A caminho de mais uma
manifestação de descontentamento não posso deixar de reflectir sobre estas manifs, o seu impacto e a
servidão do povo. Bem sei que medidas drásticas são escassas na história de
Portugal, mas deveríamos ter uma melhor noção do que significa uma sociedade
democrática. Democracia não tem nada a ver com liberdade de expressão, como
tanto se diz por aí. Democracia significa poder no povo. E a verdade é que nós,
e não só, é um mal global, mais ou menos vincado no tecido social, dependendo
dos países, não compreendemos esse conceito. As acções de qualquer governo só
existem com a conivência do povo e é por isso que todos somos igualmente
culpados da corrupção, da implementação do sistema financeiro actual e da subversão
dos poderes, sendo hoje o poder político subjugado ao poder económico.
E é neste contexto
económico, político e social que chegámos à manifestação de 15 de Setembro. Uma
manifestação que já estava marcada antes do anúncio de Pedro Passos Coelho sobre
a TSU e que apenas ganhou ainda mais força com as palavras do PM. Mas não deixa
de ser no mínimo muito estranho que o PM tenha anunciado tais medidas naquele
momento. Pois mais que Passos Coelho seja um político com um baixo nível de
cultura, por mais que seja um indivíduo que nunca andou no mercado de trabalho,
e por mais ainda que seja um fraco orador, não é seguramente possuidor de uma
incapacidade intelectual. É uma pessoa no pleno das suas funções cognitivas. E
o facto de o ser deixa uma pergunta no ar. Qual é a agenda política e económica
escondida nos bastidores para que o PM tenha anunciado ao país o seu suicídio
enquanto governante? Passos sabia perfeitamente que o seu anúncio ia gerar
total descontentamento de todos os sectores da sociedade portuguesa. Sabia que
vinha uma manifestação daí a uma semana. Porque fez este anúncio? Podia tê-lo
feito pouco antes da votação do Orçamento de Estado. Ou depois da manif. Mas não. Anunciou uma
medida cujo o resultado seria apenas e só o que ocorreu: criação de
instabilidade política e isolamento do governo. E como se não bastasse, na
entrevista concedida à RTP1 na passada 5ª feira, o PM agravou ainda mais a sua
situação enquanto chefe de governo, colocou o país à beira de um colapso
administrativo e lançou o cenário para a possibilidade de novas eleições.
Pergunto-me qual a
agenda escondida. Será que o objectivo é lançar a desgraça para depois voltar
atrás e justificar medidas, não tão desastrosas, mas muito piores que as até
aqui implementadas? Pode ser. Mas parece-me pouco provável. É que depois desta
última semana o governo PSD-CDS está na corda bamba, condenado a, na melhor das
hipóteses, governar por mais 6 meses. Assim que se a agenda era essa foi mal
planeado e trata-se de um erro político grave. Se a agenda é outra mais
obscura, talvez então o objectivo fosse exactamente gerar o caos político e
social. Mas desses bastidores nunca saberemos a verdadeira história.
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