quarta-feira, junho 13, 2012

As greves e o individualismo


Greves, greves e mais greves. Um dia acabarei por me tornar um defensor da proibição às greves. Totalmente antidemocrático e um verdadeiro rasgar de um dos grandes direitos alcançados em Portugal nos últimos 35 anos, eu sei. Mas quando olhamos para o tecido sindical e para a mensagem produzida durante as acções de greve ou de manifestação, vemos tudo menos democracia. Parece-me um pouco um sentimento saudoso do colonialismo. Mais ainda, chego mesmo a ter a sensação de que a escravatura era bem vinda.
O nosso tecido sindical (ver Pequenas e curtas reflexões, fevereiro 2011) poderia ser o principal culpado de tudo isto. Mas a verdade é que ele é apenas um reflexo de todo um povo. Tal como a nossa classe política, os nossos empresários e a nossa administração pública são reflexos da nossa cultura. Não podemos sistematicamente culpar os governos, organizar manifestações de protesto e fazer greves, quando nada fazemos para mudar o rumo da realidade.
Cada vez que vejo os cortejos das manifestações, uma mensagem ouve-se sempre bem alto no seio da multidão: quero o meu lugar ao Sol! Não se ouve ninguém dizer "quero um trabalho digno, com perspectivas de carreira", "não à cunha", ou "quero um país onde o trabalho se valoriza pela competência e a seriedade", ou ainda "quero um país onde o trabalho seja justo". Nada disso. Todos querem o quê? Um trabalho das 9 às 5, bem pago, com todas as regalias e o mínimo da responsabilidade. Bem sei que esta minha opinião é controversa, mas são estas as mensagens que vejo nas manifestações. Todos estão lá, até ao dia em que têm o seu lugar ao Sol.
Senão vejamos as greves. No início uma greve nos transportes significava que os utentes não tinham de pagar o transporte. O serviço continuava a existir, ninguém era prejudicado à excepção do patrão. A greve dos médicos nos hospitais era feita pela acção de não picar o ponto. As greves dos professores não se pautavam pela ausência de aulas para os alunos. Hoje toda a responsabilidade laboral, e em particular aquela que diz respeito aos que usufruem dos serviços, ficou esquecida durante a evolução do Portugal democrático. As greves nos transportes já nem serviços mínimos têm. Os professores esquecem os seus alunos e vão marchar para a Avenida da Liberdade. Os médicos abandonam os hospitais, chegando ao cúmulo de aderir a greves e em vez de marchar irem antes para os seus consultórios privados. A responsabilidade social foi arrancada do pensamento contemporâneo.
Toda a estrutura actual do sector profissional está deturpada. Torcemos as regras para o ponto de vista individual. Uma sociedade centrada no individualismo, como qualquer pessoa é capaz de dizer numa conversa de café, tem consequências que ficam quase sempre esquecidas nesses debates de ocasião. É esta estrutura cultural que faz com que a função do advogado seja ganhar casos e defender a verdade. A função de um investigador é produzir artigos científicos e não desenvolver a melhor ciência. O papel do político é garantir que os seu partido tenha um excelente resultado e não que faça algo de útil pelo país. Em todas as profissões criou-se um campeonato que valoriza a produção quantitativa individual e não a produção qualitativa individual e/ou colectiva. Nos médicos estamos a assistir ao fim do juramento de Hipócrates. E a melhor demonstração disso mesmo é o facto de eles serem os menos ouvidos quando se protesta com as filas de espera nos hospitais ou na cirurgia. "Considerarei a saúde do meu doente como a minha primeira preocupação" pode ler-se na Fórmula de Genebra de 1948. "A vida que professar será para benefício dos doentes e para o meu próprio bem, nunca para prejuízo deles ou com malévolos propósitos", lê-se no juramento original de Hipócrates. Onde são cumpridas hoje estas máximas?
A cultura do século XIX é a adequada para o retrocesso, para regressarmos a uma sociedade sem direitos. E a culpa é de todos nós.