Iulia
Timochenko, antiga primeira ministra da Ucrânia foi presa em Agosto de 2011 por
desrespeito ao tribunal. Em Outubro do mesmo ano o julgamento termina, com uma
sentença de 7 anos de prisão por abuso de poder e 188 milhões de dólares de
indeminização ao estado ucraniano. Faz ainda parte do acórdão do tribunal o
impedimento de qualquer nova candidatura a cargos públicos, bem como a imediata
suspensão do mandato de deputada. O sistema judicial ucraniano julgou e decidiu
como provado que Iulia Timochenko teria forçado a Naftogaz (empresa estatal de
gás e petróleo da Ucrânia) a assinar um acordo de importação de gás natural com
a Rússia que não servia os interesses da Ucrânia.
Hoje, em
Maio de 2012, mais vozes políticas europeias se juntam no protesto contra
aquilo que é uma decisão dos tribunais de um estado soberano. Ameaças de
boicote ao Euro 2012 por parte da Comissão Europeia vieram hoje alinhar-se com Viviane
Reding, comissária da UE para a justiça que recusou o convite da UEFA
para estar presente na cerimónia de abertura, e com Joachim Gauck,
presidente alemão que cancelou a sua participação num encontro de chefes de
estado na Ucrânia. O governo alemão já fez chegar ao seu homólogo ucraniano que
Angela Merkel só estará na Ucrânia
durante o Euro se algo mudar relativamente à situação da ex-primeira ministra.
Os chefes de estado da República Checa (Václav Klaus), Eslovénia (Danilo Türk),
Áustria (Heinz Fischer) e Itália (Giorgio Napolitano) também já informaram que
não marcarão presença na Ucrânia durante o Europeu de Futebol, tal como confirmou
o governo daquele país organizador.
A questão
é que isto ultrapassa o respeito pela soberania de um estado e do seu sistema
judicial, ultrapassa a vergonha que deveria consumir os políticos
contemporâneos, excede a incoerência que grassa pela classe política europeia.
Ou será que durante o regime de Khadafi os líderes europeus se recusaram a ir à
Argélia? Ou talvez se neguem a ir à China? Ou a Angola, ou à Rússia, ou aos EUA
onde existem prisões de guerra sistematicamente associadas a violação dos
direitos humanos? Ou talvez rejeitem deslocações à Arábia Saudita? A lista de
países onde existem, visíveis e públicas, violações dos direitos humanos no
sistema judicial, poderia continuar por várias linhas. Mas é na Ucrânia que se
centram as atenções. Porquê? Será uma injustiça o que se passa com Timochenko? Ou
será um atentado à impunidade de que gozam os políticos europeus? Talvez seja
um castigo aplicado a alguém que jogava o mesmo jogo da UE, e que o acordo
assinado tenha sido benéfico não só para a Rússia mas também para outras
entidades pertencentes à UE. O que é certo é que Iulia apelou para o Tribunal
Europeu dos Direitos Humanos, onde o seu caso foi considerado de prioridade
máxima.
O
parlamento ucraniano teve ainda de votar por duas vezes uma proposta de
alteração à lei de corrupção que descriminalizava o abuso de poder, podendo
assim beneficiar a ex-primeira ministra condenada. Mas em ambas as votações (15
de Novembro 2011 e 8 de Fevereiro 2012) a proposta foi chumbada.
Não se
discute aqui se existe alguma perseguição política a Iula Timochenko, ou se os
tribunais da Ucrânia são independentes do estado ou não. Aqui apenas se
reflecte sobre a incoerência, falta de civismo, ausência de visão humanitária dos
chefes de estado europeus (neste caso). Os últimos 20 anos têm sido marcados
pelo declínio do discurso político. O comportamento tem sido o mesmo, mas a
total desresponsabilização social que acompanhou a evolução das sociedades
europeias nos últimos 30 anos levou a que, hoje em dia, já não exista sequer a
preocupação em esconder as promiscuidades e as desigualdades nas relações.
Embora pareça à partida um mundo tenebroso, pode bem ser a causa do seu
colapso. Enquanto tudo esteve escondido os olhos seguiram atrás das cortinas.
Hoje é cada vez mais difícil ignorar a corrupção política e o seu impacto no
nosso mundo.
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