domingo, abril 07, 2013

Momentos de coelho


Depois da estonteante intervenção em Setembro de 2012 nada fazia prever mais um momento dos que, pressinto, nos habituaremos a chamar momentos de coelho. Mas desta vez o Primeiro Ministro superou-se, e de que maneira! Pedro Passos Coelho dirigiu-se à nação às 18h30 de hoje e a sua declaração foi de tal forma grave que tornou qualquer reacção à mesma sujeita ao ridículo. Só mesmo quem ouviu na íntegra todo o discurso do PM poderá ler e ouvir reacções sem automaticamente pensar que o crítico está louco. Senão atentemos:
Passos Coelho iniciou o seu discurso sugerindo que em situações especiais tanto a Constituição como a Legislação devem poder ficar na gaveta. Portanto o PM de Portugal dirigiu-se ao país para dizer que um Estado de Direito só deve existir quando tudo está bem, quando não incomoda a agenda política ou governativa.
Mas isto foi apenas um mimo para o que viria depois. Seguiu-se então o início do ataque ao Tribunal Constitucional. Primeiro chamou à atenção de que tanto o Governo como uns constitucionalistas (uns que por aí andam que ninguém sabe quem são, pois o PM não só não os indicou como também não estava munido de qualquer parecer que suportasse a afirmação) não estão de acordo com o acórdão do TC. Que o acórdão não dê jeito eu compreendo mas que não estão de acordo...bom, das duas uma, ou a Constituição é demasiado confusa e sujeita a diferentes interpretações, uma espécie de Bíblia do direito, ou então o Governo nomeou incompetentes para o órgão de maior soberania nacional.
O ataque prosseguiu, talvez influenciado pelas movimentações Norte Coreanas e imbuído de um espírito de guerra, Passos logo culpou o TC de todos os males que o país atravessou, atravessa e vai agora atravessar. Para o PM português o TC é o vil perceptor dos portugueses e condenou-nos a um futuro incerto, difícil e trágico. Mais, o TC é o responsável por afinal não estarmos a sair da crise.
Mas não se ficou por aqui o Pedro. Foi mais longe ainda. O TC foi também responsabilizado pela sombra que agora paira de um possível segundo resgate. Já sabemos então onde deveremos manifestar-nos na próxima convocatória. Afinal aqueles juízes, que exigiram acima de tudo que o princípio de igualdade, consagrado na Constituição para protecção de todos os que vivem neste cantinho europeu, fosse aplicado nos Orçamentos de Estado, são os culpados dos cortes sociais que o PM anunciou como medida hercúlea para salvar a nação. O Governo, com enorme pesar, conseguiu depois de longas horas de debate e ginástica orçamental, descobrir que apenas poderia salvar o país e o Estado Social cortando na Educação, Saúde, Segurança Social e Empresas Públicas. Pois bem, isto é como o médico me dizer que só me consegue salvar cortando a cabeça. Porque sem dúvida a lógica é a correcta. Nas premissas vem salvar o Estado Social e reduzir custos. Logo na conclusão teremos de ler, invariavelmente, cortar no Estado Social. Algo me diz que o Pedrito não era bom aluno a filosofia.
Depois de ter culpado o TC de todos os males do nosso país ficámos a saber que apenas existe um sítio onde o Estado é gordo, no Estado Social. Tudo o resto já está espremido. Nos últimos 2 anos aprendemos que o único sítio onde ainda se pode aumentar a carga fiscal é na classe média e nas pequenas e médias empresas. Agora ensinaram-nos que somos também os responsáveis pelas gorduras estatais. Mais que um governo, estes senhores têm sido autênticos professores.
O que hoje foi dito pelo PM de Portugal exige, mais que qualquer outra declaração prévia, a queda do governo. Não é de modo algum compreensível e aceitável que todo o elenco governativo se mantenha coeso após declarações que não são dignas de nada menos que um ditador, mais ainda (por incrível que pareça!!!) que quaisquer outras proferidas por este senhor no passado.
Pergunto-me onde andam aqueles portugueses que em tempos foram capazes de planear e executar o regicídio. Estou seguro de que, apesar dos diferentes contextos sociais e culturais, D. Carlos não mereceu mais o seu assassinato que o actual PM.

Sem comentários: