sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Uma tertúlia no ISPA

Anteontem estive numa tertúlia no ISPA. O tema era a discussão do último filme Zeitgeist, o terceiro da sequência cinematográfica que deu origem ao movimento Zeitgeist. Foi interessante, ainda que não possa deixar passar alguns comentários sobre o evento. Antes de mais surpreendeu-me a hierarquização dos participantes. Desconhecia tertúlias com professores e alunos, sábios e aprendizes. Não está subjacente às tertúlias a ausência de estatutos entre os participantes? Nunca tinha visto nada semelhante mas como se costuma dizer, há sempre uma primeira vez.
Felizmente muitos foram os aprendizes que tiveram o prazer de intervir. Talvez felizmente não seja a palavra certa em alguns casos, ainda assim conseguiram todos ficar muito melhor do que o Professor Coimbra de Matos, um dos membros do painel de sábios. Um dia, neste blogue, escrevi sobre a idade de reforma para declarações públicas. Sem dúvida, nesta tertúlia, este professor encheu-me de razão. Psiquiatra e psicanalista, vive hoje as concepções da mente dos anos 60. Por algum motivo que me é alheio, rejeitou toda a evolução do conhecimento dos últimos 30 a 40 anos. Afirmações como "os macacos não têm consciência de que a sua vida é finita" fizeram-me abrir a boca de espanto e pensar se ele não se inserirá nesses "macacos". É que na sua idade avançada, honestamente, eu não sei o que serão aqueles "macacos" de que tanto fala. Se se refere a primatas, então estagnou no tempo e continua a viver as teorias que vingavam a meio do século XX, hoje inaceitáveis por qualquer antropólogo, psicólogo, biólogo ou indivíduo que se dedique à primatologia. Um primatólogo, infelizmente não me recordo o nome, um dia disse, a propósito da pequeníssima diferença genética entre seres humanos e chimpanzés e que permite apenas ao Homem ser esquizofrénico, que no fundo nós não passamos de um bando de chimpanzés esquizofrénicos. Espero que não tenha estagnado no que respeita aos tratamentos na psiquiatria pois a meio do século XX os choques eléctricos, o LSD e outras "medicinas" eram muito usadas. Esta não foi a sua única intervenção infeliz, mas foi a mais grave de alguém que é chamado por muitos como o "pai da psicanálise em Portugal".
Pelo resto das pessoas os pontos mais comuns eram a necessidade de mudança, o sistema corrupto, a falta de valores, o sistema bancário repulsivo, o poder da energia, etc. Cada um que teve o prazer de intervir falou de suas verdades. Não esquecendo a intervenção de uma pessoa que se apresentou como aluno do 5º ano de psicologia e pegando na sua introdução, cada um, no fundo, "puxou a brasa à sua sardinha". E é sempre desconcertante conhecer algumas destas "sardinhas". Nunca ouvi Ghandi ser tão parafraseado como nesta noite. "Sê a mudança queres ver no mundo". O mais giro é ouvir pessoas dizer isto mas continuarem a dizer que o mundo está mal, está podre e não tem valores por culpa deles. Mas quem são eles? O eles somos todos nós. A sociedade não se constrói, não funciona, não tem a identidade de meia dúzia de macacos. São todos os macacos que lhe conferem personalidade e carácter. O eles somos nós. É muito fácil apontar o dedo. Mas esse dedo que apontamos ao eles aponta para nós também. Já é tempo de perceber isto. Não existem esses eles. Nos sábios lá se encontrava o Professor Paulo Borges (Presidente da União Budista Portuguesa e professor de filosofia) que tentou deixar esta mensagem clara. A necessidade de começarmos pelo nosso interior. Não me esqueço de quando este professor perguntou "quantos de vocês estão dispostos a ser a mudança agora? Agora, quebrar com tudo e mudar?" (referindo-se às mudanças necessárias que nos conta o movimento Zeitgeist e de que falavam tantos dos jovens na tertúlia). O silêncio foi a resposta. A isto dá-se o nome de hipocrisia, o verdadeiro mal do nosso mundo. Falou-se no Norte de África, na revolução, batendo palpas como quem diz "até que enfim". Será que não se vê a hipocrisia disto? Ontem o Kadhafi, o Ben Ali, o Mubarak e os outros todos eram uns tipos porreiros que negociavam com o ocidente o seu petróleo. Hoje são uns facínoras e apela-se por todo o mundo à democratização do mundo árabe. Os europeus e os americanos falam de direitos humanos e de racismo mas depois enviam aviões para ir buscar os seus conterrâneos aos países da revolução. Nós andamos para aqui a discutir os problemas do mundo, a desflorestação, o aquecimento global, o consumo excessivo de recursos e a sua sobre-exploração mas continuamos a ir de carrinho a todo o lado, a comprar a carne que vem das "produções intensivas e desumanas", a ter 4 TVs em casa, a besuntar a pele em cremes com óleo de palmeira da desflorestação Indonésia, alimentando o sistema que tanto queremos deitar abaixo. A hipocrisia é o mal do nosso mundo. É o que vive em todos nós. Um dos professores do painel de sábios falou de vários autores que enviaram verdadeiras mensagens de vida. Um atrás outro, lá ia ele falando dos que largaram tudo e foram viver para o bosque, dos que abdicaram do conforto material e foram felizes, dos que isto e dos que aquilo. Contava tudo isto como sendo o caminho certo. Eu pergunto-me, que faz esse professor? Vai para o bosque? Não. Vive no seu apartamento, com as suas roupas mais ou menos caras, o seu carro, as suas férias, o seu computador. Nunca tinha visto e sentido tanta hipocrisia num espaço tão pequeno. Quase conseguir perceber a que cheira a hipocrisia. E o mais curioso é que esta palavra, e refiro-me à palavra, à sua pronunciação, ao som que lhe corresponde, não foi ouvida uma única vez em toda a noite! Talvez por ser aquilo de que todos nós não conseguimos fugir. Nenhum de nós não é hipócrita.
Mas quero terminar com uma intervenção positiva. A melhor da noite. Vou citar embora admita que as palavras possam não ser exactamente estas. Miguel, o agricultor, falou assim: "olá. Eu sou o Miguel e sou agricultor. Preocupa-me o mundo e como estão as coisas. Não sei como mudá-lo mas procuro nas minhas pequenas acções e simbólicas fazer algo. Não atiro beatas para o chão, não deito papéis para rua, tento ser cuidadoso na minha agricultura. Gostava também eu de mudar o mundo. Mas a verdade é que estou à nora".

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Pequenas e Curtas Reflexões

Os jovens de hoje

A realidade da precariedade é transversal no palco mundial. No entanto é em Portugal que se manifestam as minhas preocupações e receios. São vários os nomes atribuídos à nossa geração. Geração à rasca, geração canguru, geração lixada. Durante muitos anos deveríamos ter dito também geração comodista, geração inerte ou geração incapaz. Mas as condições actuais para os jovens portugueses começam a gerar um sentimento de revolta, por muitos anos apaziguado com a emigração. O problema é que já nem emigrando os problemas se resolvem. E o país continua de olhos fechados, na sua gestão danosa, repleto dos seus agiotas que parecem míopes, limitando as suas acções ao futuro imediato. O problema de Portugal excede as condições da juventude. É um problema estrutural enraizado desde a nascença da nossa nação. Mas, caminhando para 1000 anos de história, talvez seja o momento de abrir as portas da consciência social e mostrar um povo mais interventivo.
Mas a tarefa não será de todo fácil. Os jovens de hoje representam a juventude mais instruída de sempre da nossa história, mas que instrução revelam eles? Muitos são os licenciados e até mestres que não sabem escrever português. Incontáveis os que têm papéis que lhes atribuem o 12º ano das novas oportunidades mas que não só não aprenderam nada como a única oportunidade que têm com estes papéis é tirar um curso superior e juntar-se aos outros milhares de analfabetos instruídos. A consciência social é uma névoa nas mentes jovens e o sentido crítico uma espécie de conceito abstracto de que já se ouviu falar. Estamos cheios de instrução estatística mas vazios de instrução profissional e humana.

As manifs e o futuro

Natália Faria escreveu um artigo no Público intitulado «Uma "manif" de rua para mostrar que "o país é que está a ser parvo"». Tudo o que este artigo mostra são dois jovens, João Labrincha e Raquel Freire, à procura do seu momento de mediatismo que seguramente lhes poderá abrir as portas do jogo dos favores português. Promovem a iniciativa da primeira manifestação apartidária e laica que deverá ocorrer no dia 12 de Março na Avenida da Liberdade. Mas aquilo que defendem, afirmado pelo jovem jornalista João Pacheco que se juntou à iniciativa, é a mudança pelo voto e através de movimentos democráticos. João Pacheco compara mesmo a iniciativa ao que acontece no Egipto e na Tunísia. Parece-me uma comparação infeliz, para não ser demasiado agressivo nos adjectivos. O que ocorre no norte de África em nada se assemelha a esta iniciativa, que mais não seja porque em primeiro lugar o que este movimento pretende não é mudar nada, apenas dizer que não gostamos. E será coincidência que esta iniciativa seja no mesmo dia da manifestação convocada pela FENPROF?
Este país parece um zoo onde se juntaram orangotangos e gorilas na mesma jaula e como eles não se entendem a solução é trocar os orangotangos e os gorilas por uns novos. Mas isso não resolve. Nenhum jogo se altera só por mudança de peões. É necessário alterar as regras de jogo.

O sindicalismo profissional

Portugal tem um sem número de licenciaturas e estou surpreendido por ainda não ter surgido uma licenciatura em sindicalismo. Afinal o que não falta neste país são sindicalistas profissionais!!! Mário Nogueira é líder da FENPROF há quase 4 anos (Abril de 2007), sucedendo a Paulo Sucena que esteve 13 anos à frente do sindicato. No entanto não sabe o que é uma sala de aula há 20 anos, sendo sindicalista desde então. Na UGT surge João Proença como líder desde 1995. Este líder apresenta um conjunto de situações curiosas. Fundou o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública (SINTAP) em 1979 sendo eleito líder em 1980, onde permaneceu até 2003, tendo acumulado durante 8 anos o cargo de Secretário Geral de dois sindicatos! Não poderei ainda deixar de referir que é membro da Comissão Nacional bem como da Comissão Politica do Partido Socialista pois parece-me que no mínimo gera um clima de possível parcialidade nas suas decisões. A CGTP tem em Manuel Carvalho da Silva o seu líder desde 1986, tendo sido eleito para um novo mandato que termina em 2012. Os sindicatos aqui abordados são as grandes frentes sindicais que englobam um sem número de sindicatos. Mas estas 3 figuras parecem os Mubarak, Ben Ali ou Kadhafi das terras lusitanas. Não sendo chefes de estado têm cargos de elevada importância nacional há demasiado tempo. A Era do sindicalismo profissional!

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

De que cor é a água?

Na sequência de algumas conversas sobre a cor da água e a relação entre a cor do céu e a da água, resolvi escrever este pequeno texto com o intuito de esclarecer algumas dúvidas. A água é azul. Gostaria, antes de continuar, de deixar claro que transparente não é uma cor! A transparência de uma substância é uma propriedade. Lembrem-se dos vitrais cheios de cores ou dos copos de vidro azuis, verdes ou amarelos e no entanto, transparentes. O motivo pelo qual a água é azul prende-se com a sua interacção com o espectro electromagnético. A zona do visível (380nm - 760nm) é responsável pelo que nós designamos de cor e este intervalo compreende o violeta, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho. O violeta, o verde, o amarelo e o laranja são cores que penetram até aos 10 a 50m, dependendo das propriedades da água (do seu conteúdo em células de algas, em zoo e fitoplâncton, em matéria orgânica, em sólidos em suspensão, etc.). O vermelho, nas melhores condições, penetra até aos 3m. Qualquer corpo vermelho a 5 ou 10m de profundidade apresenta-se como um corpo escuro. Isto ocorre porque as moléculas de água, bem como os seus constituintes, absorvem nos comprimentos de onda das cores acima mencionadas. O comprimento de onda que não é absorvido é o azul. O azul é difundido pela água. É devido à propriedade de transparência da água que um copo de água não é azul. A quantidade de radiação correspondente ao azul difundida num copo de água é demasiado pequena para ser captada pelos nossos olhos. As variações na cor da água devem-se a propriedades específicas desta (acastanhada na foz dos rios devido à matéria particulada em suspensão de origem terrígena; turquesa nas zonas tropicais devido à baixa profundidade, algas, etc.; escura nos rios e lagos devido às propriedades dos fundos, baixa profundidade e propriedades da constituição da água...). Tipicamente a água de um oceano ao largo é azul. E não existe melhor imagem para retirar as dúvidas como a imagem da Terra vista do espaço.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Africa Unite

África começa a mostrar ao mundo movimentos ideológicos que se iniciaram há já algumas décadas. Do slogan Africa Unite à constante enunciação "os africanos", que rapidamente se transferiu para aquele continente, a cultura africana começou a gerar-se num contexto de união. A divisão idealizada pelas potências ocidentais, que visava a separação de tribos aliadas e a junção de tribos rivais, dentro da nossa concepção de nacionalidade, com o propósito único de gerar cisões profundas dentro dos "novos países" para melhor se poderem explorar as intermináveis riquezas africanas parece ter culminado no efeito inverso. Como diz o povo, virou-se o feitiço contra o feiticeiro.
Após décadas de guerras civis, África foi recriando a sua cultura e o movimento dos povos africanos começou a expandir-se. Hoje África começa a mostrar ao mundo as revoluções culturais que nela brotam e vão brotar. A África árabe, que muitos pensavam estagnada no curso do tempo e da cultura, rebenta com movimentos cívicos que anseiam pela mudança. Talvez nos tenhamos esquecido que aqueles povos supostamente estagnados eram, no tempo das Cruzadas, bem mais desenvolvidos que a sociedade europeia. Na África subsariana, países como Moçambique, Angola, África do Sul, Namíbia ou Tanzânia adquirem a sua identidade própria e fazem crescer o seu povo na formação profissional. Uns mais lentos, outros mais rápidos, mas todos aproveitando a mão ocidental (e oriental agora também) que se estende para tirar e não se dá com do que vai deixando. A cultura de união africana é cada vez mais uma realidade, absorvida de um enorme potencial para mudar o curso da História e trazer o continente do rei da selva para o topo da civilização mundial. Nunca nenhuma sociedade se mostrou capaz da eternidade. Nem nunca tal existirá. Mas os ciclos de poder e cultura existem e África está no caminho certo para responder da melhor forma ao chamamento.
O ocidente poderá procurar usar estes eventos a seu favor, buscando formas de incutir a sua sociedade no pequeno buraco que se abre durante as revoluções. Mas a mentalidade africana poderá impedir tal façanha. As mudanças não acontecerão amanhã. Mas estão agora, por fim, a começar.