quarta-feira, dezembro 07, 2011

A base da crise


Compreender a base real da crise é fundamental para podermos prever o futuro próximo da Europa. Existem um sem número de razões que nos trouxeram à situação actual. Mas a base da crise, aquilo que permite a sua aparição, é simples de compreender. O mundo vive num sistema capitalista. O principal princípio económico do capitalismo é a acumulação de lucro. Quando este sistema começou a ser implementado teve de travar uma luta com as condições sociais e ideológicas dos povos europeus e norte americanos. Estávamos em plena luta de classes, em plena reivindicação da classe operária e a assistir ao crescimento da burguesia. Um sistema, cujo princípio básico é a acumulação de lucro, tem extremas dificuldades em subsistir numa sociedade na qual ocorre o crescimento da classe média e a melhoria das condições de vida da maioria da população. Mas esta época é também a época do imperialismo. A instauração do sistema capitalista fez-se assim como o recurso às estruturas imperiais. Utilizando as colónias, os países europeus e norte americanos puderam implementar este novo sistema económico ao mesmo tempo que concediam à sua população os direitos que esta reivindicava. A acumulação de lucro era possível graças à exploração dos territórios coloniais. Nasce o capitalismo imperialista.
Com o aproximar do final do século XX muitas foram as guerras coloniais. No entanto rapidamente se compreendeu que manter uma guerra, ou mesmo manter as colónias, era dispendioso. De forma a manter o sistema económico capitalista, do chamado mundo desenvolvido, era mais útil manter um controlo sobre a gestão de novos países do que subordiná-los, mantendo a sua dependência. Nascem então, verdadeiramente, novos países, especialmente em África. No entanto todo o continente Americano, tal como o Africano e o Médio Oriente, são criteriosamente mantidos sob ditaduras ou pseudo-democracias controladas pelos líderes europeus e norte americanos. Assim continuava-se a garantir a qualidade de vida na designada sociedade ocidental, gerando inclusive um novo nicho económico global, o do armamento (que até então subsistia à base de grandes guerras e agora passa a ser um negócio contínuo, alimentado pelas guerras civis de grande parte das ex-colónias).
É no século XXI que o paradigma ganha novos contornos. As nações até então exploradas começam a ganhar uma identidade própria, com populações que iniciam as suas reivindicações, as suas lutas, exigindo melhores condições de vida. Associando isto à força de alguns líderes políticos com sentido de estado, os territórios que alimentavam o capitalismo imperialista, começam a virar-se mais para si próprios, para as suas necessidades, para os seus estados e a sua população. A torneira de lucro da Europa e da América do Norte deixa de jorrar e começa a ser mais um conta gotas. Hoje, países como Brasil, Equador, Venezuela e alguns países africanos já não alimentam as economias dominantes. O Brasil é talvez o caso mais relevante pois passou de mero alimentador a potência mundial. A Ásia cresceu e tornou-se num sector económico de grande potência e força. A primavera árabe ameaça reduzir ainda mais o fluxo de capital, podendo vir a transformar o conta gotas num mero poço seco.
O problema é então puramente estrutural. As economias que dominaram todo o século XX num sistema de capitalismo imperialista, estão agora sem fonte de alimentação ao seu próprio sistema. Samir Amin quase previa este desfecho na década de 70. Qual o caminho agora? Existem algumas possibilidades. A instauração de regimes autoritários na Europa (nos EUA é mais difícil de tal acontecer, pois nunca tal ocorreu naquele país, o que torna esse caminho muito complicado por razões culturais e sociais) é uma forte possibilidade. Está mesmo, a pouco e pouco, a acontecer. As políticas de austeridade não visam mais do que reduzir, de forma lenta mas sistemática, os direitos dos cidadãos. A direita cresce no velho continente e já se começam a ver algumas medidas que atacam directamente direitos fundamentais das democracias, como o direito à manifestação. Outra solução é a revolução no seio da Europa, com o povo a exigir outro caminho, com os países periféricos a exigirem uma auditoria às dívidas externas, provocando o colapso deste sistema económico e fazendo renascer as ideologias socialistas (não confundir com PS). Por fim, o último caminho é a guerra. Tanto a nível europeu como mundial. A Europa e os EUA lutam arduamente por não perder as últimas gotas da torneira, hoje claramente desviadas para a Ásia e para as próprias ex-colónias. No seio desta luta pela sobrevivência de um sistema injusto e exploratório, mas que nos permitiu viver na abundância, o despoletar de uma terceira guerra mundial é um cenário que se vai tornando cada vez mais provável. Afinal, as condições socioeconómicas que antecederam a 1ª Guerra Mundial e, também, a 2ª Guerra Mundial, são muito semelhantes àquelas que hoje se começam a formar no contexto europeu. Mas estão agravadas por uma Ásia com voz forte no mundo e uma América do Sul que cada vez mais exige o seu lugar na mesa dos "grandes".

O racismo europeu

Generalizou-se a afirmação de que os povos mediterrâneos são preguiçosos, corruptos, trapaceiros. E o mais grave que nós, povos mediterrâneos, não só consentimos, como vamos ainda ao cúmulo de concordar e afirmá-lo, dando razão à xenofobia do norte europeu. Bem sei que temos, em geral, um nível de instrução baixo e um sentido crítico medíocre, mas nunca pensei que tivéssemos tão pouca auto-estima.
Os povos do sul da Europa não são preguiçosos nem são mais corruptos que os do norte, embora sejam um pouco trapaceiros, é verdade. As afirmações que hoje todos repetimos não são mais do que racismo, na sua pura essência. O comportamento das sociedades mediterrâneas é um comportamento normal e adequado às circunstâncias do final do século XX. Ou será que o mesmo povo que lançou os descobrimentos é preguiçoso? Ou o mesmo que conquistou o continente americano também o é? Ou ainda o povo que despertou a Europa no Renascimento, será também um preguiçoso incapaz? Na verdade não precisamos ir tão longe na história. Itália, Grécia, Espanha e Portugal têm hoje empresas de sucesso, desenvolvem tecnologia de ponta, são respeitados a nível global em várias áreas. A engenharia geológica, a indústria automóvel, a aeronáutica, a robótica, a investigação no cancro, o sector bancário, a agricultura, são tudo áreas onde estes países dão cartas a nível mundial. Mas somos os povos preguiçosos da Europa. Donde vem esta ideia que até nós engolimos e aceitamos?
Todos estes países passaram grande parte do século XX debaixo de uma ditadura. Salazar, Franco, Mussolini e, na Grécia, de um modo mais conturbado, Jorge II e a ditadura dos coronéis, representam os expoentes máximos dos regimes. Quando se libertam dos regimes autoritários e implementam a democracia ao estilo europeu, todos os estados se deparavam com um problema: quase nenhuma classe média. A esmagadora maioria da população era pobre. Nos casos particulares de Portugal, Grécia e Espanha, a democratização é quase coincidente com a entrada na então CEE e com o elevado crescimento económico que marca a Europa dos anos 80 e 90. A classe média surge quase por geração espontânea, tendo de repente acesso a tudo, podendo deixar os filhos estudar, garantindo que os podem sustentar. Comprar casa e carro passa a ser uma vulgaridade. Os computadores tornam-se uma presença normal nos lares e as casas começam a ter uma televisão por divisão, quase. Itália tem um caminho diferente já que a república se instalou após a Segunda Guerra Mundial. No entanto é também nestas décadas que ocorre o grande bum da classe média italiana, em particular no sul do país. Não é difícil compreender que houve um deslumbramento da população.
Todos conhecemos a história do indivíduo pobre que ficou rico da noite para o dia, que começou a ser menos profissional, mais gastador e, sem se aperceber, começou a viver acima das suas possibilidades. O que ocorreu nestes países foi precisamente essa reacção comum. A sociedade, o povo, a classe média viu-se de repente com muito, com tudo o que antes era sonho. Comprou, gastou, acomodou-se. Baixou a produtividade, os níveis de profissionalismo. A juntar a isto a população cresceu brutalmente. Mas seremos nós preguiçosos e corruptos? Continuamos a ter por cá (entenda-se mediterrâneo) quem se distinga profissionalmente, desenvolvendo trabalho de ponta em várias áreas. Os emigrantes destas nações (não sei se ainda posso chamar de nação ou se já fomos todos promovidos a meros estados europeus) são elogiados e respeitados nos países onde frequentemente se instalam. Mas é verdade. Fomos mal habituados nos últimos 30 anos. Embora isso não tenha nada a ver com a ausência de crescimento económico nesta zona europeia. Não é possível crescer com uma moeda como o euro, uma economia como a destes países e uma política liderada pelos povos nórdicos. O choque cultural, económico e estrutural é demasiado grande para que as regras da Europa do Norte sejam aplicáveis à Europa do Sul.
Temos alguma culpa do estado do nossos países. Temos uma parte da responsabilidade na frequente má gestão dos fundos europeus. Agora meus amigos, preguiçosos e corruptos não somos mais do que os nossos vizinhos nortenhos. E não posso deixar de dizer que continuo a ficar surpreendido com a xenofobia e as posições racistas frequentes desses países que se dizem avançados, social e economicamente mais evoluídos.

sexta-feira, novembro 25, 2011

Que caminho Europa?


O país discute o desemprego. O país discute os salários. Os país discute a austeridade. Os jornais apoiam, fomentam, instruem. O povo engole e segue nos carris. Distraído e absorvido na estupidificação das massas, entorpecido pelas preocupações que tudo isto trás à sua vida imediata. Os governos promovem as discussões e indicam o caminho. E no meio dos entreténs, o verdadeiro plano vai sendo executado. A construção de uma Europa Federal.
O sonho é antigo. Já várias tentativas foram sendo feitas ao longo da história. Tanto a Alemanha como a França tiveram os seus momentos. Napoleão primeiro, Hitler o último. Mas o sonho do domínio europeu não morreu. E não se pense que isto é fantasia do passado. Os impérios mudaram de contexto, mas ainda são o objectivo final de quem quer e pode exercer o poder. Merkel até já se descaiu algumas vezes. Não foi há muito que sugeriu a perda de soberania para os estados que não cumprissem os objectivos do défice. Mas cheira-me que Sarkozy lhe sussurrou ao ouvido, "cuidado, Assim apanham-nos".
Vamos começar pelo início. O ataque ao euro. Feroz, eficaz e fácil. Mas porquê fácil? Porque raio a Europa não protegeu o euro? Ficaram ali, impávidos e serenos, assistindo ao massacre da moeda única. Mas a verdade é que não podiam fazer outra coisa. Não porque estivessem com as mãos atadas. Nada disso. Se a Europa defende-se o euro, todo o plano iria por água abaixo. Sem crise socioeconómica não há reestruturação. Sem o colapso das economias não é possível criar o federalismo europeu. Antes os impérios construíam-se pela força, pela conquista militar do território. Hoje é um pouco diferente. Um pouco. Não muito.
Portanto a crise já está instalada. Todos falam nela. Todos a aceitam como algo real, inevitável, que está aqui agora. O poder da enunciação, que gerou a crise, trata agora de a consolidar. Agora estamos na fase dois. Agravar a crise. É fundamental o colapso total de, pelo menos, algumas economias europeias. As bolsas caem, os ratings são constantemente avaliados em baixa. A Grécia foi primeiro a virar lixo. Agora Portugal. Seguir-se-á a Irlanda, Espanha e, talvez, a Itália. Caos económico, instabilidade social. O cenário para a constituição federal começa a ficar montado. Mas aqui é quando as coisas ficam complicadas de prever. A realidade não é um sistema simples. É antes um sistema complexo, com muitas variáveis e, acima de tudo, com vários caminhos para atingir o mesmo fim.
É verdade que, por um lado, convém mais aos países economicamente fortes da UE que as economias periféricas saiam do euro. Assim podem ter crescimento económico e importar os produtos alemães, dinamarqueses, suecos, franceses, etc. Por outro lado a saída do euro garante a soberania dos estados, fragilizando o federalismo europeu. A questão é extremamente complexa, e está aqui muito simplificada. A juntar a isto, a tensões globais aumentam e o cenário de uma guerra, talvez mundial, começa a ganhar alguns contornos, ou pelo menos, tem de ser equacionado. No Irão, as manifestações violentas contra edifícios britânicos adensam-se. A Síria é pressionada por meio mundo. No Paquistão há raides da NATO. A contestação social na Europa e nos EUA aumenta. O sector militar das economias periféricas europeias está cada vez mais frágil.
Nos últimos anos o investimento militar aumentou a nível global. O relatório SIPRI indica um recuo no crescimento do investimento, ou seja, continua a crescer mas mais devagar, desde 2010. E isto deve-se principalmente às economias depenadas da Europa. Não se leia França, Alemanha, Inglaterra. Nada disso. A França, pelo menos até 2010, não reduziu em nada o seu orçamento militar. A Inglaterra inicia em 2012 um investimento de 1 bilião de libras em veículos militares. Tanto a União Europeia como o FMI não exigem cortes no orçamento militar, como parte do plano de austeridade. Isto é, cortes de despesa com pessoal e edifícios das forças armadas sim. Mas não nas encomendas de material bélico. A Alemanha e a França terão exigido à Grécia que continuasse os gastos militares com material produzido por estas duas nações. As notícias actuais sobre o orçamento militar alemão são em tudo contrárias à ideia que fica subjacente neste texto. A Alemanha está a fazer um corte neste sector. Mas se procurarmos mais a fundo na informação disponível, conseguimos encontrar dados interessantes, como a entrega de material bélico a partir de 2012, encomendado anos antes, e como tal fora deste orçamento.
Mas não é de todo fácil conseguir descortinar um cenário de guerra europeu. É bem verdade que o actual contexto socioeconómico da Europa é semelhante ao dos anos 30, que antecedeu a 2ª Guerra Mundial. Tem também contornos similares aos do final do século XIX e princípio do século XX, que culminou na 1ª Guerra Mundial. No entanto, a realidade dos dias de hoje torna esta avaliação mais complexa. Se por um lado é bem verdade que uma transformação da Europa numa Europa Federal requer, avaliando os padrões históricos, a implementação de uma guerra. Por outro parece difícil entender qual o propósito de tal evento. Talvez seja possível fazer a transição, sem guerra, limitando-se a controlar sectores estratégicos do poder. Acabamos de assistir a dois momentos únicos na história recente. Dois golpes de estado na Europa que, não só passaram silenciosamente no escrutínio da comunicação social, como também no político e social. Tanto em Itália como na Grécia, a substituição dos governos, é um autêntico golpe de estado. Não foram eleitos. Não se apresentaram ao povo. São tecnocratas colocados na chefia do destes dois países para executar o plano primário. Mas quem são eles? Mario Monti, ligado à Goldman Sachs, assim como Mario Draghi recentemente eleito presidente do Banco Central Europeu. Lucas Papademos, antigo governador do Banco da Grécia durante a falsificação da dívida grega pela Goldman Sachs. Todos são membros da Comissão Trilateral ou do clube de Bilderberg. Uma situação, no mínimo curiosa. Quem não está familiarizado com o Clube de Bilderberg, recomendo que se actualize.
Independentemente de todas estas questões, dúvidas, incógnitas, o federalismo é o objectivo. Foi ontem que Sarkozy e Merkel anunciaram um conjunto de medidas a apresentar na próxima reunião, dia 9 de dezembro. Deixaram apenas um cheiro do que aí vem. Medidas severas para quem não cumpra o défice. Quem sabe perda de soberania. Bem sei que já não temos muita, o orçamento de estado de Portugal teve de ser primeiro aprovado em Berlim, e só depois, discutido na AR. Mas ainda somos soberanos, ainda podemos decidir sair da UE ou ficar, investir na educação ou abandoná-la. Ainda somos donos do nosso futuro. Numa federação deixamos de ser. Passamos a estado, com alguma autonomia administrativa, autonomia essa que ficará definida na constituição federal. É importante frisar um aspecto das constituições federais: é impossível, proibido, inconstitucional um estado membro da federação abandonar, sair, voltar a ser independente. Viveremos num cenário de centralização do poder, sujeitos às regras franco-alemãs, membros de um império bicéfalo, cuja grande cabeça é a Alemanha. A proposta conjunta de Alemanha e França visa rever os Tratados e criar uma “União de Estabilidade” em que, a promessa de mais solidariedade, será antecedida por regras muito mais duras de disciplina orçamental e pela transferência de novas parcelas de soberania, de modo a que instâncias europeias possam ter uma palavra decisiva na concepção dos Orçamentos nacionais. O nascimento do império do 4º Reich, talvez, mas este legítimo, este legal.
A instabilidade social vai aumentar nos próximos anos. Isso é ponto assente. Ao contrário do que nos vende o Passos, o fim da crise não é em 2012. Vai ser apenas um ano pior que este. E 2013 será pior que 2012. E 2014, talvez ainda pior. Não é por acaso que o Banco de Portugal, e não só, pede a extensão das medidas de austeridade até 2014. Se a intervenção militar estiver mesmo na ordem de acção, então basta promover as acções dos grupos de crime organizado junto das manifestações, das greves e dos protestos. Existem vários grupos deste tipo no mundo. Servem mesmo para isto. Aos mais cépticos, quero dizer que não, não é uma teoria da conspiração. Isto é feito há milhares de anos. Não é uma invenção do século XXI. Grupos cujo objectivo é gerar instabilidade e violência, controlados muitas vezes por governos, são usados desde sempre como meio de justificar intervenções militares, decisões económicas ou legislação austera. E a ideia que nos têm vendido, várias vezes na televisão, de que a UE é a garantia de paz na Europa, de que desde que existe UE não há guerra na Europa, é de uma demagogia assustadora. Só num mundo onde sabemos de antemão que o povo não vai questionar o que se diz no rectângulo colorido, se têm afirmações destas publicamente. Então a Jugoslávia? Checoslováquia? Bósnia? Sérvia? Ucrânia? Não são todas estas guerras pós-CEE e pós-UE?
Outra ideia que se vende sistematicamente nas televisões europeias é a de que sem euro estamos feitos. Será? Sem euro passaremos uns anos maus, sem dúvida. Mas estaremos realmente arrumados e mortos no mundo global? Será realmente o nosso fim? Enquanto a Europa está em recessão, que se agrava a cada revisão dos números, a Islândia cresce. Esse país pequenino que abriu bancarrota, a quem o mundo escreveu um belo obituário, afinal, precisamente por não ter euro, está a crescer. Mas a nós dizem que isto é impossível. Mais um momento de propaganda federalista.
Por fim vamos tentar perceber como funciona este mercado livre do crédito. Vejamos o caso de Itália. O BCE pondera emprestar dinheiro ao FMI para que este empreste a Itália. Já neste primeiro passo conseguimos perceber a perversão de todo o processo. Mas então e o que faz o FMI com o dinheiro que a Europa (todos os contribuintes europeus) lhe emprestou para que ele emprestasse a um país europeu? Pois bem, empresta aos bancos comerciais italianos. Estes últimos, por sua vez, emprestam ao governo italiano, sujeitando os contribuintes de Itália a pagar os juros daquele que já é o terceiro empréstimo do mesmo capital. Não é difícil perceber que algo aqui está muito errado.
Estamos ainda no início. A vida cómoda e estável a que andámos habituados está a começar o seu fim. E ainda falta muito. Isto é ainda o começo.

terça-feira, novembro 08, 2011

Em busca do sonho

Desligo a tv, estou a tentar dar sentido ao que acabei de ver. O mundo é assim tão diferente desta caixa a cores? Que dizer, os valores da televisão são apenas de mau gosto ou reflexo do que apreciamos?... claro que todos o dizemos: ”como é possível isto ou aquilo estar no ar?”, dizemo-lo...fica bem em certos meios sociais, eleva-nos...mas quem nunca ficou 5 minutos preso a um programa desprovido de sentido? Se o zapping que fiz reflecte o que apreciamos, lutar por um mundo melhor é um  sonho inglório  para personagens tristes e que há muito estão fora dos guiões de qualquer programa televisivo.
Comecei na 1: filme; 2: não me lembro; 3: filme; 4: Casa dos Segredos, a 2ª edição aparentemente. “Alto lá”, penso, “isto é aquilo que está na boca do mundo, inclusive pessoas próximas de mim admitem que o vêem”. A minha curiosidade sobre o que possivelmente pode prender alguém a este tipo de programa, permite ao meu superego não censurar a minha decisão.  De forma a tornar o meu comportamento mais aceitável decido por a máscara do avaliador comportamental: “o que levará pessoas educadas a ver este programa absurdo?” Isto é o que pretendo identificar! Em certos meios sociais poderei lançar uma teoria interessante. Começo a ver, aparece um tal Marco...o Marco é um tipo grande! Mudança de cena aparecem todos no ecrã. Alguém tenta adivinhar um segredo. Bem isto é a casa dos segredos, penso. Um indivíduo também ele com um aspecto rústico mas embalado urbanamente à pressão social, tenta adivinhar um segredo de outro concorrente: “Eu penso que o segredo da não sei quantas é: Eu já tive um caso com um jogador de futebol” Eh lá! Isto não é uma adivinha, isto é uma frase de catálogo! Onde já vi isto? Foi ao pé de Campolide num cartaz. Óptimo! Menos de dois minutos e já compreendi a dinâmica do jogo. A minha avaliação começa bem, continuo a sentir que o que estou a fazer é de alguma forma pertinente. Metade do dinheiro passou para outro concorrente...já soma 14 mil euros. “A dignidade anda a vender-se mais cara”- pensei. Começo a reparar que todos os concorrentes masculinos possuem uma massa muscular muito maior que a minha, e que apesar da maioria dos concorrentes aparentarem uma proveniência rural, todos têm traços agradáveis, algumas senhoras sem duvida podiam andar mais na linha mas julgo que não seriam tão carentes. Este dorme com esta, esta com aquela, estão em negociações...meu deus estamos perante crianças gigantes, seres cujo crescimento físico disse adeus ao desenvolvimento intelectual. Intrigas, sotaques, homens depilados, ofensas claras, machões, seios desproporcionais...já não consigo mudar de canal, tento mas não consigo. Hora das nomeações. Um génio interrompe para tentar adivinhar um segredo do catálogo. Quaaasee... ou não! Nomeados anunciados...o nível intelectual é banhado por emoções e subitamente estou novamente no primeiro ciclo e há algo de agradavelmente irresistível na genuinidade destes humanos que me está a prender à televisão. Tento ganhar consciência. O que se passa??? isto é a casa dos segredos!... 2!! Porque não consigo mudar de canal? A pergunta evapora-se porque tento acompanhar o que se passa. O Marco está a chorar!! Está a falar de amor e de sonhos: “Queres ter filhos? Tu sabes que eu até para o ano no máximo quero ser pai! Isso é um objectivo que tenho”. 7 biliões meu amigo! Fá-lo por amor não por objectivos. A casa dos segredos acaba e foi o que me salvou. Prossigo no meu zapping atordoado pelo que se passou... o mundo está perdido. Sic noticias, Miguel Relvas entrega prémio a Cristiano Ronaldo em hotel em Madrid, foi acompanhado por... mas senhor ministro não estamos em crise? Quantos subsídios estão incluídos na deslocação de todas essas figuras a Madrid? Ah, o senhor entregar a bota de ouro ao Cristiano é importante! ...? Mas porque? Ele não ia ganhar na mesma? Não ia aparecer na mesma na televisão? Estava lá o Eusébio... Portanto o senhor entregar esse prémio é de facto importante para quem? E  para quê? Cristiano exibe-se ao seu melhor nível: “Se nem Deus agradou a todos porque hei-de eu conseguir?” Mais uma mensagem de inspiração para os portugueses, principalmente para os mais jovens! “Cristiano, quem é melhor do mundo? O CR ou o Messi?”- pergunta o jornalista. Aparece a Irina, ia responder para mim próprio: ”Messi obviamente” mas agora já não sei. A vida continua, e o zapping também, tau tau tau, por ali fora, TvCine3: documentário no ar, é isto que eu preciso! Há gente séria ainda no mundo! O titulo é Inside Job, “Steve não sei quanto CEO da não sei quantas facturou 485 milhões de dólares”. “Isso é uma quantidade obscena de dinheiro para uma só pessoa” – penso. Quuaaaatro ceeennto e oiteeennta e cinco milhões de dólares? Há alguma possibilidade de esta pessoa considerar minimamente a hipótese de o trabalho que realiza, de facto valer, vá nem que seja, um décimo disso? Psicopata ou Sociopata que não se deixa apanhar! Estas pessoas têm problemas graves. Bem, talvez não essas mas todas aquelas que, por tipos destes, vivem com menos de um dólar por dia. Segue jogo e grava documentário! Continua o zapping. Segue-se o DR 9020 ou algo do género. Uma coisa de cirurgias plásticas... a sobremesa para finalizar este banquete televisivo. Prendeu a minha atenção. Está um médico de caneta em punho a fazer uns desenhos nuns seios que, apesar de bem granditos, estão algo descaídos. Estariam bem para mim e tenho a certeza que para muita muita gente, mas alguém tem ambições mais altas e para isso vai submeter-se a uma cirurgia que irá tornar o seu carácter muito mais... firme! O médico está estranhamente à vontade para mexer naqueles seios diante do namorado. Meu! Chapéu e essa pinta? Já foste! Deixa lá o makeover acabar e podes começar a tua contagem decrescente. Nunca tinha visto um mamilo a ser levantado como tampa, cirurgia minuciosa, estes tipos merecem o que ganham, são de facto habilidosos, tenho dificuldades em abrir latas de atum e o que vejo está a impressionar-me. A operação está concluída e a paciente acorda, bem jardada, quer uma Diet Pepsi, viva os Estados Unidos, viva o progresso, viva a energia bem gasta dos seres humanos pelo mundo fora...
O programa passa para o doutor em manga cava... espera lá o doutor está em sua casa?! Tem uma mulher bem bonita, será que a comprou em segunda mão e a retocou? Bem ela bonita está... mas espera lá, o doutor é homossexual. Nada contra, mas a mulher é de facto bonita. Ela não o percebe? Ele não tem vergonha de defraudar de forma óbvia a mulher diante do mundo? ... O mundo está perdido, para mim chega! desligo a televisão...fico a pensar: o que é que nos prende? O que é que de tão melhor têm estas aventuras em busca da perfeição do que a minha vida? Anda a nossa vida tão monótona e cinzenta que temos de viver estas ansiedades e inseguranças de outros. As gatas borralheiras e os Oliver Twists que aparecem nestes programas são genuínos, porque estão em busca dos sonhos deles, a todo o custo ou não, a colmatar inseguranças ou não, eles estão a arriscar e a sentirem que estão a viver... e nós? Estamos tão pobres na nossa inspiração que nos entretemos com um cinismo jocoso a assistir a este desfile de coragem ignorante? Sai barato e é muito seguro alienarmo-nos a viver as aventuras e os sonhos dos outros através desta puta desta caixa mágica. "Começo a partir a televisão ao pontapé, o primeiro passo começa sempre com alguma loucura!" – penso.

Por Rogério Queiroz

(Já podes dizer que tens algo publicado mano!!! Abraço! Gostei!)

sexta-feira, novembro 04, 2011

Coisas do mundo

A Grécia parece um centro de perdidos e achados. É que perdidos lá andam eles mas lá vão encontrando algumas saídas airosas, ao melhor estilo político do terceiro mundo europeu. Depois de um caminho percorrido a solo eis que surge a medida democrática do referendo. Caso para perguntar, agora? Terá sido uma piada no seio da tragédia grega? Ou estão à procura de escrever uma odisseia dos tempos modernos?
Falando em democracia. Parece que houve uma votação relativa à Palestina na UNESCO. Digo parece porque ouvi dizer que Portugal se absteve. Vou continuar a pensar que isso é um desses boatos mesquinhos que às vezes circulam por aí. Não acredito que fossemos capazes! Mas o melhor dos boatos é sobre os líderes da democracia e da liberdade, ou assim se autodenominam eles. Dizem as más línguas que os EUA votaram contra e que, como não se fez a sua vontade, retaliaram retirando o seu financiamento à UNESCO (1/5 do orçamento ao que parece). Isto cheira-me a propaganda russa, só pode. É verdade, e que é feito dos russos? Têm andado muito calados. Deve ser para ninguém perceber que o conceito da União Soviética está a renascer, ou não fosse a livre circulação entre Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão uma nova realidade.
Mas por cá também vamos fazendo as nossas jogadas tipo Casa dos Segredos. O Duarte Lima está lá escondidinho na sua modesta e humilde casa, na esperança de que a justiça brasileira seja como a nossa e tudo caia no esquecimento ou, melhor ainda, prescreva. Mas o Miguel Sousa Tavares já lhe deu uns caldos em horário nobre na SIC. O Cavaco começa a mostrar sinais de Alzheimer nos discursos, pois agora é manifestamente contra todas as posições que assumiu quando era Primeiro Ministro. O Passos Coelho desorientou-se geograficamente, ou então perdeu noção de identidade (talvez por culpa dos ministros que importou) e foi fazer discursos sobre política nacional para o Paraguai. E até o Jorge Jesus já foi promovido a analista político e especialista na crise. Bem sabemos que é catedrático mas se calhar estas águas já são muito fundas para ele. Ainda assim lá fez um comentário assertivo mas que o nosso eloquente poeta Manuel Alegre não conseguiu engolir e lá foi, enraivecido e enfadado, chamar de demagogo ao Jesus. E não posso esquecer a nossa gigante EDP. Tem lucros que rondam os 1000 milhões de euros mas recusa contribuir para ajudar o país. Claro que isso não surpreenderia ninguém se soubessem que 53% do total da factura da electricidade são...subsídios! Mas de subsídios vive o país há 30 anos...
E no meio da crise Inglaterra faz investimentos de fundo e que irão revolucionar todo o tecido socioeconómico. 1 bilião de libras em veículos militares! (anúncio de David Cameron e Philip Hammond - The Guardian 25 de outubro) Talvez se estejam a precaver para uma internacionalização do movimento "Occupy Wall Street". É que as imagens nos EUA fazem lembrar aquelas quezílias tipicamente argentinas, com os adeptos do Boca a massacrarem os meninos do bairro La Plata. Mas convenhamos que as pessoas exageram. Afinal 1% da população americana controla 40% da riqueza. Aqui na Europa há pouco mais de 150 anos, na maioria dos países, 1% controlava 100% da riqueza. Chamavam-lhes nobreza e clero. Está bem, ok, em meados do século XX nos EUA esse 1% só controlava 20%. Ou bem que têm bom olho para o negócio ou então pode ser que seja um complexo, de um país sem história e que está a tentar reclamar o seu direito sobre uns séculos de povo, nobreza e clero. Afinal já se ensina o criacionismo nas escolas americanas, em vários estados.

terça-feira, outubro 11, 2011

Touradas de beneficência

No próximo dia 13 de Outubro realizar-se-à uma tourada no Campo Pequeno que visa a angariação de fundos para a Fundação LVida e para os seus projectos sociais em África. Ajude-nos a reduzir a fome em África dizem eles. É sem dúvida uma questão interessante esta. Uma tourada como obra de beneficência. Não me parece algo que possa ser interligado no entanto, o radicalismo, que tanto tenho lido nas reacções a este evento, a nada leva. Aliás a intolerância só deve ser aplicada nos intolerantes e como tal não me parece que este seja o caso. Não sou adepto de touradas. Não vejo nem gosto. Mas sei que a única forma de mudar o mundo é começando dentro de nós e cultivando os que nos rodeiam, sem imposições nem fundamentalismos. Essas atitudes apenas geram o incremento das crenças/ideais que procuramos refutar.
Ainda assim prefiro saber que de uma tourada pode sair algo de bom. E é necessário recordar que a Fundação LVida não é patrocinadora mas sim a entidade escolhida pela organização para doar a receita do evento. Com o tempo terminaremos com este espectáculo degradante. Mas não se esqueçam de uma coisa caros anti-touradas, lembrem-se do touro quando conseguirem acabar com a actividade. É que ele só existe porque existem touradas. Não se refugiem, como é habitual, nos vossos valores egocêntricos e pseudo-altruístas. Lembrem-se de como manter o touro vivo e livre.

quarta-feira, setembro 28, 2011

O individualismo estúpido

Hoje aconteceu-me uma situação reveladora da mentalidade individualista que governa o pensamento actual. Estava na fila para pedir um café quando um rapaz cego chocou contra mim. Como é natural ele pediu desculpa e perguntou-me onde era a fila para pedir café. Com toda a naturalidade e amabilidade encaminhei-o para o fim da fila, tal como o faria com qualquer outra pessoa. Ao colocá-lo no final da fila voltei para o meu lugar. Mas a necessidade das pessoas de se sentirem melhor consigo mesmas revelou-se nesse preciso momento. A rapariga que estava no fim da fila falou com o rapaz invisual, segurou-lhe na mão e lá foi toda emproada e de ego inchado levá-lo ao balcão para que este pudesse pedir de imediato o que quer que fosse. Voltou para o seu lugar com aquele ar de dever cumprido, olhando de esguelha para mim, como quem diz "seu idiota insensível, vês como eu sou uma pessoa decente". Eu sorri. Se se tratasse de uma pessoa com problemas motores claramente que lhe teria indicado o primeiro lugar da fila, porque admito que para quem tem esse tipo de limitações a espera numa fila pode ser dura, dolorosa e até agoniante. Mas era um cego. Perfeitamente capaz de ter uma atitude igual a todos nós perante as exigências mínimas do quotidiano.
Como é natural a nossa sociedade está estruturada numa perspectiva em que a visão é essencial. Outra coisa não seria de esperar de uma espécie cujo principal sentido é precisamente a visão. No entanto há muito que decidimos que os cegos não devem morrer por serem cegos. Toda a sociedade se esforçou por criar condições para que esta minoria pudesse ter uma vida quão próxima quanto possível daquela que está disponível para os que conseguem ver. Este tipo de comportamento egocêntrico, muito comum nos dias de hoje, é uma afronta a todo o esforço empregue na melhoria das condições de todos aqueles que têm algum tipo de limitação não motora. Além disso o impacto que estas atitudes têm no íntimo daqueles que são "diferentes" é precisamente acentuar o sentimento de diferença, contribuindo não para o bem estar mas antes para uma maior dificuldade de adaptação e integração da pessoa que tem limitações.
Isto acaba por me recordar uma frase dita pelo meu primo há uns dias a propósito da nossa postura no mundo de hoje. Ele dizia "nós vivemos na era de hoje mas não vivemos a era de hoje" ou algo assim do género. O importante era o que isto queria dizer. Nós hoje vivemos a maior era global da história da humanidade. No entanto continuamos, talvez mais que nunca, a viver o eu e não o nós. Ou seja, numa era onde temos consciência como nunca de todo o panorama global vivemos como nunca o contexto individual. Temos hoje um mundo onde o desenvolvimento de uma consciência comunitária teria um impacto massivo na sociedade, podendo reduzir drasticamente as injustiças sociais, se cada um de nós em vez de viver o seu futuro, a sua carreira, a sua casa, o seu carro, vivesse num pensamento e cultura que incutisse um espírito de actividade que fosse além do impacto individual. Só seria preciso que cada um de nós quisesse que o seu trabalho, o seu esforço, o seu dia-a-dia fosse além de uma conquista pessoal, fosse além da mera satisfação individual e buscasse ser algo para os outros. Ter um emprego que além de nos dar algo a nós fosse útil para os outros. Não é o nascimento do altruísmo, pois na sua essência o altruísmo nunca existirá. Seria sim o aproveitamento dos dias de hoje para uma reestruturação cultural.

terça-feira, setembro 13, 2011

Coisas da vida

Nisto do compromisso existem demasiadas verdades, variadíssimas versões, demasiadas formas distintas de viver o amor. Os impulsivos que arriscam tudo numa paixão ou os sonhadores que vivem a relação da forma mais intensa. Os terra-a-terra, comedidos e dados apenas ao que é estável. Os desligados que nunca se prendem, nunca se comprometem. Os...os...tretas. O amor apenas se vive de uma maneira. Não existem várias maneiras de viver uma paixão. A paixão vive-se impulsivamente, arriscando, vivendo cada momento como se da a primeira inspiração da vida se tratasse. O amor vive-se. Não se adia, não se esconde, não se deixa para amanhã. Mas a verdade é que existem demasiadas verdades, não no amor, mas num compromisso. Cada um é dono da sua verdade e a diferença entre um compromisso de sucesso e um compromisso condenado é a luta pela convergência das verdades, é a procura do comum entre as versões, entre os sentimentos. É a compreensão. Esse é o desafio do compromisso.
Outro dia alguém me dizia que tinha de ser objectiva na vida, usar a cabeça e não o coração. É uma forma de estar tão antiga quanto o próprio amor, escolhida pelos sofredores, pelos danificados, pelos corrompidos. A escolha daqueles que vivem o medo do fracasso em vez do sonho do sucesso. É verdade que em alguns momentos da vida temos de caminhar por esse trilho inóspito e estéril. Não para ser felizes mas para nos reencontrarmos. Qualquer criança de 6 anos sabe que o caminho da mente é o caminho seguro da sobrevivência e que só com o coração encontramos o caminho da vida. Mas é claro que momentaneamente esse caminho de paisagem lunar é necessário. Mas é necessário ter algum cuidado pois podemos encontrar-nos um dia presos nas miragens desse deserto, incapazes de as distinguir das verdadeiras vivências e acordar um dia num mar de vazio, num mundo oco, longínquo, perdido e esquecido. E no tempo em que andámos a alimentar a nossa alma de miragens inanes abraçámos a solidão, rodeamo-nos dela, sem intenção nem percepção, afastando todos aqueles que não podiam fazer parte do caminho da razão.
Razão. Fundamental ao nosso bem estar. No entanto muito perigosa quando vivemos apenas dela. Muito mais do que quando vivemos apenas do coração. A razão, isolada, é um cinto de castidade imposto por um a si mesmo. A razão estrangula a emoção, reprime a liberdade, inibe a espontaneidade. A razão por si só apraza a vida, aniquila-a. Viver da razão é o suicídio mais lento possível.
Um ensinamento nunca esquecerei: vive a vida com uma mão na razão e outra no coração.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Climate change: are we sure?


Estaremos tão seguros assim da existência de alterações climáticas profundas? Ou será apenas a nossa arrogância antropocêntrica combinada com um negócio de milhões de dólares? A verdade é que a segunda hipótese é mais provável já que muito pouco conhecemos e compreendemos sobre os mecanismos que forçam o clima e, principalmente, a sensibilidade climática do nosso planeta.

quarta-feira, maio 11, 2011

O choro do mendigo

Portugal encontra-se num momento de extrema dificuldade económica e social. A UE mostrou que esta história da união não passa de uma carta de intenções pois num claro ataque ao euro não soube superar-se, proteger-se e garantir a força interna, permitindo e até exigindo a entrada de FMI e amigos no espaço Europeu. A moeda única sofreu. A união dos estados europeus fragilizou-se e o conceito revelou-se ao mundo como nada mais que isso, uma ideia. Grécia, Irlanda, Portugal. Seguir-se-á a Espanha? Talvez. Caso tal aconteça será uma espécie de machada final na ainda jovem moeda europeia.
Mas Portugal não deixa de fazer das suas e surpreender tudo e todos. A mim pessoalmente envergonha-me. A outros enche de orgulho esta alusão ao passado. Hélder Fernandes, jornalista da TSF, escreveu uma carta aos finlandeses a choramingar por ajuda. Invocando a ajuda que Portugal deu no passado àquele país escandinavo, Hélder Fernandes pedincha pela esmola Finlandesa. Mas esquece duas coisas fundamentais: pessoa, povo ou nação que se preze tem dignidade e orgulho para superar as suas adversidades sem virar pedinte; a Finlândia  pediu ajuda quando foi invadida pela União Soviética na que foi chamada Guerra de Inverno. E este ponto é fundamental para compreender o total descabimento e embaraço desta carta aberta ao povo finlandês. Portugal não foi invadido por ninguém. Fomos invadidos por nós próprios, pela nossa inércia, corrupção, ganância, chico-espertice, pequenez. Arruinámos a nossa nação e agora queremos que os outros paguem os negócios obscuros que por cá se vão fazendo. Eu não sei se interpretar esta carta como uma piada ou um insulto aos que por cá ainda têm uma réstia de seriedade dentro de si.
Como se não bastasse a carta do pedinte, que mais parece querer ser uma nova manifestação literária chamada cantigas do pedinte, iniciada pelo pseudo-trovador Hélder Fernandes, temos também um vídeo onde se fala em pasteis de Belém e bacalhau salgado. Mas será que só arranjamos realizadores cegos e escritores chorões? Será que não somos capazes de por um momento parar de chorar e perceber que a solução está aqui? Não podemos produzir como Marrocos e viver como Alemães! Não podemos alimentar os familiares e amigos e pedir ao vizinho que continue o jogo quando o saldo acaba! A acção do povo islandês deveria ser um exemplo para este povinho lusitano. Mas talvez a seriedade e a dignidade sejam princípios já esgotados neste cantinho da Europa. E devem ser, a avaliar pelo último concurso público que me chegou à vista. 1.200.000€, sim UM MILHÃO E DUZENTOS MIL EUROS, para ": Aquisição de Serviços de Elaboração de Propostas de Decisão de Propostas de Contra-Ordenação", Diário da República, 2.ª série - N.º 63 - 30 de Março de 2011  -  Anúncio de procedimento n.º 1462/2011 - Página n.º 2". É para isto que pedimos aos finlandeses o seu dinheiro? Tornámo-nos num país inteiro de mão estendida no semáforo a pedir esmola em todas as janelas dos carrinhos que lá vão parando, mas sem muletas, sem umas Cais na mão, sem pensos e sem vergonha.
Bem sei que o país não desfruta de gente com visão no seu governo. Ou pelo menos de gente com visão séria e de estado. Afinal de contas num país onde o emprego é escasso e as condições salariais são baixas, impedir o trabalho e o empreendorismo  dos chamados trabalhadores independentes é sem dúvida a jogada mais estúpida alguma vez praticada nestas terras. Pior que as portagens nas SCUT ou que a birra do Afonso Henriques, o que novo código contributivo taxa a um trabalhador independente é o mesmo que pedir à maioria destas pessoas para não trabalharem. Mas como diria Bernard Shaw: "A democracia dá-nos a garantia de que não seremos governados melhor do que merecemos".
Uma última reflexão apenas que não está relacionada com o tema do choro, mas que essa sim deveria dar motivos para chorar ou pelo menos ficar muito assustado. As declarações de Luís Amado em Fevereiro relativamente às revoltas no Egipto, Líbia e afins são no mínimo perturbadoras (http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1794141). Quando ele diz, e cito, "seria absolutamente ridículo do meu ponto de vista pretender desenvolver uma relação na base de uma avaliação das condições democráticas de cada país. Se fosse assim nós não tínhamos relações com muitos países com os quais nós temos relações há décadas." ele não está a dizer nada que o mundo não saiba. Todos sabemos que o mundo funciona assim mesmo. Mas no momento em que podemos dizê-lo publicamente sem que tal seja condenado, sem que exista repudia social sobre a afirmação, então é porque atingimos o fundo do poço, a base do abismo moral. Isto sim faz-me temer o dia de amanhã.

quarta-feira, maio 04, 2011

Fundo do Mar

Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço

COUTO, Mia, "Raíz de orvalho e outros poemas"


Um poema que demorei demasiados anos a partilhar aqui. Hoje era o dia. Hoje era o momento.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Uma tertúlia no ISPA

Anteontem estive numa tertúlia no ISPA. O tema era a discussão do último filme Zeitgeist, o terceiro da sequência cinematográfica que deu origem ao movimento Zeitgeist. Foi interessante, ainda que não possa deixar passar alguns comentários sobre o evento. Antes de mais surpreendeu-me a hierarquização dos participantes. Desconhecia tertúlias com professores e alunos, sábios e aprendizes. Não está subjacente às tertúlias a ausência de estatutos entre os participantes? Nunca tinha visto nada semelhante mas como se costuma dizer, há sempre uma primeira vez.
Felizmente muitos foram os aprendizes que tiveram o prazer de intervir. Talvez felizmente não seja a palavra certa em alguns casos, ainda assim conseguiram todos ficar muito melhor do que o Professor Coimbra de Matos, um dos membros do painel de sábios. Um dia, neste blogue, escrevi sobre a idade de reforma para declarações públicas. Sem dúvida, nesta tertúlia, este professor encheu-me de razão. Psiquiatra e psicanalista, vive hoje as concepções da mente dos anos 60. Por algum motivo que me é alheio, rejeitou toda a evolução do conhecimento dos últimos 30 a 40 anos. Afirmações como "os macacos não têm consciência de que a sua vida é finita" fizeram-me abrir a boca de espanto e pensar se ele não se inserirá nesses "macacos". É que na sua idade avançada, honestamente, eu não sei o que serão aqueles "macacos" de que tanto fala. Se se refere a primatas, então estagnou no tempo e continua a viver as teorias que vingavam a meio do século XX, hoje inaceitáveis por qualquer antropólogo, psicólogo, biólogo ou indivíduo que se dedique à primatologia. Um primatólogo, infelizmente não me recordo o nome, um dia disse, a propósito da pequeníssima diferença genética entre seres humanos e chimpanzés e que permite apenas ao Homem ser esquizofrénico, que no fundo nós não passamos de um bando de chimpanzés esquizofrénicos. Espero que não tenha estagnado no que respeita aos tratamentos na psiquiatria pois a meio do século XX os choques eléctricos, o LSD e outras "medicinas" eram muito usadas. Esta não foi a sua única intervenção infeliz, mas foi a mais grave de alguém que é chamado por muitos como o "pai da psicanálise em Portugal".
Pelo resto das pessoas os pontos mais comuns eram a necessidade de mudança, o sistema corrupto, a falta de valores, o sistema bancário repulsivo, o poder da energia, etc. Cada um que teve o prazer de intervir falou de suas verdades. Não esquecendo a intervenção de uma pessoa que se apresentou como aluno do 5º ano de psicologia e pegando na sua introdução, cada um, no fundo, "puxou a brasa à sua sardinha". E é sempre desconcertante conhecer algumas destas "sardinhas". Nunca ouvi Ghandi ser tão parafraseado como nesta noite. "Sê a mudança queres ver no mundo". O mais giro é ouvir pessoas dizer isto mas continuarem a dizer que o mundo está mal, está podre e não tem valores por culpa deles. Mas quem são eles? O eles somos todos nós. A sociedade não se constrói, não funciona, não tem a identidade de meia dúzia de macacos. São todos os macacos que lhe conferem personalidade e carácter. O eles somos nós. É muito fácil apontar o dedo. Mas esse dedo que apontamos ao eles aponta para nós também. Já é tempo de perceber isto. Não existem esses eles. Nos sábios lá se encontrava o Professor Paulo Borges (Presidente da União Budista Portuguesa e professor de filosofia) que tentou deixar esta mensagem clara. A necessidade de começarmos pelo nosso interior. Não me esqueço de quando este professor perguntou "quantos de vocês estão dispostos a ser a mudança agora? Agora, quebrar com tudo e mudar?" (referindo-se às mudanças necessárias que nos conta o movimento Zeitgeist e de que falavam tantos dos jovens na tertúlia). O silêncio foi a resposta. A isto dá-se o nome de hipocrisia, o verdadeiro mal do nosso mundo. Falou-se no Norte de África, na revolução, batendo palpas como quem diz "até que enfim". Será que não se vê a hipocrisia disto? Ontem o Kadhafi, o Ben Ali, o Mubarak e os outros todos eram uns tipos porreiros que negociavam com o ocidente o seu petróleo. Hoje são uns facínoras e apela-se por todo o mundo à democratização do mundo árabe. Os europeus e os americanos falam de direitos humanos e de racismo mas depois enviam aviões para ir buscar os seus conterrâneos aos países da revolução. Nós andamos para aqui a discutir os problemas do mundo, a desflorestação, o aquecimento global, o consumo excessivo de recursos e a sua sobre-exploração mas continuamos a ir de carrinho a todo o lado, a comprar a carne que vem das "produções intensivas e desumanas", a ter 4 TVs em casa, a besuntar a pele em cremes com óleo de palmeira da desflorestação Indonésia, alimentando o sistema que tanto queremos deitar abaixo. A hipocrisia é o mal do nosso mundo. É o que vive em todos nós. Um dos professores do painel de sábios falou de vários autores que enviaram verdadeiras mensagens de vida. Um atrás outro, lá ia ele falando dos que largaram tudo e foram viver para o bosque, dos que abdicaram do conforto material e foram felizes, dos que isto e dos que aquilo. Contava tudo isto como sendo o caminho certo. Eu pergunto-me, que faz esse professor? Vai para o bosque? Não. Vive no seu apartamento, com as suas roupas mais ou menos caras, o seu carro, as suas férias, o seu computador. Nunca tinha visto e sentido tanta hipocrisia num espaço tão pequeno. Quase conseguir perceber a que cheira a hipocrisia. E o mais curioso é que esta palavra, e refiro-me à palavra, à sua pronunciação, ao som que lhe corresponde, não foi ouvida uma única vez em toda a noite! Talvez por ser aquilo de que todos nós não conseguimos fugir. Nenhum de nós não é hipócrita.
Mas quero terminar com uma intervenção positiva. A melhor da noite. Vou citar embora admita que as palavras possam não ser exactamente estas. Miguel, o agricultor, falou assim: "olá. Eu sou o Miguel e sou agricultor. Preocupa-me o mundo e como estão as coisas. Não sei como mudá-lo mas procuro nas minhas pequenas acções e simbólicas fazer algo. Não atiro beatas para o chão, não deito papéis para rua, tento ser cuidadoso na minha agricultura. Gostava também eu de mudar o mundo. Mas a verdade é que estou à nora".

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Pequenas e Curtas Reflexões

Os jovens de hoje

A realidade da precariedade é transversal no palco mundial. No entanto é em Portugal que se manifestam as minhas preocupações e receios. São vários os nomes atribuídos à nossa geração. Geração à rasca, geração canguru, geração lixada. Durante muitos anos deveríamos ter dito também geração comodista, geração inerte ou geração incapaz. Mas as condições actuais para os jovens portugueses começam a gerar um sentimento de revolta, por muitos anos apaziguado com a emigração. O problema é que já nem emigrando os problemas se resolvem. E o país continua de olhos fechados, na sua gestão danosa, repleto dos seus agiotas que parecem míopes, limitando as suas acções ao futuro imediato. O problema de Portugal excede as condições da juventude. É um problema estrutural enraizado desde a nascença da nossa nação. Mas, caminhando para 1000 anos de história, talvez seja o momento de abrir as portas da consciência social e mostrar um povo mais interventivo.
Mas a tarefa não será de todo fácil. Os jovens de hoje representam a juventude mais instruída de sempre da nossa história, mas que instrução revelam eles? Muitos são os licenciados e até mestres que não sabem escrever português. Incontáveis os que têm papéis que lhes atribuem o 12º ano das novas oportunidades mas que não só não aprenderam nada como a única oportunidade que têm com estes papéis é tirar um curso superior e juntar-se aos outros milhares de analfabetos instruídos. A consciência social é uma névoa nas mentes jovens e o sentido crítico uma espécie de conceito abstracto de que já se ouviu falar. Estamos cheios de instrução estatística mas vazios de instrução profissional e humana.

As manifs e o futuro

Natália Faria escreveu um artigo no Público intitulado «Uma "manif" de rua para mostrar que "o país é que está a ser parvo"». Tudo o que este artigo mostra são dois jovens, João Labrincha e Raquel Freire, à procura do seu momento de mediatismo que seguramente lhes poderá abrir as portas do jogo dos favores português. Promovem a iniciativa da primeira manifestação apartidária e laica que deverá ocorrer no dia 12 de Março na Avenida da Liberdade. Mas aquilo que defendem, afirmado pelo jovem jornalista João Pacheco que se juntou à iniciativa, é a mudança pelo voto e através de movimentos democráticos. João Pacheco compara mesmo a iniciativa ao que acontece no Egipto e na Tunísia. Parece-me uma comparação infeliz, para não ser demasiado agressivo nos adjectivos. O que ocorre no norte de África em nada se assemelha a esta iniciativa, que mais não seja porque em primeiro lugar o que este movimento pretende não é mudar nada, apenas dizer que não gostamos. E será coincidência que esta iniciativa seja no mesmo dia da manifestação convocada pela FENPROF?
Este país parece um zoo onde se juntaram orangotangos e gorilas na mesma jaula e como eles não se entendem a solução é trocar os orangotangos e os gorilas por uns novos. Mas isso não resolve. Nenhum jogo se altera só por mudança de peões. É necessário alterar as regras de jogo.

O sindicalismo profissional

Portugal tem um sem número de licenciaturas e estou surpreendido por ainda não ter surgido uma licenciatura em sindicalismo. Afinal o que não falta neste país são sindicalistas profissionais!!! Mário Nogueira é líder da FENPROF há quase 4 anos (Abril de 2007), sucedendo a Paulo Sucena que esteve 13 anos à frente do sindicato. No entanto não sabe o que é uma sala de aula há 20 anos, sendo sindicalista desde então. Na UGT surge João Proença como líder desde 1995. Este líder apresenta um conjunto de situações curiosas. Fundou o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública (SINTAP) em 1979 sendo eleito líder em 1980, onde permaneceu até 2003, tendo acumulado durante 8 anos o cargo de Secretário Geral de dois sindicatos! Não poderei ainda deixar de referir que é membro da Comissão Nacional bem como da Comissão Politica do Partido Socialista pois parece-me que no mínimo gera um clima de possível parcialidade nas suas decisões. A CGTP tem em Manuel Carvalho da Silva o seu líder desde 1986, tendo sido eleito para um novo mandato que termina em 2012. Os sindicatos aqui abordados são as grandes frentes sindicais que englobam um sem número de sindicatos. Mas estas 3 figuras parecem os Mubarak, Ben Ali ou Kadhafi das terras lusitanas. Não sendo chefes de estado têm cargos de elevada importância nacional há demasiado tempo. A Era do sindicalismo profissional!

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

De que cor é a água?

Na sequência de algumas conversas sobre a cor da água e a relação entre a cor do céu e a da água, resolvi escrever este pequeno texto com o intuito de esclarecer algumas dúvidas. A água é azul. Gostaria, antes de continuar, de deixar claro que transparente não é uma cor! A transparência de uma substância é uma propriedade. Lembrem-se dos vitrais cheios de cores ou dos copos de vidro azuis, verdes ou amarelos e no entanto, transparentes. O motivo pelo qual a água é azul prende-se com a sua interacção com o espectro electromagnético. A zona do visível (380nm - 760nm) é responsável pelo que nós designamos de cor e este intervalo compreende o violeta, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho. O violeta, o verde, o amarelo e o laranja são cores que penetram até aos 10 a 50m, dependendo das propriedades da água (do seu conteúdo em células de algas, em zoo e fitoplâncton, em matéria orgânica, em sólidos em suspensão, etc.). O vermelho, nas melhores condições, penetra até aos 3m. Qualquer corpo vermelho a 5 ou 10m de profundidade apresenta-se como um corpo escuro. Isto ocorre porque as moléculas de água, bem como os seus constituintes, absorvem nos comprimentos de onda das cores acima mencionadas. O comprimento de onda que não é absorvido é o azul. O azul é difundido pela água. É devido à propriedade de transparência da água que um copo de água não é azul. A quantidade de radiação correspondente ao azul difundida num copo de água é demasiado pequena para ser captada pelos nossos olhos. As variações na cor da água devem-se a propriedades específicas desta (acastanhada na foz dos rios devido à matéria particulada em suspensão de origem terrígena; turquesa nas zonas tropicais devido à baixa profundidade, algas, etc.; escura nos rios e lagos devido às propriedades dos fundos, baixa profundidade e propriedades da constituição da água...). Tipicamente a água de um oceano ao largo é azul. E não existe melhor imagem para retirar as dúvidas como a imagem da Terra vista do espaço.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Africa Unite

África começa a mostrar ao mundo movimentos ideológicos que se iniciaram há já algumas décadas. Do slogan Africa Unite à constante enunciação "os africanos", que rapidamente se transferiu para aquele continente, a cultura africana começou a gerar-se num contexto de união. A divisão idealizada pelas potências ocidentais, que visava a separação de tribos aliadas e a junção de tribos rivais, dentro da nossa concepção de nacionalidade, com o propósito único de gerar cisões profundas dentro dos "novos países" para melhor se poderem explorar as intermináveis riquezas africanas parece ter culminado no efeito inverso. Como diz o povo, virou-se o feitiço contra o feiticeiro.
Após décadas de guerras civis, África foi recriando a sua cultura e o movimento dos povos africanos começou a expandir-se. Hoje África começa a mostrar ao mundo as revoluções culturais que nela brotam e vão brotar. A África árabe, que muitos pensavam estagnada no curso do tempo e da cultura, rebenta com movimentos cívicos que anseiam pela mudança. Talvez nos tenhamos esquecido que aqueles povos supostamente estagnados eram, no tempo das Cruzadas, bem mais desenvolvidos que a sociedade europeia. Na África subsariana, países como Moçambique, Angola, África do Sul, Namíbia ou Tanzânia adquirem a sua identidade própria e fazem crescer o seu povo na formação profissional. Uns mais lentos, outros mais rápidos, mas todos aproveitando a mão ocidental (e oriental agora também) que se estende para tirar e não se dá com do que vai deixando. A cultura de união africana é cada vez mais uma realidade, absorvida de um enorme potencial para mudar o curso da História e trazer o continente do rei da selva para o topo da civilização mundial. Nunca nenhuma sociedade se mostrou capaz da eternidade. Nem nunca tal existirá. Mas os ciclos de poder e cultura existem e África está no caminho certo para responder da melhor forma ao chamamento.
O ocidente poderá procurar usar estes eventos a seu favor, buscando formas de incutir a sua sociedade no pequeno buraco que se abre durante as revoluções. Mas a mentalidade africana poderá impedir tal façanha. As mudanças não acontecerão amanhã. Mas estão agora, por fim, a começar.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

O sistema distorcido

O tempo passa e o país piora. Ano após ano o tempo perdido aumenta. E discutimos com quem? Revoltamo-nos com quem? Na Segurança Social, além de nos irem buscar até as moedas do porquinho que tínhamos lá em casa, ainda nos dizem de papo cheio que é preciso entregar o papel de cessação de actividade nas Finanças pois caso contrário estaremos sempre como devedores à Segurança Social. Eu pergunto, mas as Finanças e a Segurança Social não comunicam? Onde tenho eu de cessar actividade? Finanças. Agora também tenho de ir à Segurança Social. Se calhar daqui a uns tempos teremos de ir ao Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social e mais 4 ou 5 anos e teremos de enviar um despacho ao próprio ministro a informar que cessámos a actividade nas Finanças! A distorção do que é um sistema governativo vive o seu apogeu, sendo alimentada por senhores como os que ontem se viram vencidos e vencedor nas eleições presidenciais, sem escapar o designado candidato de esquerda, Manuel Alegre (ver Pequeno Grande Erro - 15/06/2005, neste blogue).

Ao contrário do que estamos habituados a acreditar, inversamente ao conceito que nos incutem desde tenra idade, o sistema governativo, seja ele qual for, está ao serviço do povo. Não é o povo que está ao serviço do sistema! Uma aprendizagem que duvido que algum dia seja interiorizada. Independentemente do sistema governativo ser eleito, herdado ou imposto pela força, ele está sempre ao serviço do povo, nunca ao revés. Claro que no caso da imposição de um sistema tirano ou fascista este serviço está mascarado, deturpado. Mas o conceito de governo é o de um sistema ao serviço do povo, para e pelo povo. O que se assiste hoje globalmente, mas não totalmente, é à manipulação desta ideia altruísta, usando e criando governos no conceito de administração de empresa, deixando ao povo o papel de empregado, trabalhador, servente. Vivemos o tempo do povo escravo e súbdito de uma sociedade corrupta e oportunista que alimenta esta concepção com a ilusão da liberdade. O governo é, ou deveria ser, uma entidade reguladora que visa a prestação dos serviços essenciais ao povo. Em vez disso comporta-se como o quadro administrativo/accionista de uma empresa, tratando dos seus interesses, negligenciando os interesses dos seus trabalhadores. No fundo tem o espírito empresarial mas de uma empresa condenada ao insucesso. Em Portugal esta distorção corrupta e miserável é levada ao extremo em termos do panorama Europeu. Costuma dizer-se que se existirem 2 homens no mundo um tentará roubar o outro. Cada vez mais me convenço que deveríamos substituir homens por portugueses. Sem dúvida estamos no top 3 olímpico do oportunismo e da manipulação. Mas não é de agora. É uma história cultural, de muitos séculos já. Afinal a génese de Portugal encontra-se nas cortes de Lamego, que nunca aconteceram. As primeiras cortes no território nacional foram realizadas mais de um século depois da independência. Mas era preciso levar ao Papa as cortes. E nós arranjámos maneira de o fazer, mesmo tendo elas nunca existido. Em Moçambique diz-se que o mundo não é o que existe mas o que acontece. Pois terá este dito africano alguma influência da passagem de Portugal por essas terras?