Anteontem estive numa tertúlia no ISPA. O tema era a discussão do último filme Zeitgeist, o terceiro da sequência cinematográfica que deu origem ao movimento Zeitgeist. Foi interessante, ainda que não possa deixar passar alguns comentários sobre o evento. Antes de mais surpreendeu-me a hierarquização dos participantes. Desconhecia tertúlias com professores e alunos, sábios e aprendizes. Não está subjacente às tertúlias a ausência de estatutos entre os participantes? Nunca tinha visto nada semelhante mas como se costuma dizer, há sempre uma primeira vez.
Felizmente muitos foram os aprendizes que tiveram o prazer de intervir. Talvez felizmente não seja a palavra certa em alguns casos, ainda assim conseguiram todos ficar muito melhor do que o Professor Coimbra de Matos, um dos membros do painel de sábios. Um dia, neste blogue, escrevi sobre a idade de reforma para declarações públicas. Sem dúvida, nesta tertúlia, este professor encheu-me de razão. Psiquiatra e psicanalista, vive hoje as concepções da mente dos anos 60. Por algum motivo que me é alheio, rejeitou toda a evolução do conhecimento dos últimos 30 a 40 anos. Afirmações como "os macacos não têm consciência de que a sua vida é finita" fizeram-me abrir a boca de espanto e pensar se ele não se inserirá nesses "macacos". É que na sua idade avançada, honestamente, eu não sei o que serão aqueles "macacos" de que tanto fala. Se se refere a primatas, então estagnou no tempo e continua a viver as teorias que vingavam a meio do século XX, hoje inaceitáveis por qualquer antropólogo, psicólogo, biólogo ou indivíduo que se dedique à primatologia. Um primatólogo, infelizmente não me recordo o nome, um dia disse, a propósito da pequeníssima diferença genética entre seres humanos e chimpanzés e que permite apenas ao Homem ser esquizofrénico, que no fundo nós não passamos de um bando de chimpanzés esquizofrénicos. Espero que não tenha estagnado no que respeita aos tratamentos na psiquiatria pois a meio do século XX os choques eléctricos, o LSD e outras "medicinas" eram muito usadas. Esta não foi a sua única intervenção infeliz, mas foi a mais grave de alguém que é chamado por muitos como o "pai da psicanálise em Portugal".
Pelo resto das pessoas os pontos mais comuns eram a necessidade de mudança, o sistema corrupto, a falta de valores, o sistema bancário repulsivo, o poder da energia, etc. Cada um que teve o prazer de intervir falou de suas verdades. Não esquecendo a intervenção de uma pessoa que se apresentou como aluno do 5º ano de psicologia e pegando na sua introdução, cada um, no fundo, "puxou a brasa à sua sardinha". E é sempre desconcertante conhecer algumas destas "sardinhas". Nunca ouvi Ghandi ser tão parafraseado como nesta noite. "Sê a mudança queres ver no mundo". O mais giro é ouvir pessoas dizer isto mas continuarem a dizer que o mundo está mal, está podre e não tem valores por culpa deles. Mas quem são eles? O eles somos todos nós. A sociedade não se constrói, não funciona, não tem a identidade de meia dúzia de macacos. São todos os macacos que lhe conferem personalidade e carácter. O eles somos nós. É muito fácil apontar o dedo. Mas esse dedo que apontamos ao eles aponta para nós também. Já é tempo de perceber isto. Não existem esses eles. Nos sábios lá se encontrava o Professor Paulo Borges (Presidente da União Budista Portuguesa e professor de filosofia) que tentou deixar esta mensagem clara. A necessidade de começarmos pelo nosso interior. Não me esqueço de quando este professor perguntou "quantos de vocês estão dispostos a ser a mudança agora? Agora, quebrar com tudo e mudar?" (referindo-se às mudanças necessárias que nos conta o movimento Zeitgeist e de que falavam tantos dos jovens na tertúlia). O silêncio foi a resposta. A isto dá-se o nome de hipocrisia, o verdadeiro mal do nosso mundo. Falou-se no Norte de África, na revolução, batendo palpas como quem diz "até que enfim". Será que não se vê a hipocrisia disto? Ontem o Kadhafi, o Ben Ali, o Mubarak e os outros todos eram uns tipos porreiros que negociavam com o ocidente o seu petróleo. Hoje são uns facínoras e apela-se por todo o mundo à democratização do mundo árabe. Os europeus e os americanos falam de direitos humanos e de racismo mas depois enviam aviões para ir buscar os seus conterrâneos aos países da revolução. Nós andamos para aqui a discutir os problemas do mundo, a desflorestação, o aquecimento global, o consumo excessivo de recursos e a sua sobre-exploração mas continuamos a ir de carrinho a todo o lado, a comprar a carne que vem das "produções intensivas e desumanas", a ter 4 TVs em casa, a besuntar a pele em cremes com óleo de palmeira da desflorestação Indonésia, alimentando o sistema que tanto queremos deitar abaixo. A hipocrisia é o mal do nosso mundo. É o que vive em todos nós. Um dos professores do painel de sábios falou de vários autores que enviaram verdadeiras mensagens de vida. Um atrás outro, lá ia ele falando dos que largaram tudo e foram viver para o bosque, dos que abdicaram do conforto material e foram felizes, dos que isto e dos que aquilo. Contava tudo isto como sendo o caminho certo. Eu pergunto-me, que faz esse professor? Vai para o bosque? Não. Vive no seu apartamento, com as suas roupas mais ou menos caras, o seu carro, as suas férias, o seu computador. Nunca tinha visto e sentido tanta hipocrisia num espaço tão pequeno. Quase conseguir perceber a que cheira a hipocrisia. E o mais curioso é que esta palavra, e refiro-me à palavra, à sua pronunciação, ao som que lhe corresponde, não foi ouvida uma única vez em toda a noite! Talvez por ser aquilo de que todos nós não conseguimos fugir. Nenhum de nós não é hipócrita.
Mas quero terminar com uma intervenção positiva. A melhor da noite. Vou citar embora admita que as palavras possam não ser exactamente estas. Miguel, o agricultor, falou assim: "olá. Eu sou o Miguel e sou agricultor. Preocupa-me o mundo e como estão as coisas. Não sei como mudá-lo mas procuro nas minhas pequenas acções e simbólicas fazer algo. Não atiro beatas para o chão, não deito papéis para rua, tento ser cuidadoso na minha agricultura. Gostava também eu de mudar o mundo. Mas a verdade é que estou à nora".
