Compreender a base real da crise é fundamental para podermos prever o futuro próximo da Europa. Existem um sem número de razões que nos trouxeram à situação actual. Mas a base da crise, aquilo que permite a sua aparição, é simples de compreender. O mundo vive num sistema capitalista. O principal princípio económico do capitalismo é a acumulação de lucro. Quando este sistema começou a ser implementado teve de travar uma luta com as condições sociais e ideológicas dos povos europeus e norte americanos. Estávamos em plena luta de classes, em plena reivindicação da classe operária e a assistir ao crescimento da burguesia. Um sistema, cujo princípio básico é a acumulação de lucro, tem extremas dificuldades em subsistir numa sociedade na qual ocorre o crescimento da classe média e a melhoria das condições de vida da maioria da população. Mas esta época é também a época do imperialismo. A instauração do sistema capitalista fez-se assim como o recurso às estruturas imperiais. Utilizando as colónias, os países europeus e norte americanos puderam implementar este novo sistema económico ao mesmo tempo que concediam à sua população os direitos que esta reivindicava. A acumulação de lucro era possível graças à exploração dos territórios coloniais. Nasce o capitalismo imperialista.
Com o aproximar do final do século XX muitas foram as guerras coloniais. No entanto rapidamente se compreendeu que manter uma guerra, ou mesmo manter as colónias, era dispendioso. De forma a manter o sistema económico capitalista, do chamado mundo desenvolvido, era mais útil manter um controlo sobre a gestão de novos países do que subordiná-los, mantendo a sua dependência. Nascem então, verdadeiramente, novos países, especialmente em África. No entanto todo o continente Americano, tal como o Africano e o Médio Oriente, são criteriosamente mantidos sob ditaduras ou pseudo-democracias controladas pelos líderes europeus e norte americanos. Assim continuava-se a garantir a qualidade de vida na designada sociedade ocidental, gerando inclusive um novo nicho económico global, o do armamento (que até então subsistia à base de grandes guerras e agora passa a ser um negócio contínuo, alimentado pelas guerras civis de grande parte das ex-colónias).
É no século XXI que o paradigma ganha novos contornos. As nações até então exploradas começam a ganhar uma identidade própria, com populações que iniciam as suas reivindicações, as suas lutas, exigindo melhores condições de vida. Associando isto à força de alguns líderes políticos com sentido de estado, os territórios que alimentavam o capitalismo imperialista, começam a virar-se mais para si próprios, para as suas necessidades, para os seus estados e a sua população. A torneira de lucro da Europa e da América do Norte deixa de jorrar e começa a ser mais um conta gotas. Hoje, países como Brasil, Equador, Venezuela e alguns países africanos já não alimentam as economias dominantes. O Brasil é talvez o caso mais relevante pois passou de mero alimentador a potência mundial. A Ásia cresceu e tornou-se num sector económico de grande potência e força. A primavera árabe ameaça reduzir ainda mais o fluxo de capital, podendo vir a transformar o conta gotas num mero poço seco.
O problema é então puramente estrutural. As economias que dominaram todo o século XX num sistema de capitalismo imperialista, estão agora sem fonte de alimentação ao seu próprio sistema. Samir Amin quase previa este desfecho na década de 70. Qual o caminho agora? Existem algumas possibilidades. A instauração de regimes autoritários na Europa (nos EUA é mais difícil de tal acontecer, pois nunca tal ocorreu naquele país, o que torna esse caminho muito complicado por razões culturais e sociais) é uma forte possibilidade. Está mesmo, a pouco e pouco, a acontecer. As políticas de austeridade não visam mais do que reduzir, de forma lenta mas sistemática, os direitos dos cidadãos. A direita cresce no velho continente e já se começam a ver algumas medidas que atacam directamente direitos fundamentais das democracias, como o direito à manifestação. Outra solução é a revolução no seio da Europa, com o povo a exigir outro caminho, com os países periféricos a exigirem uma auditoria às dívidas externas, provocando o colapso deste sistema económico e fazendo renascer as ideologias socialistas (não confundir com PS). Por fim, o último caminho é a guerra. Tanto a nível europeu como mundial. A Europa e os EUA lutam arduamente por não perder as últimas gotas da torneira, hoje claramente desviadas para a Ásia e para as próprias ex-colónias. No seio desta luta pela sobrevivência de um sistema injusto e exploratório, mas que nos permitiu viver na abundância, o despoletar de uma terceira guerra mundial é um cenário que se vai tornando cada vez mais provável. Afinal, as condições socioeconómicas que antecederam a 1ª Guerra Mundial e, também, a 2ª Guerra Mundial, são muito semelhantes àquelas que hoje se começam a formar no contexto europeu. Mas estão agravadas por uma Ásia com voz forte no mundo e uma América do Sul que cada vez mais exige o seu lugar na mesa dos "grandes".
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