quarta-feira, dezembro 07, 2011

A base da crise


Compreender a base real da crise é fundamental para podermos prever o futuro próximo da Europa. Existem um sem número de razões que nos trouxeram à situação actual. Mas a base da crise, aquilo que permite a sua aparição, é simples de compreender. O mundo vive num sistema capitalista. O principal princípio económico do capitalismo é a acumulação de lucro. Quando este sistema começou a ser implementado teve de travar uma luta com as condições sociais e ideológicas dos povos europeus e norte americanos. Estávamos em plena luta de classes, em plena reivindicação da classe operária e a assistir ao crescimento da burguesia. Um sistema, cujo princípio básico é a acumulação de lucro, tem extremas dificuldades em subsistir numa sociedade na qual ocorre o crescimento da classe média e a melhoria das condições de vida da maioria da população. Mas esta época é também a época do imperialismo. A instauração do sistema capitalista fez-se assim como o recurso às estruturas imperiais. Utilizando as colónias, os países europeus e norte americanos puderam implementar este novo sistema económico ao mesmo tempo que concediam à sua população os direitos que esta reivindicava. A acumulação de lucro era possível graças à exploração dos territórios coloniais. Nasce o capitalismo imperialista.
Com o aproximar do final do século XX muitas foram as guerras coloniais. No entanto rapidamente se compreendeu que manter uma guerra, ou mesmo manter as colónias, era dispendioso. De forma a manter o sistema económico capitalista, do chamado mundo desenvolvido, era mais útil manter um controlo sobre a gestão de novos países do que subordiná-los, mantendo a sua dependência. Nascem então, verdadeiramente, novos países, especialmente em África. No entanto todo o continente Americano, tal como o Africano e o Médio Oriente, são criteriosamente mantidos sob ditaduras ou pseudo-democracias controladas pelos líderes europeus e norte americanos. Assim continuava-se a garantir a qualidade de vida na designada sociedade ocidental, gerando inclusive um novo nicho económico global, o do armamento (que até então subsistia à base de grandes guerras e agora passa a ser um negócio contínuo, alimentado pelas guerras civis de grande parte das ex-colónias).
É no século XXI que o paradigma ganha novos contornos. As nações até então exploradas começam a ganhar uma identidade própria, com populações que iniciam as suas reivindicações, as suas lutas, exigindo melhores condições de vida. Associando isto à força de alguns líderes políticos com sentido de estado, os territórios que alimentavam o capitalismo imperialista, começam a virar-se mais para si próprios, para as suas necessidades, para os seus estados e a sua população. A torneira de lucro da Europa e da América do Norte deixa de jorrar e começa a ser mais um conta gotas. Hoje, países como Brasil, Equador, Venezuela e alguns países africanos já não alimentam as economias dominantes. O Brasil é talvez o caso mais relevante pois passou de mero alimentador a potência mundial. A Ásia cresceu e tornou-se num sector económico de grande potência e força. A primavera árabe ameaça reduzir ainda mais o fluxo de capital, podendo vir a transformar o conta gotas num mero poço seco.
O problema é então puramente estrutural. As economias que dominaram todo o século XX num sistema de capitalismo imperialista, estão agora sem fonte de alimentação ao seu próprio sistema. Samir Amin quase previa este desfecho na década de 70. Qual o caminho agora? Existem algumas possibilidades. A instauração de regimes autoritários na Europa (nos EUA é mais difícil de tal acontecer, pois nunca tal ocorreu naquele país, o que torna esse caminho muito complicado por razões culturais e sociais) é uma forte possibilidade. Está mesmo, a pouco e pouco, a acontecer. As políticas de austeridade não visam mais do que reduzir, de forma lenta mas sistemática, os direitos dos cidadãos. A direita cresce no velho continente e já se começam a ver algumas medidas que atacam directamente direitos fundamentais das democracias, como o direito à manifestação. Outra solução é a revolução no seio da Europa, com o povo a exigir outro caminho, com os países periféricos a exigirem uma auditoria às dívidas externas, provocando o colapso deste sistema económico e fazendo renascer as ideologias socialistas (não confundir com PS). Por fim, o último caminho é a guerra. Tanto a nível europeu como mundial. A Europa e os EUA lutam arduamente por não perder as últimas gotas da torneira, hoje claramente desviadas para a Ásia e para as próprias ex-colónias. No seio desta luta pela sobrevivência de um sistema injusto e exploratório, mas que nos permitiu viver na abundância, o despoletar de uma terceira guerra mundial é um cenário que se vai tornando cada vez mais provável. Afinal, as condições socioeconómicas que antecederam a 1ª Guerra Mundial e, também, a 2ª Guerra Mundial, são muito semelhantes àquelas que hoje se começam a formar no contexto europeu. Mas estão agravadas por uma Ásia com voz forte no mundo e uma América do Sul que cada vez mais exige o seu lugar na mesa dos "grandes".

O racismo europeu

Generalizou-se a afirmação de que os povos mediterrâneos são preguiçosos, corruptos, trapaceiros. E o mais grave que nós, povos mediterrâneos, não só consentimos, como vamos ainda ao cúmulo de concordar e afirmá-lo, dando razão à xenofobia do norte europeu. Bem sei que temos, em geral, um nível de instrução baixo e um sentido crítico medíocre, mas nunca pensei que tivéssemos tão pouca auto-estima.
Os povos do sul da Europa não são preguiçosos nem são mais corruptos que os do norte, embora sejam um pouco trapaceiros, é verdade. As afirmações que hoje todos repetimos não são mais do que racismo, na sua pura essência. O comportamento das sociedades mediterrâneas é um comportamento normal e adequado às circunstâncias do final do século XX. Ou será que o mesmo povo que lançou os descobrimentos é preguiçoso? Ou o mesmo que conquistou o continente americano também o é? Ou ainda o povo que despertou a Europa no Renascimento, será também um preguiçoso incapaz? Na verdade não precisamos ir tão longe na história. Itália, Grécia, Espanha e Portugal têm hoje empresas de sucesso, desenvolvem tecnologia de ponta, são respeitados a nível global em várias áreas. A engenharia geológica, a indústria automóvel, a aeronáutica, a robótica, a investigação no cancro, o sector bancário, a agricultura, são tudo áreas onde estes países dão cartas a nível mundial. Mas somos os povos preguiçosos da Europa. Donde vem esta ideia que até nós engolimos e aceitamos?
Todos estes países passaram grande parte do século XX debaixo de uma ditadura. Salazar, Franco, Mussolini e, na Grécia, de um modo mais conturbado, Jorge II e a ditadura dos coronéis, representam os expoentes máximos dos regimes. Quando se libertam dos regimes autoritários e implementam a democracia ao estilo europeu, todos os estados se deparavam com um problema: quase nenhuma classe média. A esmagadora maioria da população era pobre. Nos casos particulares de Portugal, Grécia e Espanha, a democratização é quase coincidente com a entrada na então CEE e com o elevado crescimento económico que marca a Europa dos anos 80 e 90. A classe média surge quase por geração espontânea, tendo de repente acesso a tudo, podendo deixar os filhos estudar, garantindo que os podem sustentar. Comprar casa e carro passa a ser uma vulgaridade. Os computadores tornam-se uma presença normal nos lares e as casas começam a ter uma televisão por divisão, quase. Itália tem um caminho diferente já que a república se instalou após a Segunda Guerra Mundial. No entanto é também nestas décadas que ocorre o grande bum da classe média italiana, em particular no sul do país. Não é difícil compreender que houve um deslumbramento da população.
Todos conhecemos a história do indivíduo pobre que ficou rico da noite para o dia, que começou a ser menos profissional, mais gastador e, sem se aperceber, começou a viver acima das suas possibilidades. O que ocorreu nestes países foi precisamente essa reacção comum. A sociedade, o povo, a classe média viu-se de repente com muito, com tudo o que antes era sonho. Comprou, gastou, acomodou-se. Baixou a produtividade, os níveis de profissionalismo. A juntar a isto a população cresceu brutalmente. Mas seremos nós preguiçosos e corruptos? Continuamos a ter por cá (entenda-se mediterrâneo) quem se distinga profissionalmente, desenvolvendo trabalho de ponta em várias áreas. Os emigrantes destas nações (não sei se ainda posso chamar de nação ou se já fomos todos promovidos a meros estados europeus) são elogiados e respeitados nos países onde frequentemente se instalam. Mas é verdade. Fomos mal habituados nos últimos 30 anos. Embora isso não tenha nada a ver com a ausência de crescimento económico nesta zona europeia. Não é possível crescer com uma moeda como o euro, uma economia como a destes países e uma política liderada pelos povos nórdicos. O choque cultural, económico e estrutural é demasiado grande para que as regras da Europa do Norte sejam aplicáveis à Europa do Sul.
Temos alguma culpa do estado do nossos países. Temos uma parte da responsabilidade na frequente má gestão dos fundos europeus. Agora meus amigos, preguiçosos e corruptos não somos mais do que os nossos vizinhos nortenhos. E não posso deixar de dizer que continuo a ficar surpreendido com a xenofobia e as posições racistas frequentes desses países que se dizem avançados, social e economicamente mais evoluídos.