quinta-feira, agosto 30, 2012

Democracia

Qualquer pessoa que tenha nascido nos anos 70 ou primeira metade dos anos 80 e que tenha sentido crítico, vivendo a vida minimamente atenta ao que se passa à sua volta, não pode ser capaz de acreditar em qualquer chefe de estado. 
É sistemático, diria epidémico, que um governo seja guiado por interesses particulares, financeiros e privados, que se sobrepõem aos interesses da nação. A corrupção e a ganância surgem como acção principal naquele que é um jogo de colecção de espólios em nada diferente do que se via e vê nos países chefiados pelos ditos regimes. 
Mas a verdade é que a democracia, um sistema onde o poder de decisão é do povo, não é de todo, na realidade da sua existência, diferente dos afamados regimes. A ilusão de liberdade e de poder é uma arma tão grotesca e perigosa quanto a repressão, senão mais ainda. Nas últimas décadas os sucessivos governos, globalmente, dedicaram-se a demonstrar e educar o povo de que o protesto e acção de luta não têm qualquer impacto, são mesmo coisas de desordeiros. Entretanto mantém-se a ilusão de escolha promovendo eleições fictícias em intervalos de tempo suficientemente curtos, para garantir a ideia de poder do cidadão, mas adequadamente longos, para permitir a tomada de decisões indispensáveis aos interesses de quem controla o poder. 
E povo vai às urnas, sempre convencido das diferenças ideológicas e qualitativas entre partidos. Vota em consciência. Vota naquele que lhe parece o melhor. Mas fá-lo completamente alienado da realidade mal ocultada pelo sistema. Os candidatos a chefes de estado não são mais do que as marionetas escolhidas pelo processo de seriação partidária. Não é candidato quem quer mas sim quem é aprovado no seio das exigências corporativistas que regem o poder. Para se chegar a secretário geral de um partido é preciso primeiro dar garantias de que quem controla as decisões se mantém, não só no controlo, mas também na sombra. 
Tudo, claro, com a conivência dos media. Os media não são hoje nada mais do que grupos empresariais com interesses próprios e, invariavelmente, pertença de grupos financeiros cujos interesses vão muito além do que são os interesses de cada nação.
Falamos de democracia mas vivemos num mundo onde, mascarado por trás deste nome antigo, se perpetuam valores e princípios atribuídos, em tom maléfico, às monarquias, aos fascismos, aos nacionalismos. A liberdade é usada para o bem de poucos. A ilusão de liberdade é usada para o controlo de muitos. Quando penso em democracia tenho de recordar a tira de Quino, com 4 décadas, onde Mafalda tem a única reacção possível perante tal palavra.


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