quinta-feira, setembro 27, 2012

Democracia e Portugal - o tempo aperta


Os apelos a um governo de salvação nacional têm-se alastrado na sociedade portuguesa, sendo hoje comuns tanto na classe política como nos restantes e variados cidadãos. A destituição de um governo democraticamente eleito, substituído por um conjunto de personalidades que goza de uma imagem pública, para já, benevolente, anda de boca em boca, de mail em mail, de rede social em rede social. Frequentemente é expressado junto a esta ideia a de extermínio dos partidos políticos, de alienação de todos os actuais e antigos partidários, deputados e membros de governos e, não excessivamente menos comum, infelizmente, de expropriação dos bens de todos os indivíduos que exerceram cargos governativos. Afirmações que reflectem o quanto a raiva e o desespero são dominados pela cegueira.
A palavra democracia tem sido a palavra de ordem dos últimos meses em Portugal. Num povo que há 40 anos que gatinha na sua aprendizagem democrática, espera-se de um momento como o presente que, por fim, aprenda a andar. Mas como todos os bebés, nos primeiros passos cai mais do que anda. A constante exigência de democracia, associada ao apoio a uma tomada de poder por parte de uns quantos tecnocratas, revela o quão antidemocrático é ainda Portugal. Aquilo que exigimos não é mais do que o que criticámos na Grécia e em Itália, quando, fruto de discursos semelhantes difundidos pela comunicação social, dois golpes de estado foram executados. Em pela Europa, em plena UE, em pleno século XXI.
Urge saber o que procura o povo português. Se procura, como tanto se apregoa, uma nova figura austera, um novo indivíduo que colha algumas das características salazaristas, ou se procura ser verdadeiramente um povo democrático? Quando Cavaco Silva venceu as legislativas em 1985, e particularmente as de 1987 onde obteve a maioria absoluta (1ª de Portugal), muitos lhe reconheceram essa figura desaparecida com o 25 de Abril, a figura do Pai Austero (ressalvo-me de imediato sublinhando que não estou, de modo algum, a sugerir a mesma orientação política). Será esse o caminho que, secretamente, procuramos?
Ser democrático é um exercício contínuo. Ser democrático exige de todos. Ser democrático exige sacrifício no dia a dia. Não se é democrático porque se vota. Uma democracia não se define pelo voto e alternância de governo. Se por um lado o voto é um instrumento fundamental em democracia, ela não existe apenas e só pela execução desse acto de cidadania. A democracia exige muito mais. A demanda democrática ordena a cidadania activa. Acima de tudo, uma democracia carece de um estado de direito. Estas palavras não devem, não podem, jamais ser levadas com leviandade.
O aprofundamento dos ideais democráticos faz sobressair as extremas debilidades da democracia portuguesa. Não somos hoje muito mais adaptados a esta sociedade do que éramos há 30 anos. Talvez seja um reflexo darwinista. Afinal, a evolução e a adaptação não ocorrem instantaneamente. Mas pertencemos a uma população lenta no seu progresso adaptativo. Em geral, na vida, isso significa extinção. E temo que, com o rumo dos gritos de guerra do povo português, tal caminho se torne uma fatalidade.
Viver num estado de direito exige, primeiro que tudo, que as emoções sejam extravasadas em casa, no café, num bar. Não podemos viver com leis e ignorá-las quando o desespero assim o implora. A classe política portuguesa deve e tem de responder pelos seus actos ao longo das diferentes legislaturas. Mas tem de o fazer de acordo com os princípios de uma sociedade justa, igualitária, digna. Apenas e só a justiça portuguesa, num tribunal legítimo e de pleno direito, deve intervir no apuramento da legalidade, ou ausência dela, nas actividades e tomadas de decisão dos diferentes indivíduos que exerceram cargos de poder. A máxima de que todos somos inocentes até que se prove o contrário tem de imperar sobre qualquer estado de ânimo individual ou social. Não podemos, sob nenhum pretexto, aplicar o terrível e nefasto axioma que nos ensinam desde pequenos, de que por um pagam todos. Tal princípio é não só antissocial, como acima de tudo, antidemocrático!
Outro aspecto imperativo em qualquer sistema democrático é a existência de partidos políticos. A extinção partidária abre as portas ao totalitarismo. O povo português não deve erguer os braços num apelo ao fim dos partidos de hoje, pois tal significa o nascimento do partido de amanhã. Tal exigência é sinónimo de falta de sentido crítico, de falta de cultura democrática e de insistente desresponsabilização do povo sobre a situação actual.
Reclama-se hoje aos cidadãos de Portugal que realizem um milagre e aprendam a correr enquanto dão os primeiros passos. A inadaptação que nos marcou durante os primeiros quase 40 anos de democracia é hoje a nossa grande inimiga. Nós, enquanto povo, temos de nos tornar democráticos da noite para o dia, sob pena de regressarmos a tempos menos saudosos. Temos de nos transformar em cidadãos activos, participativos, exigentes, cultos nas leis, críticos na política, sábios na economia. O único povo democrático é o que junta o saber à acção, é o que une as ideias com os actos. Se queremos um Portugal democrático não podemos exigir cabeças, mas sim dar a nossa cabeça à exigência. A democracia é um trabalho diário.

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