segunda-feira, novembro 19, 2012

Pergunta ao Gaspar (e aos outros todos)


O Ministro das Finanças vai falando sobre a 6ª avaliação da troika. E vão 6...6 avaliações de técnicos ultra especializados em empréstimos a nações. E a mim apenas me ocorre uma pergunta: para quando um jornalista sério, capaz, competente, crítico, que faça uma simples pergunta ao nosso carrasco troikiano, perguntar-lhe se ele realmente defende o que diz ou se é apenas um papel que desempenha.
Seguramente existiram na história verdugos que não defendiam a pena de morte, mas simplesmente tinham de executar o seu trabalho. Pergunto eu, ou perguntaria eu ao senhor Ministro das Finanças, se pudesse, se ele defende os ideais neoliberais ou se é apenas um executor das ordens de superiores?
No fundo aquilo que questiono é se de uma vez por todas vamos ter gente na política, não só com ideais mas com a frontalidade de os assumir, ou se manteremos este rumo que domina a história da democracia portuguesa, de gente que, com ou sem ideais, insiste em não se assumir como alguma coisa.
Correndo o risco de dizer algo muito polémico, não tenho medo em assumir que respeito os partidos neonazis. Não porque esteja com eles de acordo, não porque me reveja em qualquer ponto que defendem ou por que lutam. Respeito-os porque se assumem no seu pleno. Respeito-os porque não se mostram como vermelho para depois serem azul. Repugno-os mas respeito-os. Como é possível respeitar os restantes?
O nosso governo fala em Estado Social, mas cada medida que toma é para o aniquilar. O nosso governo fala de justiça, mas mantém Portugal com o seu sistema judicial que hoje já roça o patético. Semanalmente falam em transparência, mas a corrupção alastra-se como um tumor maligno, tanto no sector público como no privado, sendo frequentemente fruto de uma promiscuidade entre ambos. Ouvimo-los usar palavras como educação e saúde, associadas a palavras como direito e povo, mas cada medida visa privatizar cada vez mais dois sectores que são direitos fundamentais de qualquer ser humano. Usam, com demasiada frequência, os termos (des)emprego, crescimento económico ou ainda carga fiscal, mas cada medida serve apenas para agravar a situação de cada um daqueles indicadores socioeconómicos.
O governo não vive sozinho nesta bipolaridade crónica. Não. Vive o governo e a oposição. Vive este governo e os que o antecederam. Vive esta oposição e as que estão para trás.
Por isso pergunto: para quando um discurso coerente com os ideais? Se o nosso governo não defende o neoliberalismo económico então ou se demite porque não é capaz de representar um governo soberano (ou de recuperar a soberania de Portugal) ou insurge-se começa a governar de acordo com os valores que defende. Se o nosso governo acredita nos ideais do neoliberalismo então que se assuma. Por mais que a maioria das pessoas nunca os venha a defender estou seguro de que seriam muito mais respeitados. E à oposição dir-se-á o mesmo. Que assuma os seus ideais, mesmo que sejam os do tacho, ou os da fanfarronice, ou ainda os do sou do contra mas não tenho nada para contrapor. Já é hora de termos gente convicta na nossa política. Afinal é o mínimo que podem fazer já que nós até nos estamos a portar bem, enquanto nos fodem a vida!

sexta-feira, novembro 09, 2012

Acorda cidadão!

Anda por aí muita discussão sobre as declarações de Isabel Jonet. Tem visto várias pessoas defender o seu discurso, dizendo que "tem toda a razão. Toda!". Lamento mas o que a Isabel Jonet disse, embora não seja grave, é insultuoso. E não tem toda a razão. Não que seja a primeira a fazê-lo. Nada disso. Tem sido um discurso recorrente em diferentes sectores da sociedade Portuguesa e Europeia. Mas o discurso do "vivemos acima das nossas possibilidades" e do "temos de fazer um esforço todos" e ainda "temos de saber viver com menos" são discursos falaciosos, de encomenda financeira privada, cujo o único objectivo é cimentar a ideia de que a culpa do que se passa hoje é dos cidadãos e da sua opulência. Tal é uma das maiores mentiras deste e do último século.
É verdade que a culpa do que hoje se vive no mundo está intimamente associada aos povos europeus e norte americanos que, nos primeiros, abdicaram de ser cidadãos democráticos, alienando-se da política e das decisões económicas, e nos segundos por motivos relacionados com o grau de cultura internacional e de visão global, além de incapacidade cultural para compreender a existência de um Estado Social. Mas o que hoje se vive não tem rigorosamente nada que ver com viver acima das possibilidades. Tem sim que ver com a expropriação dos Estados soberanos pelo capital privado. A soberania dos países europeus terminou quando se criou o Euro e se iniciou um novo ciclo económico, com uma moeda indexada ao crédito e controlada pelo sector da banca privada. Os Estados executaram a machadada final que os tornou reféns do capital privado, perdendo assim a sua soberania e o seu controlo sobre a economia. Hoje o neoliberalismo cresce, com discursos como os de Passos Coelho que frequentemente afirma que o Estado tem de retirar as mãos da economia. Tal ideia é um dos maiores assaltos à democracia e à liberdade. O Estado não só deve como tem de controlar determinados sectores económicos, como a energia, a água, os transportes, a saúde e a educação. São bens essenciais, são direitos fundamentais do direito à dignidade e à vida que cada ser humano vê assegurado na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Retirar o Estado da economia é obviamente o que o sector privado quer, bem como exterminar o Estado Social. E porque nós passámos 30 anos dedicados à alienação total do mundo político e económico, temos hoje populações desprovidas de ideologia, vazias de conteúdo e percepção social. O trabalho que se nos exige enquanto povos europeus é Hercúleo, mas ou temos a capacidade de dar um salto cultural, de passar de gatinhar para correr do dia para a noite, ou quando o fizermos será demasiado tarde. Nem sei se não o é já. É verdade que os tempos de crise empurram a evolução cultural e talvez por isso exista ainda esperança. Mas urge que os cidadãos europeus comecem a exigir debates sérios, declarações sérias, pessoas sérias. Discutir a crise sem discutir o Euro é como discutir evolução biológica sem falar em Darwin. Aceitar discursos como o de Isabel Jonet, ou os de Passos Coelho, Merkel, António Borges, Gaspar, Draghi, Christine Lagarde, entre outros, é aceitar a nossa incompetência enquanto cidadãos democráticos e abdicar da democracia. É fundamental que todos compreendamos uma coisa de uma vez por todas: austeridade e democracia não são compatíveis. É ou um ou outro.

quarta-feira, outubro 10, 2012

Um problema democrático ou uma ausência democrática?


Na sessão temática sobre democracia e transparência, no Congresso Democrático das Alternativas, Rui Tavares, historiador e um dos convidados, falava do problema democrático que existe em Portugal. Para ele a estrutura democrática existe e como tal Portugal vive numa democracia. Mas poderemos ter uma interpretação tão reducionista do que é uma democracia? Pode uma democracia limitar-se à sua estrutura constitucional e legal? Ou a existência de um Estado Democrático é mais do que isso, mais do que um simples conjunto de palavras escritas numa qualquer Constituição?
  • Em Portugal temos uma abstenção que ronda os 60%. E chamam a isto democracia?
  • Em Portugal ainda se ensina às crianças uma das máximas mais antidemocráticas e anti Estado de Direito alguma vez proferidas, a célebre frase "por um pagam todos". E chamam a isto democracia?
  • Os políticos portugueses referem-se ao povo frequentemente como o elo mais fraco. E chamam a isto democracia?
  • Os sindicatos portugueses, em particular as grandes frentes sindicais, são maioritariamente partidárias. E chamam a isto democracia?
  • O povo português tem uma intervenção social e política quase ausente, com muita disputa de sofá e café e reduzida luta e exigência dos seus direitos. E chamam a isto democracia?
  • O poder judicial é nomeado pelos sucessivos governos, num acto de cumplicidade e promiscuidade dignos de um Estado controlador dos tribunais e da justiça. E chamam a isto democracia?
  • A legislação é sistematicamente produzida em consultórios de advogados privados. E chamam a isto democracia?
  • O tempo de antena dado a cada partido político ou movimento de cidadania é totalmente parcial. E chamam a isto democracia?
  • Os líderes sindicais em Portugal são, em muitos casos, pessoas que não exercem qualquer função laboral nas áreas profissionais que representam há mais de 20 anos. E chamam a isto democracia?
  • A legislação portuguesa e a Constituição são frequentemente violadas pelo próprio Estado. E chamam a isto democracia?
  • A estrutura democrática criada no pós 25 de Abril foi sucessivamente sendo deturpada e alterada, retirando e reduzindo os direitos democráticos e os canais de democracia em Portugal. E chamam a isto democracia?

Uma democracia não se define pela estrutura montada e criada, nem muito menos se limita ou se extingue no acto eleitoral. A liberdade de expressão e opinião não é um sinónimo de democracia mas sim uma ferramenta essencial à sua existência. Com excepção das emoções e dos sentimentos, não podem existir áreas cinzentas. Não existe meia democracia, tal como não existem pessoas meias sérias. Uma democracia ou o é na sua plenitude ou não o é. Não se pode ter uma estrutura democratizada cujo funcionamento é ineficiente, pois tal não pode jamais constituir um Estado Democrático. E em Portugal ainda não atingimos um Estado Democrático, quando caminhamos para os 39 anos desde o 25 de Abril. Continuamos a viver uma meia democracia, ou seja, continuamos com a ausência de um país democrático.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Um 5 de Outubro entre lágrimas, sorrisos e um renascer da esperança


Hoje passei o dia no Congresso Democrático das Alternativas. Uma iniciativa que pecará apenas se não tiver continuidade. Neste mesmo dia da celebração da República, Cavaco Silva fazia o discurso da ocasião num Pátio da Galé ensombrado por uma bandeira hasteada ao contrário. Parecia uma consequência da realidade nacional, como se a bandeira, no alto da sua essência abiótica, sentisse o quanto o país vive hoje de pernas para o ar.
O congresso enchia-nos de esperança. Esperança na sociedade civil, esperança no dia de amanhã. Afinal, víamos todos a cada intervenção, que existe gente por cá ciente do presente, consciente da actualidade, com ideias válidas para um futuro melhor. E enquanto, para nós congressistas, a luz começava a brilhar no seio desta realidade obscurecida, uma mulher soltava gritos de dor e desespero, interrompendo o discurso, já adjectivado de inócuo, do Presidente da República. Apenas enquanto jantava pude assistir às imagens televisivas deste momento histórico e negro das quase quatro décadas de democracia em Portugal. Os meus olhos encheram-se de lágrimas enquanto assistia, horrorizado, às imagens do telejornal. E porque acho que esta mulher não deve jamais ficar esquecida na história do nosso país quero deixar aqui o seu nome, Luísa Trindade. Vive com 224€ por mês aos 57 anos de idade.
No congresso sorríamos. Romper com a troika, exigências de uma cidadania activa, apelos ao sentido democrático do povo, ideias para a renovação, críticas construtivas. O congresso estava a deixar-nos felizes por estarmos ali, seguros de que tínhamos optado pela melhor forma de passar esta sexta-feira que, ao que dizem, será o último feriado de 5 de Outubro. E nos entretantos a cerimónia continuava pelo pátio. António Costa, que afinal é apenas o Presidente da Câmara de Lisboa, discursou como um verdadeiro líder da oposição. Enquanto Cavaco incentivava a emigração dos jovens, o autarca repudiava-se com a normalidade com que se aceita a fuga dos nossos jovens quadros superiores. Enquanto o ex Primeiro Ministro alcunhava os emigrantes de futuros retornados, o militante do PS exigia condições para que estes nunca partissem.
E o congresso seguia, cheio de força, de vontade, de crença. Afinal, ali dentro, quase sem nos apercebermos, todos estávamos a fazer renascer a esperança uns nos outros. Cada um de nós, com as suas intervenções, as suas partilhas, os seus saberes alimentávamos o motor da mudança e do crer que existe dentro de cada indivíduo. Talvez fosse uma transferência da energia a roçar o paranormal, talvez a física até o possa justificar, mas era como se os fracos aplausos ao discurso do fundador do Cavaquismo tivessem ecoado na Aula Magna, como fracos tambores enunciando a debilidade da maioria de direita neoliberal que hoje despedaça os sonhos e o futuro de todos os portugueses. Ou talvez tenha sido uma outra mulher, Ana Maria Pinto, que interrompia as celebrações do 5 de Outubro cantando a música Firmeza, de Fernando Lopes-Graça, num protesto menos angustiante, mas nem por isso menos importante.
Mas, no congresso, nem tudo foi uma imensa chama de rejuvenescimento da esperança. Porque não podemos só falar das coisas boas, não posso deixar ignorado que o final ficou marcado por algumas nuvens sombrias. Sentiu-se que Passos tinha passado por ali, como qualquer fantasma, como ladrão em pés de lã, e tinha contaminado a mesa com a sua retórica do medo, as suas palavras de ameaça, a sua política da chantagem. Não se pode perdoar a uma mesa que se autointitula de democrática e alternativa que caia na tentação do discurso fácil, populista e alarmista. Mas aconteceu. Aconteceu quando alguns defendiam que a declaração não falasse em renegociação mas sim suspensão do pagamento da dívida. E por mais que todos tenhamos momentos infelizes, aconteceu onde não podia acontecer.
Contudo, o final desincentivador do Congresso Democrático das Alternativas não deve afugentar ou debelar toda a esperança que gerou ao largo de todo o dia. E aproveitando a Firmeza da Ana Maria Pinto, uso as palavras de Fernando Lopes-Graça, para deixar um apelo a que a iniciativa não morra como tantas outras, e faço de todos as palavras "Que a boca a sorrir não mate, nos lábios o brado de combate".

quinta-feira, setembro 27, 2012

Democracia e Portugal - o tempo aperta


Os apelos a um governo de salvação nacional têm-se alastrado na sociedade portuguesa, sendo hoje comuns tanto na classe política como nos restantes e variados cidadãos. A destituição de um governo democraticamente eleito, substituído por um conjunto de personalidades que goza de uma imagem pública, para já, benevolente, anda de boca em boca, de mail em mail, de rede social em rede social. Frequentemente é expressado junto a esta ideia a de extermínio dos partidos políticos, de alienação de todos os actuais e antigos partidários, deputados e membros de governos e, não excessivamente menos comum, infelizmente, de expropriação dos bens de todos os indivíduos que exerceram cargos governativos. Afirmações que reflectem o quanto a raiva e o desespero são dominados pela cegueira.
A palavra democracia tem sido a palavra de ordem dos últimos meses em Portugal. Num povo que há 40 anos que gatinha na sua aprendizagem democrática, espera-se de um momento como o presente que, por fim, aprenda a andar. Mas como todos os bebés, nos primeiros passos cai mais do que anda. A constante exigência de democracia, associada ao apoio a uma tomada de poder por parte de uns quantos tecnocratas, revela o quão antidemocrático é ainda Portugal. Aquilo que exigimos não é mais do que o que criticámos na Grécia e em Itália, quando, fruto de discursos semelhantes difundidos pela comunicação social, dois golpes de estado foram executados. Em pela Europa, em plena UE, em pleno século XXI.
Urge saber o que procura o povo português. Se procura, como tanto se apregoa, uma nova figura austera, um novo indivíduo que colha algumas das características salazaristas, ou se procura ser verdadeiramente um povo democrático? Quando Cavaco Silva venceu as legislativas em 1985, e particularmente as de 1987 onde obteve a maioria absoluta (1ª de Portugal), muitos lhe reconheceram essa figura desaparecida com o 25 de Abril, a figura do Pai Austero (ressalvo-me de imediato sublinhando que não estou, de modo algum, a sugerir a mesma orientação política). Será esse o caminho que, secretamente, procuramos?
Ser democrático é um exercício contínuo. Ser democrático exige de todos. Ser democrático exige sacrifício no dia a dia. Não se é democrático porque se vota. Uma democracia não se define pelo voto e alternância de governo. Se por um lado o voto é um instrumento fundamental em democracia, ela não existe apenas e só pela execução desse acto de cidadania. A democracia exige muito mais. A demanda democrática ordena a cidadania activa. Acima de tudo, uma democracia carece de um estado de direito. Estas palavras não devem, não podem, jamais ser levadas com leviandade.
O aprofundamento dos ideais democráticos faz sobressair as extremas debilidades da democracia portuguesa. Não somos hoje muito mais adaptados a esta sociedade do que éramos há 30 anos. Talvez seja um reflexo darwinista. Afinal, a evolução e a adaptação não ocorrem instantaneamente. Mas pertencemos a uma população lenta no seu progresso adaptativo. Em geral, na vida, isso significa extinção. E temo que, com o rumo dos gritos de guerra do povo português, tal caminho se torne uma fatalidade.
Viver num estado de direito exige, primeiro que tudo, que as emoções sejam extravasadas em casa, no café, num bar. Não podemos viver com leis e ignorá-las quando o desespero assim o implora. A classe política portuguesa deve e tem de responder pelos seus actos ao longo das diferentes legislaturas. Mas tem de o fazer de acordo com os princípios de uma sociedade justa, igualitária, digna. Apenas e só a justiça portuguesa, num tribunal legítimo e de pleno direito, deve intervir no apuramento da legalidade, ou ausência dela, nas actividades e tomadas de decisão dos diferentes indivíduos que exerceram cargos de poder. A máxima de que todos somos inocentes até que se prove o contrário tem de imperar sobre qualquer estado de ânimo individual ou social. Não podemos, sob nenhum pretexto, aplicar o terrível e nefasto axioma que nos ensinam desde pequenos, de que por um pagam todos. Tal princípio é não só antissocial, como acima de tudo, antidemocrático!
Outro aspecto imperativo em qualquer sistema democrático é a existência de partidos políticos. A extinção partidária abre as portas ao totalitarismo. O povo português não deve erguer os braços num apelo ao fim dos partidos de hoje, pois tal significa o nascimento do partido de amanhã. Tal exigência é sinónimo de falta de sentido crítico, de falta de cultura democrática e de insistente desresponsabilização do povo sobre a situação actual.
Reclama-se hoje aos cidadãos de Portugal que realizem um milagre e aprendam a correr enquanto dão os primeiros passos. A inadaptação que nos marcou durante os primeiros quase 40 anos de democracia é hoje a nossa grande inimiga. Nós, enquanto povo, temos de nos tornar democráticos da noite para o dia, sob pena de regressarmos a tempos menos saudosos. Temos de nos transformar em cidadãos activos, participativos, exigentes, cultos nas leis, críticos na política, sábios na economia. O único povo democrático é o que junta o saber à acção, é o que une as ideias com os actos. Se queremos um Portugal democrático não podemos exigir cabeças, mas sim dar a nossa cabeça à exigência. A democracia é um trabalho diário.

quarta-feira, setembro 26, 2012

O Espaço das Frases

No início deste blogue houve duas publicações intituladas "O Espaço das Frases". Ficou esquecida entretanto. Mas hoje pensei que talvez estejamos num momento em que necessitamos inspiração, necessitamos pequenos pensamentos, pequenas ideias que nos abram as portas da mente, obscurecidas recentemente por tanta informação nefasta, por uma sufocante falta de esperança num futuro melhor. Assim que várias frases ficam por aqui, para diferentes gostos, para diferentes inspirações.

"My general rule of thumb is: any well observed SN is peculiar. Only the poorly observed ones fit nice classifications – for classifications, bad data is good. Think of it this way: at a distance, and in the dark, all cats fit a nice category. With close examination, and in the light, they are all individuals.” Kurt Weiler

"A celibate clergy is an especially good idea, because it tends to suppress any hereditary propensity toward fanaticism." Carl Sagan

"The universe seems neither benign nor hostile, merely indifferent." Carl Sagan

"I don't know where I'm going, but I'm on my way." Carl Sagan

"We can judge our progress by the courage of our questions and the depth of our answers, our willingness to embrace what is true rather than what feels good." Carl Sagan

"Insanity: doing the same thing over and over again and expecting different results." Albert Einstein

"We are like butterflies who flutter for a day and think it is forever." Carl Sagan

"Any intelligent fool can make things bigger and more complex... It takes a touch of genius - and a lot of courage to move in the opposite direction." Albert Einstein

"Any man who can drive safely while kissing a pretty girl is simply not giving the kiss the attention it deserves." Albert Einstein

"Only two things are infinite, the universe and human stupidity, and I'm not sure about the former." Albert Einstein

"The difference between stupidity and genius is that genius has its limits." Albert Einstein

"We cannot solve our problems with the same thinking we used when we created them." Albert Einstein

"One handle me a picture and said "here's a picture of me when I was younger". Every picture is of you when you where younger!" Mitch Hedberg

"If you don't like the parade run in the opposite direction. It will fast-forward the parade." Mitch Hedberg

"Já que as nações não se resolvem a suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacífica e não baseiam o seu direito sobre a lei, elas vêem-se inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra." Albert Einstein

"Se quisermos fazer um mundo novo o material já está pronto. O primeiro também foi criado do caos." Robert Quillen

"Deixem-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por um grande sentimento de amor." Ernesto Che Guevara

"Os factos só são verdadeiros depois de serem inventados." crença de Tizangara

"Uns sabem e não acreditam. Esses não chegam nunca a ver. Outros não sabem e acreditam. Esses não vêem mais que um cego." provérbio de Tizangara

"Our species needs, and deserves, a citizenry with minds wide awake and a basic understanding of how the world works." Carl Sagan

"The worthwhile problems are the ones you can really solve or help solve, the ones you can really contribute something to. ... No problem is too small or too trivial if we can really do something about it." Richard Feynman

"We are more often frightened than hurt; and we suffer more from imagination than from reality." Lucius Seneca

"It is the working man who is the happy man. It is the idle man who is the miserable man." Benjamin Franklin (e a sua costela socialista)

"I conceive that the great part of the miseries of mankind are brought upon them by false estimates they have made of the value of things." Benjamin Franklim

"Never let the future disturb you. You will meet it, if you have to, with the same weapons of reason which today arm you against the present" Marcus Aurelius

"I can feel guilty about the past, apprehensive about the future, but only in the present can I act." Abraham Maslow

segunda-feira, setembro 17, 2012

Um novo conflito global?


Há 2 anos, no final de 2010, disse várias vezes que me parecia que o final deste contexto de crise social e económica global seria uma 3ª Guerra Mundial. Várias vezes me consideraram exagerado. Mas será que a minha ideia estava assim tão longe de se tornar realidade?
A Europa vive uma crise social, política e económica que cada vez mais se assemelha à dos anos 30. Com excepção da Alemanha, todos os países europeus, de Portugal à Rússia, vivem momentos delicados. As manifestações, os conflitos de rua intensificam-se. Os governos em situação precária e com fraco suporte político aumentam. Grécia, Portugal, Itália, Irlanda, Hungria, são talvez os exemplos mais badalados. Mas em França, Holanda e Bélgica o cenário não está muito melhor. Uma Europa em crise social é fundamental para o desenrolar de um conflito armado no mundo.
As tensões no mundo Árabe têm aumentado desde a famosa Primavera Árabe. A crise social e económica alastra-se pelos países islâmicos do Norte de África e do Médio Oriente, onde a Síria, o Afeganistão, o Irão e o Egipto são os líderes de audiência, seguidos pela Líbia, Líbano, Iraque e o inevitável Israel. Recentemente a agenda político-financeira jogou uma nova carta - o filme que lançou o terror religioso nas comunidades muçulmanas. Não podemos ser ingénuos ou hipócritas ao ponto de achar que este filme é fruto de um realizador pateta e que, por milagre, foi lançado no mundo inteiro. As consequências desta produção cinematográfica eram demasiado previsíveis. Não estou a defender a reacção violenta a que se tem assistido. Apenas digo que era óbvio que tal ia acontecer.
Esta semana um novo foco de tensão começou a nascer, entre a China e o Japão. Esta tensão, caso cresça, pode ser o gatilho final. As tensões entre estes dois países foram sempre acompanhadas de cenários bélicos. O conflito entre estas nações é secular.
Juntando-se a isto está o forte ataque ao Petrodólar que já levou à queda do regime de Kadhafi na Líbia e de Saddam no Iraque, ao despoletar dos conflitos internos na Síria, e às campanhas anti Irão, Venezuela, Argentina e Equador.
Toda e qualquer guerra tem motivação económica. A diferença entre as guerras do passado e as actuais é que a motivação económica estava sempre associada aos interesses das nações. No século XX isso começou a mudar. As guerras do último século foram marcadas por fortes interesses privados, fruto da força da economia do sector privado, em muitos casos, credora do sector público. Com a inversão dos poderes nos últimos 40 anos, o sector privado passou a ditar as regras do jogo. A política foi subjugada pela economia. Hoje é o interesse privado que define a orientação política, interna e externa, de cada nação das sociedades de economia capitalista. O capital dita o interesse na geração de conflitos armados.
A importância da Europa instável é realmente fundamental. Não porque a Europa venha ser, novamente, o principal palco da guerra. Muito embora nos esqueçamos frequentemente que na 2ª Guerra Mundial o Norte de África, a China, o Japão e o Pacífico foram igualmente palcos de guerra. Mas a Europa estável limita fortemente a existência de um conflito global. Aliás a estabilidade europeia tem limitado fortemente vários conflitos no Médio Oriente, provocando alguma contenção nos governos Norte Americano e Israelita.
Será assim tão despropositado colocar o cenário de guerra como fim último da crise social, política e económica que se tem gerado no mundo? A crise económica não é acidental. Foi preparada e executada. Faz parte de uma agenda de aumento de controlo por parte do sector privado. Qual será o passo final?

sábado, setembro 15, 2012

Qual é afinal a agenda política?


A caminho de mais uma manifestação de descontentamento não posso deixar de reflectir sobre estas manifs, o seu impacto e a servidão do povo. Bem sei que medidas drásticas são escassas na história de Portugal, mas deveríamos ter uma melhor noção do que significa uma sociedade democrática. Democracia não tem nada a ver com liberdade de expressão, como tanto se diz por aí. Democracia significa poder no povo. E a verdade é que nós, e não só, é um mal global, mais ou menos vincado no tecido social, dependendo dos países, não compreendemos esse conceito. As acções de qualquer governo só existem com a conivência do povo e é por isso que todos somos igualmente culpados da corrupção, da implementação do sistema financeiro actual e da subversão dos poderes, sendo hoje o poder político subjugado ao poder económico.
E é neste contexto económico, político e social que chegámos à manifestação de 15 de Setembro. Uma manifestação que já estava marcada antes do anúncio de Pedro Passos Coelho sobre a TSU e que apenas ganhou ainda mais força com as palavras do PM. Mas não deixa de ser no mínimo muito estranho que o PM tenha anunciado tais medidas naquele momento. Pois mais que Passos Coelho seja um político com um baixo nível de cultura, por mais que seja um indivíduo que nunca andou no mercado de trabalho, e por mais ainda que seja um fraco orador, não é seguramente possuidor de uma incapacidade intelectual. É uma pessoa no pleno das suas funções cognitivas. E o facto de o ser deixa uma pergunta no ar. Qual é a agenda política e económica escondida nos bastidores para que o PM tenha anunciado ao país o seu suicídio enquanto governante? Passos sabia perfeitamente que o seu anúncio ia gerar total descontentamento de todos os sectores da sociedade portuguesa. Sabia que vinha uma manifestação daí a uma semana. Porque fez este anúncio? Podia tê-lo feito pouco antes da votação do Orçamento de Estado. Ou depois da manif. Mas não. Anunciou uma medida cujo o resultado seria apenas e só o que ocorreu: criação de instabilidade política e isolamento do governo. E como se não bastasse, na entrevista concedida à RTP1 na passada 5ª feira, o PM agravou ainda mais a sua situação enquanto chefe de governo, colocou o país à beira de um colapso administrativo e lançou o cenário para a possibilidade de novas eleições.
Pergunto-me qual a agenda escondida. Será que o objectivo é lançar a desgraça para depois voltar atrás e justificar medidas, não tão desastrosas, mas muito piores que as até aqui implementadas? Pode ser. Mas parece-me pouco provável. É que depois desta última semana o governo PSD-CDS está na corda bamba, condenado a, na melhor das hipóteses, governar por mais 6 meses. Assim que se a agenda era essa foi mal planeado e trata-se de um erro político grave. Se a agenda é outra mais obscura, talvez então o objectivo fosse exactamente gerar o caos político e social. Mas desses bastidores nunca saberemos a verdadeira história.

sexta-feira, setembro 14, 2012

A real Taxa Social Única

O debate da Taxa Social Única (TSU) merece uma reflexão. O Primeiro Ministro (PM), Pedro Passos Coelho, informou o país de uma medida de redução da TSU para as empresas, e aumento para o trabalhador, na última 6ª feira (8 de Setembro). Anunciou-o como medida de austeridade necessária para a situação actual do país. Mas em que se reflecte na realidade esta medida, que conseguiu o feito inédito de unir todo um país contra o governo?
Embora o PM tenha anunciado a medida como uma redução de 7% para as empresas e respectivo aumento para o trabalhador, tal não é verdade. As empresas pagam (porque ainda é o modelo em vigor) 23,75% do salário do trabalhador à Segurança Social (SS). Os trabalhadores pagam 11%. As alterações apresentadas colocam o trabalhador a pagar 18%, o tal aumento de 7%. Mas empresas passam a pagar, igualmente, 18%. Isto significa que houve um aumento de 7% no trabalhador e uma redução de 5,75% nas empresas. Na prática isto significa que passámos de uma contribuição de 34,75% para 36%. Algures no caminho o governo cobrou uma comissão de 1,25%.
Verificado o real aumento da TSU, no global, e as verdadeiras variações nos respectivos contribuintes, vejamos o que acontece na prática com esta medida. O PM fala em redução do desemprego e fundo de maneio para as empresas. Diz mesmo que para as empresas aflitas este dinheiro de tesouraria tem uma importância vital. Mas será mesmo assim? Em Portugal,  90% das empresas produz para o mercado interno. Atendendo a esta realidade, a redução do poder de consumo dos cidadãos, gerada por uma redução de 7% do seu salário (fora outros cortes já feitos - subsídios - e aumento do IVA, ao que se acresce a anunciada possível subida do IRS) leva a uma diminuição do consumo de bens e serviços. Se existe menos consumo isso reflecte-se num agravamento da situação do tecido empresarial. Se as empresas vêem o seu produto sofrer redução de procura, ficarão numa situação financeira ainda mais débil, continuando impossibilitadas de recorrer à Banca.
Mas o PM sugeriu, hoje mesmo na entrevista concedida à RTP1, que esta redução do custo do trabalho deve levar as empresas a reduzir os custos do seu produto. Isto revela uma profunda ignorância económica, e principalmente um profundo desconhecimento do tecido empresarial português. Mas continua sugestiva a ideia de que o fundo de maneio extra das empresas, gerado pela poupança de 5,75% no salário de cada trabalhador, será fundamental e preciosa na salvação de muitas das que estão em situação complicada. Será?
As empresas portuguesas são compostas por 99% de empresas com menos de 200 trabalhadores. Do total, 70% tem menos de 10 trabalhadores. Isto significa que, por mês, estas empresas pouparão entre 575 e 11500€ (colocando os limites em valores que retratam empresas cujos trabalhadores ganham todos 1000€, o que foge totalmente à realidade). Este fundo de maneio para a tesouraria representa...rigorosamente nada. Principalmente porque o maior problema das empresas é não ter escoamento de produto. Uma poupança de 10000€ mensais não resolve nenhum problema às pequenas e médias empresas, apenas lhes confere mais 30 dias para procurar soluções.
Mas então quem ganha com esta medida? As grandes empresas. Aquelas que nem precisam desta medida. As empresas como Galp, EDP, PT, CTT, estas são empresas que terão uma redução da factura mensal significativa, permitindo-lhes abater nos juros de empréstimos, ou tomar outras medidas que identifiquem como apropriadas. E onde está a redução do desemprego no meio disto? Em lado nenhum. As empresas, sem aumento de produção e sem escoamento de produto não contratam trabalhadores porque têm agora um fundo de maneio que lhes permite pagar um salário. As pequenas e médias empresas continuarão a abrir falência e o desemprego a aumentar. As grandes empresas continuarão a aumentar o seu monopólio, os seus lucros e a construir oligarquias.
Embora a troika se tenha desmarcado desta posição, dizendo que apoiava mas que não tinha sido sua ideia, é impossível não identificar a sua mão nesta medida. Em todos os planos de ajuda financeira do FMI a linha condutora é a criação de oligarquias, a desregulação do mercado e o extermínio da Acção Social. Será esta medida apenas e só ideia deste executivo incompetente, mentiroso e neoliberalista?

quarta-feira, setembro 12, 2012

Desperta o radicalismo em cada um de nós?


As medidas redobram-se e nós continuamos calados. As austeridades intensificam-se e nós limitamo-nos ao sofá. Talvez Vítor Gaspar tenha razão e nós estejamos realmente "resignados" e "disponíveis " para sacrifícios.
O discurso político tem-se apresentado com duas linhas distintas nos últimos 2 a 3 anos. Por um lado o discurso dos governos, que inicia os anos com medidas duras, enche de promessas de fim do ciclo das dificuldades a meio do ano, e por fim, à entrada do último trimestre, informa que afinal é preciso mais do povo. É preciso mais sacrifício do povo...o discurso feito num tom ditatorial, particularmente porque está implícito nele que o povo, os portugueses, não são governo e o governo não faz parte dos portugueses. O distanciamento dos diferentes oradores é marcado, e cada vez mais marcado. Ontem foi bem visível essa característica governativa na entrevista do Ministro das Finanças na SIC. Mas não só nos discursos se vê que falamos de pessoas de outro qualquer mundo. As medidas de austeridade para o "resignado" povo, não se reflectem na classe política e financeira. Vivemos, actualmente, num regime democrático de ideologia fascista. Um nome novo no reino da política e governação, talvez, por hipótese, Democracia da Banca.
A outra linha de discurso é mais assertiva e é feita, em particular, pela voz do presidente da Comissão Europeia (que já percebemos pelo parágrafo anterior, não é português, é dos tais outros que não são o povo). Mas neste discurso é onde realmente se está preparando a cama. O discurso da federação. Pela voz do senhor presidente, e não só, está a preparar-se o passo da Europa Federal. O que, num mundo regido por princípios morais e éticos, de respeito e solidariedade, baseado no direito à vida, seria uma ideia muito interessante. Mas nesse mundo provavelmente todo o globo seria um país só. Como, neste caso, O Mundo das Maravilhas não existe, nem está perto de existir, a ideia de Europa Federal é tenebrosa. Bem sei que somos uns incapazes na governação do nosso país, mas perder a soberania, num mundo com as regras do nosso, é um risco que não devemos permitir-nos!
Longe de algum dia ter defendido a independência da Catalunha, pois sempre me pareceu patético, ou do País Basco, onde a ETA nunca mereceu qualquer respeito, ou ainda da Irlanda do Norte, onde a guerra não gerou nada de bom, longe de tudo isto, vejo-me forçado a estar ao lado da manifestação catalã, pois parecem ser, repito a palavra parecem, dos poucos cientes do futuro repressivo que nos espera. A única solução neste momento é romper com a UE, aceitar as dificuldades que isso traz, despojar a classe política e financeira de todos os seus bens e condená-los ao exílio, e apenas depois, procurar criar um país, acima de tudo, criar uma comunidade, um conceito há muito perdido e que é fundamental para evitar cenários como o actual.
Não sei se alguma vez fui tão radical em algum texto. Penso que não. Mas depois da entrevista de ontem de Vítor Gaspar na SIC tornou-se quase impossível manter a calma. É curioso como um sujeito cujo discurso é monocórdico, numa voz grave e num ritmo de embalar consegue despertar instintos quase assassinos num ouvinte. De qualquer modo ressalvo a minha radicalidade para com a classe política deixando claro que apenas todos os que são ministros e ex-ministros devem ser despojados dos seu bens. Os restantes membros da classe política são expulsos da política e os seus bens escrutinados, para avaliar a sua legitimidade. Quando à Banca, duvido que com regras sérias e justas se mantenham por cá.
Espero que os portugueses (portanto todos nós menos a Banca e o Governo, pois esses têm outra nacionalidade qualquer), e que todos os europeus, saiam deste estado de letargia profunda e se apoderem da liberdade que, nalguns países, foi conquistada com o suor e sangue de muitos há bem pouco tempo. Acho que chegou a hora de entregarmos um pouco mais de suor e sangue. Mas vamos aprender com o passado e lembrar que, depois de feita a revolução, é necessário continuar a entregar suor todos os dias, durante muito tempo. A revolução só se autossustenta por meio da educação e essa...demora muito a ficar enraizada.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Democracia

Qualquer pessoa que tenha nascido nos anos 70 ou primeira metade dos anos 80 e que tenha sentido crítico, vivendo a vida minimamente atenta ao que se passa à sua volta, não pode ser capaz de acreditar em qualquer chefe de estado. 
É sistemático, diria epidémico, que um governo seja guiado por interesses particulares, financeiros e privados, que se sobrepõem aos interesses da nação. A corrupção e a ganância surgem como acção principal naquele que é um jogo de colecção de espólios em nada diferente do que se via e vê nos países chefiados pelos ditos regimes. 
Mas a verdade é que a democracia, um sistema onde o poder de decisão é do povo, não é de todo, na realidade da sua existência, diferente dos afamados regimes. A ilusão de liberdade e de poder é uma arma tão grotesca e perigosa quanto a repressão, senão mais ainda. Nas últimas décadas os sucessivos governos, globalmente, dedicaram-se a demonstrar e educar o povo de que o protesto e acção de luta não têm qualquer impacto, são mesmo coisas de desordeiros. Entretanto mantém-se a ilusão de escolha promovendo eleições fictícias em intervalos de tempo suficientemente curtos, para garantir a ideia de poder do cidadão, mas adequadamente longos, para permitir a tomada de decisões indispensáveis aos interesses de quem controla o poder. 
E povo vai às urnas, sempre convencido das diferenças ideológicas e qualitativas entre partidos. Vota em consciência. Vota naquele que lhe parece o melhor. Mas fá-lo completamente alienado da realidade mal ocultada pelo sistema. Os candidatos a chefes de estado não são mais do que as marionetas escolhidas pelo processo de seriação partidária. Não é candidato quem quer mas sim quem é aprovado no seio das exigências corporativistas que regem o poder. Para se chegar a secretário geral de um partido é preciso primeiro dar garantias de que quem controla as decisões se mantém, não só no controlo, mas também na sombra. 
Tudo, claro, com a conivência dos media. Os media não são hoje nada mais do que grupos empresariais com interesses próprios e, invariavelmente, pertença de grupos financeiros cujos interesses vão muito além do que são os interesses de cada nação.
Falamos de democracia mas vivemos num mundo onde, mascarado por trás deste nome antigo, se perpetuam valores e princípios atribuídos, em tom maléfico, às monarquias, aos fascismos, aos nacionalismos. A liberdade é usada para o bem de poucos. A ilusão de liberdade é usada para o controlo de muitos. Quando penso em democracia tenho de recordar a tira de Quino, com 4 décadas, onde Mafalda tem a única reacção possível perante tal palavra.


sexta-feira, julho 13, 2012

Os perigos da normalidade


Uma conversa entre um grupo de amigas abordava a questão de se a corrupção é ou não normal. Tal tema motivou em mim uma pequena reflexão que gostaria de partilhar com todos os que usam um pouco do seu tempo na leitura desta página.
A corrupção é comum, historicamente e na actualidade, mas tal não deve ser a justificação para considerar o acto como normal.
Se o bem estar social é um dos objectivos das sociedades contemporâneas então a corrupção é um comportamento condenado à extinção, manifestando-se hoje como uma espécie de órgão vestigial herdado do passado.
Mas se a hierarquização social, com o seu marcado carácter individual, é o principal objectivo da sociedade actual, então a corrupção é um mero reflexo dessa necessidade.
No entanto, como a nossa espécie é transformada socialmente por um impulso crítico individual, tal significa que, no limite, todos exigimos que o bem estar social seja o objectivo, precisamente até ao momento em que somos parte integrante das altas hierarquias. E esse comportamento clássico das sociedades contemporâneas é visível, quase na perfeição, nas manifestações gerais convocadas pelas grandes frentes sindicais.
Regressando à normalidade da corrupção, o principal problema é chamar de normal a tal vil acto, é o problema associado à conotação atribuída à palavra normal. O perigo de adjectivar um mal social de algo normal é a sua despenalização social, e em última instância, penal. A aceitação como corriqueiro das acções que corroem o tecido da nossa sociedade é um acto de longe mais catastrófico que qualquer uma das acções per si. Devemos ter o cuidado de nunca banalizar algo apenas porque é comum. As consequências de tal atitude podem ser desastrosas.
A corrupção é, infelizmente, comum, mas jamais poderá ser normal.

quarta-feira, junho 13, 2012

As greves e o individualismo


Greves, greves e mais greves. Um dia acabarei por me tornar um defensor da proibição às greves. Totalmente antidemocrático e um verdadeiro rasgar de um dos grandes direitos alcançados em Portugal nos últimos 35 anos, eu sei. Mas quando olhamos para o tecido sindical e para a mensagem produzida durante as acções de greve ou de manifestação, vemos tudo menos democracia. Parece-me um pouco um sentimento saudoso do colonialismo. Mais ainda, chego mesmo a ter a sensação de que a escravatura era bem vinda.
O nosso tecido sindical (ver Pequenas e curtas reflexões, fevereiro 2011) poderia ser o principal culpado de tudo isto. Mas a verdade é que ele é apenas um reflexo de todo um povo. Tal como a nossa classe política, os nossos empresários e a nossa administração pública são reflexos da nossa cultura. Não podemos sistematicamente culpar os governos, organizar manifestações de protesto e fazer greves, quando nada fazemos para mudar o rumo da realidade.
Cada vez que vejo os cortejos das manifestações, uma mensagem ouve-se sempre bem alto no seio da multidão: quero o meu lugar ao Sol! Não se ouve ninguém dizer "quero um trabalho digno, com perspectivas de carreira", "não à cunha", ou "quero um país onde o trabalho se valoriza pela competência e a seriedade", ou ainda "quero um país onde o trabalho seja justo". Nada disso. Todos querem o quê? Um trabalho das 9 às 5, bem pago, com todas as regalias e o mínimo da responsabilidade. Bem sei que esta minha opinião é controversa, mas são estas as mensagens que vejo nas manifestações. Todos estão lá, até ao dia em que têm o seu lugar ao Sol.
Senão vejamos as greves. No início uma greve nos transportes significava que os utentes não tinham de pagar o transporte. O serviço continuava a existir, ninguém era prejudicado à excepção do patrão. A greve dos médicos nos hospitais era feita pela acção de não picar o ponto. As greves dos professores não se pautavam pela ausência de aulas para os alunos. Hoje toda a responsabilidade laboral, e em particular aquela que diz respeito aos que usufruem dos serviços, ficou esquecida durante a evolução do Portugal democrático. As greves nos transportes já nem serviços mínimos têm. Os professores esquecem os seus alunos e vão marchar para a Avenida da Liberdade. Os médicos abandonam os hospitais, chegando ao cúmulo de aderir a greves e em vez de marchar irem antes para os seus consultórios privados. A responsabilidade social foi arrancada do pensamento contemporâneo.
Toda a estrutura actual do sector profissional está deturpada. Torcemos as regras para o ponto de vista individual. Uma sociedade centrada no individualismo, como qualquer pessoa é capaz de dizer numa conversa de café, tem consequências que ficam quase sempre esquecidas nesses debates de ocasião. É esta estrutura cultural que faz com que a função do advogado seja ganhar casos e defender a verdade. A função de um investigador é produzir artigos científicos e não desenvolver a melhor ciência. O papel do político é garantir que os seu partido tenha um excelente resultado e não que faça algo de útil pelo país. Em todas as profissões criou-se um campeonato que valoriza a produção quantitativa individual e não a produção qualitativa individual e/ou colectiva. Nos médicos estamos a assistir ao fim do juramento de Hipócrates. E a melhor demonstração disso mesmo é o facto de eles serem os menos ouvidos quando se protesta com as filas de espera nos hospitais ou na cirurgia. "Considerarei a saúde do meu doente como a minha primeira preocupação" pode ler-se na Fórmula de Genebra de 1948. "A vida que professar será para benefício dos doentes e para o meu próprio bem, nunca para prejuízo deles ou com malévolos propósitos", lê-se no juramento original de Hipócrates. Onde são cumpridas hoje estas máximas?
A cultura do século XIX é a adequada para o retrocesso, para regressarmos a uma sociedade sem direitos. E a culpa é de todos nós.

segunda-feira, maio 28, 2012

Conspirações de uma espécie conflituosa



A criação de objectos de dominância é tão antiga quanto o próprio Homem. As lanças e os martelos de pedra foram tão rapidamente usados na caça como nas lutas com grupos competidores. Com o domínio da agricultura o território passou a ser um bem precioso e toda a tecnologia que era desenvolvida para melhorar a qualidade de vida, era também usada na guerra pela conquista de novas terras. A roda foi aplicada quase tão rapidamente a utensílios de transporte como a máquinas de guerra. Os metais foram mais usados em armaduras e espadas que em taças ou arados. Sempre houve mais cavalaria que burros e bois para o trabalho do campo. Nós não diferimos em nada aos restantes seres vivos que connosco partilham o planeta. As técnicas de caça são usadas nas lutas. O desenvolvimento de estruturas exclusivamente usadas na guerra é frequente em herbívoros. Mas de algum modo nós conseguimos levar este instinto primário um grau acima dos demais.
A sociedade humana é provavelmente a mais complexa actualmente na Terra. O desenvolvimento das tecnologias de comunicação permite que 7 mil milhões de pessoas vivam num mundo global. Este é o primeiro aspecto eleva a fasquia na espécie humana. A tecnologia que somos capazes de desenvolver é o segundo. Afinal nós vamos mais longe que os chifres de um alce, ou que o veneno de uma cobra taipan. Nós desenvolvemos chifres que são projectados a milhares de quilómetros e aniquilam milhares de adversários de uma só vez. Criámos armas biológicas e químicas que em vez de infectarem apenas um inimigo infectam milhões. E por fim, aquilo que realmente nos coloca noutro nível, é a nossa capacidade de gerar eventos de dominância. Nós não nos limitamos a esperar que algo aconteça, a aguardar que os nossos adversários se aproximem ou a investir instintivamente contra os nossos inimigos. Nós criamos situações para justificar as acções. É como um leão ir roubar fezes ao território do grupo vizinho e colocar dentro do seu território, para assim justificar um ajuste de contas que lhe permita conquistar mais terreno. Ou mais complexo ainda, como se um lobo subornasse um indivíduo do clã rival com um pedaço de carne, para que este realizasse marcação de território dentro dos limites territoriais do corruptor, permitindo assim a invasão do território vizinho pelo clã, prometendo não ferir o indivíduo corrompido. São estas acções que trazem perversidade ao nosso mundo.
Com a tecnologia actual e este instinto primário tão activo, a espécie humana entra numa era com um potencial tenebroso. E a verdade é que a nossa sociedade não é mais do que o reflexo colectivo dos seus indivíduos. Enquanto entidade única, cada um nós parece mais predisposto a alcançar os seus potenciais mais negativos. É mais fácil render-se à preguiça que vencê-la. É mais fácil reagir instintivamente com violência que controlar-se. É mais fácil ser-se egoísta que ter em conta os que nos rodeiam. Será mais fácil realizar o potencial aterrador que contrariá-lo?
     Os primeiros sinais mostram-nos incapazes de contrariar este instinto primário. Quando os físicos alemães Otto Hahn e Lise Meitner descobriram como provocar artificialmente a fissão do urânio, rapidamente o mundo viu, graças à relatividade de Einstein, como criar um objecto bélico com uma capacidade nunca antes vista. Antes sequer de olharmos e investirmos na ideia da energia a partir da fissão atómica, o Homem mergulhou na descoberta e domínio da bomba atómica.
Na guerra do Vietnam, o exército norte-americano esforçou-se por transformar produtos agrícolas em armas químicas, criando assim o Agente Laranja. Antes, na 1ª Guerra Mundial, já o gás mostarda tinha sido desenvolvido e aplicado sobre os soldados inimigos. Mas a guerra química e biológica não é exclusiva dos tempos modernos. Na antiguidade era frequente cadáveres serem usados para contaminar as águas de uma cidade cercada, ou corpos de indivíduos falecidos com doenças como varíola ou peste bubónica serem atirados para dentro de cidades sitiadas.
A ideia de que o desenvolvimento de tecnologia acaba, invariavelmente e intencionalmente no uso militar pode passar subjacente ao texto. No entanto é a investigação primariamente militar que passou a ser dominante nas sociedades humanas. Hoje, mais que nunca, é o sector militar que dita a evolução tecnológica não militar. Começámos pela bomba atómica para chegarmos aos reactores energéticos. Começámos pela bomba de fusão para chegarmos hoje ao projecto piloto dedicado à energia de fusão. Investimos primeiro em aviões de caça para termos hoje aviões comerciais. Desenvolvemos as comunicações e as telecomunicações para melhorar as performances de guerra, aplicando-as depois ao quotidiano dos civis. Em tecnologia, é o sector militar que dita o rumo.
Por fim, os últimos cem anos foram marcados pela geração de eventos de dominância. As 3 regras de Aquinas marcam a cultura ocidental, levando deste modo à exigência de uma justificação para a declaração de guerra. É esta razão cultural, e actualmente parte integrante da legislação internacional, que nos leva à criação de eventos que justifiquem as acções subsequentes. É de tal modo importante e frequente na História que existe um termo que define estas operações, False Flag. Segue uma lista de exemplos destas operações:
1.       1898 - Guerra Hispano-Americana: com o objectivo de controlar as Caraíbas, os EUA afundaram o seu próprio navio USS Maine que se encontrava ancorado junto a Cuba, culpando os espanhóis do acto, tal como assumiram publicamente em 1980, apesar de terem mantido a versão de que a explosão do navio foi um acidente (266 tripulantes morreram). A verdade é que previamente ao acidente o exército e marinha americanos estavam já totalmente preparados para a guerra.
2.       1915 - 1ª Guerra Mundial: o naufrágio do navio britânico de passageiros e carga Lusitania por um submarino alemão precipitou os EUA para a guerra. A administração americana tinha feito chegar aos serviços alemães a informação de que o transatlântico transportava uma carga especial de armas para a Inglaterra. Morreram cerca de 1200 pessoas, entre elas 100 americanos.
3.       1931 - Invasão da Manchúria: para justificar a invasão desta zona da China, elementos do exército japonês geraram uma explosão numa linha férrea do Japão, conhecido como incidente de Mukden.
4.       1939 - 2ª Guerra Mundial: uma série de incidentes foram criados pela Alemanha para gerar a imagem de agressão polaca ao estado germânico, e assim justificar a invasão da Polónia do dia 1 de setembro. Ao todo foram 21 False Flags criados pela Operação Himmler na fronteira polaco-alemã. O incidente mais conhecido é o de Gleiwitz, orquestrando um ataque a uma antena de rádio alemã.
5.       1941 - 2ª Guerra Mundial: o ataque a Pearl Harbour foi aproveitado pela administração americana para criar uma espécie de False Flag. O governo americano teve conhecimento do ataque com tempo suficiente para preparar a defesa do porto Havaiano, mas atrasou ao máximo a chegada de informação às tropas lá destacadas, tal como foi confirmado pelo Almirante Kimble, comandante do porto. Faleceram cerca de 2500 pessoas.
6.       1941 - 2ª Guerra Mundial: para que a Hungria declarasse guerra à União Soviética, os alemães orquestraram um bombardeamento aéreo à cidade de Kassa (hoje Košice, Eslováquia) usando 3 aviões não identificados, mas que se assemelhavam aos aviões soviéticos (cerca de uma dezena de mortos).
7.       1953 - Petróleo: os False Flags não são sempre direccionados para a guerra. Na chamada Operação Ajax (que está disponível nos arquivos da CIA, tendo deixado de ser considerada informação secreta), os serviços secretos americanos e britânicos usaram a propaganda, intriga política e acordos com a tribo Qashqai para depor o  recém eleito líder iraniano Mohammad Masaddegh, e deste modo conseguir substituir a Anglo-Persian Oil Company por 5 petrolíferas norte americanas, pois o petróleo tinha sido nacionalizado pelo novo governo.
8.       1964 - Guerra do Vietnam: o incidente do Golfo de Tonkin foi o gatilho usado para declarar guerra ao Vietnam do Norte. A acusação de que barcos norte vietnamitas tinham lançado torpedos contra o destroyer americano Maddox permitiu ao então Secretário da Defesa estadunidense McNamara declarar guerra. Muitos anos mais tarde, o mesmo McNamara assumiu publicamente que esse incidente nunca tinha ocorrido. Mais de 3 milhões de pessoas morreram nesse conflito. Dezenas de milhões sofreram e sofrem ainda hoje as consequências de tácticas de guerra usadas no Vietnam.
9.       1990 - 1ª Guerra do Golfo: a invasão do Iraque pelos EUA no despertar da última década do século XX envolveu False Flags mais complexas do que as até então usadas. Iniciou-se com a passagem de informação dos EUA a Saddam Hussein de que não se opunham à sua invasão do Kuwait. O Iraque invadiu o Kuwait, e Dick Cheney, o então Secretário da Defesa, enviou imagens de satélite à administração saudita mostrando fileiras militares iraquianas junto à sua fronteira. A Arábia Saudita deu luz verde para que os EUA instalassem no Golfo Pérsico as suas bases militares. Começou aqui a nova fase da campanha. O mundo é mais global que nunca, exigindo a aceitação da guerra por mais do que os cidadãos dos países envolvidos nela, por isso uma campanha global dos media anti Saddam é imperativa. Primeiro a acusação de que o governo liderado por Saddam tinha usado gás contra o seu próprio povo (sem referir que o gás havia sido adquirido aos próprios americanos). Mas o momento de choque ocorre quando uma enfermeira kuwaitiana dá uma conferência de imprensa aterrorizante, chorando e falando sobre os horrores praticados pelos soldados iraquianos nos hospitais. 10 anos mais tarde alguns jornalistas encontraram imagens de satélite russo da altura pré-guerra. As imagens que mostravam os tanques iraquianos dentro do Kuwait, não mostravam qualquer movimentação militar junto à fronteira saudita. Ao mesmo tempo, a enfermeira que havia chocado o mundo voltava a chocar. Era afinal a filha do embaixador do Kuwait em Washington e a sua história era uma farsa, tendo sido treinada por uma das mais importantes agências de publicidade americanas, a Hill & Knowlton. Entretanto os EUA tinham já eliminado o exército iraquiano e implementado bases militares permanentes na Arábia Saudita. Mais de 100 mil mortos militares.

Os False Flags não são usados apenas do ponto de vista bélico. São também usados como mecanismos políticos, empresariais e até ideológicos. Destruição de património deixando evidências que geram suspeita numa firma rival, ou passar a imagem de que se é algo que não se é na realidade (por exemplo, empresas de telemarketing que se fazem passar por empresas de market research) é um comportamento de False Flag no seio empresarial. Do mesmo modo, o astroturfing, que designa ações políticas ou publicitárias que tentam criar a impressão de que são movimentos espontâneos e populares, é usado tanto por empresas como por políticos. Podemos encontrar um exemplo desta acção na operadora Oi, que passou a oferecer telemóveis desbloqueados, lançando ao mesmo tempo a campanha Bloqueio Não, transparecendo a ideia de que se tratava de um movimento popular, procurando deste modo iniciar um movimento anti telemóveis bloqueados e com isso cativar mais clientes. No lado político vemos o uso de campanhas com o "apoio público" orquestradas pela Comissão de Reeleição de Nixon em 1972, ou as "cartas de trabalhadores" usadas na União Soviética para justificar decisões políticas. Em agosto de 2009 a firma Bonner & Associates reconheceu ter enviado cartas falsas em oposição ao projecto lei American Clean Energy and Security Act, procurando mostrar que a opinião pública estava em contra do projecto.
Hoje vivemos num mundo onde a ilusão importa mais que a realidade. Por essa razão estas operações abrangem a quase totalidade da sociedade. Nós fazemo-lo frequentemente no nosso dia a dia nas relações com os que nos rodeiam. Da família aos colegas de trabalho, todos estamos constantemente a tentar criar ilusões que afastem a procura da verdade. Mas é comum a banalização de um comportamento ter o efeito inverso. Muitas vezes, o facto de ser repetitivo torna-o mais exposto, mais susceptível de ser notado. E acima de tudo, torna-o desleixado. A leviandade com que hoje se leva a criação de ilusão é quase asfixiante. Se reparamos nos exemplos acima de False Flags, embora tenham a vindo a tornar-se mais complexos, tornaram-se também mais falíveis.
Os atentados de 7 de julho de 2005 em Londres, onde morreram 56 pessoas e cerca de 700 outras ficaram feridas, ocorreram ao mesmo tempo que uma empresa privada, a Visor Consultants, simulava um atentado com explosivos no metro da capital, tal como afirmou Peter Fowler, responsável pela simulação. Um ano antes a BBC tinha emitido um documentário onde ocorriam uma sequência de atentados em Londres particamente iguais aos que ocorreram um ano depois (a excepção é o autocarro, que é de químicos e não de passageiros). Mas estas coincidências não se limitam ao 7 de julho de 2005. Os famosos atentados de 11 de setembro, envoltos em dezenas de teorias de conspiração, claramente alimentadas por vários pontos mal esclarecidos pelas fontes oficiais, aconteceram também ao mesmo tempo que se simulavam atentados em solo americano. Um dos atentados previstos na simulação era precisamente um avião comercial a embater num edifício.
Ultimamente tem sido muito debatida a questão de se já está desenvolvida ou não uma arma capaz de produzir sismos. Que teoricamente é possível produzi-los não é segredo para ninguém. Desde que o Professor Duncan Agnew da Universidade da Califórnia o demonstrou, acidentalmente, em 1987, que esta linha de investigação passou a ser mais objectiva dentro do sector militar. Os recentes eventos sísmicos têm suscitado o emergir das vozes que afirmam que a tecnologia já existe hoje, de tal modo que foram pedidas explicações nesse sentido no parlamento japonês. Supostamente o HAARP, um programa de ondas de alta frequência da Universidade do Alasca e da Marinha e Força Aérea Norte Americana, tem a capacidade de o fazer. Emite ondas até 3,6 milhões de Watts, mais que suficiente para provocar um sismo se direccionadas para uma zona de falhas tectónicas. O Professor Michel Chossudovsky da Universidade de Ottawa explica como o HAARP pode ser usado não só para o desencadear de sismos mas também de alterações climáticas. Já Nicholas Begich, ex-presidente da Federação de Professores do Alasca, investigador independente e activista político descreve o HAARP como uma tecnologia super poderosa de feixe de ondas rádio que provoca elevações da ionosfera, focando um feixe e aquecendo essas áreas. As ondas electromagnéticas são depois reflectidas para a Terra e penetram em todas as superfícies.
Seja verdade ou não que esta tecnologia não só existe como está operacional, não deixa de ser notória mais uma coincidência entre simulações e acontecimentos. Estava anunciado e previsto um simulacro de sismo no dia 20 de março de 2012 pela protecção civil de Chiapas, México. Pode ler-se no cartaz que era uma simulação de um sismo de 7.9 na escala de Richter. No mesmo dia, apenas 3 minutos após a hora marcada para o simulacro, deu-se um sismo de magnitude 7.4 a 7.8 no estado de Guerrero, cujo epicentro ficou a pouco mais de 100km da região de Chiapas.
Infelizmente, ao mesmo tempo que o desleixe se apodera dos comportamentos ilusórios, outra reacção se apodera da sociedade, fruto não só da própria essência humana, mas também de anos de dessensibilização. O facto de serem mais públicos os comportamentos arrepiantes das nossas sociedades não os torna mais condenáveis. Vejamos por exemplo as declarações de Luís Amado quando era ministro do negócios estrangeiros, relativamente às revoltas no Egipto, Líbia e afins. Ele diz, e cito, "seria absolutamente ridículo do meu ponto de vista pretender desenvolver uma relação na base de uma avaliação das condições democráticas de cada país. Se fosse assim nós não tínhamos relações com muitos países com os quais nós temos relações há décadas.". Não é nada que o mundo não saiba. Mas agora é afirmado publicamente. Há apenas umas décadas atrás, poucas, isto seria impensável. Não houve um jornalista na sala que se insurgisse, ou pelo menos questionasse, esta declaração.
Os recentes casos de Berlusconi e as suas festas com meninas menores de idade, os constantes escândalos associados a governos americanos no que respeita a violação de leis internacionais, particularmente no que respeita a cenários de guerra, ou ainda o facto de comprarmos, com total satisfação, produtos que sabemos serem produzidos por trabalhadores em condições deploráveis, menores ou maiores de idade, são apenas mais demonstrações de como é quase indiferente existir ou não uma política de controlo sobre a ilusão. O que a internet mostrou ao mundo nos seus primeiros 15 anos de vida activa é que estamos na realidade longe de saber o que fazer com a informação. Estamos, acima de tudo, longe de saber viver em comunidade.
No meio do livro de Albert Einstein intitulado "Como vejo o mundo", vem uma passagem que define na perfeição as regras do jogo que criámos para o nosso mundo: Já que as nações não se resolvem a suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacífica e não baseiam o seu direito sobre a lei, elas vêem-se inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra.
  

terça-feira, maio 01, 2012

Mais um caso de vergonha europeia


Iulia Timochenko, antiga primeira ministra da Ucrânia foi presa em Agosto de 2011 por desrespeito ao tribunal. Em Outubro do mesmo ano o julgamento termina, com uma sentença de 7 anos de prisão por abuso de poder e 188 milhões de dólares de indeminização ao estado ucraniano. Faz ainda parte do acórdão do tribunal o impedimento de qualquer nova candidatura a cargos públicos, bem como a imediata suspensão do mandato de deputada. O sistema judicial ucraniano julgou e decidiu como provado que Iulia Timochenko teria forçado a Naftogaz (empresa estatal de gás e petróleo da Ucrânia) a assinar um acordo de importação de gás natural com a Rússia que não servia os interesses da Ucrânia.
Hoje, em Maio de 2012, mais vozes políticas europeias se juntam no protesto contra aquilo que é uma decisão dos tribunais de um estado soberano. Ameaças de boicote ao Euro 2012 por parte da Comissão Europeia vieram hoje alinhar-se com Viviane Reding, comissária da UE para a justiça que recusou o convite da UEFA para estar presente na cerimónia de abertura, e com Joachim Gauck, presidente alemão que cancelou a sua participação num encontro de chefes de estado na Ucrânia. O governo alemão já fez chegar ao seu homólogo ucraniano que  Angela Merkel só estará na Ucrânia durante o Euro se algo mudar relativamente à situação da ex-primeira ministra. Os chefes de estado da República Checa (Václav Klaus), Eslovénia (Danilo Türk), Áustria (Heinz Fischer) e Itália (Giorgio Napolitano) também já informaram que não marcarão presença na Ucrânia durante o Europeu de Futebol, tal como confirmou o governo daquele país organizador.
A questão é que isto ultrapassa o respeito pela soberania de um estado e do seu sistema judicial, ultrapassa a vergonha que deveria consumir os políticos contemporâneos, excede a incoerência que grassa pela classe política europeia. Ou será que durante o regime de Khadafi os líderes europeus se recusaram a ir à Argélia? Ou talvez se neguem a ir à China? Ou a Angola, ou à Rússia, ou aos EUA onde existem prisões de guerra sistematicamente associadas a violação dos direitos humanos? Ou talvez rejeitem deslocações à Arábia Saudita? A lista de países onde existem, visíveis e públicas, violações dos direitos humanos no sistema judicial, poderia continuar por várias linhas. Mas é na Ucrânia que se centram as atenções. Porquê? Será uma injustiça o que se passa com Timochenko? Ou será um atentado à impunidade de que gozam os políticos europeus? Talvez seja um castigo aplicado a alguém que jogava o mesmo jogo da UE, e que o acordo assinado tenha sido benéfico não só para a Rússia mas também para outras entidades pertencentes à UE. O que é certo é que Iulia apelou para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, onde o seu caso foi considerado de prioridade máxima.
O parlamento ucraniano teve ainda de votar por duas vezes uma proposta de alteração à lei de corrupção que descriminalizava o abuso de poder, podendo assim beneficiar a ex-primeira ministra condenada. Mas em ambas as votações (15 de Novembro 2011 e 8 de Fevereiro 2012) a proposta foi chumbada.
Não se discute aqui se existe alguma perseguição política a Iula Timochenko, ou se os tribunais da Ucrânia são independentes do estado ou não. Aqui apenas se reflecte sobre a incoerência, falta de civismo, ausência de visão humanitária dos chefes de estado europeus (neste caso). Os últimos 20 anos têm sido marcados pelo declínio do discurso político. O comportamento tem sido o mesmo, mas a total desresponsabilização social que acompanhou a evolução das sociedades europeias nos últimos 30 anos levou a que, hoje em dia, já não exista sequer a preocupação em esconder as promiscuidades e as desigualdades nas relações. Embora pareça à partida um mundo tenebroso, pode bem ser a causa do seu colapso. Enquanto tudo esteve escondido os olhos seguiram atrás das cortinas. Hoje é cada vez mais difícil ignorar a corrupção política e o seu impacto no nosso mundo.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

A fé por toda a parte

Uma carta de Adam Smith aos capitalistas (por David Rubenstein):

"Capitalistas de todo o Mundo. O que é feito do meu querido capitalismo? O desemprego cresce, os protestos sobem de tom, os défices agigantam-se e as virtudes do capitalismo são postas em causa.
Gostaria de partilhar convosco ideias frescas, baseadas em mais de um século de observação, sobre como sustentar este sistema por mais cem anos ou, pelo menos, fazer com que 2012 seja um ano melhor do que 2011.
O capitalismo sempre teve dois defeitos. Por um lado, é forçoso que a exuberância em torno da criação de riqueza gere crescimento insustentável e colapsos inevitáveis. Por outro, a desigualdade daí resultante, em virtude dos menos hábeis ficarem para trás (na maior parte dos casos por razões que lhes são alheias), incapazes de se adaptar ou competir com os países dominantes.
Não existe uma cura simples para estes dois defeitos, mas eis o que eu faria em 2012:
1. Salvar o euro e a União Europeia, a maior união económica do mundo, é essencial para a prosperidade global. Os países grandes que usam o euro devem ser generosos para salvar a moeda única. Se não o fizerem, o sofrimento e os custos serão substancialmente maiores no futuro. Os países mais pequenos e modestos são os que mais irão sofrer se o euro acabar.
2. Resolver o problema da dívida e do défice dos EUA. Para meu grande espanto, a ausência de acordo no seio do "super comité" não assustou os mercados, indiferentes a um défice de 1,4 biliões de dólares e a uma dívida acumulada superior a 16 biliões de dólares. Atenção, algures em 2012 os mercados vão despertar e dizer: Não! Não podemos esperar que as presidenciais resolvam o problema". A administração Obama e o Congresso têm de apresentar rapidamente um pacote de redução da dívida para que não aconteça o mesmo que na Europa.
3. Integrar os mercados emergentes. O mundo tem de reconhecer que o centro do capitalismo se deslocou para as economias emergentes, as quais vão gerar a maior parte do crescimento em 2012. É preciso que países como a China, Índia e Brasil, entre outros emergentes, sejam plenamente integrados no processo de decisão económico global. Se assim não for, o capital necessário para resolver muitos dos actuais problemas dos mercados desenvolvidos, especialmente questões residuais da grande recessão, não será disponibilizado em termos aceitáveis. Os mais afectados serão de novo os pobres, e não os ricos.
4. Educar. Educar. Educar. A principal causa da desigualdade de rendimento é, talvez, o estado deplorável em que se encontra o ensino primário e secundário. Para debelar o problema é fundamental implementar reformas, garantir financiamento e afectar recursos de forma mais eficaz e eficiente. É preciso educar as crianças, reduzir a taxa de abandono escolar e proporcionar formação aos adultos para preparar os trabalhadores para as novas realidades tecnológicas.
A minha fé no capitalismo mantém-se inabalável. Os grandes problemas que enfrentam têm de ser resolvidos agora. Só assim as nações e os seus povos poderão prosperar, legitimando o capitalismo para que este também possa crescer."

Fico sempre curioso quando oiço alguém falar em "fé inabalável no capitalismo", mas hoje estas afirmações surpreendem-me mais que nunca. Se na teoria o capitalismo já se expõe perfeitamente à previsão fácil das desigualdades sociais (pois não pode existir de outra forma), o contexto global actual está a mostrar, melhor que nunca, como isso é mais do que simples falhas teóricas, é realidade. E no entanto existem ainda os que falam de fé neste sistema. É sempre engraçado ver que o comunismo (que não apresentava estes problemas na teoria) foi condenado por muito menos do que o capitalismo, que gera desigualdades extremas há mais de 100 anos. Sem desigualdade, sem alimentadores para os grandes consumidores, o capitalismo não funciona. A fé de que fala David Rubenstein em nome de Adam Smith é em tudo idêntica à fé religiosa fundamentalista, tida por aqueles que acreditam na instituição religiosa, negando as acções nefastas que possa ter cometido, negando os seus defeitos, objectivando tudo como prova de deus. Ter fé num sistema que se constrói deste modo a partir da sua génese teórica, parece-me mais do que uma fé semelhante à religiosa, um profundo estado de crença no eu, no individualismo, a rejeição do conceito de vida em comunidade. Mas não é por mero acidente que no capitalismo floresce a caridade e se condena a solidariedade. De outro modo seria impossível implementar um sistema que é acima de tudo injusto. Esta carta não é mais do que um novo testamento, em nada diferente do velho, destinado apenas a tentar manter o que se teme perder.
Não posso esquecer ainda este início da carta: "O que é feito do meu querido capitalismo? O desemprego cresce, os protestos sobem de tom, os défices agigantam-se e as virtudes do capitalismo são postas em causa." Não se vê logo que isto vem de uma pessoa insensível e cega (ou mesmo com total desrespeito pela vida) ao que se passa no mundo? O desemprego cresce...na Europa e nos EUA. Em África e na América Central e do Sul floresceu durante décadas, como forma de sustentar o crescimento capitalista europeu e americano. Os défices agigantam-se...novamente no velho continente e no mundo novo. Mas isso é normal, faz parte do sistema perverso montado, onde pode, imagine-se, produzir dinheiro a partir de dinheiro (nunca em toda a minha vida me deparei com algo tão cretino quanto isto). As virtudes do capitalismo são postas em causa...só para quem andou distraído, ou ausente e desprovido de visão global, histórica e humana, é que apenas e só agora estas "virtudes" são postas em causa. As poucas virtudes que acompanham o sistema do capital estão postas em causa, pelo menos para todos os que têm visão de vida, de justiça e de igualdade, desde o momento em que este sistema começou a proliferar.