Generalizou-se a afirmação de que os povos mediterrâneos são preguiçosos, corruptos, trapaceiros. E o mais grave que nós, povos mediterrâneos, não só consentimos, como vamos ainda ao cúmulo de concordar e afirmá-lo, dando razão à xenofobia do norte europeu. Bem sei que temos, em geral, um nível de instrução baixo e um sentido crítico medíocre, mas nunca pensei que tivéssemos tão pouca auto-estima.
Os povos do sul da Europa não são preguiçosos nem são mais corruptos que os do norte, embora sejam um pouco trapaceiros, é verdade. As afirmações que hoje todos repetimos não são mais do que racismo, na sua pura essência. O comportamento das sociedades mediterrâneas é um comportamento normal e adequado às circunstâncias do final do século XX. Ou será que o mesmo povo que lançou os descobrimentos é preguiçoso? Ou o mesmo que conquistou o continente americano também o é? Ou ainda o povo que despertou a Europa no Renascimento, será também um preguiçoso incapaz? Na verdade não precisamos ir tão longe na história. Itália, Grécia, Espanha e Portugal têm hoje empresas de sucesso, desenvolvem tecnologia de ponta, são respeitados a nível global em várias áreas. A engenharia geológica, a indústria automóvel, a aeronáutica, a robótica, a investigação no cancro, o sector bancário, a agricultura, são tudo áreas onde estes países dão cartas a nível mundial. Mas somos os povos preguiçosos da Europa. Donde vem esta ideia que até nós engolimos e aceitamos?
Todos estes países passaram grande parte do século XX debaixo de uma ditadura. Salazar, Franco, Mussolini e, na Grécia, de um modo mais conturbado, Jorge II e a ditadura dos coronéis, representam os expoentes máximos dos regimes. Quando se libertam dos regimes autoritários e implementam a democracia ao estilo europeu, todos os estados se deparavam com um problema: quase nenhuma classe média. A esmagadora maioria da população era pobre. Nos casos particulares de Portugal, Grécia e Espanha, a democratização é quase coincidente com a entrada na então CEE e com o elevado crescimento económico que marca a Europa dos anos 80 e 90. A classe média surge quase por geração espontânea, tendo de repente acesso a tudo, podendo deixar os filhos estudar, garantindo que os podem sustentar. Comprar casa e carro passa a ser uma vulgaridade. Os computadores tornam-se uma presença normal nos lares e as casas começam a ter uma televisão por divisão, quase. Itália tem um caminho diferente já que a república se instalou após a Segunda Guerra Mundial. No entanto é também nestas décadas que ocorre o grande bum da classe média italiana, em particular no sul do país. Não é difícil compreender que houve um deslumbramento da população.
Todos conhecemos a história do indivíduo pobre que ficou rico da noite para o dia, que começou a ser menos profissional, mais gastador e, sem se aperceber, começou a viver acima das suas possibilidades. O que ocorreu nestes países foi precisamente essa reacção comum. A sociedade, o povo, a classe média viu-se de repente com muito, com tudo o que antes era sonho. Comprou, gastou, acomodou-se. Baixou a produtividade, os níveis de profissionalismo. A juntar a isto a população cresceu brutalmente. Mas seremos nós preguiçosos e corruptos? Continuamos a ter por cá (entenda-se mediterrâneo) quem se distinga profissionalmente, desenvolvendo trabalho de ponta em várias áreas. Os emigrantes destas nações (não sei se ainda posso chamar de nação ou se já fomos todos promovidos a meros estados europeus) são elogiados e respeitados nos países onde frequentemente se instalam. Mas é verdade. Fomos mal habituados nos últimos 30 anos. Embora isso não tenha nada a ver com a ausência de crescimento económico nesta zona europeia. Não é possível crescer com uma moeda como o euro, uma economia como a destes países e uma política liderada pelos povos nórdicos. O choque cultural, económico e estrutural é demasiado grande para que as regras da Europa do Norte sejam aplicáveis à Europa do Sul.
Temos alguma culpa do estado do nossos países. Temos uma parte da responsabilidade na frequente má gestão dos fundos europeus. Agora meus amigos, preguiçosos e corruptos não somos mais do que os nossos vizinhos nortenhos. E não posso deixar de dizer que continuo a ficar surpreendido com a xenofobia e as posições racistas frequentes desses países que se dizem avançados, social e economicamente mais evoluídos.
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