segunda-feira, março 23, 2015

Descobrir e Redescobrir: o caminho da ciência

A História Natural, tal como a História da humanidade, está constantemente a ser reescrita. A busca incessante por conhecer mais sobre a vida, sobre o nosso planeta e sobre o Cosmos leva-nos a sucessivas descobertas. Mas muitas vezes encontramo-nos numa situação que quase embaraça a ciência, não fosse esta pautar pela máxima de que o conhecimento nunca está fechado e de que o saber de hoje está longe do saber de amanhã.
A história que conta a evolução da nossa biodiversidade está profundamente ligada a duas áreas científicas aparentemente distintas: a biologia e a geologia. A biologia desempenha o papel mais conhecido no seio deste nicho científico, sendo muito famosa, em particular, pela evolução da espécies, a selecção natural que nos trouxe Darwin. Mas a geologia está longe de um papel secundário na busca da História da vida. Talvez não tenha sido por mero acaso que o autor da teoria da selecção natural fosse de facto um indivíduo formado em geologia.
O papel da geologia é dividido fundamentalmente em dois domínios. Um é conhecido do público em geral, muito por culpa dos fascinantes dinossauros, a paleontologia. O outro é um desconhecido para a maioria mas desempenha um papel crucial para a vida, a geodiversidade. E são os processos geológicos que nos trazem os testemunhos da evolução, os pequenos contos que formam o livro da biodiversidade. Só que por vezes, esses contos, estão incompletos. Aos contos incompletos damos o nome de Espécies Lázaro, pois tal como Lázaro foi ressuscitado por Jesus, estas espécies, consideradas extintas, são ressuscitadas aquando da sua redescoberta.
Latimeria chalumnae
O mais famoso conto incompleto é sem dúvida o do Celacanto (Latimeria chalumnae). Este peixe de grande porte, que atinge cerca de 2 metros de comprimento, é conhecido no registo fóssil desde há 360 milhões de anos (Ma) e estava considerado extinto há 65 Ma. Em 1938 um exemplar foi capturado acidentalmente por uma embarcação de pesca na foz do rio Chalumna, na costa Este da África do Sul. O capitão do barco, Hendrik Goosen decidiu contactar o museu local da cidade de East London devido ao aspecto bizarro do peixe. A directora de então, Marjorie Courtney-Latimer, reconheceu a importância do achado e encaminhou o peixe para um dos mais conceituados ictiologistas do século XX, James Leonard Brierley Smith. Em honra da diligência de Marjorie, o novo Celacanto foi baptizado de Latimeria. Desde a sua descoberta em 1938, muitos outros indivíduos foram já observados e estudados. A sua distribuição resume-se à região Este de África, entre a África do Sul e a Tanzânia, passando por Madagáscar e as Ilhas Comoro. Uma nova espécie de Celacanto foi entretanto capturada em Sulawesi, Indonésia, em 1998 e baptizada de Latimeria menadoensis.

Na vida marinha encontramos o caso mais aberrante de todas as extinções do registo fóssil. Não por se tratar de um animal de grande porte, mas sim porque se trata de um grupo de elevado potencial fossilífero e que se considerava extinto desde há 320 Ma! Neopolina galathea. A sua ausência do registo fóssil é difícil de explicar. Ainda para mais quando alguns taxa fosseis, como o braquiópode Lingula, aparecem no mesmo estrato geológico que os Monoplacophora e apresentam um registo fóssil relativamente contínuo até hoje (estes braquiópodes são actuais).
Exemplo de Monoplacophora
A Classe de moluscos Monoplacophora, corresponde a moluscos com apenas uma concha, semelhante às lapas. Estes moluscos habitam na plataforma continental e montes marinhos, tanto em substrato rochoso como arenoso. Devido ao seu habitat e à sua concha calcária, o seu potencial fossilífero, ou seja a probabilidade de ficar preservado no registo fóssil, é considerável. O seu registo fóssil é comum em rochas do Paleozoico, sendo considerados os primeiros moluscos, com fósseis datados do Câmbrico. No entanto passaram 320 Ma sem aparecerem no registo fóssil, pois como se sabe desde 1952, eles ainda existem, o que significa que muito seguramente nunca desapareceram. A descoberta de espécimes desta Classe ocorreu a 6 de Maio, quando 10 espécimes vivos foram colhidos na costa Pacífica da Costa Rica. Os responsáveis pela descoberta faziam parte de uma equipa dinamarquesa que participava na expedição Galathea, cujo o objectivo era estudar as profundidades marinhas. Estes exemplares foram capturados em amostras colhidas a 3590 metros de profundidade e baptizados de

Caperea marginata
No entanto, na vida marinha, existe um caso que deixa qualquer um de olhos arregalados. Não pelo tempo que se pensou extinto, mas pelo tamanho e grupo a que pertence este animal. A Baleia-Franca-Pigmeia (Caperea marginata)! Este grupo de baleias estava considerado extinto há 2 Ma. No entanto, em 2012, a classificação desta espécie até então conhecida quase exclusivamente por ossadas e alguns arrojamentos, foi definitivamente colocada na família Cetotheriidae, provocando o renascer dos mortos e dando vida a um nome até então exclusivo para os extintos. Na verdade não se trata de uma espécie não conhecida mas sim de uma reclassificação. Não obstante, esta pequena baleia de 6,5 metros, foi muito raramente avistada e hoje representa um fóssil vivo.


Wollemia nobilis
Mas não só de vida marinha e de animais vivem as espécies Lázaro. As plantas também têm os seus contos incompletos. E nenhuma ilustra melhor o quão escondida pode passar a vida como a espécie Wollemia nobilis, encontrada em 1994 na Austrália. Não se trata de uma pequena planta, mas sim de uma árvore da família Araucariaceae, cuja altura nos indivíduos maduros é entre 27 e 35 metros! A descoberta foi feita por um ranger, David Noble, dos serviços de vida selvagem e parques nacionais de Nova Gales do Sul, enquanto fazia uma caminhada na floresta. O mais extraordinário é que a descoberta foi feita a apenas 200 km de Sidney. O registo fóssil não contém nenhum pinheiro Wollemi, mas quando comparado o pólen, encontra-se um semelhante no registo até há 2 Ma, última ocorrência conhecida. Desde então o registo é totalmente silencioso no que respeita a pólenes deste tipo. Mas o mais espectacular é verificar que as folhas do actual pinheiro de Wollemi são idênticas às folhas fossilizadas de Agathis jurassica, uma espécie do Jurássico Superior (150 Ma). Isto criou um enorme enigma botânico: como pode esta árvore não ter registos fósseis durante 150 Ma e ter indivíduos relacionados vivos hoje em dia? Para mais quando os restos fossilizados de Agathis jurassica se encontram a apenas 100 km do local onde hoje florescem os pinheiros de Wollemi?!

Laonastes aenigmamus
Ainda no mundo terrestre, mas voltando aos mamíferos, um pequeno roedor do Laos foi descrito pela primeira vez em 2005 e pensava-se que se tratava de uma nova espécie e de uma nova família. Em 2006, o Laonastes aenigmamus, passou à categoria de fóssil vivo, pois foi determinado que pertence à família Diatomyidae, considerada extinta no Tortoniano, há 11 Ma.






Rhinopithecus strykeri
A História Natural está repleta de contos incompletos. Não só nas espécies mas também na evolução dos ecossistemas. Pouco a pouco biólogos e paleontólogos vão procurando construir toda a História, tapando as lacunas e juntando as peças. Mas é surpreendente quando no mundo actual surgem descobertas que baralham o passado e nos deixam escarrapachado na cara que até o agora consegue esconder-se. De facto os últimos anos têm sido recheados de novas descobertas, de novas espécies, e não me refiro ao pequeno mundo dos insectos. O macaco Rhinopithecus strykeri foi descoberto na Birmânia (Myanmar) em 2010. Trata-se de uma nova espécie, com cerca de meio metro de comprimento de cabeça e corpo, tendo a cauda cerca de mais 1/3 que o comprimento corporal. Chamam-lhe o “macaco que espirra”, pois a orientação das suas narinas para a região superior do crânio faz com que espirre quando chove. Apesar de novo para a ciência, as comunidades locais conhecem-no há já muito tempo, fazendo inclusive parte dos alvos de caça.

Microcebus gerpi
Mas este não é o único primata descoberto em anos recentes. Aliás desde o ano 2000 foram descritas 75 novas espécies de primatas! Destas, apenas 8 foram rejeitadas, sendo posteriormente demonstrado que pertenciam a juvenis de espécies já descritas. Em 2014, talvez o caso mais surpreendente, Laura Marsh descreveu 5 espécies novas que habitam regiões do Brasil, da Bolívia e do Peru. As 5 espécies, todas do género Pithecia, pertencem a um grupo de primatas muito pouco conhecido da família Pitheciidae, conhecida em inglês como sakis. Em Madagáscar há uma floresta que promete trazer novidades durante mais alguns anos. Começou a ser explorada na segunda metade da primeira década do século XXI e um novo primata foi rapidamente descoberto, o Microcebus gerpi, nesta região virgem da floresta Sahafina. Ainda nas descobertas recentes, um novo primata foi descoberto no Brasil, o Callicebus miltoni, estudado ao longo dos últimos anos e descrito como nova espécie em 2014.

Mas não só de primatas se fazem as novas descobertas. Em 2014 e 2015 pelo menos duas novas espécies de rãs foram descobertas, Rana kauffeldi nos EUA e Euphlyctis kalasgramensis no Bangladesh. Mas nos anfíbios a mais fantástica descoberta terá de ir para Ichthyophis cardamomensis. Esta espécie de anfíbio sem membros, do grupo das cecílias (Ordem Gymnophiona) foi encontrada no Camboja e descrita em 2014, atingindo 1,5 metros!
Ichthyophis cardamomensis






Euphlyctis kalasgramensis (esq) Rana kauffeldi (dir)


São muitas as espécies do novo milénio. O gecko Paroedura hordiesi de Madagáscar, o cavalo-marinho Phyllopteryx dewysea do arquipélago de Recherche na Austrália, ou ainda as diversas novas espécies de peixes encontradas na Fossa das Marianas e que estão agora em estudo. Só nas aves pelo menos 48 novas espécies foram descritas desde 2010. Mesmo esquecendo o incrível mundo dos artrópodes e propositadamente ignorando o mundo micro, a quantidade de novas espécies que a ciência encontra por ano é impressionante. E já lá vão quase 240 anos desde Carl Linnaeus; a caminho dos 160 anos da publicação da Origem das Espécies, de Charles Darwin.
Phyllopteryx dewysea (esq) Paroedura hordiesi (dir)
Mas existe ainda um grupo de espécies que se distingue dos fósseis vivos e das novas espécies. Um grupo ainda mais incrível, pois fica entre os dois mundos. Reencontrar espécies consideradas extintas através do registo fóssil é fantástico. Mas o registo fóssil é um livro perigoso. É muito fácil e frequente faltarem páginas. A probabilidade de aparecerem surpresas faz com que não seja desconcertante quando estas emergem. E o acto de descobrir espécies novas é realmente incrível, pois já vamos com mais de dois séculos de exploração. Mas com toda a tecnologia moderna que nos permite explorar cada vez mais longe, todos sabemos que novas espécies vão surgir. No entanto, quando tal ocorre com aves ou mamíferos tem de existir um exclamar de profunda admiração. Não porque nos achamos hoje senhores do conhecimento, mas porque é refrescante e inebriante perceber que mesmo no que melhor conhecemos ainda temos tanto por descobrir. Mas o grupo de que falo é uma mistura entre espécies Lázaro e novas descobertas. São as espécies que conhecemos, declarámos extintas e depois reencontrámos. Essas histórias são incríveis! E são as que alimentam a imaginação de quem procura ainda o Tilacino, ou o sirénio de Steller, ou até o Megalodonte.
Phoboscincus bocourti
Existem mais exemplos destas espécies do que muitos imaginamos. Descrito em 1876, o Phoboscincus bocourti foi considerado extinto pois nenhum outro exemplar foi encontrado. Em 2003 e 2005 este lagarto da família Scincidae (lagartos sem membros ou com membros reduzidos) foi reencontrado na Nova Caledónia. Apesar do seu tamanho, cerca de 50 cm, esta espécie conseguiu passar despercebida durante mais de um século!



O insecto de 15 cm Dryococelus australis que habitava na Ilha de Howe no Mar da Tasmânia, foi dado como extinto na década de 1920, aparentemente resultado da introdução acidental de ratos. Uma pequena população foi encontrada em 2001, trazendo esta espécie do registo histórico para o registo actual.
Dryococelus australis
No Japão, uma espécie de salmão, Oncorhynchus nerka kawamurae, estava dada como extinta desde 1940. Este peixe de 30 cm viu a sua população desaparecer devido a um projecto de uma hidroeléctrica. Antes do desaparecimento da espécie no Lago Tazawa, foram transferidos 100.000 ovos para o Lago Saiko. O acto tinha sido dado como infrutífero até 2010, quando um grupo de investigadores descobriu uma população deste peixe precisamente no Lago Saiko.
Um dos casos mais incríveis deste renascer dos mortos é o de Fregetta maoriana. Depois de registada e descrita no século XIX, esta ave marinha da Nova Zelândia nunca mais foi avistada até 2003. Desde então os avistamentos e registos de exemplares têm sido frequentes todos os anos. Será uma população em recuperação ou apenas nos passou despercebida durante mais de 100 anos? Dentro das aves marinhas, outro regresso inesperado foi o de Pterodroma cahow, a ave símbolo nacional das Bermudas. Esteve declarada extinta durante cerca de 330 anos, tendo sido redescoberta em 1951!

Fregetta maoriana
Ainda nas aves temos mais uma fénix, o Porphyrio hochstetteri. Uma pequena ave da ilha sul da Nova Zelândia que fora declarada extinta em 1898. Acabou por ser redescoberta 40 anos mais tarde. É o maior membro da família Rallidae, da qual fazem parte, por exemplo, as galinhas-d’água.
Porphyrio hochstetteri
Mas não queria deixar de fora uma referência ao mundo das plantas. Também nelas houve renascimentos. A espécie Eriogonum truncatum, uma pequena planta com flor rosa, foi dada como extinta em 1936. Em 2005 foi reencontrada no único sítio onde se conhece a sua existência, o Monte Diabo na Califórnia.
O mundo que nos rodeia está cheio de surpresas, cheio de descobertas e repleto de redescobertas. São legítimas as crenças que pululam por diversas pessoas sobre a existência de espécies que consideramos extintas. Os regressos de que falei são apenas alguns exemplos, entre muitos outros renasceres. Caminhámos muito na nossa história de perseguição ao conhecimento, na nossa ânsia de desvendar dos mistérios do nosso mundo. Mas temos ainda muito para caminhar, muito para descobrir e até por redescobrir. A vida é um livro aberto, ávido de que as páginas sejam lidas por todos os que partilham a curiosidade pelo Cosmos. Só precisamos lembrar sempre uma verdade: o conhecimento nunca está fechado. O que sabemos hoje está longe do que saberemos amanhã.

quinta-feira, março 12, 2015

“És tu que me vais ensinar a educar um filho, queres ver?”

Frequentemente ouvimos esta pergunta, sempre em tom de escárnio, sempre associada a uma atitude de achincalho agressivo. Quem tem filhos seguramente já ouviu esta resposta de familiares ou amigos que têm filhos mais velhos, fruto de algum comentário, que muitas vezes nem era dirigido a qualquer acto, mas apenas relativo a características do próprio filho. De alguma forma as pessoas sentem que por executarem uma tarefa há mais tempo são melhores nela, ou pelo menos não têm de tolerar comentários dos menos experientes. Talvez faça sentido. Talvez.
Esta frase é tão comum quanto as opiniões e conselhos dos avós, dos tios, dos irmãos, dos amigos mais experientes. Aparentemente existe uma crença comum de que a educação, o acto de criar e preparar para a vida uma criança na sociedade moderna pode e deve obedecer a um padrão, um modelo educacional. Mas esta crença não é mais que um vestígio que sobrevive de tempos antigos, tempos mais primitivos, onde de facto existia um só modelo educacional, alicerçado na comunidade, partilhado por todos. Um modelo criado e apenas aplicável em sociedades tribais, pequenas comunidades, grupos com um sistema de valores rígido.
Na sociedade moderna, imaginar que existe um modelo educacional é como acreditar que uma nacionalidade representa um universo monocultural. Ou seja, totalmente desajustado da realidade. As sociedades modernas são acima de tudo multiculturais, partilhando diariamente milhares de diferentes visões do mundo e da vida, diversos sistemas de valores, gerando interacções de enorme diversidade entre os indivíduos, as instituições, as famílias. Numa comunidade pequena, imaginemos uma tribo, a educação dos recém chegados ao grupo é partilhada. Não só partilhada pelos membros da comunidade mas também partilha de um sistema de valores, uma visão da vida, uma estrutura social e hierárquica e um sentido prático da função associada ao crescimento, ao trajecto da infância ao estado adulto. Por existir esta estrutura rígida, com um único sistema de valores, um só conjunto de papéis sociais, uma só crença religiosa, a educação das crianças e jovens segue um padrão único, ajustado apenas nas pequenas singularidades que definem o indivíduo (pois uma sociedade tribal não é composta de seres idênticos, mas, tal como na sociedade moderna, de indivíduos). Este mecanismo não é aplicável às sociedades modernas.
Poderíamos assumir que a sociedade moderna é, na sua base, composta por milhares de pequenas comunidades. Tal não seria uma assumpção errada. De facto existem milhares de pequenas comunidades que compõem as gigantes sociedades modernas. Mas estas comunidades não são isoladas. Pelo contrário. Elas misturam-se diariamente, em todos os aspectos do quotidiano. Quando colocamos os nossos filhos na escola estamos a proporcionar-lhes o contacto com diversas culturas diferentes. E isto não é apenas fruto da emigração. Isto é também fruto da cultura do indivíduo, algo que traça o sistema de valores das sociedades modernas. Aliás, poder-se-ia mesmo assumir que não existe um sistema de valores na sociedade moderna. Esta é composta por centenas, milhares de sistemas de valores diferentes, variadas crenças, uma autêntica miríade de visões do mundo e da vida. A sociedade moderna, apesar das frequentes manifestações de intolerância, é de facto uma sociedade das diferenças. Pode existir um modelo de educação numa realidade onde não existe um só modelo? Para mim a resposta é não.
Educar uma criança é, para começar, um acto executado por diversos indivíduos. Os pais, os avós, os tios, a família em geral, os amigos, os professores, até a própria televisão, todos desempenham um papel fundamental na construção dos adultos que emergirão de cada criança de hoje. Mas todos estes indivíduos, ou conjunto deles, divergem no sistema de valores, pelo menos nalgum ponto. Se a mãe e o pai podem convergir na preparação do infante para singrar como adulto, tal não se pode esperar nem exigir dos restantes que influem no seu crescimento. Nas sociedades modernas temos de formar adultos para um mundo enorme. Não estamos a formar um indivíduo que terá um papel predeterminado no seio da sua comunidade, como ocorre numa tribo, numa comunidade isolada, num sistema de crenças e valores único. Não. Na sociedade moderna temos de formar indivíduos capazes de se adaptar e viver numa sociedade global, onde os diversos sistemas de valores proporcionam, demasiadas vezes, a ausência dos mesmos, e onde um jovem não tem um papel predeterminado, mas irá sim lutar por adquirir o papel que acredita ser o dele. Temos de preparar um jovem para ser um adulto capaz de singrar numa sociedade onde não existem caminhos traçados, não existem sequer caminhos estritamente construídos. É uma sociedade onde um jovem pode inventar um novo caminho, um que nenhum outro indivíduo criou antes.
Como se pode então educar, formar, preparar uma criança para esta realidade, que é na verdade um conjunto de milhares de realidades? Não acredito que exista uma resposta certa para esta questão. E por essa razão não acredito que quem já criou, já completou a experiência de preparar uma criança para a vida adulta, independentemente do sucesso desse agora adulto, saiba mais do que quem ainda não criou. Quanto mais não seja porque a realidade de quem criou há 20 anos é substancialmente diferente de quem cria hoje. Mas não defendo com isto que não podemos aprender com quem já viveu essa experiência. Podemos sim. Podemos e devemos. Mas acima de tudo não podemos ter a arrogância de pensar que por termos vivido já esta tarefa herculeana que sabemos mais, ou que somos detentores da verdade.

Eu, no seio da minha ignorância, acredito piamente que existe apenas uma verdade para o acto de educar. Essa verdade é a escolha que fazemos sobre o que queremos incutir na criança e no jovem que nos incumbimos de preparar para este mundo. Na minha óptica temos duas escolhas: procurar incutir-lhe um sistema de valores éticos e morais assentes no respeito pelo próximo ou procurar incutir-lhe um espírito e uma apetência para o oportunismo. Sinto, com alguma tristeza, que a segunda hipótese terá mais probabilidades de gerar um adulto bem adaptado à realidade das sociedades modernas. Prezo-me, no entanto, por acreditar que só na primeira escolha podemos formar indivíduos dignos de partilhar o mundo com os demais, indivíduos com os quais qualquer um sente o prazer de partilhar a sua vida.