segunda-feira, março 23, 2015

Descobrir e Redescobrir: o caminho da ciência

A História Natural, tal como a História da humanidade, está constantemente a ser reescrita. A busca incessante por conhecer mais sobre a vida, sobre o nosso planeta e sobre o Cosmos leva-nos a sucessivas descobertas. Mas muitas vezes encontramo-nos numa situação que quase embaraça a ciência, não fosse esta pautar pela máxima de que o conhecimento nunca está fechado e de que o saber de hoje está longe do saber de amanhã.
A história que conta a evolução da nossa biodiversidade está profundamente ligada a duas áreas científicas aparentemente distintas: a biologia e a geologia. A biologia desempenha o papel mais conhecido no seio deste nicho científico, sendo muito famosa, em particular, pela evolução da espécies, a selecção natural que nos trouxe Darwin. Mas a geologia está longe de um papel secundário na busca da História da vida. Talvez não tenha sido por mero acaso que o autor da teoria da selecção natural fosse de facto um indivíduo formado em geologia.
O papel da geologia é dividido fundamentalmente em dois domínios. Um é conhecido do público em geral, muito por culpa dos fascinantes dinossauros, a paleontologia. O outro é um desconhecido para a maioria mas desempenha um papel crucial para a vida, a geodiversidade. E são os processos geológicos que nos trazem os testemunhos da evolução, os pequenos contos que formam o livro da biodiversidade. Só que por vezes, esses contos, estão incompletos. Aos contos incompletos damos o nome de Espécies Lázaro, pois tal como Lázaro foi ressuscitado por Jesus, estas espécies, consideradas extintas, são ressuscitadas aquando da sua redescoberta.
Latimeria chalumnae
O mais famoso conto incompleto é sem dúvida o do Celacanto (Latimeria chalumnae). Este peixe de grande porte, que atinge cerca de 2 metros de comprimento, é conhecido no registo fóssil desde há 360 milhões de anos (Ma) e estava considerado extinto há 65 Ma. Em 1938 um exemplar foi capturado acidentalmente por uma embarcação de pesca na foz do rio Chalumna, na costa Este da África do Sul. O capitão do barco, Hendrik Goosen decidiu contactar o museu local da cidade de East London devido ao aspecto bizarro do peixe. A directora de então, Marjorie Courtney-Latimer, reconheceu a importância do achado e encaminhou o peixe para um dos mais conceituados ictiologistas do século XX, James Leonard Brierley Smith. Em honra da diligência de Marjorie, o novo Celacanto foi baptizado de Latimeria. Desde a sua descoberta em 1938, muitos outros indivíduos foram já observados e estudados. A sua distribuição resume-se à região Este de África, entre a África do Sul e a Tanzânia, passando por Madagáscar e as Ilhas Comoro. Uma nova espécie de Celacanto foi entretanto capturada em Sulawesi, Indonésia, em 1998 e baptizada de Latimeria menadoensis.

Na vida marinha encontramos o caso mais aberrante de todas as extinções do registo fóssil. Não por se tratar de um animal de grande porte, mas sim porque se trata de um grupo de elevado potencial fossilífero e que se considerava extinto desde há 320 Ma! Neopolina galathea. A sua ausência do registo fóssil é difícil de explicar. Ainda para mais quando alguns taxa fosseis, como o braquiópode Lingula, aparecem no mesmo estrato geológico que os Monoplacophora e apresentam um registo fóssil relativamente contínuo até hoje (estes braquiópodes são actuais).
Exemplo de Monoplacophora
A Classe de moluscos Monoplacophora, corresponde a moluscos com apenas uma concha, semelhante às lapas. Estes moluscos habitam na plataforma continental e montes marinhos, tanto em substrato rochoso como arenoso. Devido ao seu habitat e à sua concha calcária, o seu potencial fossilífero, ou seja a probabilidade de ficar preservado no registo fóssil, é considerável. O seu registo fóssil é comum em rochas do Paleozoico, sendo considerados os primeiros moluscos, com fósseis datados do Câmbrico. No entanto passaram 320 Ma sem aparecerem no registo fóssil, pois como se sabe desde 1952, eles ainda existem, o que significa que muito seguramente nunca desapareceram. A descoberta de espécimes desta Classe ocorreu a 6 de Maio, quando 10 espécimes vivos foram colhidos na costa Pacífica da Costa Rica. Os responsáveis pela descoberta faziam parte de uma equipa dinamarquesa que participava na expedição Galathea, cujo o objectivo era estudar as profundidades marinhas. Estes exemplares foram capturados em amostras colhidas a 3590 metros de profundidade e baptizados de

Caperea marginata
No entanto, na vida marinha, existe um caso que deixa qualquer um de olhos arregalados. Não pelo tempo que se pensou extinto, mas pelo tamanho e grupo a que pertence este animal. A Baleia-Franca-Pigmeia (Caperea marginata)! Este grupo de baleias estava considerado extinto há 2 Ma. No entanto, em 2012, a classificação desta espécie até então conhecida quase exclusivamente por ossadas e alguns arrojamentos, foi definitivamente colocada na família Cetotheriidae, provocando o renascer dos mortos e dando vida a um nome até então exclusivo para os extintos. Na verdade não se trata de uma espécie não conhecida mas sim de uma reclassificação. Não obstante, esta pequena baleia de 6,5 metros, foi muito raramente avistada e hoje representa um fóssil vivo.


Wollemia nobilis
Mas não só de vida marinha e de animais vivem as espécies Lázaro. As plantas também têm os seus contos incompletos. E nenhuma ilustra melhor o quão escondida pode passar a vida como a espécie Wollemia nobilis, encontrada em 1994 na Austrália. Não se trata de uma pequena planta, mas sim de uma árvore da família Araucariaceae, cuja altura nos indivíduos maduros é entre 27 e 35 metros! A descoberta foi feita por um ranger, David Noble, dos serviços de vida selvagem e parques nacionais de Nova Gales do Sul, enquanto fazia uma caminhada na floresta. O mais extraordinário é que a descoberta foi feita a apenas 200 km de Sidney. O registo fóssil não contém nenhum pinheiro Wollemi, mas quando comparado o pólen, encontra-se um semelhante no registo até há 2 Ma, última ocorrência conhecida. Desde então o registo é totalmente silencioso no que respeita a pólenes deste tipo. Mas o mais espectacular é verificar que as folhas do actual pinheiro de Wollemi são idênticas às folhas fossilizadas de Agathis jurassica, uma espécie do Jurássico Superior (150 Ma). Isto criou um enorme enigma botânico: como pode esta árvore não ter registos fósseis durante 150 Ma e ter indivíduos relacionados vivos hoje em dia? Para mais quando os restos fossilizados de Agathis jurassica se encontram a apenas 100 km do local onde hoje florescem os pinheiros de Wollemi?!

Laonastes aenigmamus
Ainda no mundo terrestre, mas voltando aos mamíferos, um pequeno roedor do Laos foi descrito pela primeira vez em 2005 e pensava-se que se tratava de uma nova espécie e de uma nova família. Em 2006, o Laonastes aenigmamus, passou à categoria de fóssil vivo, pois foi determinado que pertence à família Diatomyidae, considerada extinta no Tortoniano, há 11 Ma.






Rhinopithecus strykeri
A História Natural está repleta de contos incompletos. Não só nas espécies mas também na evolução dos ecossistemas. Pouco a pouco biólogos e paleontólogos vão procurando construir toda a História, tapando as lacunas e juntando as peças. Mas é surpreendente quando no mundo actual surgem descobertas que baralham o passado e nos deixam escarrapachado na cara que até o agora consegue esconder-se. De facto os últimos anos têm sido recheados de novas descobertas, de novas espécies, e não me refiro ao pequeno mundo dos insectos. O macaco Rhinopithecus strykeri foi descoberto na Birmânia (Myanmar) em 2010. Trata-se de uma nova espécie, com cerca de meio metro de comprimento de cabeça e corpo, tendo a cauda cerca de mais 1/3 que o comprimento corporal. Chamam-lhe o “macaco que espirra”, pois a orientação das suas narinas para a região superior do crânio faz com que espirre quando chove. Apesar de novo para a ciência, as comunidades locais conhecem-no há já muito tempo, fazendo inclusive parte dos alvos de caça.

Microcebus gerpi
Mas este não é o único primata descoberto em anos recentes. Aliás desde o ano 2000 foram descritas 75 novas espécies de primatas! Destas, apenas 8 foram rejeitadas, sendo posteriormente demonstrado que pertenciam a juvenis de espécies já descritas. Em 2014, talvez o caso mais surpreendente, Laura Marsh descreveu 5 espécies novas que habitam regiões do Brasil, da Bolívia e do Peru. As 5 espécies, todas do género Pithecia, pertencem a um grupo de primatas muito pouco conhecido da família Pitheciidae, conhecida em inglês como sakis. Em Madagáscar há uma floresta que promete trazer novidades durante mais alguns anos. Começou a ser explorada na segunda metade da primeira década do século XXI e um novo primata foi rapidamente descoberto, o Microcebus gerpi, nesta região virgem da floresta Sahafina. Ainda nas descobertas recentes, um novo primata foi descoberto no Brasil, o Callicebus miltoni, estudado ao longo dos últimos anos e descrito como nova espécie em 2014.

Mas não só de primatas se fazem as novas descobertas. Em 2014 e 2015 pelo menos duas novas espécies de rãs foram descobertas, Rana kauffeldi nos EUA e Euphlyctis kalasgramensis no Bangladesh. Mas nos anfíbios a mais fantástica descoberta terá de ir para Ichthyophis cardamomensis. Esta espécie de anfíbio sem membros, do grupo das cecílias (Ordem Gymnophiona) foi encontrada no Camboja e descrita em 2014, atingindo 1,5 metros!
Ichthyophis cardamomensis






Euphlyctis kalasgramensis (esq) Rana kauffeldi (dir)


São muitas as espécies do novo milénio. O gecko Paroedura hordiesi de Madagáscar, o cavalo-marinho Phyllopteryx dewysea do arquipélago de Recherche na Austrália, ou ainda as diversas novas espécies de peixes encontradas na Fossa das Marianas e que estão agora em estudo. Só nas aves pelo menos 48 novas espécies foram descritas desde 2010. Mesmo esquecendo o incrível mundo dos artrópodes e propositadamente ignorando o mundo micro, a quantidade de novas espécies que a ciência encontra por ano é impressionante. E já lá vão quase 240 anos desde Carl Linnaeus; a caminho dos 160 anos da publicação da Origem das Espécies, de Charles Darwin.
Phyllopteryx dewysea (esq) Paroedura hordiesi (dir)
Mas existe ainda um grupo de espécies que se distingue dos fósseis vivos e das novas espécies. Um grupo ainda mais incrível, pois fica entre os dois mundos. Reencontrar espécies consideradas extintas através do registo fóssil é fantástico. Mas o registo fóssil é um livro perigoso. É muito fácil e frequente faltarem páginas. A probabilidade de aparecerem surpresas faz com que não seja desconcertante quando estas emergem. E o acto de descobrir espécies novas é realmente incrível, pois já vamos com mais de dois séculos de exploração. Mas com toda a tecnologia moderna que nos permite explorar cada vez mais longe, todos sabemos que novas espécies vão surgir. No entanto, quando tal ocorre com aves ou mamíferos tem de existir um exclamar de profunda admiração. Não porque nos achamos hoje senhores do conhecimento, mas porque é refrescante e inebriante perceber que mesmo no que melhor conhecemos ainda temos tanto por descobrir. Mas o grupo de que falo é uma mistura entre espécies Lázaro e novas descobertas. São as espécies que conhecemos, declarámos extintas e depois reencontrámos. Essas histórias são incríveis! E são as que alimentam a imaginação de quem procura ainda o Tilacino, ou o sirénio de Steller, ou até o Megalodonte.
Phoboscincus bocourti
Existem mais exemplos destas espécies do que muitos imaginamos. Descrito em 1876, o Phoboscincus bocourti foi considerado extinto pois nenhum outro exemplar foi encontrado. Em 2003 e 2005 este lagarto da família Scincidae (lagartos sem membros ou com membros reduzidos) foi reencontrado na Nova Caledónia. Apesar do seu tamanho, cerca de 50 cm, esta espécie conseguiu passar despercebida durante mais de um século!



O insecto de 15 cm Dryococelus australis que habitava na Ilha de Howe no Mar da Tasmânia, foi dado como extinto na década de 1920, aparentemente resultado da introdução acidental de ratos. Uma pequena população foi encontrada em 2001, trazendo esta espécie do registo histórico para o registo actual.
Dryococelus australis
No Japão, uma espécie de salmão, Oncorhynchus nerka kawamurae, estava dada como extinta desde 1940. Este peixe de 30 cm viu a sua população desaparecer devido a um projecto de uma hidroeléctrica. Antes do desaparecimento da espécie no Lago Tazawa, foram transferidos 100.000 ovos para o Lago Saiko. O acto tinha sido dado como infrutífero até 2010, quando um grupo de investigadores descobriu uma população deste peixe precisamente no Lago Saiko.
Um dos casos mais incríveis deste renascer dos mortos é o de Fregetta maoriana. Depois de registada e descrita no século XIX, esta ave marinha da Nova Zelândia nunca mais foi avistada até 2003. Desde então os avistamentos e registos de exemplares têm sido frequentes todos os anos. Será uma população em recuperação ou apenas nos passou despercebida durante mais de 100 anos? Dentro das aves marinhas, outro regresso inesperado foi o de Pterodroma cahow, a ave símbolo nacional das Bermudas. Esteve declarada extinta durante cerca de 330 anos, tendo sido redescoberta em 1951!

Fregetta maoriana
Ainda nas aves temos mais uma fénix, o Porphyrio hochstetteri. Uma pequena ave da ilha sul da Nova Zelândia que fora declarada extinta em 1898. Acabou por ser redescoberta 40 anos mais tarde. É o maior membro da família Rallidae, da qual fazem parte, por exemplo, as galinhas-d’água.
Porphyrio hochstetteri
Mas não queria deixar de fora uma referência ao mundo das plantas. Também nelas houve renascimentos. A espécie Eriogonum truncatum, uma pequena planta com flor rosa, foi dada como extinta em 1936. Em 2005 foi reencontrada no único sítio onde se conhece a sua existência, o Monte Diabo na Califórnia.
O mundo que nos rodeia está cheio de surpresas, cheio de descobertas e repleto de redescobertas. São legítimas as crenças que pululam por diversas pessoas sobre a existência de espécies que consideramos extintas. Os regressos de que falei são apenas alguns exemplos, entre muitos outros renasceres. Caminhámos muito na nossa história de perseguição ao conhecimento, na nossa ânsia de desvendar dos mistérios do nosso mundo. Mas temos ainda muito para caminhar, muito para descobrir e até por redescobrir. A vida é um livro aberto, ávido de que as páginas sejam lidas por todos os que partilham a curiosidade pelo Cosmos. Só precisamos lembrar sempre uma verdade: o conhecimento nunca está fechado. O que sabemos hoje está longe do que saberemos amanhã.

quinta-feira, março 12, 2015

“És tu que me vais ensinar a educar um filho, queres ver?”

Frequentemente ouvimos esta pergunta, sempre em tom de escárnio, sempre associada a uma atitude de achincalho agressivo. Quem tem filhos seguramente já ouviu esta resposta de familiares ou amigos que têm filhos mais velhos, fruto de algum comentário, que muitas vezes nem era dirigido a qualquer acto, mas apenas relativo a características do próprio filho. De alguma forma as pessoas sentem que por executarem uma tarefa há mais tempo são melhores nela, ou pelo menos não têm de tolerar comentários dos menos experientes. Talvez faça sentido. Talvez.
Esta frase é tão comum quanto as opiniões e conselhos dos avós, dos tios, dos irmãos, dos amigos mais experientes. Aparentemente existe uma crença comum de que a educação, o acto de criar e preparar para a vida uma criança na sociedade moderna pode e deve obedecer a um padrão, um modelo educacional. Mas esta crença não é mais que um vestígio que sobrevive de tempos antigos, tempos mais primitivos, onde de facto existia um só modelo educacional, alicerçado na comunidade, partilhado por todos. Um modelo criado e apenas aplicável em sociedades tribais, pequenas comunidades, grupos com um sistema de valores rígido.
Na sociedade moderna, imaginar que existe um modelo educacional é como acreditar que uma nacionalidade representa um universo monocultural. Ou seja, totalmente desajustado da realidade. As sociedades modernas são acima de tudo multiculturais, partilhando diariamente milhares de diferentes visões do mundo e da vida, diversos sistemas de valores, gerando interacções de enorme diversidade entre os indivíduos, as instituições, as famílias. Numa comunidade pequena, imaginemos uma tribo, a educação dos recém chegados ao grupo é partilhada. Não só partilhada pelos membros da comunidade mas também partilha de um sistema de valores, uma visão da vida, uma estrutura social e hierárquica e um sentido prático da função associada ao crescimento, ao trajecto da infância ao estado adulto. Por existir esta estrutura rígida, com um único sistema de valores, um só conjunto de papéis sociais, uma só crença religiosa, a educação das crianças e jovens segue um padrão único, ajustado apenas nas pequenas singularidades que definem o indivíduo (pois uma sociedade tribal não é composta de seres idênticos, mas, tal como na sociedade moderna, de indivíduos). Este mecanismo não é aplicável às sociedades modernas.
Poderíamos assumir que a sociedade moderna é, na sua base, composta por milhares de pequenas comunidades. Tal não seria uma assumpção errada. De facto existem milhares de pequenas comunidades que compõem as gigantes sociedades modernas. Mas estas comunidades não são isoladas. Pelo contrário. Elas misturam-se diariamente, em todos os aspectos do quotidiano. Quando colocamos os nossos filhos na escola estamos a proporcionar-lhes o contacto com diversas culturas diferentes. E isto não é apenas fruto da emigração. Isto é também fruto da cultura do indivíduo, algo que traça o sistema de valores das sociedades modernas. Aliás, poder-se-ia mesmo assumir que não existe um sistema de valores na sociedade moderna. Esta é composta por centenas, milhares de sistemas de valores diferentes, variadas crenças, uma autêntica miríade de visões do mundo e da vida. A sociedade moderna, apesar das frequentes manifestações de intolerância, é de facto uma sociedade das diferenças. Pode existir um modelo de educação numa realidade onde não existe um só modelo? Para mim a resposta é não.
Educar uma criança é, para começar, um acto executado por diversos indivíduos. Os pais, os avós, os tios, a família em geral, os amigos, os professores, até a própria televisão, todos desempenham um papel fundamental na construção dos adultos que emergirão de cada criança de hoje. Mas todos estes indivíduos, ou conjunto deles, divergem no sistema de valores, pelo menos nalgum ponto. Se a mãe e o pai podem convergir na preparação do infante para singrar como adulto, tal não se pode esperar nem exigir dos restantes que influem no seu crescimento. Nas sociedades modernas temos de formar adultos para um mundo enorme. Não estamos a formar um indivíduo que terá um papel predeterminado no seio da sua comunidade, como ocorre numa tribo, numa comunidade isolada, num sistema de crenças e valores único. Não. Na sociedade moderna temos de formar indivíduos capazes de se adaptar e viver numa sociedade global, onde os diversos sistemas de valores proporcionam, demasiadas vezes, a ausência dos mesmos, e onde um jovem não tem um papel predeterminado, mas irá sim lutar por adquirir o papel que acredita ser o dele. Temos de preparar um jovem para ser um adulto capaz de singrar numa sociedade onde não existem caminhos traçados, não existem sequer caminhos estritamente construídos. É uma sociedade onde um jovem pode inventar um novo caminho, um que nenhum outro indivíduo criou antes.
Como se pode então educar, formar, preparar uma criança para esta realidade, que é na verdade um conjunto de milhares de realidades? Não acredito que exista uma resposta certa para esta questão. E por essa razão não acredito que quem já criou, já completou a experiência de preparar uma criança para a vida adulta, independentemente do sucesso desse agora adulto, saiba mais do que quem ainda não criou. Quanto mais não seja porque a realidade de quem criou há 20 anos é substancialmente diferente de quem cria hoje. Mas não defendo com isto que não podemos aprender com quem já viveu essa experiência. Podemos sim. Podemos e devemos. Mas acima de tudo não podemos ter a arrogância de pensar que por termos vivido já esta tarefa herculeana que sabemos mais, ou que somos detentores da verdade.

Eu, no seio da minha ignorância, acredito piamente que existe apenas uma verdade para o acto de educar. Essa verdade é a escolha que fazemos sobre o que queremos incutir na criança e no jovem que nos incumbimos de preparar para este mundo. Na minha óptica temos duas escolhas: procurar incutir-lhe um sistema de valores éticos e morais assentes no respeito pelo próximo ou procurar incutir-lhe um espírito e uma apetência para o oportunismo. Sinto, com alguma tristeza, que a segunda hipótese terá mais probabilidades de gerar um adulto bem adaptado à realidade das sociedades modernas. Prezo-me, no entanto, por acreditar que só na primeira escolha podemos formar indivíduos dignos de partilhar o mundo com os demais, indivíduos com os quais qualquer um sente o prazer de partilhar a sua vida.

quinta-feira, outubro 09, 2014

De Jesus à Igreja

Quem conhece o Sermão da Montanha de Jesus Cristo seguramente já se terá questionado sobre os dogmas da Igreja. Quem conhece o discurso de Jesus certamente já se terá perguntado porque são os partidos de direita conservadora aqueles que sistematicamente se associam à Igreja ou à "doutrina cristã". Mas antes de qualquer reflexão, leiamos o discurso proferido na Palestina em 30 d.C..

"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sereis vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todos o mal contra vós, por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque é grande a vossa recompensa nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há-de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo: não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte. Nem se acende a candeia para alumiar e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos os que estão em casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai que está nos céus.
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque, em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.
Qualquer, pois, que violar um destes mais pequenos mandamentos, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar, será chamado grande no reino dos céus.
Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Ouvistes que foi dito aos antigos: <não matarás, mas qualquer que matar será réu de juízo>. Eu, porém, vos digo que, qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão <raca>, será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe disser <louco>, será réu do fogo do inferno.
Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali, diante do altar, a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta.
 Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz ao oficial, e te encerrem na prisão. Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali, enquanto não pagares o último ceitil.
Ouvistes o que foi dito aos antigos: <não cometerás adultério>. Eu, porém, vos digo, que qualquer que atentar numa mulher, para a cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela.
Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti, pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
E se a tua mão direita te escandalizar, corta-a e atira-a para longe de ti, porque te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno.
Também foi dito: < qualquer que deixar sua mulher, dê-lhe carta de desquite>. Eu, porém, vos digo, que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa da prostituição, faz que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada comete adultério.
Outrossim, ouvistes que foi dito aos antigos: <não perjurarás, mas cumprirás os teus juramentos ao Senhor>. Eu, porém, vos digo, que, de maneira nenhuma, jureis de maneira nenhuma: nem pelo céu, que é trono de Deus, nem pela Terra, porque é o escabelo dos seus pés, nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande Rei. Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, o vosso falar: <sim, sim; não, não>, porque o que passa disto é de procedência maligna.
Ouvistes que foi dito: <olho por olho, e dente por dente>. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a túnica, dá-lhe também a capa. E se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: <Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo>. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e perseguem, para que sejais filhos do vosso Pai que está nos Céus, pois ele faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos. Pois, se amardes os que vos amam, que recompensa haveis de ter? Não o fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos que fazeis demais? Não fazem os publicanos também assim? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito vosso Pai que está nos céus.
Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles; aliás não tereis recompensa do vosso Pai que está nos céus.
Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.
Mas quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que fez a direita, para que a tua esmola seja dada ocultamente; e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará publicamente. Quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois se comprazem em orar em pé, nas sinagogas e nas ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa. Tu, quando orares, entra no teu aposento e, fechando a porta, ora a teu Pai, que vê secretamente, te recompensará. E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que, por muito falarem, serão ouvidos. Não vos assemelheis a eles, porque o vosso Pai sabe o que vos é necessário antes de vós lho pedirdes.
Portanto, vós orareis assim: "Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino; faça-se a Vossa vontade, assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Porque vosso é o reino, e o poder, e a glória, para sempre. Amén".
Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celestial vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai vos não perdoará as vossas. E, quando jejuardes, não mostreis contristados, como os hipócritas que desfiguram o rosto para que os outros vejam que jejuam. Em verdade vos digo que esses já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o rosto, para que não pareças aos homens que jejuas, mas a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê em oculto, recompensar-te-á.
Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. Acumulai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também, o vosso coração. A candeia do corpo são os olhos; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz, Se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!
Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou há-de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamona.
Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou de beber; nem quanto ao .vosso corpo pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais que o mantimento, e o corpo mais do que o vestido? Olhai para as aves do céu: que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e o vosso Pai celestial alimenta-as. Não tendes vós muito mais valor do que elas? Qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura?
E quanto ao vestuário, porque andais solícitos? Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como eles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé?
Não vos preocupeis, dizendo: <Que comeremos, que beberemos, ou que vestiremos?> porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas.
Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo o dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
Não julgueis para não sejais julgados. Porque, com o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás ao teu irmão: <Deixa-me tirar o argueiro do teu olho>, tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis aos cães nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem aos pés, e, acometendo-vos, vos despedacem.
Pedi e dar-se-vos-á; buscai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque aquele que pede recebe; e o que busca encontra; e ao que bate, se abre.
E qual de entre vós, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? E pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Se vós, sendo maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai que está nos céus dará bens aos que lhe pedirem? Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.
Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos há que a encontrem.
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas que vêm até vós vestidos de ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, e toda a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se ao fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.
Nem todo o que me diz: <Senhor, Senhor>, entrará no reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não profetizámos nós em teu nome? E, em teu nome não expulsámos demónios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?. E, então, dir-lhes-ei: Nunca vos conheci; afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade".
Todo aquele, pois, que escuta estas minhas palavras e as pratica assemelhá-lo-ei ao homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e sopraram ventos, e combateram aquela casa; e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha. E aquele que ouve estas minhas palavras e não as cumpre, compará-lo-ei ao homem insensato, que edificou a casa sobre a areia. E desceu a chuva, e correram rios, e sopraram ventos, e combateram aquela casa; e caiu, e foi grande a sua queda."

Jesus apresenta-se neste discurso como um homem que defende a igualdade entre os homens, a rejeição da riqueza material, o exultar do trabalho, o respeito mútuo, na igualdade e nas diferenças. Jesus defende a vida sóbria, e o caminhar de mãos dadas. O conjunto de valores morais proferidos por Jesus são reveladores de um carácter pacífico, de paz entre amigos e inimigos. É difícil encontrar nas palavras de Jesus um incentivo à violência, à luta armada, à desigualdade. Jesus era, à imagem dos tempos modernos, um homem de esquerda, um socialista (no verdadeiro sentido da ideologia socialista).
A luta que Jesus travou, liderando os oprimidos contra o poder Romano, foi feita pelos mesmos caminhos que usou Gandhi para a libertação da Índia. Um caminho não violento. O caminho da palavra. Aquele que é, na verdade, o verdadeiro caminho da liberdade.
Mas Jesus, sem sabê-lo, fundou um movimento, o cristianismo. O cristianismo cresceu, espalhou-se, enraizou-se, levando à edificação de uma igreja fundamentada nos ensinamentos de Jesus Cristo. A Igreja Católica tornou-se na grande voz do cristianismo durante mais de 15 séculos. Mas pouco mais de mil anos depois do discurso de Jesus, em 1095, surge o discurso do Papa Urbano II, no Concílio de Clermont. O Papa prega a primeira Cruzada.

"Ó, raça dos Francos! Raça amada e escolhida por Deus!
Dos confins de Jerusalém e de Constantinopla chegou-nos a grave informação de que uma raça maldita, totalmente alienada de Deus, invadiu violentamente as terras dos cristãos, despopulando-as pela pilhagem e pelo fogo. Levaram uma parte dos cativos para o seu próprio país, e mataram a outra com torturas cruéis. Destroem os altares, depois de os profanarem com as suas impurezas. Desmembraram o reino dos Gregos, roubando-lhe um território tão imenso que levaria mais de dois meses a atravessar.
A quem cabe então vingar estes males e recuperar esses territórios se não a vós - a quem Deus, acima de todos os outros, concedeu uma notável glória nas armas, grande valentia e força para humilhar as cabeças daqueles que vos resistem? Que os feitos dos vossos antepassados vos encorajem - a glória e a grandeza de Carlos Magno e dos vossos outros monarcas. Que o Santo Sepulcro de Nosso Senhor, hoje na posse de gentes impuras, e os outros lugares santos, hoje poluídos, vos incitem a agir... Que nenhuma das vossas posses vos prenda, nem a ansiedade pelos vossos assuntos familiares. Porque esta terra em que habitais, rodeada por todos os lados pelo mar e pelos picos das montanhas, é demasiado exígua para a vossa grande população - mal alimenta os que a cultivam. Por isso sois obrigados a assassinar-vos e devorar-vos mutuamente e a pelejar, e muitos de vós morreis em guerras civis.
Afastai, pois, de vós o ódio. Ponde fim às vossas querelas. Tomai o caminho do Santo Sepulcro. Conquistai aquela terra  a uma raça malvada e sujeitai-a. Jerusalém é a mais pródiga das terras, um paraíso de delícias. A cidade real, situada no centro da Terra, implora-vos o vosso auxílio. Fazei avidamente esta viagem pela remissão dos vossos pecados, e será vossa a recompensa de uma imperecível glória no Reino dos Céus.
Dieu li volt - Deus assim o quer!"

A quebra com os ensinamentos de Jesus é notória. É perceptível até por leituras menos atentas. Enquanto Jesus falou em amar os inimigos, em não reagir à agressão com agressão, em não roubar quem rouba, Urbano II incita à guerra, à resposta a uma agressão com outra ainda mais mortal e tenebrosa. Mas convenhamos que Jesus profetiza a rejeição dos bens materiais, enquanto a Igreja os acumulou durante milhares de anos.
Foi apenas uma reflexão sobre os males do Homem. Tendemos a começar de um fantástico ponto de partida. Mas sistematicamente nos perdemos no caminho. Já o dizia Jesus, "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que seguem por ele. Porque estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, e poucos há que a encontrem."