É verdade
que a culpa do que hoje se vive no mundo está intimamente associada aos povos
europeus e norte americanos que, nos primeiros, abdicaram de ser cidadãos
democráticos, alienando-se da política e das decisões económicas, e nos
segundos por motivos relacionados com o grau de cultura internacional e de
visão global, além de incapacidade cultural para compreender a existência de um
Estado Social. Mas o que hoje se vive não tem rigorosamente nada que ver com
viver acima das possibilidades. Tem sim que ver com a expropriação dos Estados
soberanos pelo capital privado. A soberania dos países europeus terminou quando
se criou o Euro e se iniciou um novo ciclo económico, com uma moeda indexada ao
crédito e controlada pelo sector da banca privada. Os Estados executaram a
machadada final que os tornou reféns do capital privado, perdendo assim a sua
soberania e o seu controlo sobre a economia. Hoje o neoliberalismo cresce, com
discursos como os de Passos Coelho que frequentemente afirma que o Estado tem
de retirar as mãos da economia. Tal ideia é um dos maiores assaltos à democracia
e à liberdade. O Estado não só deve como tem de controlar determinados sectores
económicos, como a energia, a água, os transportes, a saúde e a educação. São
bens essenciais, são direitos fundamentais do direito à dignidade e à vida que
cada ser humano vê assegurado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Retirar o
Estado da economia é obviamente o que o sector privado quer, bem como
exterminar o Estado Social. E porque nós passámos 30 anos dedicados à alienação
total do mundo político e económico, temos hoje populações desprovidas de
ideologia, vazias de conteúdo e percepção social. O trabalho que se nos exige
enquanto povos europeus é Hercúleo, mas ou temos a capacidade de dar um salto
cultural, de passar de gatinhar para correr do dia para a noite, ou quando o
fizermos será demasiado tarde. Nem sei se não o é já. É verdade que os tempos
de crise empurram a evolução cultural e talvez por isso exista ainda esperança.
Mas urge que os cidadãos europeus comecem a exigir debates sérios, declarações
sérias, pessoas sérias. Discutir a crise sem discutir o Euro é como discutir evolução
biológica sem falar em Darwin. Aceitar discursos como o de Isabel Jonet, ou os
de Passos Coelho, Merkel, António Borges, Gaspar, Draghi, Christine Lagarde,
entre outros, é aceitar a nossa incompetência enquanto cidadãos democráticos e
abdicar da democracia. É fundamental que todos compreendamos uma coisa de uma
vez por todas: austeridade e democracia não são compatíveis. É ou um ou outro.
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