivo espaço económico) são instituições privadas.
- Estas instituições são responsáveis pela produção do dinheiro que se encontra em circulação. Elas controlam a produção de dinheiro, a inflação, as taxas de juro, etc.
- Cada euro e cada dollar produzido é EMPRESTADO ao Estado com um juro correspondente.
- Quando se torna necessário pagar os juros, o BCE e a RF produzem euros e dollars, respectivamente, para pagar a dívida. Mas este dinheiro produzido para pagar a dívida é emprestado com um juro associado.
- Conclusão: de onde vem o dinheiro para pagar a dívida? De lado nenhum. A dívida é eterna.

É uma história engraçada que começou nos EUA no início do século XX e que a Europa importou (pelos seus bancários super poderosos) quando criou o Euro. O Euro não foi criado para facilitar negócios, a livre circulação ou as férias dos europeus. O Euro foi criado para que um punhado de bancários tivessem o controlo total sobre a Europa e suas políticas.
Mas como a vida lá vai escrevendo direito por linhas tortas, aparecem por fim movimentos partidários a falar disto publicamente. Esperemos que seja um sinal de mudança, um abrir de olhos geral neste mundo tão ceguinho.
Nada melhor para demonstrar a cegueira geral das pessoas como falar da crença em Deus. Não existe criação com mais contradições que Deus. No entanto a grande maioria da população mundial acredita num e a percentagem de crentes no Deus católico é incrivel, tendo em conta que este é talvez aquele que apresenta o maior número de contradições. Desde as mais simples, como por exemplo, no que respeita à morte das pessoas ou ainda à omnipotência, às mais complexas, como a influência politico-económica da Igreja. Ora vejamos, começando pelas simples:

- Quando um ente querido morre o padre sempre diz que Deus sabe porque o chamou. Ele morreu porque Deus o chamou à Sua presença e Deus tem as suas razões. No entanto a Igreja e o Papa fazem discursos sobre a guerra e a morte de inocentes, lamentando estas mortes. Mas não morreram estes porque Deus os chamou? Ele só chama alguns? E os outros que ele não chama? Morrem porquê? Morreram fora do controlo dos chamamentos de Deus? Mas Deus é omnipotente e omnipresente logo ninguem morre sem que ele controle tal morte. Logo não fazem sentido discursos a lamentar estas mortes e a chamá-las de "evitáveis". Algo não bate certo aqui.
- Façamos um pequeno exercício sobre a omnipotência de Deus. Se pedirmos a Deus que construa uma muralha indestrutível ele é certamente capaz. Mas eu pergunto-me: é Deus capaz de destruir essa muralha? Se for, a muralha não é indestrutível e como tal Deus falhou na sua missão de construção de uma muralha indestrutível e sendo assim não pode ser omnipotente. Se Deus não a conseguir destruir então Deus falhou como entidade suprema e omnipotente porque acabou de criar algo que o supera. Uma vez mais está demonstrada a fragilidade dos argumentos da nossa tão presente Igreja milenar.
Passemos agora aos casos mais complexos:
- A Igreja tem como missão a solidariedade, a proximidade, a paz, o respeito, o amor pelo próximo. No entanto enriqueceu à custa dos pobres, liderou guerras e matanças em nome de Deus, está tão longe dos fiéis que nem compreende as necessidades actuais do Homem, tem uma influência económica de tal ordem que a eleição do Papa é tida como um momento decisivo para a políticas dos estados católicos (e não só).
- Reparem noutra coisa. De acordo com a Igreja as dificuldades da nossa vida são-nos colocadas por Deus. Ele coloca-nos obstáculos para que nós sejamos capazes de superá-los e aprendamos a ser melhores pessoas. Ele mata-nos a mãe, viola-nos os filhos, cria fome em toda a nossa família, tira-nos os empregos, atropela-nos enquanto conduz bêbado, elege Bushes e companhia, rebenta-nos com minas arrancando-nos uma perna, mas...Deus ama-nos. Já imaginaram se baseassemos os nossos casamentos e amizades neste tipo de amor? Seria engraçado de se ver.
Deus, no meio da sua eterna graça, e a Igreja, como entidade representante da graça de Deus na Terra, criaram este mundo de guerras, conflitos, fome, corrupção, inveja, destruição. Se esta é a eterna graça de Deus estamos muito bem arranjados...
É curioso como tanta gente tem crescido a acreditar neste discurso e como tão poucos nos temos perguntado sobre a sua lógica. Tal como tudo neste mundo, será escrito pela Vida direitinho e por caminhos bem tortinhos. Só nos resta escrever um ou dois parágrafos no nosso tempo de vida, porque é assim que a Vida escreve, por meio de todos nós. Cada um de nós tem a sua história e é História. A Vida escreve torto porque somos muitos a escrever. Mas escreve direito porque todos aprendemos como o mais importante na vida é sabermos viver em sociedade. No final todos escrevemos um parágrafo muito parecido, aquele em que compreendemos como respeitar o próximo, amar o mundo e sentir a Vida é o mais importante. Uns só escrevem este parágrafo mesmo no final mas felizmente a maioria de nós aprende isto bem mais cedo e é por isso que, embora torto, a História tem um caminho bem direito.

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