Greves, greves e mais
greves. Um dia acabarei por me tornar um defensor da proibição às greves.
Totalmente antidemocrático e um verdadeiro rasgar de um dos grandes direitos
alcançados em Portugal nos últimos 35 anos, eu sei. Mas quando olhamos para o
tecido sindical e para a mensagem produzida durante as acções de greve ou de
manifestação, vemos tudo menos democracia. Parece-me um pouco um sentimento
saudoso do colonialismo. Mais ainda, chego mesmo a ter a sensação de que a
escravatura era bem vinda.
O nosso tecido
sindical (ver Pequenas e curtas reflexões, fevereiro 2011) poderia ser o principal culpado de tudo isto. Mas a verdade
é que ele é apenas um reflexo de todo um povo. Tal como a nossa classe
política, os nossos empresários e a nossa administração pública são reflexos da
nossa cultura. Não podemos sistematicamente culpar os governos, organizar
manifestações de protesto e fazer greves, quando nada fazemos para mudar o rumo
da realidade.
Cada vez que vejo os
cortejos das manifestações, uma mensagem ouve-se sempre bem alto no seio da
multidão: quero o meu lugar ao Sol! Não se ouve ninguém dizer "quero um
trabalho digno, com perspectivas de carreira", "não à cunha", ou
"quero um país onde o trabalho se valoriza pela competência e a seriedade",
ou ainda "quero um país onde o trabalho seja justo". Nada disso.
Todos querem o quê? Um trabalho das 9 às 5, bem pago, com todas as regalias e o
mínimo da responsabilidade. Bem sei que esta minha opinião é controversa, mas
são estas as mensagens que vejo nas manifestações. Todos estão lá, até ao dia
em que têm o seu lugar ao Sol.
Senão vejamos as
greves. No início uma greve nos transportes significava que os utentes não
tinham de pagar o transporte. O serviço continuava a existir, ninguém era
prejudicado à excepção do patrão. A greve dos médicos nos hospitais era feita
pela acção de não picar o ponto. As greves dos professores não se pautavam pela
ausência de aulas para os alunos. Hoje toda a responsabilidade laboral, e em
particular aquela que diz respeito aos que usufruem dos serviços, ficou
esquecida durante a evolução do Portugal democrático. As greves nos transportes
já nem serviços mínimos têm. Os professores esquecem os seus alunos e vão
marchar para a Avenida da Liberdade. Os médicos abandonam os hospitais,
chegando ao cúmulo de aderir a greves e em vez de marchar irem antes para os
seus consultórios privados. A responsabilidade social foi arrancada do
pensamento contemporâneo.
Toda a estrutura
actual do sector profissional está deturpada. Torcemos as regras para o ponto
de vista individual. Uma sociedade centrada no individualismo, como qualquer
pessoa é capaz de dizer numa conversa de café, tem consequências que ficam
quase sempre esquecidas nesses debates de ocasião. É esta estrutura cultural
que faz com que a função do advogado seja ganhar casos e defender a verdade. A
função de um investigador é produzir artigos científicos e não desenvolver a
melhor ciência. O papel do político é garantir que os seu partido tenha um
excelente resultado e não que faça algo de útil pelo país. Em todas as
profissões criou-se um campeonato que valoriza a produção quantitativa
individual e não a produção qualitativa individual e/ou colectiva. Nos médicos
estamos a assistir ao fim do juramento de Hipócrates. E a melhor demonstração disso
mesmo é o facto de eles serem os menos ouvidos quando se protesta com as filas
de espera nos hospitais ou na cirurgia. "Considerarei a saúde do meu
doente como a minha primeira preocupação" pode ler-se na Fórmula de
Genebra de 1948. "A vida que professar será para benefício dos doentes e
para o meu próprio bem, nunca para prejuízo deles ou com malévolos
propósitos", lê-se no juramento original de Hipócrates. Onde são cumpridas
hoje estas máximas?
A cultura do século
XIX é a adequada para o retrocesso, para regressarmos a uma sociedade sem
direitos. E a culpa é de todos nós.
1 comentário:
o problema sempre esteve e estará nas expectativas das pessoas, nada mais
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