Frequentemente ouvimos esta pergunta, sempre em tom de
escárnio, sempre associada a uma atitude de achincalho agressivo. Quem tem
filhos seguramente já ouviu esta resposta de familiares ou amigos que têm
filhos mais velhos, fruto de algum comentário, que muitas vezes nem era dirigido a qualquer acto, mas apenas relativo a características do próprio filho. De alguma forma as pessoas sentem que por executarem uma
tarefa há mais tempo são melhores nela, ou pelo menos não têm de tolerar
comentários dos menos experientes. Talvez faça sentido. Talvez.
Esta frase é tão comum quanto as opiniões e conselhos dos
avós, dos tios, dos irmãos, dos amigos mais
experientes. Aparentemente existe uma crença comum de que a educação, o
acto de criar e preparar para a vida uma criança na sociedade moderna pode e
deve obedecer a um padrão, um modelo educacional. Mas esta crença não é mais
que um vestígio que sobrevive de tempos antigos, tempos mais primitivos, onde
de facto existia um só modelo educacional, alicerçado na comunidade, partilhado
por todos. Um modelo criado e apenas aplicável em sociedades tribais, pequenas
comunidades, grupos com um sistema de valores rígido.
Na sociedade moderna, imaginar que existe um modelo
educacional é como acreditar que uma nacionalidade representa um universo
monocultural. Ou seja, totalmente desajustado da realidade. As sociedades
modernas são acima de tudo multiculturais, partilhando diariamente milhares de
diferentes visões do mundo e da vida, diversos sistemas de valores, gerando
interacções de enorme diversidade entre os indivíduos, as instituições, as
famílias. Numa comunidade pequena, imaginemos uma tribo, a educação dos recém
chegados ao grupo é partilhada. Não só partilhada pelos membros da comunidade
mas também partilha de um sistema de valores, uma visão da vida, uma estrutura
social e hierárquica e um sentido prático da função associada ao crescimento,
ao trajecto da infância ao estado adulto. Por existir esta estrutura rígida,
com um único sistema de valores, um só conjunto de papéis sociais, uma só
crença religiosa, a educação das crianças e jovens segue um padrão único,
ajustado apenas nas pequenas singularidades que definem o indivíduo (pois uma
sociedade tribal não é composta de seres idênticos, mas, tal como na sociedade
moderna, de indivíduos). Este mecanismo não é aplicável às sociedades modernas.
Poderíamos assumir que a sociedade moderna é, na sua base,
composta por milhares de pequenas comunidades. Tal não seria uma assumpção
errada. De facto existem milhares de pequenas comunidades que compõem as
gigantes sociedades modernas. Mas estas comunidades não são isoladas. Pelo
contrário. Elas misturam-se diariamente, em todos os aspectos do quotidiano.
Quando colocamos os nossos filhos na escola estamos a proporcionar-lhes o
contacto com diversas culturas diferentes. E isto não é apenas fruto da emigração.
Isto é também fruto da cultura do indivíduo, algo que traça o sistema de
valores das sociedades modernas. Aliás, poder-se-ia mesmo assumir que não
existe um sistema de valores na sociedade moderna. Esta é composta por
centenas, milhares de sistemas de valores diferentes, variadas crenças, uma
autêntica miríade de visões do mundo e da vida. A sociedade moderna, apesar das
frequentes manifestações de intolerância, é de facto uma sociedade das
diferenças. Pode existir um modelo de educação numa realidade onde não existe
um só modelo? Para mim a resposta é não.
Educar uma criança é, para começar, um acto executado por
diversos indivíduos. Os pais, os avós, os tios, a família em geral, os amigos,
os professores, até a própria televisão, todos desempenham um papel fundamental
na construção dos adultos que emergirão de cada criança de hoje. Mas todos
estes indivíduos, ou conjunto deles, divergem no sistema de valores, pelo menos
nalgum ponto. Se a mãe e o pai podem convergir na preparação do infante para
singrar como adulto, tal não se pode esperar nem exigir dos restantes que
influem no seu crescimento. Nas sociedades modernas temos de formar adultos
para um mundo enorme. Não estamos a formar um indivíduo que terá um papel
predeterminado no seio da sua comunidade, como ocorre numa tribo, numa
comunidade isolada, num sistema de crenças e valores único. Não. Na sociedade
moderna temos de formar indivíduos capazes de se adaptar e viver numa sociedade
global, onde os diversos sistemas de valores proporcionam, demasiadas vezes, a
ausência dos mesmos, e onde um jovem não tem um papel predeterminado, mas irá
sim lutar por adquirir o papel que acredita ser o dele. Temos de preparar um
jovem para ser um adulto capaz de singrar numa sociedade onde não existem
caminhos traçados, não existem sequer caminhos estritamente construídos. É uma
sociedade onde um jovem pode inventar um novo caminho, um que nenhum outro
indivíduo criou antes.
Como se pode então educar, formar, preparar uma criança para
esta realidade, que é na verdade um conjunto de milhares de realidades? Não
acredito que exista uma resposta certa para esta questão. E por essa razão não
acredito que quem já criou, já completou a experiência de preparar uma criança
para a vida adulta, independentemente do sucesso desse agora adulto, saiba mais do que quem ainda não criou. Quanto mais não seja porque a realidade de quem criou
há 20 anos é substancialmente diferente de quem cria hoje. Mas não defendo com
isto que não podemos aprender com quem já viveu essa experiência. Podemos sim.
Podemos e devemos. Mas acima de tudo não podemos ter a arrogância de pensar que
por termos vivido já esta tarefa herculeana que sabemos mais, ou que somos
detentores da verdade.
Eu, no seio da minha ignorância, acredito piamente que
existe apenas uma verdade para o acto de educar. Essa verdade é a escolha que
fazemos sobre o que queremos incutir na criança e no jovem que nos incumbimos
de preparar para este mundo. Na minha óptica temos duas escolhas: procurar
incutir-lhe um sistema de valores éticos e morais assentes no respeito pelo
próximo ou procurar incutir-lhe um espírito e uma apetência para o oportunismo.
Sinto, com alguma tristeza, que a segunda hipótese terá mais probabilidades de
gerar um adulto bem adaptado à realidade das sociedades modernas. Prezo-me, no
entanto, por acreditar que só na primeira escolha podemos formar indivíduos
dignos de partilhar o mundo com os demais, indivíduos com os quais qualquer um
sente o prazer de partilhar a sua vida.
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