A
criação de objectos de dominância é tão antiga quanto o próprio Homem. As
lanças e os martelos de pedra foram tão rapidamente usados na caça como nas
lutas com grupos competidores. Com o domínio da agricultura o território passou
a ser um bem precioso e toda a tecnologia que era desenvolvida para melhorar a
qualidade de vida, era também usada na guerra pela conquista de novas terras. A
roda foi aplicada quase tão rapidamente a utensílios de transporte como a
máquinas de guerra. Os metais foram mais usados em armaduras e espadas que em
taças ou arados. Sempre houve mais cavalaria que burros e bois para o trabalho
do campo. Nós não diferimos em nada aos restantes seres vivos que connosco
partilham o planeta. As técnicas de caça são usadas nas lutas. O
desenvolvimento de estruturas exclusivamente usadas na guerra é frequente em
herbívoros. Mas de algum modo nós conseguimos levar este instinto primário um
grau acima dos demais.
A
sociedade humana é provavelmente a mais complexa actualmente na Terra. O
desenvolvimento das tecnologias de comunicação permite que 7 mil milhões de
pessoas vivam num mundo global. Este é o primeiro aspecto eleva a fasquia na
espécie humana. A tecnologia que somos capazes de desenvolver é o segundo.
Afinal nós vamos mais longe que os chifres de um alce, ou que o veneno de uma
cobra taipan. Nós desenvolvemos chifres que são projectados a milhares de
quilómetros e aniquilam milhares de adversários de uma só vez. Criámos armas
biológicas e químicas que em vez de infectarem apenas um inimigo infectam
milhões. E por fim, aquilo que realmente nos coloca noutro nível, é a nossa
capacidade de gerar eventos de dominância. Nós não nos limitamos a esperar que
algo aconteça, a aguardar que os nossos adversários se aproximem ou a investir
instintivamente contra os nossos inimigos. Nós criamos situações para
justificar as acções. É como um leão ir roubar fezes ao território do grupo vizinho
e colocar dentro do seu território, para assim justificar um ajuste de contas
que lhe permita conquistar mais terreno. Ou mais complexo ainda, como se um
lobo subornasse um indivíduo do clã rival com um pedaço de carne, para que este
realizasse marcação de território dentro dos limites territoriais do corruptor,
permitindo assim a invasão do território vizinho pelo clã, prometendo não ferir
o indivíduo corrompido. São estas acções que trazem perversidade ao nosso
mundo.
Com a
tecnologia actual e este instinto primário tão activo, a espécie humana entra
numa era com um potencial tenebroso. E a verdade é que a nossa sociedade não é
mais do que o reflexo colectivo dos seus indivíduos. Enquanto entidade única,
cada um nós parece mais predisposto a alcançar os seus potenciais mais
negativos. É mais fácil render-se à preguiça que vencê-la. É mais fácil reagir
instintivamente com violência que controlar-se. É mais fácil ser-se egoísta que
ter em conta os que nos rodeiam. Será mais fácil realizar o potencial aterrador
que contrariá-lo?
Os
primeiros sinais mostram-nos incapazes de contrariar este instinto primário. Quando
os físicos alemães Otto Hahn e Lise Meitner descobriram como provocar artificialmente
a fissão do urânio, rapidamente o
mundo viu, graças à relatividade de Einstein, como criar um objecto bélico com
uma capacidade nunca antes vista. Antes sequer de olharmos e investirmos na
ideia da energia a partir da fissão atómica, o Homem mergulhou na descoberta e
domínio da bomba atómica.
Na guerra do Vietnam, o exército
norte-americano esforçou-se por transformar produtos agrícolas em armas
químicas, criando assim o Agente Laranja. Antes, na 1ª Guerra Mundial, já o gás
mostarda tinha sido desenvolvido e aplicado sobre os soldados inimigos. Mas a
guerra química e biológica não é exclusiva dos tempos modernos. Na antiguidade
era frequente cadáveres serem usados para contaminar as águas de uma cidade
cercada, ou corpos de indivíduos falecidos com doenças como varíola ou peste
bubónica serem atirados para dentro de cidades sitiadas.
A ideia de que o desenvolvimento de
tecnologia acaba, invariavelmente e intencionalmente no uso militar pode passar
subjacente ao texto. No entanto é a investigação primariamente militar que
passou a ser dominante nas sociedades humanas. Hoje, mais que nunca, é o sector
militar que dita a evolução tecnológica não militar. Começámos pela bomba
atómica para chegarmos aos reactores energéticos. Começámos pela bomba de fusão
para chegarmos hoje ao projecto piloto dedicado à energia de fusão. Investimos
primeiro em aviões de caça para termos hoje aviões comerciais. Desenvolvemos as
comunicações e as telecomunicações para melhorar as performances de guerra,
aplicando-as depois ao quotidiano dos civis. Em tecnologia, é o sector militar
que dita o rumo.
Por fim, os últimos cem anos foram marcados
pela geração de eventos de dominância. As 3 regras de Aquinas marcam a cultura
ocidental, levando deste modo à exigência de uma justificação para a declaração
de guerra. É esta razão cultural, e actualmente parte integrante da legislação
internacional, que nos leva à criação de eventos que justifiquem as acções subsequentes.
É de tal modo importante e frequente na História que existe um termo que define
estas operações, False Flag. Segue
uma lista de exemplos destas operações:
1.
1898 -
Guerra Hispano-Americana: com o objectivo de controlar as Caraíbas, os EUA
afundaram o seu próprio navio USS Maine que se encontrava ancorado junto a
Cuba, culpando os espanhóis do acto, tal como assumiram publicamente em 1980,
apesar de terem mantido a versão de que a explosão do navio foi um acidente (266
tripulantes morreram). A verdade é que previamente ao acidente o exército e
marinha americanos estavam já totalmente preparados para a guerra.
2.
1915 -
1ª Guerra Mundial: o naufrágio do navio britânico de passageiros e carga
Lusitania por um submarino alemão precipitou os EUA para a guerra. A administração
americana tinha feito chegar aos serviços alemães a informação de que o transatlântico
transportava uma carga especial de armas para a Inglaterra. Morreram cerca de
1200 pessoas, entre elas 100 americanos.
3.
1931 -
Invasão da Manchúria: para justificar a invasão desta zona da China, elementos
do exército japonês geraram uma explosão numa linha férrea do Japão, conhecido
como incidente de Mukden.
4.
1939 -
2ª Guerra Mundial: uma série de incidentes foram criados pela Alemanha para
gerar a imagem de agressão polaca ao estado germânico, e assim justificar a
invasão da Polónia do dia 1 de setembro. Ao todo foram 21 False Flags criados pela Operação Himmler na fronteira polaco-alemã.
O incidente mais conhecido é o de Gleiwitz, orquestrando um ataque a uma antena
de rádio alemã.
5.
1941 -
2ª Guerra Mundial: o ataque a Pearl Harbour foi aproveitado pela administração
americana para criar uma espécie de False
Flag. O governo americano teve conhecimento do ataque com tempo suficiente
para preparar a defesa do porto Havaiano, mas atrasou ao máximo a chegada de
informação às tropas lá destacadas, tal como foi confirmado pelo Almirante
Kimble, comandante do porto. Faleceram cerca de 2500 pessoas.
6.
1941 -
2ª Guerra Mundial: para que a Hungria declarasse guerra à União Soviética, os
alemães orquestraram um bombardeamento aéreo à cidade de Kassa (hoje Košice,
Eslováquia) usando 3 aviões não
identificados, mas que se assemelhavam aos aviões soviéticos (cerca de uma
dezena de mortos).
7.
1953 -
Petróleo: os False Flags não são
sempre direccionados para a guerra. Na chamada Operação Ajax (que está
disponível nos arquivos da CIA, tendo deixado de ser considerada informação
secreta), os serviços secretos americanos e britânicos usaram a propaganda,
intriga política e acordos com a tribo Qashqai para depor o recém eleito líder iraniano Mohammad
Masaddegh, e deste modo conseguir substituir a Anglo-Persian Oil Company por 5
petrolíferas norte americanas, pois o petróleo tinha sido nacionalizado pelo
novo governo.
8.
1964 -
Guerra do Vietnam: o incidente do Golfo de Tonkin foi o gatilho usado para
declarar guerra ao Vietnam do Norte. A acusação de que barcos norte vietnamitas
tinham lançado torpedos contra o destroyer americano Maddox permitiu ao então
Secretário da Defesa estadunidense McNamara declarar guerra. Muitos anos mais tarde,
o mesmo McNamara assumiu publicamente que esse incidente nunca tinha ocorrido.
Mais de 3 milhões de pessoas morreram nesse conflito. Dezenas de milhões
sofreram e sofrem ainda hoje as consequências de tácticas de guerra usadas no
Vietnam.
9.
1990 - 1ª
Guerra do Golfo: a invasão do Iraque pelos EUA no despertar da última década do
século XX envolveu False Flags mais
complexas do que as até então usadas. Iniciou-se com a passagem de informação
dos EUA a Saddam Hussein de que não se opunham à sua invasão do Kuwait. O
Iraque invadiu o Kuwait, e Dick Cheney, o então Secretário da Defesa, enviou
imagens de satélite à administração saudita mostrando fileiras militares
iraquianas junto à sua fronteira. A Arábia Saudita deu luz verde para que os
EUA instalassem no Golfo Pérsico as suas bases militares. Começou aqui a nova
fase da campanha. O mundo é mais global que nunca, exigindo a aceitação da
guerra por mais do que os cidadãos dos países envolvidos nela, por isso uma
campanha global dos media anti Saddam é imperativa. Primeiro a acusação de que
o governo liderado por Saddam tinha usado gás contra o seu próprio povo (sem
referir que o gás havia sido adquirido aos próprios americanos). Mas o momento
de choque ocorre quando uma enfermeira kuwaitiana dá uma conferência de
imprensa aterrorizante, chorando e falando sobre os horrores praticados pelos
soldados iraquianos nos hospitais. 10 anos mais tarde alguns jornalistas
encontraram imagens de satélite russo da altura pré-guerra. As imagens que mostravam
os tanques iraquianos dentro do Kuwait, não mostravam qualquer movimentação
militar junto à fronteira saudita. Ao mesmo tempo, a enfermeira que havia
chocado o mundo voltava a chocar. Era afinal a filha do embaixador do Kuwait em
Washington e a sua história era uma farsa, tendo sido treinada por uma das mais
importantes agências de publicidade americanas, a Hill & Knowlton. Entretanto
os EUA tinham já eliminado o exército iraquiano e implementado bases militares
permanentes na Arábia Saudita. Mais de 100 mil mortos militares.
Os False
Flags não são usados apenas do ponto de vista bélico. São também usados
como mecanismos políticos, empresariais e até ideológicos. Destruição de
património deixando evidências que geram suspeita numa firma rival, ou passar a
imagem de que se é algo que não se é na realidade (por exemplo, empresas de
telemarketing que se fazem passar por empresas de market research) é um
comportamento de False Flag no seio
empresarial. Do mesmo modo, o astroturfing,
que designa ações políticas ou publicitárias que tentam criar a impressão de
que são movimentos espontâneos e populares, é usado tanto por empresas como por
políticos. Podemos encontrar um exemplo desta acção na operadora Oi, que passou
a oferecer telemóveis desbloqueados, lançando ao mesmo tempo a campanha
Bloqueio Não, transparecendo a ideia de que se tratava de um movimento popular,
procurando deste modo iniciar um movimento anti telemóveis bloqueados e com
isso cativar mais clientes. No lado político vemos o uso de campanhas com o
"apoio público" orquestradas pela Comissão de Reeleição de Nixon em
1972, ou as "cartas de trabalhadores" usadas na União Soviética para
justificar decisões políticas. Em agosto de 2009 a firma Bonner &
Associates reconheceu ter enviado cartas falsas em oposição ao projecto lei
American Clean Energy and Security Act, procurando mostrar que a opinião
pública estava em contra do projecto.
Hoje vivemos num mundo onde a ilusão importa
mais que a realidade. Por essa razão estas operações abrangem a quase
totalidade da sociedade. Nós fazemo-lo frequentemente no nosso dia a dia nas
relações com os que nos rodeiam. Da família aos colegas de trabalho, todos
estamos constantemente a tentar criar ilusões que afastem a procura da verdade.
Mas é comum a banalização de um comportamento ter o efeito inverso. Muitas
vezes, o facto de ser repetitivo torna-o mais exposto, mais susceptível de ser
notado. E acima de tudo, torna-o desleixado. A leviandade com que hoje se leva
a criação de ilusão é quase asfixiante. Se reparamos nos exemplos acima de False Flags, embora tenham a vindo a
tornar-se mais complexos, tornaram-se também mais falíveis.
Os atentados de 7 de julho de 2005 em
Londres, onde morreram 56 pessoas e cerca de 700 outras ficaram feridas, ocorreram
ao mesmo tempo que uma empresa privada, a Visor Consultants, simulava um
atentado com explosivos no metro da capital, tal como afirmou Peter Fowler,
responsável pela simulação. Um ano antes a BBC tinha emitido um documentário
onde ocorriam uma sequência de atentados em Londres particamente iguais aos que
ocorreram um ano depois (a excepção é o autocarro, que é de químicos e não de
passageiros). Mas estas coincidências não se limitam ao 7 de julho de 2005. Os
famosos atentados de 11 de setembro, envoltos em dezenas de teorias de
conspiração, claramente alimentadas por vários pontos mal esclarecidos pelas
fontes oficiais, aconteceram também ao mesmo tempo que se simulavam atentados
em solo americano. Um dos atentados previstos na simulação era precisamente um
avião comercial a embater num edifício.
Ultimamente tem sido muito debatida a questão
de se já está desenvolvida ou não uma arma capaz de produzir sismos. Que teoricamente
é possível produzi-los não é segredo para ninguém. Desde que o Professor Duncan
Agnew da Universidade da Califórnia o demonstrou, acidentalmente, em 1987, que
esta linha de investigação passou a ser mais objectiva dentro do sector
militar. Os recentes eventos sísmicos têm suscitado o emergir das vozes que
afirmam que a tecnologia já existe hoje, de tal modo que foram pedidas
explicações nesse sentido no parlamento japonês. Supostamente o HAARP, um
programa de ondas de alta frequência da Universidade do Alasca e da Marinha e
Força Aérea Norte Americana, tem a capacidade de o fazer. Emite ondas até 3,6
milhões de Watts, mais que suficiente para provocar um sismo se direccionadas
para uma zona de falhas tectónicas. O Professor Michel Chossudovsky da Universidade
de Ottawa explica como o HAARP pode ser usado não só para o desencadear de
sismos mas também de alterações climáticas. Já Nicholas Begich, ex-presidente
da Federação de Professores do Alasca, investigador independente e activista
político descreve o HAARP como uma tecnologia super poderosa de feixe de ondas
rádio que provoca elevações da ionosfera, focando um feixe e aquecendo essas
áreas. As ondas electromagnéticas são depois reflectidas para a Terra e penetram
em todas as superfícies.
Seja verdade ou não que esta tecnologia não
só existe como está operacional, não deixa de ser notória mais uma coincidência
entre simulações e acontecimentos. Estava anunciado e previsto um simulacro de
sismo no dia 20 de março de 2012 pela protecção civil de Chiapas, México. Pode
ler-se no cartaz que era uma simulação de um sismo de 7.9 na escala de Richter.
No mesmo dia, apenas 3 minutos após a hora marcada para o simulacro, deu-se um
sismo de magnitude 7.4 a 7.8 no estado de Guerrero, cujo epicentro ficou a
pouco mais de 100km da região de Chiapas.
Infelizmente, ao mesmo tempo que o desleixe
se apodera dos comportamentos ilusórios, outra reacção se apodera da sociedade,
fruto não só da própria essência humana, mas também de anos de dessensibilização.
O facto de serem mais públicos os comportamentos arrepiantes das nossas
sociedades não os torna mais condenáveis. Vejamos por exemplo as declarações de
Luís Amado quando era ministro do negócios estrangeiros, relativamente às
revoltas no Egipto, Líbia e afins. Ele diz, e cito, "seria absolutamente
ridículo do meu ponto de vista pretender desenvolver uma relação na base de uma
avaliação das condições democráticas de cada país. Se fosse assim nós não
tínhamos relações com muitos países com os quais nós temos relações há
décadas.". Não é nada que o mundo não saiba. Mas agora é afirmado publicamente.
Há apenas umas décadas atrás, poucas, isto seria impensável. Não houve um jornalista
na sala que se insurgisse, ou pelo menos questionasse, esta declaração.
Os recentes casos de Berlusconi e as suas
festas com meninas menores de idade, os constantes escândalos associados a
governos americanos no que respeita a violação de leis internacionais,
particularmente no que respeita a cenários de guerra, ou ainda o facto de comprarmos,
com total satisfação, produtos que sabemos serem produzidos por trabalhadores
em condições deploráveis, menores ou maiores de idade, são apenas mais
demonstrações de como é quase indiferente existir ou não uma política de
controlo sobre a ilusão. O que a internet mostrou ao mundo nos seus primeiros
15 anos de vida activa é que estamos na realidade longe de saber o que fazer
com a informação. Estamos, acima de tudo, longe de saber viver em comunidade.
No meio do livro de Albert Einstein
intitulado "Como vejo o mundo", vem uma passagem que define na
perfeição as regras do jogo que criámos para o nosso mundo: Já que as nações não se resolvem a suprimir
a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma
arbitragem pacífica e não baseiam o seu direito sobre a lei, elas vêem-se inexoravelmente
obrigadas a preparar a guerra.

