quarta-feira, novembro 18, 2009

O nosso lugar

Na televisão, nos documentários, em livros e artigos, nos jornais ou em conferências, uma coisa é comum: nós! Como podemos nós mudar? Como podemos nós fazer? Como podemos nós salvar? Como podemos nós proteger? Temos sempre a necessidade de nos colocar num patamar diferente, de nos distanciarmos, de sermos diferentes. A consciência humana não considera o Homem um ser natural.
O ser humano tem uma categoria diferente. Pertencemos ao mundo artificial. O que construímos é artificial, o que vestimos é artificial e até o que comemos já começa a ser artificial. Até quando falamos nos distinguimos de tudo o que nos envolve. "Este vírus é perigoso para os mamíferos e para o Homem"; "Naquela prisão os presos são tratados como animais"; temos ainda as ligas para a protecção dos animais e outros mais. Mas nós somos animais, nós somos mamíferos. Todas estas frases estão cheias de um sentimento e uma postura antropocêntrica. A necessidade que temos de nos separar do resto é aquilo a que eu chamaria síndrome de inferioridade ecológica.
Os melhores exemplos da nossa complexa ânsia de nos separar-nos da natureza (da qual somos indissociáveis) são as construções. O ninho dos pássaros é uma construção natural, os formigueiros são construções naturais, as barragens dos castores são estruturas naturais também. No entanto um computador, uma cadeira, uma televisão, uma casa, umas calças, tudo isto é artificial. Mas na verdade a única diferença que existe entre estes exemplos é a complexidade. Em todos eles os seres vivos em questão utilizam materiais para construir uma determinada estrutura ou objecto. A diferença está apenas no nível de complexidade do objecto. Sendo nós um ser tão natural como qualquer outro não seria lógico que o computador fosse tão natural como o ninho? Sim, seria. Mas nós sofremos de um complexo de inferioridade natural embrenhado na nossa história e sociedade que não nos permite sentir-nos e colocar-nos no mesmo plano daquilo que nos envolve.
Hoje em dia fala-se muito de impacte ambiental, aquecimento global, impacto do ser humano no meio ambiente, etc. O Homem tem, claramente, um impacto no meio onde se insere. O Homem e todos os outros seres vivos. Nós temos tendência a assumir que o que nos envolve é estático e que atingiu o seu ponto de equilíbrio. Mas a verdade é que tal coisa não existe em termos naturais. O que nos envolve não é estático. A evolução não está "parada". O seres vivos que habitam este planeta (e isto incluí o ser humano) estão em evolução contínua. Os ecossistemas estão em mudanças e adaptações contínuas. O dinamismo natural é perpétuo. Nada atinge o equilíbrio mas apenas um ponto mais ou menos equilibrado. Por esse mesmo motivo é complicado definir estratégias para proteger um dado ecossistema. O ecossistema que queremos proteger não é uma área com estes determinados seres vivos e com este determinado comportamento ecológico. Um ecossistema é dinâmico, oscilante, desequilibrado e por isso mesmo representado hoje em dia como uma onda ou linha irregular (muito semelhante às de um electrocardiograma que represente vários enfartes em intervalos de tempo aleatórios). Todos os seres vivos têm impacto no meio ambiente. Todos criam alterações nos ecossistemas. Todos promovem o desequilíbrio ecológico.
Nós temos tendência para não ver os desequilíbrios e adaptações do meio ambiente mas a verdade é que sempre existiram, existem e sempre existirão. As formigas, quando no seu trajecto evolutivo começaram a fazer os formigueiros tiveram um impacto enorme. Espécies que viviam no sedimento tiveram de adaptar-se a uma nova realidade, raízes de plantas e árvores tiveram de lidar com isto, os próprios processos físicos e químicos do solo foram alterados. Os formigueiros continuam a ter o mesmo impacte no ecossistema, a diferença é que existem adaptações do mesmo para esta estrutura. Mas se este exemplo é talvez mais difícil de conseguir visualizar vejamos o exemplo do castor. Este animal engraçado que inspirou tantos bonecos animados constrói barragens, cria represas, abate árvores, muda o curso do rio e cria pequenos lagos com isto. O efeito que tem no ecossistema é enorme e no início terá sido gigantesco. Tudo tem de se adaptar a este comportamento do castor. Mas imaginemos que no processo de adaptação o ecossistema perdia de uma maneira devastadora a sua biodiversidade e ficava reduzido a meia dúzia de espécies no rio. Acrescentemos agora, hipoteticamente, que o castor dependia de duas espécies do mesmo rio e que as represas eram para as capturar com maior facilidade e para criar reservas de inverno. A este exercício acrescentemos uma nova constante, estas duas espécies desapareceram como resultado do comportamento do castor. O castor está condenado a adaptar-se e evoluir ou extinguir-se. As extinções são, esmagadoramente, causadas pelas próprias espécies. O comportamento de cada espécie gera oportunidades e declínio para outras. Extinções por meteoritos, acidentes geológicos, alterações climáticas bruscas têm tendência para ser grandes extinções em massa mas são ocorrências pontuais.
Tal como todos os outros seres vivos, nós temos um impacto no meio que nos envolve. Mas não somos nenhum alien que veio aqui parar e que destrói tudo porque não é deste mundo. Não, nada disso. O que fazemos é natural, tão natural como o que fazem o castor e a formiga. A diferença entre o impacte ambiental do Homem e o impacte ambiental do restantes seres vivos é a globalidade. Enquanto a formiga e o castor têm acções que influenciam uma determinada zona (é claro que se formos minuciosos, influenciam o mundo inteiro - basta pensarmos no efeito borboleta), as acções do Homem têm eco em todo o planeta. Mas é preciso ter em conta que o aquecimento global por aumento de CO2 é natural porque é promovido por um ser vivo tão natural como os outros. A poluição dos mares, a contaminação dos solos, a redução dos recursos naturais e por aí fora, são tudo questões naturais. Nós não estamos a destruir a natureza. Nós fazemos parte dela e estamos a agir de modo natural. O que ocorre é que tal como milhões de espécies antes de nós e contemporâneas também, nós estamos a gerar alterações no ecossistema que nos podem levar à extinção ou a uma adaptação.
Não existem dúvidas de que o ecossistema Planeta Terra vai tender novamente para o equilíbrio até que outra ocorrência o desequilibre totalmente. Neste momento as acções do Homem têm um efeito desequilibrador de caracter exponencial no planeta e estas acções provocam reacções. O ecossistema reage, altera-se, renova-se. Mas não podemos ser tão arrogantes ao ponto de dizer que o que nós estamos a provocar não tem precedentes. Houve seres vivos com efeitos muito mais catastróficos. Imagem o efeito das cianobactérias quando começaram a produzir oxigénio. Foi uma catástrofe de enormes proporções no ecossistema terrestre naquele momento. Claro que temos tendência a ver isto como algo inevitável e positivo. Mas a realidade é que não existem acções positivas ou negativas neste contexto. Existem apenas acções e reacções. A reacção a esta ocorrência resultou em milhões de processos que permitiram a evolução da vida tal como a conhecemos. O que as nossas acções estão a promover são reacções ecológicas e não importa se alteramos o nosso comportamento ou não porque uma coisa é segura: as reacções ecológicas levarão a uma nova tendência para o equilíbrio. Aquilo sobre o qual devemos realmente reflectir é se devemos alterar o nosso comportamento para nos protegermos e garantirmos a nossa sobrevivência por mais algum tempo. A frase "Salvem o Planeta" é totalmente descabida. O planeta continuará cá, a dar voltas ao Sol por uns biliões de anos mais e a vida adaptar-se-à, evoluirá e continuará a preencher este corpo celeste. O que não sabemos é se a nossa espécie se adaptará às mudanças ou se sucumbirá aos processos de evolução ecológica. Nós temos a capacidade de alterar o nosso comportamento e, pelo menos na nossa capacidade actual, adiar a nossa extinção até um evento pontual como o impacto de um asteróide ou meteorito. Mas o planeta não será salvo por nós. Ele nem está em risco de nada. A Terra só "necessitará de ajuda" dentro de uns biliões de anos quando ocorrer o processo de morte do Sol. Até lá está bem e recomenda-se.
A nossa forma de ver o mundo já evoluíu do geocentrismo para o heliocentrismo e por fim para o pensamento cosmológico. Já não reconhecemos o centro do Universo mas sim a sua infinitude. Terá chegado o momento de evoluirmos do antropocentrismo para o biocentrismo? Talvez. O biocentrismo é a proposta de antónimo ao antropocentrismo e reflecte a ideia de que qualquer ser vivo tem igual importância ecológica. Coloca-nos no mesmo patamar da formiga, do castor e das bactérias. Na realidade a importância das bactérias é talvez superior à de qualquer outro ser vivo mas isso seria assunto para discutir num livro, tantas são as ideias, os factos e as provas a debater. O biocentrismo é o caminho? Eu acredito que sim.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Cultura

Outro dia enquanto conversava sobre o tema da droga comentei que acabar com as drogas é apenas uma questão de vontade governativa e social. Alguém respondeu que é preciso ter em conta a questão cultural porque a planta de coca, por exemplo, faz parte da cultura de determinados povos. Isto deu-me um pouco que pensar.
A cultura é algo mutável, e tem de o ser, caso contrário a nossa sociedade seria a mesma de há milhares de anos. A cultura é o pensamento e o conhecimento social manifestando-se através das tradições, idiomas, ditados, organização social, modelo de governação, etc. A cultura é algo que evoluí, muda, diverge, converge… é algo que nunca está nem pode estar estagnado.
"Cultura é o sistema de ideias vivas que cada época possui. Melhor: o sistema de ideias das quais o tempo vive." (José Ortega y Gasset)

As lutas de gladiadores já fizeram parte das manifestações culturais. Os sacrifícios humanos também. A pedofilia já foi um comportamento cultural, sendo a sociedade com comportamentos pedófilos mais conhecida a Grécia Antiga. Frequentemente ouvimos as pessoas defenderem as touradas com o argumento da questão cultural, assim como a pesca à baleia, as lutas de cães com ursos no Médio Oriente e Ásia Central, o apedrejamento como sentença penal em muitos países africanos ou ainda a pena de morte. Queimar pessoas na fogueira ou enforcá-las já foi na Europa uma prática social e penal como reflexo da cultura medieval. A cultura manifesta-se nas acções diárias, sociais, económicas e administrativas. Mas a cultura é fruto de mudanças. Hoje muitos dos exemplos enunciados acima estão desaparecidos ou são repudiados pela sociedade. Isto ocorre porque o pensamento e o conhecimento social muda. Ou seja, a cultura mudou.

Na Alemanha nazi a cultura mudou. Uma nação alterou o seu pensamento social gerando uma cultura anti-semita. Um exemplo de alteração cultural negativa. O facto de ter sido por um período de tempo, em termos históricos, muito curto, não invalida a alteração cultural e o impacto desta alteração, neste caso concreto, no mundo.

Os idiomas mudam, os sistemas penais mudam, as formas de governo mudam, tudo muda ou pode mudar. A cultura não pressupõe a imutabilidade das coisas e não deve nunca ser uma desculpa para manter determinados comportamentos e determinadas tradições. A questão cultural deve ser usada exactamente no sentido inverso, demonstrando que tudo pode mudar, para melhor ou para pior, ou apenas para diferente. Mas tudo pode mudar, tudo evoluí e a prova disso mesmo é a Cultura.

"A cultura é aquilo que permanece no homem quando ele já esqueceu tudo o resto."
(Émile Henriot)

quinta-feira, outubro 22, 2009

Story of Stuff

Story of Stuff

Um mini filme fantástico. Educativo, criativo, sério, com humor, sugestivo, preventivo e esperançoso. Um trabalho exímio de Annie Leonard que foi mostrado ao mundo em 4 de Dezembro de 2007. O livro sairá a 9 de Março de 2010.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Temos experiência, temos ciência

Este é o slogan estatal sobre o trabalho científico feito por Portugal, em particular pelas universidades portuguesas. Eu não podia deixar esta frase sem algum comentário, até pela minha profissão e de tantos outros com quem convivo.
No meu trabalho já há mais de uma semana que não faço nada porque não há água ultra pura. Um simples aparelho que a produz mas que não funciona. O engraçado é que na 2ª feira passada, dia 5 de Outubro (num feriado, imaginem!) vieram mudar as resinas ao aparelho para que tivessemos esta água maravilhosa novamente disponível. Bom, hoje é 6ª feira e já não funciona. Como eu, por motivos pessoais, não pude deslocar-me ao local de trabalho entre 3ª e 5ª hoje vim todo feliz fazer o que há mais de semana tenho em atraso. Mas não. Não faço. Porque entre 2ª e hoje o aparelho não aguentou mais. Parece um velho moribundo que não resiste nem 3 dias para que os familiares se possam despedir. Parece aquele doente que não aguentou até ao último suspiro e, como as personagens secundárias nos filmes de acção, morreu logo no primeiro. Sinceramente, parece uma história tirada daquelas conversas que todos temos no café em que caracterizamos o nosso belo país. 3 dias! Foi o que aguentou desta vez. Mas não pensem que isto foi a primeira vez. Estou aqui desde Janeiro e por esta altura já poderia ter feito 80% do trabalho para que fui contratado mas nem 20% fiz... Exemplo do trabalho científico numa instituição de ensino superior portuguesa.
Um dos meus melhores amigos é também investigador. Ele tem uma experiência bem mais vasta que a minha já que ele anda nisto há uns 7 ou 8 anos (eu tenho menos de 3). Entre os aparelhos que não funcionam e os que deixam de funcionar ele teve todo o tipo de atrasos em mestrado e doutoramento. No doutoramento ele tinha de ir todos os anos 2 a 3 meses para o Canadá (era um doutoramento misto) e como me contava, nesses 3 meses fazia mais que nos restantes 9 aqui. O engraçado é que ele até trabalha como investigador na universidade que aparece no anúncio. Eu também já trabalhei nesta instituição e compreendi rapidamente os valores da casa.
Em casa também vou ouvindo uns piropos. O meu pai também é investigador. O meu pai é noutra instituição, curiosamente uma das mais conceituadas. Mas não se deixem enganar porque também aí a investigação roça o mito. Também aí se diz que se faz mais do que aquilo que se faz a sério. Maneira que lá vou eu ouvindo umas bocas lá por casa de vez em quando.
Aqui no meu local de trabalho existem mais investigadores. Todos se vão queixando do mesmo. Não é por acaso que as publicações são poucas e as renovações de contrato raras. Não porque essa possibilidade não exista mas sim porque regra geral todos preferem seguir outro caminho. Conheço investigadores um pouco por todas as instituições do país e não me lembro agora de um que diga que o trabalho corre dentro do tempo previsto. O engraçado seria se as instituições privadas funcionassem deste modo!
Este slogan tem uma verdade. Temos experiência. Experiência em safar, em desenrascar, em conseguir fazer algo de tão pouco. A ciência em Portugal existe porque muitas alminhas trabalham por amor à investigação e não deixam de trabalhar mesmo com os baixos salários, a falta de condições, a ausência de ajudas e a frequente falta de apoio dos chefes dos projectos de investigação.
Para aqueles que acham que os doutores neste país ganham bem eu vou fazer uma breve descrição das condições económicas de TODOS os investigadores deste país, chamados de bolseiros:
- salário: 745€ (investigação) 980€ (doutoramento)
- subsídio de férias: NÃO
- subsídio de alimentação: NÃO
- direito ao fundo de desemprego no final do contrato: NÃO
- horário de trabalho: NÃO EXISTE (domingo a domingo, 24h/dia, depende do momento - disponibilidade tem de ser absoluta)
- tempo de contrato: investigação (6 meses a 1 ano) doutoramento (4 anos)
- regime: EXCLUSIVIDADE (só podendo receber outro tipo de remunerações através de acções de formação ou congressos)
- férias: 22 dias úteis
- último aumento salarial: 2001
Como vêem nem todos os doutores são bem pagos neste país.

terça-feira, setembro 29, 2009

Infância

Na infância não há tempo. Somos cão, somos gato, somos bombeiros e polícias. Alpinistas ou futebolistas. Somos as maiores bailarinas, somos feiticeiros e heróis. A mente não conhece limites nem fronteiras. Falamos as mais variadas línguas, todas maternas, todas nossas, todas fantasia. Na infância somos tudo. Sonhamos ser tudo em sonhos que são tão reais quanto a realidade é sonho. Na infância não há medo, não há fronteira, não há barreira que limite o navegar da nossa mente. Na infância somos tudo. Tudo menos humanos. Sonhamos e somos tudo menos aquilo que vamos ser. Só depois nos ensinam a ser homens e mulheres.
"Não é de um tempo que tenho saudade. Saudade tenho é de não haver tempo nenhum".

terça-feira, setembro 22, 2009

Direito por linhas tortas

Para alguns é Deus quem escreve direito por linhas tortas. Para mim é a vida. A minha total ausência de crença numa entidade suprema que nos criou à sua semelhança não me permite aceitar tal dito. A Vida escreve direito por linhas tortas. E esta é sem dúvida uma das maravilhas inexplicáveis da vida. Esta escrita peculiar aplica-se ao todo, não só à nossa vida, não só a cada um de nós. O mundo sofre com esta forma literária também. Por caminhos tortos e muitas vezes confusos e difíceis de descortinar, o mundo tem mudado ao longo dos tempos e penso que é inegável que, na generalidade, a mudança tem sido para melhor.
A fome ainda existe. As guerras também. A injustiça, a carência, a ausência, tudo continua a fazer parte da nossa realidade mas sejamos honestos, e por mais que possa parecer insensível, estamos melhor que há 200 anos atrás. A Vida, devagar e por caminhos embriagados, lá vai dando um jeitinho às coisas. A justiça vai melhorando, a solidariedade vai aumentando dentro de todos nós e os EUA até já são governados por um negro. A emancipação da mulher ocorre a olhos vistos e até já temos movimentos partidários a falar sobre a vergonha e o nojo do controlo monetário estar entregue a uma instituição privada (BCE - Europa; RF - EUA). É verdade. Já existem movimentos partidários a falar ao mundo e ao povo sobre a eterna dívida que todos nós (os Estados também) temos para com o Banco Central Europeu e a Reserva Federal Norte Americana. Por fim a praça pública serve de discussão a este tema universal e assustador. No sistema económico actual somos todos eternos escravos de uma dívida impossível de pagar. Para quem não conhece o processo eu farei uma breve síntese:

- A Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu (cada um no seu respectivo espaço económico) são instituições privadas.
- Estas instituições são responsáveis pela produção do dinheiro que se encontra em circulação. Elas controlam a produção de dinheiro, a inflação, as taxas de juro, etc.
- Cada euro e cada dollar produzido é EMPRESTADO ao Estado com um juro correspondente.
- Quando se torna necessário pagar os juros, o BCE e a RF produzem euros e dollars, respectivamente, para pagar a dívida. Mas este dinheiro produzido para pagar a dívida é emprestado com um juro associado.
- Conclusão: de onde vem o dinheiro para pagar a dívida? De lado nenhum. A dívida é eterna.

É uma história engraçada que começou nos EUA no início do século XX e que a Europa importou (pelos seus bancários super poderosos) quando criou o Euro. O Euro não foi criado para facilitar negócios, a livre circulação ou as férias dos europeus. O Euro foi criado para que um punhado de bancários tivessem o controlo total sobre a Europa e suas políticas.
Mas como a vida lá vai escrevendo direito por linhas tortas, aparecem por fim movimentos partidários a falar disto publicamente. Esperemos que seja um sinal de mudança, um abrir de olhos geral neste mundo tão ceguinho.
Nada melhor para demonstrar a cegueira geral das pessoas como falar da crença em Deus. Não existe criação com mais contradições que Deus. No entanto a grande maioria da população mundial acredita num e a percentagem de crentes no Deus católico é incrivel, tendo em conta que este é talvez aquele que apresenta o maior número de contradições. Desde as mais simples, como por exemplo, no que respeita à morte das pessoas ou ainda à omnipotência, às mais complexas, como a influência politico-económica da Igreja. Ora vejamos, começando pelas simples:

- Quando um ente querido morre o padre sempre diz que Deus sabe porque o chamou. Ele morreu porque Deus o chamou à Sua presença e Deus tem as suas razões. No entanto a Igreja e o Papa fazem discursos sobre a guerra e a morte de inocentes, lamentando estas mortes. Mas não morreram estes porque Deus os chamou? Ele só chama alguns? E os outros que ele não chama? Morrem porquê? Morreram fora do controlo dos chamamentos de Deus? Mas Deus é omnipotente e omnipresente logo ninguem morre sem que ele controle tal morte. Logo não fazem sentido discursos a lamentar estas mortes e a chamá-las de "evitáveis". Algo não bate certo aqui.
- Façamos um pequeno exercício sobre a omnipotência de Deus. Se pedirmos a Deus que construa uma muralha indestrutível ele é certamente capaz. Mas eu pergunto-me: é Deus capaz de destruir essa muralha? Se for, a muralha não é indestrutível e como tal Deus falhou na sua missão de construção de uma muralha indestrutível e sendo assim não pode ser omnipotente. Se Deus não a conseguir destruir então Deus falhou como entidade suprema e omnipotente porque acabou de criar algo que o supera. Uma vez mais está demonstrada a fragilidade dos argumentos da nossa tão presente Igreja milenar.
Passemos agora aos casos mais complexos:
- A Igreja tem como missão a solidariedade, a proximidade, a paz, o respeito, o amor pelo próximo. No entanto enriqueceu à custa dos pobres, liderou guerras e matanças em nome de Deus, está tão longe dos fiéis que nem compreende as necessidades actuais do Homem, tem uma influência económica de tal ordem que a eleição do Papa é tida como um momento decisivo para a políticas dos estados católicos (e não só).
- Reparem noutra coisa. De acordo com a Igreja as dificuldades da nossa vida são-nos colocadas por Deus. Ele coloca-nos obstáculos para que nós sejamos capazes de superá-los e aprendamos a ser melhores pessoas. Ele mata-nos a mãe, viola-nos os filhos, cria fome em toda a nossa família, tira-nos os empregos, atropela-nos enquanto conduz bêbado, elege Bushes e companhia, rebenta-nos com minas arrancando-nos uma perna, mas...Deus ama-nos. Já imaginaram se baseassemos os nossos casamentos e amizades neste tipo de amor? Seria engraçado de se ver.
Deus, no meio da sua eterna graça, e a Igreja, como entidade representante da graça de Deus na Terra, criaram este mundo de guerras, conflitos, fome, corrupção, inveja, destruição. Se esta é a eterna graça de Deus estamos muito bem arranjados...
É curioso como tanta gente tem crescido a acreditar neste discurso e como tão poucos nos temos perguntado sobre a sua lógica. Tal como tudo neste mundo, será escrito pela Vida direitinho e por caminhos bem tortinhos. Só nos resta escrever um ou dois parágrafos no nosso tempo de vida, porque é assim que a Vida escreve, por meio de todos nós. Cada um de nós tem a sua história e é História. A Vida escreve torto porque somos muitos a escrever. Mas escreve direito porque todos aprendemos como o mais importante na vida é sabermos viver em sociedade. No final todos escrevemos um parágrafo muito parecido, aquele em que compreendemos como respeitar o próximo, amar o mundo e sentir a Vida é o mais importante. Uns só escrevem este parágrafo mesmo no final mas felizmente a maioria de nós aprende isto bem mais cedo e é por isso que, embora torto, a História tem um caminho bem direito.

sábado, junho 13, 2009

Agenda Actual

“Assim vai o mundo, a chutos e pontapés, enfrentamos ventos e todas as marés” começam por dizer os Gpro Fam, grupo de hip-hop Moçambicano. O escândalo em Inglaterra parece não ter fim à vista. Gordon Brown rejeita demitir-se enquanto os seus ministros vão pagando as suas vidinhas com os dinheiros públicos. Duvido que seja caso isolado na Europa e, aliás, não o é. Basta olhar para Berlusconi que utiliza os aviões da Força Aérea italiana para levar as meninas para as festas de loucura na sua casa (ou melhor, numa das suas casas).
Em África vira o disco e toca o mesmo. Na Guiné-Bissau são golpes e contragolpes. Todos querem mandar…democraticamente ao estilo africano. No lado da estabilidade temos uma troca no pódio. Omar Bongo, Presidente do Gabão, morreu, deixando assim o 1º lugar de mais antigo chefe de estado no poder para Kadhafi, líder da Líbia desde 1969. Mas não só em África ocorrem estas longevidades presidenciais. O Médio Oriente e a Ásia são também experts na matéria. As eleições no Irão preparam-se para reeleger Ahmadinejad, mostrando que a política iraniana não irá sofrer alterações significativas nos próximos tempos. Enquanto isso a Coreia do Norte ameaça com ofensiva militar se a ONU insistir nas sanções àquele país devido aos testes nucleares.
No continente americano o México continua a ser falado pela Gripe A mas vão-se esquecendo as verdadeiras notícias e vergonhas mexicanas. Acapulco, antigo famoso destino turístico é hoje uma cidade entregue aos barões da droga e em total estado de sítio. Desde Janeiro de 2009 registaram-se 2706 mortes relacionadas com os cartéis de droga. Falando da Gripe A refira-se que a OMS acabou de decretar estado de pandemia e que se prevê 25% da população mundial a ser infectada. Quem procura comprar bilhetes de avião para os próximos meses talvez seja melhor aguardar, não vão as autoridades definir novas regras de deslocação e limitações aos destinos de viagem.
Sem esquecer a palavra avião, a tragédia da Air France deixou muita gente em estado de choque e muitas famílias diminuídas. Sem querer de modo algum faltar ao respeito destas famílias que se encontram de luto, é apenas curioso que uma das companhias aéreas que mais agressividade mostra no que respeita a companhias africanas serem autorizadas a voar em céus europeus, tenha agora um acidente muito grave e que se suspeite de falha técnica num sensor, sendo que era um erro já conhecido da companhia. Talvez devêssemos reavaliar como funcionam as companhias aéreas em todo o mundo e as empresas construtoras de aviões.
No meio de tudo isto por Portugal a notícia do momento é o Cristiano e os exames nacionais. O Cristiano foi caro? Não sei. Não sou gestor do Real Madrid. Honestamente acho que o que uma empresa privada faz com o seu dinheiro é problema dela. Se for bom negócio, bom para eles. Se for mau…sofrerão as consequências. Já os exames nacionais…bom não sei o que querem fazer do nosso futuro mas a protecção das crianças é em relação a maus tratos, trabalho infantil e abuso sexual. Não podemos continuar a achar que exigir é psicologicamente mau para os jovens. Cada vez chegam piores ao ensino superior. Educação e preparação escolar são coisas que não trazem na bagagem. A comunicação social tanto explora os exames nacionais de uma forma depreciativa que hoje em dia já voltamos ao sistema de apenas 2 exames nacionais no 12º. Mas para compensar no 10º e no 11º também existem alguns exames que no meu tempo se chamavam provas globais. Sinceramente eu tive globais a tudo no 10º, globais a tudo no 11º e exames nacionais a tudo no 12º (excepção feita a uma disciplina que era global e não exame nacional). Não vi ninguém sofrer, ficar deprimido ou acabar com o seu futuro devido ao stress. É por estas coisas que os meninos chegam ao ensino superior a achar que podem conduzir o camião do lixo. Primeiro é preciso varrer muitas ruas e depois, só depois, alguns, e só alguns, terão a chave do camião. Já é hora de abrir os olhos à tão esperada Nova Geração.
E já agora, para quando uma reportagem séria sobre a abstenção nas europeias? E não só ao nível de Portugal mas sim a nível europeu.
“Rumo à paz, liberdade, compreensão, entre os povos, não importa a religião.” Continuam os Gpro Fam. Parece que esta segunda parte da frase é mais ao estilo de Obama. Barak Obama aproveitou a visita ao Cairo e discursou apelando a uma nova forma de estar, a uma aproximação entre as diferenças, ao aperto de mão entre o Ocidente e o Islão. Obama não surpreendeu mas trouxe um alívio pois confirmou aquilo que já se esperava dele.
Noutro tema, o português Miguel Bastos Araújo fala do Condomínio da Terra. Este investigador pertencente aos quadros da Universidade de Oxford, ao Museu de Ciências Naturais de Espanha e titular da Cátedra Rui Nabeiro da Universidade de Évora é uma das grandes autoridades mundiais em biodiversidade. Apresenta um discurso de algum modo a fazer lembrar George Carlin se bem que volta ao tema da gestão comum dos recursos do planeta. Nesta entrevista ele não aborda esse tema mas seria interessante saber se para ele o petróleo faz parte dos recursos comuns ou não. É sempre giro ouvir falar na internacionalização da Amazónia, da gestão comum das Galápagos ou ainda do controlo sobre os parques africanos ser feito pelo ocidente. Mas a justificação dada para estas ideias é sempre a de que isto são recursos comuns a toda a humanidade, importantes para todos nós. Também o petróleo. Se o gerirmos todos, se as petrolíferas forem “internacionalizadas” e geridas por todos então a Amazónia, as Galápagos e todos os parques naturais deste mundo também o devem ser.

quinta-feira, junho 11, 2009

"Save the dolphins" by INEM

Hoje Portugal deu mais uma mostra da versatilidade da sua mão-de-obra e dos seus quadros superiores. De manhã deu à costa um golfinho na baía de Peniche. Deu à costa vivo entenda-se. Foram avisadas as autoridades e lá se deslocou para o local…o INEM. Exacto. Isso mesmo! INEM! Juntamente com a brigada fiscal da polícia marítima porque ao que parece o golfinho tinha arrojado porque não aguentou com o peso do material de contrabando que levava debaixo da barbatana.
Depois da brigada fiscal ter autuado o malandrete era necessário verificar o estado de saúde do animal. Felizmente neste país os nossos médicos do INEM têm uma formação extensa e a médica de serviço em escassos 10min apresentou o diagnóstico final. Foi seu veredicto que o golfinho se encontrava bem de saúde e que podia ser libertado no mar. Puf! Graças a Deus estava lá esta médica e felizmente ele arrojou apenas e só pelo excesso de peso. Bom agora só falta tirar aquele maluco traficante da areia. Solução à vista. Um bote de um senhor que por ali se encontrava (e que parece que ajudou no diagnóstico). Mas meter o menino no bote não é fácil. É que o sacaninha além de excesso de bagagem estava gordito e pesadito. Depois de uma reflexão profunda eis que a Dr.ª e o Sr. do barco decidem que o melhor é rolar o golfinho até ao bote. E lá foi. Entre volta e volta, dobra barbatana e vinca a seguinte, mas no final lá estava ele dentro do bote. Parece que agora o desajeitado golfinho está também aleijadinho, mas isso é bem feito ou não fosse ele um fora da lei.
Depois de todo este processo eximiamente realizado foram largar o criminoso ao largo do Cabo Carvoeiro. Aleijadinho e cansadinho só podemos desejar que as correntes o tenham levado para uma praia de areia com uma nova equipa do INEM – BM (Brigada Marítima) porque se por azar ele encalhou numas rochas (mas seria mesmo muito azar porque ali não há nada disso) o tipo está feito.
Parece no entanto que houve um tipo que ligou para a ABRIGOS mas eles andavam ocupados e não puderam chegar antes do INEM. Um daqueles males que vêem por bem. Também quem mandou aquele palerma arrojar num feriado??? Ainda por cima um feriado duplo seguido de fim de semana prolongado!!!
Afinal já sabem todos: golfinho na praia – ligar ao INEM; gaivota atropelada – ligar ao INEM; pessoa baleada – ligar para ABRIGOS ou PROJECTO DELFIM!
O nosso INEM é sem dúvida o mais versátil e qualificado de todo o mundo!

quinta-feira, maio 07, 2009

A Homossexualidade

A nossa sociedade tem uma história de homofobia longa, remontando pelo menos até aos primórdios do cristianismo. Mas o pavor da homossexualidade não se cinge apenas ao ser humano e ao seu mundo. A nossa fobia (aliás, como todas as fobias) atinge o ridículo. A homofobia ao nível da ciência só agora neste século XXI começa a perder a sua força e a aceitar o seu ridículo, libertando-se um pouco dos seus preconceitos e preparando-se para lutar fortemente contra outro. A ciência começa a revelar a homossexualidade (há muito conhecida mas ignorada, negligenciada e censurada) no mundo animal e começa com isto a preparar a demonstração da influência genética neste comportamento.
A homossexualidade no mundo animal é algo que tem sido negligenciado sistematicamente nos estudos da zoologia, biologia e ecologia. Muitas vezes tem sido mesmo escondido, censurado. Em 1981 o governo dos EUA obrigou à remoção e omissão de todas as observações referentes a comportamento homossexual em Orcas num estudo desenvolvido por biólogos americanos. No entanto a regra geral do trabalho científico fazia com que estas medidas de censura nem chegassem a ser equacionadas, já que este escrutínio era feito in loco pelos próprios investigadores. O comportamento homossexual não era simplesmente tido em conta já que não era tomado como algo de relevante na estrutura social ou biológica de uma determinada espécie. Em última análise podíamos assistir a conclusões embrenhadas em fobias culturais como a atribuída por um grupo de investigadores de elefantes que, no seu acto incomum de revelar as actividades homossexuais entre os indivíduos, declarou que os elefantes praticavam actos que violavam as leis cristãs.
Num dado momento passou a ser aceite que as relações sexuais homossexuais existiam apenas fora da época de procriação e deviam-se a: comportamentos de dominância e subjugação ou falta de fêmeas. Talvez a contribuir para esta pequeníssima abertura do meio científico tenha estado o comportamento dos cães, comportamento este que era difícil (ou mesmo impossível) de “esconder” do público. Todos nós que temos ou já tivemos cães sabemos como comportamentos sexuais entre animais do mesmo sexo é muito frequente. Na verdade este comportamento é muito frequente em todo o reino animal. É não só muito mais frequente do que imaginamos como também muito mais complexo.
Nas aves e nos mamíferos são muito raras as espécies que não evidenciam homossexualidade. Claro que falamos aqui de espécies com vidas em grupo e não de espécies em que os indivíduos vivem de forma solitária. Não se pense porém que as espécies que não apresentam estruturas sociais organizadas, mais ou menos complexas, que não podem praticar homossexualidade. Não só podem como o fazem também. De esclarecer também que a homossexualidade está muito longe de ser algo do sexo masculino. As fêmeas são no mínimo tão homossexuais como os machos. Assim como a homossexualidade também comportamentos de pedofilia são comuns.
Os elefantes marinhos jovens que não conseguem vencer as suas lutas para terem direito ao seu harém terminam literalmente violando as crias quando os machos dominantes se ausentam. Já a foca leopardo apresenta um comportamento muito mais interessante. Dois machos podem passar vários minutos a acariciar-se, terminando frequentemente a sessão de mimo com relações sexuais.
No capítulo da homossexualidade entre fêmeas poucas serão as espécies que surpreendam mais que o antílope. Nesta espécie as fêmeas são claramente homossexuais, preterindo os machos para segundo plano e mantendo relações sexuais com outras fêmeas mesmo durante a época de acasalamento. A estrutura social deste animal está fortemente dependente destes comportamentos. O macaco japonês não ficará muito atrás já que as fêmeas evitam os machos e mantêm relações sexuais entre elas. O carneiro montês do norte da América tem uma sociedade homossexual, tal como declarou um dos maiores entendidos sobre esta espécie. Dizia ele que um dos maiores erros foi ter ignorado este comportamento durante mais de 10 anos em que estudou estes animais. Hoje em dia compreende a importância e a necessidade de avaliar estas actividades comportamentais e sociais de forma a entender a vida deste ser vivo.
Um caso caricato foi o de sete pinguins imperadores que foram colocados num jardim zoológico (algures num país da Escandinávia. Peço desculpa pela falha). Nesta espécie é completamente impossível distinguir machos de fêmeas apenas pela observação dos animais. Assim, os nomes foram atribuídos de acordo com o comportamento deles. Ao final de uns anos algo não andava bem. Afinal de contas sexo e corte não faltavam mas ovos…nada! Foi então que uma análise mais cuidadosa revelou algumas surpresas. Dos sete pinguins, quatro tiveram de mudar de nome. Os casais que se haviam formado eram todos entre indivíduos do mesmo sexo. Ainda assim este caso não vence um outro observado a dois mil metros de profundidade. Enquanto observavam um polvo das profundezas, um grupo de investigação teve o privilégio de assistir ao acto sexual entre dois machos de duas espécies diferentes de polvos. Assim, a primeira observação de acasalamento entre polvos das profundezas revelou-se como sendo um acto homossexual entre duas espécies diferentes!
Ainda no oceano não posso deixar de revelar um pouquinho sobre os nossos bem-amados golfinhos, que quase dá vontade de dizer que são uma cambada de panascas. Por exemplo, os roazes praticam relações homossexuais frequentemente, sendo muito comum dois machos serem companheiros sexuais para toda a vida. Este casal de machos partilha as fêmeas com que acasala, auxiliam-se mutuamente e podem mesmo aceitar um terceiro macho temporariamente, ainda que o casal base nunca se separe durante toda a vida. Nas zonas em que os roazes coabitam com golfinhos malhados, as relações sexuais entre machos das duas espécies são frequentes.
Casais homossexuais são muito comuns em aves, como já tinha dito anteriormente. Nos gansos bravos é frequente a ocorrência de trios na época de nidificação (2 machos e 1 fêmea). Isto ocorre porque na realidade o casal permanente é o casal de machos. Durante a nidificação uma fêmea junta-se para proceder à procriação. Embora tenham dois pais, apenas um é o biológico. No entanto o macho que não transmitiu os seus genes protege as crias da mesma maneira. Neste caso torna-se difícil defender a tese de que os comportamentos são sempre com vista à sobrevivência e transmissão da própria herança genética.
Tudo isto sustenta a ideia de ligação entre os genes e a homossexualidade. Na mosca da fruta, em laboratório, já se conseguiu separar o gene da homossexualidade e gerar comportamentos homossexuais em 90% dos indivíduos, sendo que nesta espécie apresenta nas populações selvagens 8% de indivíduos homossexuais. A complexidade de cada espécie aumenta a dificuldade da determinação genética, sendo esta indissociável da aprendizagem, cultura e sociedade. No entanto a polémica promete vir com força. Neste mundo do 8 ou 80, parece que estamos a passar de uma sociedade totalmente homofóbica para uma em que tudo o que se diga da homossexualidade tem de ser sempre algo de magnífico. Dizer que a homossexualidade poderá estar ligada a factores genéticos é tido como uma afirmação preconceituosa e segregacionista. É pena que assim seja porque não é com esse intuito que se afirma. Não é com o intuito de doença genética. Quando falamos de genes ligados à aptidão para a prática do desporto X ou para uma personalidade mais alegre ninguém toma isso como um acto discriminatório. No caso da homossexualidade também não é. É apenas um pouco mais sobre o ser humano, sobre a natureza, sobre nós e as nossas origens.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Idade de Reforma?

A idade da reforma tem vindo a aumentar. É compreensível e até necessário se tivermos em conta o envelhecimento da população. No entanto parece-me claro que tal cenário não deveria ser equacionado para determinadas profissões, como enfermagem, polícia ou outras que são de desgaste rápido e em que a frescura física e mental são fundamentais.
O que parece estar a ser esquecido é outro tipo de reforma. Talvez fosse importante reflectirmos sobre a necessidade de criar uma idade de reforma para declarações públicas. Depois das opiniões expressadas publicamente por Almeida Santos acerca das obrigações e deveres dos deputados, parece que o Cardeal José Policarpo ficou ofendido por este se ter antecipado na demonstração de senilidade e não quis perder tempo na luta pelo pódio dos "acabados para o pensamento". E não só não quis perder tempo como quis mostrar que está vivo e cheio de força na luta ou não fossem as suas declarações tão bombásticas! Ao que parece, de acordo com o Cardeal português, as jovens devem reflectir muito bem antes de casar com homens muçulmanos pois tal casamento pode causar-lhes muitos problemas. Sinceramente não sei de que problemas fala. Será que se refere à ausência de porco nos manjares caseiros? Ou talvez ao facto de terem de ver o seu marido ajoelhado de vez em quando? Se calhar é porque depois talvez não possam beber vinho. Não sei. Não sei qual a lógica. Mas se isto se tratasse de um tesourinho deprimente seria difícil escolher vencedor entre Almeida Santos e José Policarpo. Talvez o segundo ganhasse um ponto extra por insultar muitas nacionalidades ao contrário do primeiro que só insultou os portugueses.