Este é o slogan estatal sobre o trabalho científico feito por Portugal, em particular pelas universidades portuguesas. Eu não podia deixar esta frase sem algum comentário, até pela minha profissão e de tantos outros com quem convivo.
No meu trabalho já há mais de uma semana que não faço nada porque não há água ultra pura. Um simples aparelho que a produz mas que não funciona. O engraçado é que na 2ª feira passada, dia 5 de Outubro (num feriado, imaginem!) vieram mudar as resinas ao aparelho para que tivessemos esta água maravilhosa novamente disponível. Bom, hoje é 6ª feira e já não funciona. Como eu, por motivos pessoais, não pude deslocar-me ao local de trabalho entre 3ª e 5ª hoje vim todo feliz fazer o que há mais de semana tenho em atraso. Mas não. Não faço. Porque entre 2ª e hoje o aparelho não aguentou mais. Parece um velho moribundo que não resiste nem 3 dias para que os familiares se possam despedir. Parece aquele doente que não aguentou até ao último suspiro e, como as personagens secundárias nos filmes de acção, morreu logo no primeiro. Sinceramente, parece uma história tirada daquelas conversas que todos temos no café em que caracterizamos o nosso belo país. 3 dias! Foi o que aguentou desta vez. Mas não pensem que isto foi a primeira vez. Estou aqui desde Janeiro e por esta altura já poderia ter feito 80% do trabalho para que fui contratado mas nem 20% fiz... Exemplo do trabalho científico numa instituição de ensino superior portuguesa.
Um dos meus melhores amigos é também investigador. Ele tem uma experiência bem mais vasta que a minha já que ele anda nisto há uns 7 ou 8 anos (eu tenho menos de 3). Entre os aparelhos que não funcionam e os que deixam de funcionar ele teve todo o tipo de atrasos em mestrado e doutoramento. No doutoramento ele tinha de ir todos os anos 2 a 3 meses para o Canadá (era um doutoramento misto) e como me contava, nesses 3 meses fazia mais que nos restantes 9 aqui. O engraçado é que ele até trabalha como investigador na universidade que aparece no anúncio. Eu também já trabalhei nesta instituição e compreendi rapidamente os valores da casa.
Em casa também vou ouvindo uns piropos. O meu pai também é investigador. O meu pai é noutra instituição, curiosamente uma das mais conceituadas. Mas não se deixem enganar porque também aí a investigação roça o mito. Também aí se diz que se faz mais do que aquilo que se faz a sério. Maneira que lá vou eu ouvindo umas bocas lá por casa de vez em quando.
Aqui no meu local de trabalho existem mais investigadores. Todos se vão queixando do mesmo. Não é por acaso que as publicações são poucas e as renovações de contrato raras. Não porque essa possibilidade não exista mas sim porque regra geral todos preferem seguir outro caminho. Conheço investigadores um pouco por todas as instituições do país e não me lembro agora de um que diga que o trabalho corre dentro do tempo previsto. O engraçado seria se as instituições privadas funcionassem deste modo!
Este slogan tem uma verdade. Temos experiência. Experiência em safar, em desenrascar, em conseguir fazer algo de tão pouco. A ciência em Portugal existe porque muitas alminhas trabalham por amor à investigação e não deixam de trabalhar mesmo com os baixos salários, a falta de condições, a ausência de ajudas e a frequente falta de apoio dos chefes dos projectos de investigação.
Para aqueles que acham que os doutores neste país ganham bem eu vou fazer uma breve descrição das condições económicas de TODOS os investigadores deste país, chamados de bolseiros:
- salário: 745€ (investigação) 980€ (doutoramento)
- subsídio de férias: NÃO
- subsídio de alimentação: NÃO
- direito ao fundo de desemprego no final do contrato: NÃO
- horário de trabalho: NÃO EXISTE (domingo a domingo, 24h/dia, depende do momento - disponibilidade tem de ser absoluta)
- tempo de contrato: investigação (6 meses a 1 ano) doutoramento (4 anos)
- regime: EXCLUSIVIDADE (só podendo receber outro tipo de remunerações através de acções de formação ou congressos)
- férias: 22 dias úteis
- último aumento salarial: 2001
Como vêem nem todos os doutores são bem pagos neste país.
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