Num blog onde habitualmente escrevo sobre aspectos menos positivos do nosso mundo e da nossa sociedade achei que já era momento de colocar um post positivo, com uma mensagem agradável e reveladora de esperança num futuro mais risonho.
Enquanto se fala de desflorestação, de alterações climáticas, de poluição, de perda de biodiversidade esquecemo-nos de falar de algo muito interessante e positivo como o aumento da área florestal na Europa e na América do Norte.
Durante séculos as áreas florestais foram sendo reduzidas no velho continente devido à necessidade de madeira, de zonas de pasto para o gado e de criar mais terrenos agrícolas. O mesmo aconteceu na América do Norte nos últimos 300 anos. Juntando a isto a caça, tanto de subsistência como desportiva, ou ainda fomentada por medos populares, a biodiversidade nestes dois continentes foi sendo atacada, reduzida e confinada a nichos pequenos e isolados. Mas o século XX trouxe consigo um êxodo rural maior que qualquer outro, de proporções sem precedentes, especialmente após a 2ª Guerra Mundial. Este fenómeno social levou ao abandono das zonas rurais e com a desumanização desapareceu também a agricultura e o gado. A ausência de pessoas que promoviam o abate de árvores e a alteração da flora por espécies agrícolas a floresta deixou de estar sobre pressão e nos últimos 30 anos tem ocorrido uma autêntica reflorestação natural. No continente europeu a área de floresta cresce a um ritmo de 0,2 Mha/ano. As consequências disto são muitas. Ainda que nem todas totalmente positivas. O crescimento da área florestal promove a recuperação da biodiversidade, cria novos espaços para espécies ameaçadas e ajuda a equilibrar o ambiente. Quando aqui falo em equilibrar o ambiente não me refiro apenas a um maior equilíbrio biológico entre as espécies selvagens. O aumento das áreas florestais é importante também no combate ao aquecimento global já que estas promovem o consumo de CO2. Tudo excelentes notícias, especialmente para os amantes de vida selvagem e para os que vêem este mundo não como nosso mas como a casa de muitos seres vivos. Mas as boas notícias não acabam aqui. As áreas florestais têm outro efeito de extrema importância e que temos de observar com a maior das atenções. A floresta reduz fortemente os processos de escorrência. Ou seja, maiores áreas florestais menor risco de cheias, inundações, deslizamento de terras, etc. Outro resultado é a melhoria da qualidade da água. Os aquíferos e os rios recebem água com muito maior qualidade. A presença de floresta funciona como uma espécie de filtro que purifica a água antes de esta chegar aos reservatórios (aquíferos e barragens).
Mas há um senão. A área florestal também reduz a quantidade de água que chega aos reservatórios e, consequentemente, a quantidade de água que nos estará disponível, tanto para consumo como para fins agrícolas. Esta redução promovida por áreas florestais pode chegar aos 40% pelo que é um factor a ter em consideração.
Este problema tem sido estudado com maior atenção na Europa nos últimos 15 – 20 anos. No entanto nos EUA já se estudam estas interacções há mais de 30 anos e por lá a gestão das zonas florestais é já uma prática comum. Por cá estamos ainda a tentar perceber como devemos enfrentar esta realidade. Por um lado o crescimento florestal é algo de muito positivo mas por outro tem os seus efeitos e repercussões. Visto que a área florestal cresce a um ritmo muito superior ao da área urbana e tendo em conta as alterações nos regimes de pluviosidade na Europa, compreender desde já qual a melhor gestão a aplicar às áreas de floresta é um feito impossível. A gestão tem de englobar aspectos como a necessidade de água, a qualidade da água, fenómenos de escorrência e cheias, regime de chuvas e de seca, entre outros parâmetros mais. Para que seja criada uma gestão eficiente das matas europeias ainda existe muito que aprender mas felizmente estamos no bom caminho. Sem pressa, sem precipitações, caminhamos no sentido de compreender estes fenómenos e de poder colher deles um bom proveito para a nossa sociedade.
Não falei aqui do hemisfério sul por dois motivos: 1) apenas um país faz este tipo de gestão, a Austrália; 2) em mais de 90% da área continental do hemisfério sul o que ocorre é exactamente o oposto do que ocorre na Europa e na América do Norte, ou seja em vez de reflorestação temos desflorestação. A redução da massa florestal nos chamados países em vias de desenvolvimento prende-se com aspectos sociais, económicos e políticos. Infelizmente a maior parte da desflorestação que ocorre nestes países é para alimentar os caprichos europeus e americanos. A produção de biodiesel (uma aberração da sociedade do século XXI) é o principal impulsionador da destruição da Amazónia. O óleo de palmeira, ou óleo de palma, para a indústria cosmética (por favor não comprem cremes e perfumes que utilizem este óleo!!!) é responsável pela substituição das florestas tropicais da Indonésia, Sumatra, Bornéu e Nova Guiné por plantações de palmeira, pomares estes que são desprovidos de biodiversidade e que aumentam o risco de extinção de espécies tão emblemáticas como o Orangotango (Pongo pygmaeus), o Rinoceronte de Sumatra (Dicerorhinus sumatrensis), o Leopardo do Bornéu (Neofelis diardi) ou ainda o Gato-Vermelho-de-Bornéu (Catopuma badia). A floresta tropical do Bornéu alberga milhares de espécies únicas e cada vez que se realiza uma expedição científica à floresta são descobertas dezenas de espécies novas. Nos últimos 10 anos, ou seja, apenas no século XXI, já foram descobertas milhares de espécies novas nesta floresta tropical. Para aqueles que respeitam a vida como um todo e por si só estas razões são mais que suficientes para preservar a floresta. Para os mais antropocêntricos podemos falar em espécies novas com potencial gigantesco para a farmacologia e a medicina. Argumentos para preservar estas florestas são fáceis de arranjar. Ao contrário do aumento de 0,2 Mha/ano da área florestal europeia, a desmatação na Indonésia é de 2 Mha/ano…
Pronto não deu para ser tudo positivo mas fico um cheirinho a coisas boas no início…
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