segunda-feira, novembro 19, 2012

Pergunta ao Gaspar (e aos outros todos)


O Ministro das Finanças vai falando sobre a 6ª avaliação da troika. E vão 6...6 avaliações de técnicos ultra especializados em empréstimos a nações. E a mim apenas me ocorre uma pergunta: para quando um jornalista sério, capaz, competente, crítico, que faça uma simples pergunta ao nosso carrasco troikiano, perguntar-lhe se ele realmente defende o que diz ou se é apenas um papel que desempenha.
Seguramente existiram na história verdugos que não defendiam a pena de morte, mas simplesmente tinham de executar o seu trabalho. Pergunto eu, ou perguntaria eu ao senhor Ministro das Finanças, se pudesse, se ele defende os ideais neoliberais ou se é apenas um executor das ordens de superiores?
No fundo aquilo que questiono é se de uma vez por todas vamos ter gente na política, não só com ideais mas com a frontalidade de os assumir, ou se manteremos este rumo que domina a história da democracia portuguesa, de gente que, com ou sem ideais, insiste em não se assumir como alguma coisa.
Correndo o risco de dizer algo muito polémico, não tenho medo em assumir que respeito os partidos neonazis. Não porque esteja com eles de acordo, não porque me reveja em qualquer ponto que defendem ou por que lutam. Respeito-os porque se assumem no seu pleno. Respeito-os porque não se mostram como vermelho para depois serem azul. Repugno-os mas respeito-os. Como é possível respeitar os restantes?
O nosso governo fala em Estado Social, mas cada medida que toma é para o aniquilar. O nosso governo fala de justiça, mas mantém Portugal com o seu sistema judicial que hoje já roça o patético. Semanalmente falam em transparência, mas a corrupção alastra-se como um tumor maligno, tanto no sector público como no privado, sendo frequentemente fruto de uma promiscuidade entre ambos. Ouvimo-los usar palavras como educação e saúde, associadas a palavras como direito e povo, mas cada medida visa privatizar cada vez mais dois sectores que são direitos fundamentais de qualquer ser humano. Usam, com demasiada frequência, os termos (des)emprego, crescimento económico ou ainda carga fiscal, mas cada medida serve apenas para agravar a situação de cada um daqueles indicadores socioeconómicos.
O governo não vive sozinho nesta bipolaridade crónica. Não. Vive o governo e a oposição. Vive este governo e os que o antecederam. Vive esta oposição e as que estão para trás.
Por isso pergunto: para quando um discurso coerente com os ideais? Se o nosso governo não defende o neoliberalismo económico então ou se demite porque não é capaz de representar um governo soberano (ou de recuperar a soberania de Portugal) ou insurge-se começa a governar de acordo com os valores que defende. Se o nosso governo acredita nos ideais do neoliberalismo então que se assuma. Por mais que a maioria das pessoas nunca os venha a defender estou seguro de que seriam muito mais respeitados. E à oposição dir-se-á o mesmo. Que assuma os seus ideais, mesmo que sejam os do tacho, ou os da fanfarronice, ou ainda os do sou do contra mas não tenho nada para contrapor. Já é hora de termos gente convicta na nossa política. Afinal é o mínimo que podem fazer já que nós até nos estamos a portar bem, enquanto nos fodem a vida!

sexta-feira, novembro 09, 2012

Acorda cidadão!

Anda por aí muita discussão sobre as declarações de Isabel Jonet. Tem visto várias pessoas defender o seu discurso, dizendo que "tem toda a razão. Toda!". Lamento mas o que a Isabel Jonet disse, embora não seja grave, é insultuoso. E não tem toda a razão. Não que seja a primeira a fazê-lo. Nada disso. Tem sido um discurso recorrente em diferentes sectores da sociedade Portuguesa e Europeia. Mas o discurso do "vivemos acima das nossas possibilidades" e do "temos de fazer um esforço todos" e ainda "temos de saber viver com menos" são discursos falaciosos, de encomenda financeira privada, cujo o único objectivo é cimentar a ideia de que a culpa do que se passa hoje é dos cidadãos e da sua opulência. Tal é uma das maiores mentiras deste e do último século.
É verdade que a culpa do que hoje se vive no mundo está intimamente associada aos povos europeus e norte americanos que, nos primeiros, abdicaram de ser cidadãos democráticos, alienando-se da política e das decisões económicas, e nos segundos por motivos relacionados com o grau de cultura internacional e de visão global, além de incapacidade cultural para compreender a existência de um Estado Social. Mas o que hoje se vive não tem rigorosamente nada que ver com viver acima das possibilidades. Tem sim que ver com a expropriação dos Estados soberanos pelo capital privado. A soberania dos países europeus terminou quando se criou o Euro e se iniciou um novo ciclo económico, com uma moeda indexada ao crédito e controlada pelo sector da banca privada. Os Estados executaram a machadada final que os tornou reféns do capital privado, perdendo assim a sua soberania e o seu controlo sobre a economia. Hoje o neoliberalismo cresce, com discursos como os de Passos Coelho que frequentemente afirma que o Estado tem de retirar as mãos da economia. Tal ideia é um dos maiores assaltos à democracia e à liberdade. O Estado não só deve como tem de controlar determinados sectores económicos, como a energia, a água, os transportes, a saúde e a educação. São bens essenciais, são direitos fundamentais do direito à dignidade e à vida que cada ser humano vê assegurado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Retirar o Estado da economia é obviamente o que o sector privado quer, bem como exterminar o Estado Social. E porque nós passámos 30 anos dedicados à alienação total do mundo político e económico, temos hoje populações desprovidas de ideologia, vazias de conteúdo e percepção social. O trabalho que se nos exige enquanto povos europeus é Hercúleo, mas ou temos a capacidade de dar um salto cultural, de passar de gatinhar para correr do dia para a noite, ou quando o fizermos será demasiado tarde. Nem sei se não o é já. É verdade que os tempos de crise empurram a evolução cultural e talvez por isso exista ainda esperança. Mas urge que os cidadãos europeus comecem a exigir debates sérios, declarações sérias, pessoas sérias. Discutir a crise sem discutir o Euro é como discutir evolução biológica sem falar em Darwin. Aceitar discursos como o de Isabel Jonet, ou os de Passos Coelho, Merkel, António Borges, Gaspar, Draghi, Christine Lagarde, entre outros, é aceitar a nossa incompetência enquanto cidadãos democráticos e abdicar da democracia. É fundamental que todos compreendamos uma coisa de uma vez por todas: austeridade e democracia não são compatíveis. É ou um ou outro.