O país discute o desemprego. O país discute os salários. Os país discute a austeridade. Os jornais apoiam, fomentam, instruem. O povo engole e segue nos carris. Distraído e absorvido na estupidificação das massas, entorpecido pelas preocupações que tudo isto trás à sua vida imediata. Os governos promovem as discussões e indicam o caminho. E no meio dos entreténs, o verdadeiro plano vai sendo executado. A construção de uma Europa Federal.
O sonho é antigo. Já várias tentativas foram sendo feitas ao longo da história. Tanto a Alemanha como a França tiveram os seus momentos. Napoleão primeiro, Hitler o último. Mas o sonho do domínio europeu não morreu. E não se pense que isto é fantasia do passado. Os impérios mudaram de contexto, mas ainda são o objectivo final de quem quer e pode exercer o poder. Merkel até já se descaiu algumas vezes. Não foi há muito que sugeriu a perda de soberania para os estados que não cumprissem os objectivos do défice. Mas cheira-me que Sarkozy lhe sussurrou ao ouvido, "cuidado, Assim apanham-nos".
Vamos começar pelo início. O ataque ao euro. Feroz, eficaz e fácil. Mas porquê fácil? Porque raio a Europa não protegeu o euro? Ficaram ali, impávidos e serenos, assistindo ao massacre da moeda única. Mas a verdade é que não podiam fazer outra coisa. Não porque estivessem com as mãos atadas. Nada disso. Se a Europa defende-se o euro, todo o plano iria por água abaixo. Sem crise socioeconómica não há reestruturação. Sem o colapso das economias não é possível criar o federalismo europeu. Antes os impérios construíam-se pela força, pela conquista militar do território. Hoje é um pouco diferente. Um pouco. Não muito.
Portanto a crise já está instalada. Todos falam nela. Todos a aceitam como algo real, inevitável, que está aqui agora. O poder da enunciação, que gerou a crise, trata agora de a consolidar. Agora estamos na fase dois. Agravar a crise. É fundamental o colapso total de, pelo menos, algumas economias europeias. As bolsas caem, os ratings são constantemente avaliados em baixa. A Grécia foi primeiro a virar lixo. Agora Portugal. Seguir-se-á a Irlanda, Espanha e, talvez, a Itália. Caos económico, instabilidade social. O cenário para a constituição federal começa a ficar montado. Mas aqui é quando as coisas ficam complicadas de prever. A realidade não é um sistema simples. É antes um sistema complexo, com muitas variáveis e, acima de tudo, com vários caminhos para atingir o mesmo fim.
É verdade que, por um lado, convém mais aos países economicamente fortes da UE que as economias periféricas saiam do euro. Assim podem ter crescimento económico e importar os produtos alemães, dinamarqueses, suecos, franceses, etc. Por outro lado a saída do euro garante a soberania dos estados, fragilizando o federalismo europeu. A questão é extremamente complexa, e está aqui muito simplificada. A juntar a isto, a tensões globais aumentam e o cenário de uma guerra, talvez mundial, começa a ganhar alguns contornos, ou pelo menos, tem de ser equacionado. No Irão, as manifestações violentas contra edifícios britânicos adensam-se. A Síria é pressionada por meio mundo. No Paquistão há raides da NATO. A contestação social na Europa e nos EUA aumenta. O sector militar das economias periféricas europeias está cada vez mais frágil.
Nos últimos anos o investimento militar aumentou a nível global. O relatório SIPRI indica um recuo no crescimento do investimento, ou seja, continua a crescer mas mais devagar, desde 2010. E isto deve-se principalmente às economias depenadas da Europa. Não se leia França, Alemanha, Inglaterra. Nada disso. A França, pelo menos até 2010, não reduziu em nada o seu orçamento militar. A Inglaterra inicia em 2012 um investimento de 1 bilião de libras em veículos militares. Tanto a União Europeia como o FMI não exigem cortes no orçamento militar, como parte do plano de austeridade. Isto é, cortes de despesa com pessoal e edifícios das forças armadas sim. Mas não nas encomendas de material bélico. A Alemanha e a França terão exigido à Grécia que continuasse os gastos militares com material produzido por estas duas nações. As notícias actuais sobre o orçamento militar alemão são em tudo contrárias à ideia que fica subjacente neste texto. A Alemanha está a fazer um corte neste sector. Mas se procurarmos mais a fundo na informação disponível, conseguimos encontrar dados interessantes, como a entrega de material bélico a partir de 2012, encomendado anos antes, e como tal fora deste orçamento.
Mas não é de todo fácil conseguir descortinar um cenário de guerra europeu. É bem verdade que o actual contexto socioeconómico da Europa é semelhante ao dos anos 30, que antecedeu a 2ª Guerra Mundial. Tem também contornos similares aos do final do século XIX e princípio do século XX, que culminou na 1ª Guerra Mundial. No entanto, a realidade dos dias de hoje torna esta avaliação mais complexa. Se por um lado é bem verdade que uma transformação da Europa numa Europa Federal requer, avaliando os padrões históricos, a implementação de uma guerra. Por outro parece difícil entender qual o propósito de tal evento. Talvez seja possível fazer a transição, sem guerra, limitando-se a controlar sectores estratégicos do poder. Acabamos de assistir a dois momentos únicos na história recente. Dois golpes de estado na Europa que, não só passaram silenciosamente no escrutínio da comunicação social, como também no político e social. Tanto em Itália como na Grécia, a substituição dos governos, é um autêntico golpe de estado. Não foram eleitos. Não se apresentaram ao povo. São tecnocratas colocados na chefia do destes dois países para executar o plano primário. Mas quem são eles? Mario Monti, ligado à Goldman Sachs, assim como Mario Draghi recentemente eleito presidente do Banco Central Europeu. Lucas Papademos, antigo governador do Banco da Grécia durante a falsificação da dívida grega pela Goldman Sachs. Todos são membros da Comissão Trilateral ou do clube de Bilderberg. Uma situação, no mínimo curiosa. Quem não está familiarizado com o Clube de Bilderberg, recomendo que se actualize.
Independentemente de todas estas questões, dúvidas, incógnitas, o federalismo é o objectivo. Foi ontem que Sarkozy e Merkel anunciaram um conjunto de medidas a apresentar na próxima reunião, dia 9 de dezembro. Deixaram apenas um cheiro do que aí vem. Medidas severas para quem não cumpra o défice. Quem sabe perda de soberania. Bem sei que já não temos muita, o orçamento de estado de Portugal teve de ser primeiro aprovado em Berlim, e só depois, discutido na AR. Mas ainda somos soberanos, ainda podemos decidir sair da UE ou ficar, investir na educação ou abandoná-la. Ainda somos donos do nosso futuro. Numa federação deixamos de ser. Passamos a estado, com alguma autonomia administrativa, autonomia essa que ficará definida na constituição federal. É importante frisar um aspecto das constituições federais: é impossível, proibido, inconstitucional um estado membro da federação abandonar, sair, voltar a ser independente. Viveremos num cenário de centralização do poder, sujeitos às regras franco-alemãs, membros de um império bicéfalo, cuja grande cabeça é a Alemanha. A proposta conjunta de Alemanha e França visa rever os Tratados e criar uma “União de Estabilidade” em que, a promessa de mais solidariedade, será antecedida por regras muito mais duras de disciplina orçamental e pela transferência de novas parcelas de soberania, de modo a que instâncias europeias possam ter uma palavra decisiva na concepção dos Orçamentos nacionais. O nascimento do império do 4º Reich, talvez, mas este legítimo, este legal.
A instabilidade social vai aumentar nos próximos anos. Isso é ponto assente. Ao contrário do que nos vende o Passos, o fim da crise não é em 2012. Vai ser apenas um ano pior que este. E 2013 será pior que 2012. E 2014, talvez ainda pior. Não é por acaso que o Banco de Portugal, e não só, pede a extensão das medidas de austeridade até 2014. Se a intervenção militar estiver mesmo na ordem de acção, então basta promover as acções dos grupos de crime organizado junto das manifestações, das greves e dos protestos. Existem vários grupos deste tipo no mundo. Servem mesmo para isto. Aos mais cépticos, quero dizer que não, não é uma teoria da conspiração. Isto é feito há milhares de anos. Não é uma invenção do século XXI. Grupos cujo objectivo é gerar instabilidade e violência, controlados muitas vezes por governos, são usados desde sempre como meio de justificar intervenções militares, decisões económicas ou legislação austera. E a ideia que nos têm vendido, várias vezes na televisão, de que a UE é a garantia de paz na Europa, de que desde que existe UE não há guerra na Europa, é de uma demagogia assustadora. Só num mundo onde sabemos de antemão que o povo não vai questionar o que se diz no rectângulo colorido, se têm afirmações destas publicamente. Então a Jugoslávia? Checoslováquia? Bósnia? Sérvia? Ucrânia? Não são todas estas guerras pós-CEE e pós-UE?
Outra ideia que se vende sistematicamente nas televisões europeias é a de que sem euro estamos feitos. Será? Sem euro passaremos uns anos maus, sem dúvida. Mas estaremos realmente arrumados e mortos no mundo global? Será realmente o nosso fim? Enquanto a Europa está em recessão, que se agrava a cada revisão dos números, a Islândia cresce. Esse país pequenino que abriu bancarrota, a quem o mundo escreveu um belo obituário, afinal, precisamente por não ter euro, está a crescer. Mas a nós dizem que isto é impossível. Mais um momento de propaganda federalista.
Por fim vamos tentar perceber como funciona este mercado livre do crédito. Vejamos o caso de Itália. O BCE pondera emprestar dinheiro ao FMI para que este empreste a Itália. Já neste primeiro passo conseguimos perceber a perversão de todo o processo. Mas então e o que faz o FMI com o dinheiro que a Europa (todos os contribuintes europeus) lhe emprestou para que ele emprestasse a um país europeu? Pois bem, empresta aos bancos comerciais italianos. Estes últimos, por sua vez, emprestam ao governo italiano, sujeitando os contribuintes de Itália a pagar os juros daquele que já é o terceiro empréstimo do mesmo capital. Não é difícil perceber que algo aqui está muito errado.
Estamos ainda no início. A vida cómoda e estável a que andámos habituados está a começar o seu fim. E ainda falta muito. Isto é ainda o começo.