Hoje passei o dia no Congresso Democrático das Alternativas. Uma iniciativa que pecará apenas se não tiver continuidade. Neste mesmo dia da celebração da República, Cavaco Silva fazia o discurso da ocasião num Pátio da Galé ensombrado por uma bandeira hasteada ao contrário. Parecia uma consequência da realidade nacional, como se a bandeira, no alto da sua essência abiótica, sentisse o quanto o país vive hoje de pernas para o ar.
O congresso enchia-nos de esperança. Esperança na sociedade civil, esperança no dia de amanhã. Afinal, víamos todos a cada intervenção, que existe gente por cá ciente do presente, consciente da actualidade, com ideias válidas para um futuro melhor. E enquanto, para nós congressistas, a luz começava a brilhar no seio desta realidade obscurecida, uma mulher soltava gritos de dor e desespero, interrompendo o discurso, já adjectivado de inócuo, do Presidente da República. Apenas enquanto jantava pude assistir às imagens televisivas deste momento histórico e negro das quase quatro décadas de democracia em Portugal. Os meus olhos encheram-se de lágrimas enquanto assistia, horrorizado, às imagens do telejornal. E porque acho que esta mulher não deve jamais ficar esquecida na história do nosso país quero deixar aqui o seu nome, Luísa Trindade. Vive com 224€ por mês aos 57 anos de idade.
No congresso sorríamos. Romper com a troika, exigências de uma cidadania activa, apelos ao sentido democrático do povo, ideias para a renovação, críticas construtivas. O congresso estava a deixar-nos felizes por estarmos ali, seguros de que tínhamos optado pela melhor forma de passar esta sexta-feira que, ao que dizem, será o último feriado de 5 de Outubro. E nos entretantos a cerimónia continuava pelo pátio. António Costa, que afinal é apenas o Presidente da Câmara de Lisboa, discursou como um verdadeiro líder da oposição. Enquanto Cavaco incentivava a emigração dos jovens, o autarca repudiava-se com a normalidade com que se aceita a fuga dos nossos jovens quadros superiores. Enquanto o ex Primeiro Ministro alcunhava os emigrantes de futuros retornados, o militante do PS exigia condições para que estes nunca partissem.
E o congresso seguia, cheio de força, de vontade, de crença. Afinal, ali dentro, quase sem nos apercebermos, todos estávamos a fazer renascer a esperança uns nos outros. Cada um de nós, com as suas intervenções, as suas partilhas, os seus saberes alimentávamos o motor da mudança e do crer que existe dentro de cada indivíduo. Talvez fosse uma transferência da energia a roçar o paranormal, talvez a física até o possa justificar, mas era como se os fracos aplausos ao discurso do fundador do Cavaquismo tivessem ecoado na Aula Magna, como fracos tambores enunciando a debilidade da maioria de direita neoliberal que hoje despedaça os sonhos e o futuro de todos os portugueses. Ou talvez tenha sido uma outra mulher, Ana Maria Pinto, que interrompia as celebrações do 5 de Outubro cantando a música Firmeza, de Fernando Lopes-Graça, num protesto menos angustiante, mas nem por isso menos importante.
Mas, no congresso, nem tudo foi uma imensa chama de rejuvenescimento da esperança. Porque não podemos só falar das coisas boas, não posso deixar ignorado que o final ficou marcado por algumas nuvens sombrias. Sentiu-se que Passos tinha passado por ali, como qualquer fantasma, como ladrão em pés de lã, e tinha contaminado a mesa com a sua retórica do medo, as suas palavras de ameaça, a sua política da chantagem. Não se pode perdoar a uma mesa que se autointitula de democrática e alternativa que caia na tentação do discurso fácil, populista e alarmista. Mas aconteceu. Aconteceu quando alguns defendiam que a declaração não falasse em renegociação mas sim suspensão do pagamento da dívida. E por mais que todos tenhamos momentos infelizes, aconteceu onde não podia acontecer.
Contudo, o final desincentivador do Congresso Democrático das Alternativas não deve afugentar ou debelar toda a esperança que gerou ao largo de todo o dia. E aproveitando a Firmeza da Ana Maria Pinto, uso as palavras de Fernando Lopes-Graça, para deixar um apelo a que a iniciativa não morra como tantas outras, e faço de todos as palavras "Que a boca a sorrir não mate, nos lábios o brado de combate".
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