Para aqueles que defendem a vacinação como algo que deveria ser obrigatório por lei deveriam primeiro estudar e compreender as razões dos que são contra o uso de vacinas. Existem argumentos débeis, mas também existem argumentos sólidos. Depois de compreenderem as razões para tal posição poderão delinear uma estratégia de discurso, de debate, de refutação de ideias que permita transformar a realidade argumentativa do outro lado. De facto, este exercício é válido para os dois lados da questão. Discutir os aspectos legais e possíveis alterações à legislação nacional é uma questão que só poderá vir no final. E porquê? Porque de facto tornar a vacinação mandatória é extremamente complicado. Afinal, quem será o responsável quando surgir uma criança, ou um adulto, não vacinado? Os pais? O próprio? O Governo? O médico? E quando se tratar de uma situação semelhante à da mais recente vítima do sarampo, que não estava vacinada devido a uma decisão familiar e médica após uma reacção alérgica muito grave a outra vacina? Não é por acaso que a maioria dos países não tem qualquer vacinação obrigatória por lei. Mais ainda, como podem ver neste estudo (http://www.asset- scienceinsociety.eu/reports/ page1.html), ser obrigatória ou recomendada não tem relação com os níveis de imunização alcançados. Se forem ao site do ECDC (European Centre for Disease Prevention and Control www.ecdc.europa.eu) vão encontrar mais um resultado interessante. Comparando os dados de imunização do primeiro estudo com o número de casos na base de dados do ECDC para o mesmo período (2007-2013) para sarampo e pertússis observa-se que não existe qualquer relação entre os níveis de imunização da população e o número de casos da doença. Para não levantar a tentação de que estes dados possam ser utilizados como argumento, refira-se que a única ilação que se pode retirar daqui é que não são apenas as taxas de imunização que determinam o número de casos. Factores como higiene, alimentação, estilo de vida, turismo, emigração e imigração, entre outros têm de ser também tidos em conta.O facto de se tratar de um tema tão abrangente torna-o interessante, apelativo ao estudo e ao debate. Mas o seu carácter emocional tem determinado repetidamente que as partes envolvidas reajam de forma efusiva, insultuosa e demagoga. E o facto é que a consequência final de tais posturas é só uma: aumento da cisão entre as partes e a incompatibilidade do debate. Ao sistematicamente se apelidar de ignorante e idiota a quem rejeita a vacinação consegue-se apenas que aqueles 10 que hoje pensam em não vacinar, são amanhã 6 que não vacinam. Consegue-se apenas que os que estão seguros de não vacinar, jamais possam reconsiderar a sua posição. E novamente, o mesmo raciocínio se aplica à outra parte.Qual é então o caminho? Para o primeiro passo o caminho é simples. Educação. E quando se fala em educação é necessário compreender que esta é, mais uma vez, para os dois lados. Quem defende a vacinação tem de parar de ser um vendedor de automóveis. É uma crítica fundamentalmente para médicos e farmacêuticas. Parem de vender vacinas! Comecem a ensinar sobre vacinas. É que o discurso é invariavelmente o mesmo. Nunca se aborda o lado problemático da vacinação. Mas como se pode compreender existem riscos associados às vacinas. E deveríamos falar abertamente deles, em vez de os deixar escondidos na gaveta com receio que isso faça fugir alguém. Tantas são as vezes que os oiço ou leio e sinto que estou a ser guiado numa casa por um agente imobiliário. Conhecem o discurso não conhecem? A casa nunca tem defeitos.Para os que se opõem precisam de refrear nas teorias da conspiração e de exacerbar algumas das questões menos positivas. Tal como os primeiros têm de saber abordar o lado negro das vacinas, estes têm também de saber falar sobre o lado benéfico. O debate deveria centrar-se na realidade das vacinas. no que contêm, na forma de produção, nos efeitos menos bons, nas possíveis reacções menos desejáveis, nos benefícios, no combate a certas doenças.Se um debate for construído desta forma, assertiva, educativa, aberta, racional, o futuro da sociedade estará em boas mãos no que a este tema diz respeito. Caso contrário este clima actual de prenúncio de guerra terminará da pior forma, ou com imposições governamentais ou com uma redução drástica da vacinação.Eu não sou contra as vacinas. Sou contra as desnecessárias (por exemplo, nos EUA vacina-se para a varicela!) e sou contra aquelas que são dadas em momentos inadequados (como a da hepatite b a um recém nascido - excepto se a mãe tiver claro). Acho que o Plano Nacional de Vacinação (e vou cingir-me a Portugal) não é o mais adequado. Uma opinião que é fundamentada mas que não vem ao encontro deste texto. Depois de um debate assertivo e sério, educativo e elucidativo, capaz de convergir os dois grupos a um meio termo (e por favor, não vamos falar sobre o extremismo de um ou outro grupo, pois os extremismos só se geram quando abordamos os temas com insultos, demagogias e irracionalidade. O extremismo foi criado em ambos os lados do debate por culpa exclusiva de todos os envolvidos!) deveríamos reformular o PNV de forma a integrar um conjunto de vacinas obrigatórias por lei e outras opcionais. Um pouco à imagem do que se faz com os cães. A raiva é obrigatória por lei. Porquê? Porque põe em causa a saúde pública, põe em causa a vida humana. As restantes são opcionais. No PNV poderíamos ter, sei lá, o sarampo, a varíola, A TUBERCULOSE (que ninguém se preocupa mas que hoje é só para grupos de risco - quero ver o que dizem e quem responsabilizam quando começarem a aparecer surtos de tuberculose daqui a 10 ou 20 anos) estariam no grupo das obrigatórias. A hepatite b eventualmente mas administrada só no limiar da adolescência. Aquela coisa para as gastroenterites (que o meu filho levou) seria obviamente opcional. Isto são meros exemplos, mas acho que dá para compreender onde quero chegar. No fundo legislar para o que de facto é relevante para a saúde pública e o que não é.Mas em cima disso legislar também sobre componentes nas vacinas. Proibir em absoluto o mercúrio. Forçar à substituição do alumínio num futuro próximo. Restringir a produção com esqualeno dado que já revelou indícios de poder ser muito problemático. Obrigar a um controlo de qualidade que reduza a contaminação por outros metais pesados e por poluentes orgânicos (o glifosato foi detectado como contaminante em vacinas nos EUA). Ou seja, há aqui um longo caminho a percorrer mas temos de compreender os argumentos do contra para podermos dar a volta ao problema. E temos também de saber aceitar que as vacinas têm riscos e que é importante forçar as farmacêuticas a produzir com outros cuidados. Nem os antis são maus nem as farmacêuticas são boas. E disto não tenho qualquer dúvida: os antis são movidos pelo amor e a protecção aos filhos; as farmacêuticas são movidas pelos milhões e os lucros.Posto isto, uma ligeira reflexão sobre o tema tão quente da semana. Deixem-me só perguntar porque raio não se indignam tanto com a fome, a escravatura, a exploração humana, o tráfico de crianças, as guerras de e pelo poder, e tantas outra atrocidades deste mundo como o fazem com as vacinas? É que sabem, o computador em que estou a escrever isto tem uma bateria cujo lítio foi adquirido através do trabalho infantil em minas do Congo, sendo depois produzido por gente explorada na Ásia. Os telemóveis que tanto adoramos estão repletos de mão de obra escrava e infantil no seu processo de produção. As roupas são produzidas com recurso à escravatura, a práticas de produção com impacto ambiental desastroso e à exploração de trabalhadores na Ásia e América do Sul na fase de manufactura. Os cremes maravilhosos cheios de óleo de palma são responsáveis por uma das maiores desflorestações do mundo. A nossa electricidade e os nossos combustíveis são produzidos com o recurso a guerras que dizimam milhões pelo controlo do petróleo. E para quem achar que as eólicas e carros eléctricos resolvem o problema, não podiam estar mais enganados, pois não só exigem uma enorme quantidade de combustíveis fósseis para a sua produção e montagem, como são dependentes de neodímio, um metal cuja extracção é um crime ambiental e, quem sabe, com potencial para se tornar num crime contra humanidade (não deixa de ser irónico que aqui na Europa lhes chamemos energias e tecnologias verdes!). Podia continuar pela indústria alimentar, que nos inunda os supermercados com alimentos cuja composição não tem nada... de alimento. Essa indústria que nos vende alimentos altamente contaminados (já agora, para quem não sabe, uma das técnicas utilizada na produção de cereais consiste em matar o cereal com glifosato para antecipar a colheita em 2 semanas!) e floresce hoje em organismos geneticamente modificados que, comprovado já por inúmeros estudos, têm efeitos extremamente graves na saúde humana.Nas últimas décadas a infertilidade humana (em ambos os sexos) aumentou, as doenças neurológicas e neurodegenerativas aumentaram, os cancros aumentaram, as autoimunes aumentaram, e o engraçado, voltando ao tema inicial do texto, é que os pró vacinação recusam-se a discutir se as vacinas poderão contribuir para isto ou não. Digo engraçado pois não param de surgir estudos, publicados em revistas científicas, que relacionam as vacinas ao aumento das alergias alimentares e como elementos importantes no desencadeamento de certos desequilíbrios neurológicos em crianças, actuando sinergeticamente com outras substâncias. E, não estando de forma alguma a afirmar que as vacinas são as responsáveis, parece-me lógico que se incluam no leque de objectos/compostos a considerar pois, tendo elas na sua composição diversos elementos neurotóxicos (como o mercúrio - hoje quase totalmente abandonado nas vacinas pediátricas, ou o alumínio, bem como uma miríade de outros metais pesados que tão bem foram contabilizados por Gatti e Montanari, 2017*) parece-me no mínimo sensato que se faça esse exercício.Posto isto, discutam saudavelmente as vacinas, sem medo de falar do lado mau e sem medo de abordar o lado bom, dependendo da vossa perspectiva no assunto. Mas lembrem-se, se o único mal do mundo fossem as vacinas como seria maravilhoso este ponto azul no cosmos! Não é. E honestamente, digo-o do fundo do coração, se se indignam de forma tão profunda com o tema da vacinação então façam-no com os restantes temas também. Caso contrário não terão qualquer base moral para o fazer.
quinta-feira, abril 20, 2017
Em torno das vacinas
O tema da vacinação é um tema sensível, delicado e, acima de tudo, extremamente complexo. O tema é emocional, é científico, é legislativo, é filosófico, é social. De facto poucos temas tocam em tantas realidades como este. Isso faz com que discuti-lo levianamente seja bem mais grave do que ser anti ou pró vacinação. O debate tem sido gerado sistematicamente com o recurso ao insulto e à demagogia de parte a parte. E o mais triste é que ainda nenhum dos lados compreendeu que por esse caminho nunca alcançará o seu objectivo.
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