quinta-feira, outubro 09, 2014

De Jesus à Igreja

Quem conhece o Sermão da Montanha de Jesus Cristo seguramente já se terá questionado sobre os dogmas da Igreja. Quem conhece o discurso de Jesus certamente já se terá perguntado porque são os partidos de direita conservadora aqueles que sistematicamente se associam à Igreja ou à "doutrina cristã". Mas antes de qualquer reflexão, leiamos o discurso proferido na Palestina em 30 d.C..

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sereis vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todos o mal contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque é grande a vossa recompensa nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há-de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo: não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. Nem se acende a candeia para alumiar e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos os que estão em casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque, em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.
Qualquer, pois, que violar um destes mais pequenos mandamentos, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar, será chamado grande no reino dos céus.
Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos: <não matarás, mas qualquer que matar será réu de juízo>. Eu, porém, vos digo que, qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão <raca>, será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser <louco>, será réu do fogo do inferno.
Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali, diante do altar, a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.
 Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil.
Ouvistes o que foi dito aos antigos: <não cometerás adultério>. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher, para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
E se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
Também foi dito: < qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de desquite>. Eu, porém, vos digo, que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa da prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.
Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: <não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor>. Eu, porém, vos digo, que, de maneira nenhuma, jureis de maneira nenhuma: nem pelo céu, que é trono de Deus, nem pela Terra, porque é o escabelo dos seus pés, nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: <sim, sim; não, não>, porque o que passa disto é de procedência maligna.
Ouvistes que foi dito: <olho por olho, e dente por dente>. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a túnica, dá-lhe também a capa. E se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: <Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo>. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos Céus, pois ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos que fazeis demais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai que está nos céus.
Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás não tereis recompensa do vosso Pai que está nos céus.
Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
Mas quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que fez a direita, para que a tua esmola seja dada ocultamente; e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará publicamente. Quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois se comprazem em orar em pé, nas sinagogas e nas ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a porta, ora a teu Pai, que vê secretamente, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis a eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário antes de vós lho pedirdes.
Portanto, vós orareis assim: "Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino; faça-se a Vossa vontade, assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Porque vosso é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amén".
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celestial vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas. E, quando jejuardes, não mostreis contristados, como os hipócritas que desfiguram o rosto para que os outros vejam que jejuam. Em verdade vos digo que esses já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o rosto, para que não pareças aos homens que jejuas, mas a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê em oculto, recompensar-te-á.
Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Acumulai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também, o vosso coração. A candeia do corpo são os olhos; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz, Se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!
Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamona.
Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou de beber; nem quanto ao .vosso corpo pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o mantimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai para as aves do céu: que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e o vosso Pai celestial alimenta-as. Não tendes vós muito mais valor do que elas? Qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
E quanto ao vestuário, porque andais solícitos? Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como eles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
Não vos preocupeis, dizendo: <Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?> porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas.
Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo o dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Não julgueis para não sejais julgados. Porque, com o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás ao teu irmão: <Deixa-me tirar o argueiro do teu olho>, tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis aos cães nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem aos pés, e, acometendo-vos, vos despedacem.
Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede recebe; e o que busca encontra; e ao que bate, se abre.
E qual de entre vós, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.
Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos há que a encontrem.
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas que vêm até vós vestidos de ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, e toda a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.
Nem todo o que me diz: <Senhor, Senhor>, entrará no reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? E, em teu nome não expulsámos demónios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?. E, então, dir-lhes-ei: Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade".
Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e sopraram ventos, e combateram aquela casa; e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a casa sobre a areia. E desceu a chuva, e correram rios, e sopraram ventos, e combateram aquela casa; e caiu, e foi grande a sua queda."

Jesus apresenta-se neste discurso como um homem que defende a igualdade entre os homens, a rejeição da riqueza material, o exultar do trabalho, o respeito mútuo, na igualdade e nas diferenças. Jesus defende a vida sóbria, e o caminhar de mãos dadas. O conjunto de valores morais proferidos por Jesus são reveladores de um carácter pacífico, de paz entre amigos e inimigos. É difícil encontrar nas palavras de Jesus um incentivo à violência, à luta armada, à desigualdade. Jesus era, à imagem dos tempos modernos, um homem de esquerda, um socialista (no verdadeiro sentido da ideologia socialista).
A luta que Jesus travou, liderando os oprimidos contra o poder Romano, foi feita pelos mesmos caminhos que usou Gandhi para a libertação da Índia. Um caminho não violento. O caminho da palavra. Aquele que é, na verdade, o verdadeiro caminho da liberdade.
Mas Jesus, sem sabê-lo, fundou um movimento, o cristianismo. O cristianismo cresceu, espalhou-se, enraizou-se, levando à edificação de uma igreja fundamentada nos ensinamentos de Jesus Cristo. A Igreja Católica tornou-se na grande voz do cristianismo durante mais de 15 séculos. Mas pouco mais de mil anos depois do discurso de Jesus, em 1095, surge o discurso do Papa Urbano II, no Concílio de Clermont. O Papa prega a primeira Cruzada.

"Ó, raça dos Francos! Raça amada e escolhida por Deus!
Dos confins de Jerusalém e de Constantinopla chegou-nos a grave informação de que uma raça maldita, totalmente alienada de Deus, invadiu violentamente as terras dos cristãos, despopulando-as pela pilhagem e pelo fogo. Levaram uma parte dos cativos para o seu próprio país, e mataram a outra com torturas cruéis. Destroem os altares, depois de os profanarem com as suas impurezas. Desmembraram o reino dos Gregos, roubando-lhe um território tão imenso que levaria mais de dois meses a atravessar.
A quem cabe então vingar estes males e recuperar esses territórios se não a vós - a quem Deus, acima de todos os outros, concedeu uma notável glória nas armas, grande valentia e força para humilhar as cabeças daqueles que vos resistem? Que os feitos dos vossos antepassados vos encorajem - a glória e a grandeza de Carlos Magno e dos vossos outros monarcas. Que o Santo Sepulcro de Nosso Senhor, hoje na posse de gentes impuras, e os outros lugares santos, hoje poluídos, vos incitem a agir... Que nenhuma das vossas posses vos prenda, nem a ansiedade pelos vossos assuntos familiares. Porque esta terra em que habitais, rodeada por todos os lados pelo mar e pelos picos das montanhas, é demasiado exígua para a vossa grande população - mal alimenta os que a cultivam. Por isso sois obrigados a assassinar-vos e devorar-vos mutuamente e a pelejar, e muitos de vós morreis em guerras civis.
Afastai, pois, de vós o ódio. Ponde fim às vossas querelas. Tomai o caminho do Santo Sepulcro. Conquistai aquela terra  a uma raça malvada e sujeitai-a. Jerusalém é a mais pródiga das terras, um paraíso de delícias. A cidade real, situada no centro da Terra, implora-vos o vosso auxílio. Fazei avidamente esta viagem pela remissão dos vossos pecados, e será vossa a recompensa de uma imperecível glória no Reino dos Céus.
Dieu li volt - Deus assim o quer!"

A quebra com os ensinamentos de Jesus é notória. É perceptível até por leituras menos atentas. Enquanto Jesus falou em amar os inimigos, em não reagir à agressão com agressão, em não roubar quem rouba, Urbano II incita à guerra, à resposta a uma agressão com outra ainda mais mortal e tenebrosa. Mas convenhamos que Jesus profetiza a rejeição dos bens materiais, enquanto a Igreja os acumulou durante milhares de anos.
Foi apenas uma reflexão sobre os males do Homem. Tendemos a começar de um fantástico ponto de partida. Mas sistematicamente nos perdemos no caminho. Já o dizia Jesus, "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos há que a encontrem."

quinta-feira, março 20, 2014

Comentário ao texto de José Gomes Ferreira, "Carta a uma Geração Errada"

Mais uma vez este senhor, que tão bem cotado anda pelas bocas dos portugueses, escreve um chorro de lambidelas superficiais que mais não são do que promover a demagogia que envolve o assunto . Por exemplo, é verdade que as SCUT são ruinosas, mas tal não tem nada que ver com o não pagamento por parte do utilizador (vulgo, portagens!). Tal está sim relacionado com as parcerias publico privadas, famosas PPP, já que as SCUT foram construídas com financiamento europeu e com a condição de não serem taxadas.
A questão de pagar ou não pagar a dívida está intrinsecamente ligada ao direito económico internacional, algo que a classe jornalística de Portugal, tão nobre e solidária com os seus patrões, esquece sistematicamente de abordar. Grande parte da dívida externa portuguesa é, seguramente, ilegal. E digo seguramente pois todos os países que até hoje decidiram realizar uma auditoria à dívida externa (todos com dívida, entre outras instituições, maioritariamente ao FMI), viram uma percentagem elevada desta ser considerada ilegal e imediatamente dissolvida.
É verdade que o manifesto é idiota e, acima de tudo, escrito ou assinado por um sem número de cretinos que nos trouxeram à situação actual. Mas se calhar a agenda é precisamente essa. Talvez o objectivo seja exactamente promover um 2º resgate. As soberanias nacionais deixaram de existir há muito tempo. Vivemos na ditadura do capital. Os interesses pessoais sobrepõem-se aos interesses das nações e seus povos, pois acima de tudo estas resumem-se a linhas fronteiriças e idiomas...pouco mais.
Já o deixarem os mais novos trabalhar, pouco me assusta mais que essa ideia. Os mais novos de que ele fala, os actuais políticos e deputados, são, na sua grande maioria, indivíduos que NUNCA trabalharam, que desconhecem a palavra sacrifício e que têm pouca ou nenhuma ideologia sociopolítica. Deixá-los trabalhar? Claro. O nosso Primeiro Ministro está cansado de trabalhar! Tanto trabalha e se sacrifica que até teve de se mudar do seu impressionante apartamento em Massamá para uma modesta moradia na Linha. Veja-se bem o sacrifício a que tem estado sujeito!!!

É altura de pararmos com demagogias e de atirar areia para os olhos! Acima de tudo é o momento de reconhecermos que a maior responsabilidade sobre tudo o que se passa neste país cabe a todos nós, cidadãos portugueses, que durante anos e anos não quisemos saber, aceitámos de bom grado o tempo das vacas gordas, promovemos e silenciámo-nos perante a ostensiva corrupção e o declínio dos valores éticos e morais. Agora colhemos o fruto da nossa inércia, da nossa negligencia cidadã!

para ler a carta:

http://sicnoticias.sapo.pt/opinionMakers/jose_gomes_ferreira/2014-03-12-carta-a-uma-geracao-errada

segunda-feira, março 17, 2014

Al-Carbon

A nossa história está cheia de caças às bruxas. É como se a sociedade dependesse deste ritual para se manter, ou sentir, viva. Da perseguição aos cristãos durante o Império Romano, aos judeus em diferentes fases da História da Humanidade, ou ainda a caça às bruxas da Idade Média, as sociedades tendem a criar um alvo de desassossego. Hoje em dia, não sei se por sermos 7 mil milhões, se por existirem múltiplos interesses e entreténs no complexo mundo do século XXI, um só alvo não chega. Precisamos de focar as miras em diferentes direcções.
Em 2001 o mundo ficou a conhecer o nome Al-Qaeda. E desde então este nome representa o mal árabe. Fosse o que fosse que acontecesse, um tropeção de um qualquer membro dos governos ocidentais ou uma bomba no centro de uma cidade nos confins do planeta, Al-Qaeda era sempre apresentada como a responsável. O mesmo se passa com o carbono. O CO2 é o líder dos maus do ambiente. E vivemos indiferentes aos restantes, tal como nos conflitos globais, onde o terrorismo é o Diabo e o resto do mundo é Deus e seus Anjos, no ambiente o CO2 manda e tudo o resto é secundário, ou insignificante. É a seita do Al-Carbon!
A Terra aquece, os oceanos acidificam, o nível das águas sobe, as florestas desaparecem, as praias interditas, o cancro na pele, as chuvas torrenciais, os nevões do inverno, a redução da quantidade de peixe, o declínio da água potável, os males da agricultura...tudo culpa do maléfico carbono! Mas será que o carbono é mesmo o senhor do mal no ambiente? Vejamos alguns casos onde o carbono surge agora como o Abadon, o anjo do abismo.
Al-Carbon
Outro dia passava na televisão um documentário/reportagem sobre o futuro da Amazónia. E imagine-se qual era a mensagem? Pois claro, o carbono está a matar a maior floresta tropical do planeta actual. Afinal o CO2 está a aquecer muito a superfície do Atlântico e este está a roubar a humidade à Amazónia. Não consigo deixar de me lembrar que esta floresta é o único ecossistema conhecido actualmente que se auto alimenta no que respeita à pluviosidade. Ou seja, a evapotranspiração da floresta amazónica é tal que leva a que as condições atmosféricas desta região sejam muito húmidas e promovam um ciclo quase contínuo de chuvas. Até há 10 ou 15 anos atrás todos os cientistas afirmavam que a desflorestação nesta região levaria a que a floresta perdesse esta característica e com isso começasse a transitar para um regime sazonal de pluviosidade. Pelo menos 18% da Amazónia já foi desflorestada, ou seja, praticamente 1/5, e até 30% foi já alterada pela indústria madeireira, isto é, quase 1/3. Não terá a desflorestação nenhuma importância no que sucede actualmente naquela região?
A redução drástica da água potável é outra consequência apontada ao demónio carbónico. O carbono levará à alteração das correntes marítimas, à mudança dos padrões de humidade e com isso a regiões de secas severas e outras de excesso de pluviosidade. Verdade seja dita que nenhum dos cenários é bom para obter água potável. Mas onde está tido em conta a exploração bárbara dos aquíferos para a produção de refrigerantes e de águas engarrafadas? A título de exemplo, no Paquistão, localidade de Bhati Dilwan, a exploração de água para produzir a água engarrafada Pure Life (Nestlé) provocou a queda do aquífero dos 100 para os 400 pés de profundidade. Já agora, continuando, a indústria usa milhares de milhões de litros de águas fluviais para os sistemas de arrefecimento nas fábricas. A agricultura intensiva sobreexplora os lençóis de água. A impermeabilização dos solos devido à construção reduz a quantidade de água que chega aos reservatórios subterrâneos. A desflorestação, em particular a destruição da vegetação ripícola, embora permita que maior quantidade de água chegue aos rios, faz com que esta tenha muito menor qualidade, chegando a tornar-se imprópria para consumo.
A agricultura surge também como um dos sectores que será mais afectado por esta seita do Bin-Carbon. Afinal as alterações dos regimes de pluviosidade e o aumento das pragas de insectos são dois problemas que resultam directamente do CO2. Pelo menos dizem os "peritos". Será que a redução das populações de predadores de insectos não tem nenhum significado? Por todo o mundo os anfíbios têm vindo a reduzir muito significativamente as suas populações. Por todos os rios fomos alterando a fauna piscícola, chegando ao ponto de não existir neste momento praticamente nenhum rio da Europa e América do Norte sem espécies introduzidas e com redução das autóctones. A maioria das espécies de répteis sofreram reduções significativas durante o último século. Tudo devido principalmente à destruição de habitat. Os morcegos são provavelmente, neste momento, o grande símbolo da perda de biodiversidade. Ora se os insectívoros são cada vez menos, não deverão então os insectos ser cada vez mais?
As regiões costeiras são outro dos pontos chave onde o CO2 é apontado como o culpado dos males que surgem hoje e ainda estão por vir. Através da subida do nível dos oceanos, devido ao aumento de temperatura global, as zonas costeiras vão ser submersas, destruídas, inundadas num cataclismo bíblico. O facto de termos construído barragens sem ter em conta a redução de sedimento que alimenta a costa, de construirmos esporões e pontões que aceleram a erosão da costa, de destruirmos sistemas dunares e construirmos em falésias e arribas é sistematicamente esquecido quanto se apresenta o tenebroso futuro dos que vivem à beira mar.
Uma das coisas que mais me fascina neste novo mundo anti-carbono é a forma como a comunidade científica (não toda, atenção) e a comunicação social conseguiram fazer desaparecer, qual truque de magia, todas as questões relacionadas com destruição de habitat, abate de animais (seja por caça, por uso de venenos, etc.) e a poluição. Este último ponto deixa-me particularmente perplexo. Há quanto tempo não se ouve falar de poluição sem ser CO2? Aliás hoje em dia já se assume muitas vezes que quando o tema é poluição então o tema é CO2. Passámos a ignorar por completo os poluentes orgânicos e os metais pesados. Já ninguém ouve falar dos problemas com DDT, apesar deste ser utilizado em grande parte do mundo. Já ninguém liga ou quer saber da quantidade de estuários, rios, lençóis de água que se encontram ainda contaminados com diversos metais e compostos orgânicos. Já ninguém liga ao impacto das pecuárias intensivas ou dos esgotos não tratados. Gerou-se uma ideia global de que já não usamos produtos tóxicos nem temos esgotos sem tratamento. O mito da tecnologia verde, dos produtos verdes, do mundo verde! Tal está, infelizmente, muito longe da verdade. Não podendo tocar em todos os assuntos, aponto apenas um ou outro exemplo. O temível DDT dos anos 60 e 70, proibido em toda a Europa no final dessa década, é produzido desde então pela mesma Europa (nomeadamente Dinamarca) e exportado para África, América do Sul e Ásia. O nosso estuário do Tejo, a nossa Ria de Aveiro, a nossa Lagoa de Óbidos, sofrem ainda de contaminações diversas por metais pesados (os dois primeiros) e pecuárias intensivas (no caso do último). Em Portugal estamos longe de uma rede de tratamento de esgotos nacional. Existem ainda diversas zonas sem estações de tratamento e, acima de tudo, muitas estações que não têm condições de funcionamento.
Não querendo chegar ao ponto de dizer que o carbono está a ser transformado em vilão por ser mal compreendido, parece-me claro que está muito muito longe de ser o abominável ser apocalíptico com que o caracterizam. E para desmistificar um pouco este Al-Carbon, e já agora dar-lhe um ar menos mau, abordarei, novamente de forma superficial (pois para aprofundar teria de escrever, pelo menos, um mini livro), questões que parecem estar esquecidas da memória científica, ou quiçá, silenciadas nos mecanismos de tradução da ciência para a discussão pública. Afinal existem milhares de explicações além do carbono para muitos dos problemas ambientais, como já percebemos acima.
Iniciemos então o papel de advogado de defesa do CO2, que tantos querem ver condenado ao exílio extraplanetário. E já que começo com uma alusão astronómica, começo também por enaltecer a importância deste malandro. Sem ele, e sem a água, a Terra seria muito mais fria. Portanto louvemos o carbono como louvamos a água. Mais ainda, quando lhe chamamos apenas carbono, lembremos que ele é a base da vida. Toda a vida na Terra é de base carbono! E sim, falei na água na mesma frase em que falei de temperatura. É que a molécula de H2O na atmosfera, ou seja, o vapor de água, tem um efeito de estufa 6 vezes superior ao da molécula de CO2. Mas vamos deixar estas referências de parte pois facilmente são tidas como uma defesa fraquinha, podendo sempre alguém argumentar que então todos os que trabalham num sistema judicial devem agradecer aos criminosos a sua existência.
Passemos a factos concretos sobre a importância do CO2 nas alterações climáticas. Na Idade Média ocorreu o Período Quente Medieval, com temperatura média global 1°C acima do actual. Ora durante este período não se pode falar de aumento do CO2 por actividade antropogénica. Este aumento está ligado à actividade solar. Rapidamente, e por um período de cerca de 200 anos, a Terra ficou em média 1°C mais quente. A Amazónia não desapareceu. As pragas de insectos não tiveram nenhum pico anormal. As correntes marítimas não mudaram drasticamente. Os polos não derreteram ao ponto do Ártico ficar livre de gelos. As regiões costeiras não ficaram submersas, inundando cidades e causando o caos. Qual é a diferença hoje, então? Na Amazónia a desflorestação é o factor chave. Na região ártica realmente houve redução de gelos e a Gronelândia (em inglês Greenland) era mais verde, permitindo aos Vikings colonizá-la, cultivar cereais e manter populações de gado. As regiões costeiras tinham ainda as barreiras dunares, as suas falésias e arribas intactas, não existiam esporões e pontões por toda a costa e as barragens eram uma fantasia.
A este período seguiu-se a chamada Pequena Idade do Gelo, que durou até princípios/meados do século XIX. Nesta fase o Tamisa congelava todos os invernos. Os verões foram mais amenos e a temperatura média global era 1°C abaixo da actual. Este fenómeno climático está também associado à actividade solar.
Estas variações climáticas fazem parte da dinâmica do clima da Terra. Ligar o CO2 à temperatura de uma forma tão directa como está a ser feito hoje em dia é muito perigoso para a veracidade científica. Por exemplo, durante o Período Quente do Piacenziano Médio a Terra tinha uma temperatura média global 2-3°C acima do actual, mas a concentração de CO2 atmosférico era inferior.
Existe ainda a acidificação dos oceanos. Esta é apresentada como catastrófica. Em particular, os grupos com concha calcária deveriam ser severamente afectados. Mas a História Natural mostra uma realidade que não vai de encontro às actuais previsões. Os cocolitóforos, plâncton calcário de dimensões microscópicas, mostram enorme abundância no registo fóssil em épocas onde os proxies climáticos indicam concentrações de CO2 muito acima das de hoje.
Existe ainda um aspecto que fragiliza muito o habitual discurso de culpabilização do CO2. Diz, quem defende a teoria de que o CO2 irá provocar a subida da temperatura média global em 2-6°C, que esta subida leva ao aumento de tufões e tempestades. Ora isto é acima de tudo contraditório. O aumento da temperatura média do planeta implica uma redução do gradiente latitudinal de temperatura. Menor diferença de temperatura entre polos e trópicos promove precisamente a redução da formação de tempestades, e não o seu aumento. A formação de condições de alta instabilidade atmosférica é gerada pelo choque de massas de ar frias com massas de ar quentes. Se ocorre uma redução deste gradiente, ocorre também uma redução da formação de condições ideais à formação de tempestades.
Acima de tudo, o CO2 está a ser usado como bode expiatório para a implementação de determinados interesses económicos, usando para tal uma estrutura política chamada IPCC (das Nações Unidas) e um financiamento duvidoso em diversos estudos. Infelizmente a ciência está hoje demasiado refém do financiamento e tal leva, em todas as áreas científicas, a casos melindrosos. Sobre polémicas com o IPCC não me alargarei, até porque já escrevi um pouco sobre isso algures pelo blogue. Termino apenas com uma frase que me parece ser a maior verdade sobre este jogo de adivinhos climáticos: "estão a dizer-me que vão prever alterações climáticas com base em 100 anos de dados para uma rocha que tem 6 mil milhões de anos?", Mark Johnson, meteorologista.

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Um Mau Observatório do Mundo

No canal TVI24, no programa Observatório do Mundo, passou no passado dia 26 de Janeiro um episódio intitulado "Clima de Dúvidas". Infelizmente é mais um mini documentário, ou aparente reportagem, fortemente parcial e que não traz nada de novo ao debate na opinião pública sobre as actuais publicações relativas às alterações climáticas.
A reportagem está repleta de ideias distorcidas, de conotações difamatórias e centra-se apenas nos chamados cépticos. E quem são eles? Bom, aqueles que se auto proclamam de cépticos são na realidade um pequeno grupo de fundamentalistas que refuta, sobre qualquer pretexto ou argumento, o aquecimento global. Ao longo do programa é transmitida a ideia de que quem não suporta a tese do aquecimento global antropogénico são indivíduos caracterizados por ideologias de direita, neoliberais, financiados por quem defende o mercado livre e a limitação governamental. A reportagem, que não se deveria referir no título a clima mas sim a fundamentalismo, retrata este pequeno grupo como representando qualquer pessoa que não seja pró aquecimento global antropogénico. Mas será?
Mais ainda, neste pedaço de mau jornalismo, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas) é tido como o centro da grande ciência, uma instituição induvidável.  Repetidamente referem que 98% dos cientistas afirma que o aquecimento global antropogénico é inegável e que está totalmente provado e demonstrado, chamando-lhe o consenso científico. Qual consenso? Quais 98%?
Realmente os chamados cépticos são fundamentalistas. Da mesma forma que os defensores acérrimos do aquecimento global antropogénico também o são (pena que não exista nenhum nome para estes. Talvez warmies não fosse má ideia). A questão é que os cépticos são um pequeno grupo, que conseguiu intrometer-se no seio das decisões políticas, e cujo o suporte científico é muitas vezes fraco. Mas a razão pela qual este movimento foi possível é porque do outro lado do campo de batalha a ciência também é muitas vezes fraca, sendo enviada para a opinião pública pelo famoso IPCC, um órgão político e não científico da ONU.
Chamei-lhe campo de batalha porque o tema do clima encontra-se de tal modo politizado que se tornou numa luta política cada vez mais distante da ciência. O consenso dos 98% é um absurdo. Esse consenso não existe, é apenas fruto de propaganda do IPCC. Para se compreender melhor como funciona esse organismo recomendo um documentário, de excelente qualidade, embora focado no lado da batalha dos que não suportam as ideias catastróficas do IPCC. No entanto centra-se em ciência, a verdadeira ciência, e não em jogos políticos. Chama-se The Great Global Warming Swindle e está disponível online.
Quem me conhece sabe que investigo evolução climática. Não o presente clima, mas os últimos 65 milhões de anos. No entanto para o fazer tenho de ler muito sobre clima, presente e passado. O consenso científico sobre aquecimento global é uma realidade. A Terra aqueceu no último século. O consenso sobre a origem humana nesse aquecimento já não é uma realidade. Consenso sobre um futuro com um aquecimento global na ordem os 2 a 6°C...menos ainda. Isto não significa que tal não possa vir a verificar-se. A questão é que não existem dados suficientes para passar da pergunta à afirmação. Como disse Mark Johnson, meteorologista, "estão a dizer-me que vão prever alterações climáticas com base em 100 anos de dados para uma rocha que tem 6 mil milhões de anos?". O máximo do Holocénico, o Período Quente Medieval e a Pequena Idade do Gelo são períodos curtos (poucos séculos, pouco mais de 2 nos últimos dois enunciados) de variação da temperatura média global em mais de 1°C. Os ciclos de oscilação são parte do clima. Mais ainda, o clima não é, nem nunca foi, e esperemos que nunca venha a ser, estável. O clima é brutalmente dinâmico, instável e o sistema mais complexo que conhecemos até hoje. E já agora, estamos na 3ª Idade Glaciar da história da Terra, cada uma durando tipicamente 10 milhões de anos. A Terra tem temperaturas médias globais geralmente superiores às actuais, com ausência de gelos nos polos. De que alterações climáticas catastróficas estamos a falar? Um dos alertas que sistematicamente é dado nos media e nos porta-vozes do IPCC é que o aquecimento global trará mais tempestades. Isto é uma falácia que apenas quem não tem formação nenhuma aceita como certo. O aumento da temperatura média global levaria a uma redução do gradiente térmico entre os polos e o equador. Reduções deste gradiente reduzem a formação de tempestades, tufões e furacões, ao invés de aumentar. Isto ocorre porque é necessário o choque de massas de ar frias com quentes para gerar a formação de tempestades.

E já agora, eu estou longe de assumir como indiscutível que o aquecimento global é antropogénico. Penso que temos muito ainda para discutir, estudar e conhecer. Mas estou ainda mais longe de ser um céptico. O grupo retratado nesta fraca reportagem não deve ser visto como símbolo de todos os que discutem a versão do IPCC.