quarta-feira, setembro 28, 2011

O individualismo estúpido

Hoje aconteceu-me uma situação reveladora da mentalidade individualista que governa o pensamento actual. Estava na fila para pedir um café quando um rapaz cego chocou contra mim. Como é natural ele pediu desculpa e perguntou-me onde era a fila para pedir café. Com toda a naturalidade e amabilidade encaminhei-o para o fim da fila, tal como o faria com qualquer outra pessoa. Ao colocá-lo no final da fila voltei para o meu lugar. Mas a necessidade das pessoas de se sentirem melhor consigo mesmas revelou-se nesse preciso momento. A rapariga que estava no fim da fila falou com o rapaz invisual, segurou-lhe na mão e lá foi toda emproada e de ego inchado levá-lo ao balcão para que este pudesse pedir de imediato o que quer que fosse. Voltou para o seu lugar com aquele ar de dever cumprido, olhando de esguelha para mim, como quem diz "seu idiota insensível, vês como eu sou uma pessoa decente". Eu sorri. Se se tratasse de uma pessoa com problemas motores claramente que lhe teria indicado o primeiro lugar da fila, porque admito que para quem tem esse tipo de limitações a espera numa fila pode ser dura, dolorosa e até agoniante. Mas era um cego. Perfeitamente capaz de ter uma atitude igual a todos nós perante as exigências mínimas do quotidiano.
Como é natural a nossa sociedade está estruturada numa perspectiva em que a visão é essencial. Outra coisa não seria de esperar de uma espécie cujo principal sentido é precisamente a visão. No entanto há muito que decidimos que os cegos não devem morrer por serem cegos. Toda a sociedade se esforçou por criar condições para que esta minoria pudesse ter uma vida quão próxima quanto possível daquela que está disponível para os que conseguem ver. Este tipo de comportamento egocêntrico, muito comum nos dias de hoje, é uma afronta a todo o esforço empregue na melhoria das condições de todos aqueles que têm algum tipo de limitação não motora. Além disso o impacto que estas atitudes têm no íntimo daqueles que são "diferentes" é precisamente acentuar o sentimento de diferença, contribuindo não para o bem estar mas antes para uma maior dificuldade de adaptação e integração da pessoa que tem limitações.
Isto acaba por me recordar uma frase dita pelo meu primo há uns dias a propósito da nossa postura no mundo de hoje. Ele dizia "nós vivemos na era de hoje mas não vivemos a era de hoje" ou algo assim do género. O importante era o que isto queria dizer. Nós hoje vivemos a maior era global da história da humanidade. No entanto continuamos, talvez mais que nunca, a viver o eu e não o nós. Ou seja, numa era onde temos consciência como nunca de todo o panorama global vivemos como nunca o contexto individual. Temos hoje um mundo onde o desenvolvimento de uma consciência comunitária teria um impacto massivo na sociedade, podendo reduzir drasticamente as injustiças sociais, se cada um de nós em vez de viver o seu futuro, a sua carreira, a sua casa, o seu carro, vivesse num pensamento e cultura que incutisse um espírito de actividade que fosse além do impacto individual. Só seria preciso que cada um de nós quisesse que o seu trabalho, o seu esforço, o seu dia-a-dia fosse além de uma conquista pessoal, fosse além da mera satisfação individual e buscasse ser algo para os outros. Ter um emprego que além de nos dar algo a nós fosse útil para os outros. Não é o nascimento do altruísmo, pois na sua essência o altruísmo nunca existirá. Seria sim o aproveitamento dos dias de hoje para uma reestruturação cultural.

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