sexta-feira, novembro 09, 2012

Acorda cidadão!

Anda por aí muita discussão sobre as declarações de Isabel Jonet. Tem visto várias pessoas defender o seu discurso, dizendo que "tem toda a razão. Toda!". Lamento mas o que a Isabel Jonet disse, embora não seja grave, é insultuoso. E não tem toda a razão. Não que seja a primeira a fazê-lo. Nada disso. Tem sido um discurso recorrente em diferentes sectores da sociedade Portuguesa e Europeia. Mas o discurso do "vivemos acima das nossas possibilidades" e do "temos de fazer um esforço todos" e ainda "temos de saber viver com menos" são discursos falaciosos, de encomenda financeira privada, cujo o único objectivo é cimentar a ideia de que a culpa do que se passa hoje é dos cidadãos e da sua opulência. Tal é uma das maiores mentiras deste e do último século.
É verdade que a culpa do que hoje se vive no mundo está intimamente associada aos povos europeus e norte americanos que, nos primeiros, abdicaram de ser cidadãos democráticos, alienando-se da política e das decisões económicas, e nos segundos por motivos relacionados com o grau de cultura internacional e de visão global, além de incapacidade cultural para compreender a existência de um Estado Social. Mas o que hoje se vive não tem rigorosamente nada que ver com viver acima das possibilidades. Tem sim que ver com a expropriação dos Estados soberanos pelo capital privado. A soberania dos países europeus terminou quando se criou o Euro e se iniciou um novo ciclo económico, com uma moeda indexada ao crédito e controlada pelo sector da banca privada. Os Estados executaram a machadada final que os tornou reféns do capital privado, perdendo assim a sua soberania e o seu controlo sobre a economia. Hoje o neoliberalismo cresce, com discursos como os de Passos Coelho que frequentemente afirma que o Estado tem de retirar as mãos da economia. Tal ideia é um dos maiores assaltos à democracia e à liberdade. O Estado não só deve como tem de controlar determinados sectores económicos, como a energia, a água, os transportes, a saúde e a educação. São bens essenciais, são direitos fundamentais do direito à dignidade e à vida que cada ser humano vê assegurado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Retirar o Estado da economia é obviamente o que o sector privado quer, bem como exterminar o Estado Social. E porque nós passámos 30 anos dedicados à alienação total do mundo político e económico, temos hoje populações desprovidas de ideologia, vazias de conteúdo e percepção social. O trabalho que se nos exige enquanto povos europeus é Hercúleo, mas ou temos a capacidade de dar um salto cultural, de passar de gatinhar para correr do dia para a noite, ou quando o fizermos será demasiado tarde. Nem sei se não o é já. É verdade que os tempos de crise empurram a evolução cultural e talvez por isso exista ainda esperança. Mas urge que os cidadãos europeus comecem a exigir debates sérios, declarações sérias, pessoas sérias. Discutir a crise sem discutir o Euro é como discutir evolução biológica sem falar em Darwin. Aceitar discursos como o de Isabel Jonet, ou os de Passos Coelho, Merkel, António Borges, Gaspar, Draghi, Christine Lagarde, entre outros, é aceitar a nossa incompetência enquanto cidadãos democráticos e abdicar da democracia. É fundamental que todos compreendamos uma coisa de uma vez por todas: austeridade e democracia não são compatíveis. É ou um ou outro.

Sem comentários: